• Nenhum resultado encontrado

Esqueça a transição

No documento Braulio da Silva Machado (páginas 74-80)

3 PRIMEIRO JOGO DA FINAL DA LNF 2019: PATO FUTSAL X MAGNUS FUTSAL

3.2 PRIMEIRO TEMPO (1º JOGO)

3.2.1 Esqueça a transição

Logo no início do primeiro tempo, com pouco mais de 01 (um) minuto de bola rolando, o comentarista Marcelo Rodrigues sugeriu que a equipe do Pato Futsal

75

esquecesse aquilo que foi apresentado no período pré-jogo da transmissão, como uma das características que marcaram as atuações da equipe em sua trajetória até a final.

Marcelo Rodrigues: É, o Leozinho tá muito solto no jogo, a marcação nele tem que encaixar um pouquinho mais, o Pato tá um pouco perdido nessa marcação individual, o Leandro Lino também tá usando muito bem a sua velocidade, tá solto no jogo, e o Pato precisa ter uma marcação um pouco melhor, e tem que responder com Chimba, né, que tem a mesma característica do outro lado. Tem que ter um pouquinho mais da posse de bola, esquecer da transição, que é o que vem fazendo, tentando fazer.

O conteúdo da apreciação formulada revela diferentes contradições entre a realidade concreta do jogo e os elementos destacados por Marcelo Rodrigues. Em primeiro lugar, o comentarista aponta a liberdade encontrada pelos jogadores Leozinho e Leandro Lino, do Magnus Futsal, como motivo para que o Pato Futsal ajuste seu sistema defensivo, especificamente a marcação individual.

Entretanto, sugere que a equipe do Pato Futsal utilize, como resposta, o jogador Chimba, pelo fato de considerar que o atleta possui as mesmas qualidades de Leandro Lino, atleta já reconhecido por suas características ofensivas, e de Leozinho, apresentado durante o período pré-jogo da transmissão como revelação do campeonato e destaque da equipe do Magnus Futsal na construção de seu jogo de ataque.

A primeira contradição, portanto, se encontra na relação entre o apontamento do problema e a sugestão para sua resolução. Se existe a necessidade de ajuste da marcação individual, para que a equipe do Pato Futsal equilibre suas ações na quadra de jogo, a utilização de um jogador de características semelhantes aos adversários causadores dos desequilíbrios defensivos não resolve diretamente a demanda.

Ainda que seja possível argumentar que o jogador Chimba, possuidor das mesmas características ofensivas que seus adversários citados, pudesse incrementar a capacidade da equipe do Pato Futsal em manter a posse de bola, como Marcelo Rodrigues defende, a situação descrita na apreciação exige que a posse de bola seja retomada, segundo o próprio comentarista, através de ajustes do sistema defensivo.

Obviamente, a complexidade do jogo de Futsal exige, como já discutido nas obras de Mutti (2003), Voser (2003), Saad e Frazzon (2001) e Andrade Jr. (1999), que os jogadores sejam capazes de atuar com boa desenvoltura em situações de jogo distintas (ataque e defesa), o que pode ser o caso do jogador Chimba. No entanto, o

76

argumento apresentado para sustentar sua utilização, como resposta à atuação da equipe do Magnus Futsal, é relacionado, de forma equivalente, às características ofensivas dos adversários mencionados.

A leitura da transcrição desta apreciação exige, por outro lado, a contextualização do comentário jornalístico. A afirmação de que seria necessário “(...) responder com Chimba (...)” configura, na realidade, um adendo à observação geral a respeito da organização defensiva da equipe do Pato Futsal. Assim, além do encaixe da marcação individual, seria preciso, na opinião do comentarista, oferecer uma resposta equivalente, do ponto de vista ofensivo.

O complemento desta afirmação, porém, revela uma segunda incoerência em relação ao conteúdo central da apreciação. Marcelo Rodrigues defende que a equipe do Pato Futsal esqueça a transição que aparentemente tentava implementar como comportamento tático prevalente àquela altura da partida. O comentário que inicialmente parecia gratuito revela, na verdade, uma tentativa de desconstrução de um dos componentes anunciados, desde o início da transmissão do evento, como característicos do comportamento tático da equipe do Pato Futsal.

Esta é uma discussão central para o estudo por diferentes motivos. O problema relativo à incoerência dos argumentos utilizados para a formulação das apreciações, bem como a dificuldade de estabelecimento das relações entre diferentes conteúdos esportivos, como já discutido no capítulo anterior, pode ofuscar o entendimento do público de quais noções de jogo compõem o comentário.

Ainda que a disponibilidade de tempo e a fragmentação dos comentários, apontados por Schmitz Filho (1999) como características produtivas do jornalismo esportivo que impedem o aprofundamento de discussões acerca da compreensão de jogo durante as transmissões, possam justificar a fragilidade do argumento, o fato da apreciação ter sido apresentada com pouco mais de 1 (um) minuto de bola rolando só pode ser sustentada por lógicas de produção do sistema midiático que nem sempre se manifestam de forma transparente.

Discutiu-se ao longo das descrições e análises do período pré-jogo do evento uma série de movimentos da equipe de transmissão, caracterizados pelas definições de Soethe (2003) para o agendamento de notícias, e de Verón (1980) para a produção de sentidos.

Foi o caso de um dos últimos pontos cartografados naquela etapa da investigação, quando o comentarista Marcelo Rodrigues, após ter justificado o

77

sucesso de toda a trajetória da equipe do Pato Futsal, ao longo da temporada até a etapa final da competição, por suas qualidades defensivas, optou por apontar aspectos ofensivos do jogo como caminhos para uma possível conquista do título frente à equipe do Magnus Futsal.

Neste sentido, a ideia de que conteúdos de ataque se sobrepõem aos aspectos defensivos do jogo, na definição do sucesso esportivo, integra os sentidos implícitos nos diferentes elementos da transmissão, descritos e analisados desde o período pré- jogo.

O que ocorre, neste caso, é uma precoce alteração do foco de atenção jornalístico, sustentado pela circularidade estrutural da produção midiática, que possui referência na obra de Foucault (1997), permitindo que para a resolução de um problema identificado por sua origem defensiva, seja sugerido um comportamento ofensivo previamente agendado.

De qualquer forma, ainda que mudanças contundentes, no comportamento tático de uma equipe, possam configurar potenciais alternativas para resolução de problemas de origens diversas, a sugestão prematura de alternativas que apontam neste sentido retira a possibilidade de ajuste à compreensão das estratégias de jogo de acordo com as demandas da própria partida.

Pivetti (2012) discute, inclusive, a necessidade de ajuste do comportamento tático às demandas de uma partida, no próprio ambiente de ensino e treinamento dos princípios de jogo escolhidos como norteadores das ações táticas de uma equipe para diferentes situações.

Portanto, não faz sentido, seja por qual for o motivo esportivo, a equipe do Pato Futsal “(...) esquecer da transição (...)” logo no início da partida, uma vez que este princípio de jogo já foi apontado, pela própria equipe de transmissão do evento, como justificativa para o sucesso da equipe na trajetória até a final da competição e, neste sentido, provavelmente tenha sido exaustivamente treinado ao longo deste período.

Outro ponto importante diz respeito ao fato de que o termo transição, utilizado pelo comentarista nesta e em outras apreciações, é equivalente à situação de jogo que normalmente se identifica como contra-ataque. Entretanto, a expressão é bem mais ampla do que um aspecto situacional específico da modalidade.

Aparentemente o contexto em que a apreciação é formulada, considerando o agendamento prévio estabelecido antes do início da partida, se refere à possibilidade de recuperação da posse de bola, seguida de uma saída rápida para o ataque em

78

direção à meta adversária. Mas até mesmo a velocidade aplicada a um contra-ataque não é capaz de resumir o significado de uma transição.

A utilização indiscriminada do termo prejudica seu entendimento sem a necessária contextualização da situação de jogo em que se dá sua ocorrência. A transição acontece sempre que há uma alteração de uma determinada situação de jogo entre polos que a priori são considerados distintos.

É possível imaginar, inclusive, que quanto maior a diferença conceitual entre um polo e outro, mais marcadamente se manifesta a transição. Por este motivo a alternância da posse de bola entre uma equipe e outra, normalmente representa o termo transição de forma mais clara, pelo fato de que as equipes transitam instantaneamente entre uma situação de ataque e uma situação de defesa.

Apenas a possibilidade de uma equipe estar sujeita a transições alternadas entre comportamentos de ataque e de defesa do início ao final de uma partida, fragiliza a utilização do termo sem a devida contextualização das ocorrências em quadra. A transição é um comportamento inerente a uma equipe que necessita ajustar sua defesa para possuir “(...) um pouquinho mais da posse de bola (...)”, como aponta Marcelo Rodrigues, em seu comentário.

Os argumentos apresentados, neste caso, são contraditórios e frágeis, pois apresentam a noção de que consistência defensiva, recuperação da posse de bola e sua posterior manutenção são incompatíveis com a ideia de priorizar a transição de uma situação de defesa para outra de ataque como elemento central na construção do jogo de uma equipe.

Além disso, a transição não se restringe às possibilidades de ação que emergem imediatamente após a alteração da posse de bola. É possível que durante um mesmo período de uma situação ofensiva (com a posse de bola) ou defensiva (sem a posse de bola), um determinado comportamento tático seja alterado.

A ocorrência de transição de um jogo elaborado a partir de 4 (quatro) jogadores na zona de armação, para uma postura mais direta em direção à meta adversária através de um jogo de pivô configura um exemplo bastante comum. Da mesma forma, uma defesa por zona e próxima da meta a ser protegida pode transitar para uma postura defensiva individualizada com intuito de pressionar a equipe adversária.

Até mesmo uma situação de contra-ataque pode sofrer alteração de acordo com o desenvolvimento das ações de jogo por parte dos atletas em quadra, uma vez que um contra-ataque iniciado de forma direta em busca de uma finalização rápida na

79

meta adversária, pode transitar para uma situação de manutenção da posse de bola e estruturação de uma circunstância favorável para a escolha do momento de finalização da jogada.

A discussão acerca da temática da transição, portanto, é bastante abrangente e envolve tanto comportamentos táticos coletivos, como nos exemplos mencionados, quanto individuais, uma vez que os engendramentos táticos que possibilitam as transições entre situações de jogo distintas ocorrem ao nível de tomadas de decisão de cunho particular por parte de cada jogador em quadra.

As ações executadas individualmente em contextos coletivos de jogo são chamadas por Mahlo (1997) de atos táticos, e dependem da capacidade individual de percepção e análise das situações e da resolução mental dos problemas, sendo materializadas pela sua solução motora. São os atos táticos individuais, aplicados ao funcionamento tático coletivo das equipes, que possibilitam a transição de uma situação de jogo para outra.

Mas como o ato tático ocorre em tempo real, o processo de percepção e análise das situações, solução mental e posterior solução motora do problema também se altera durante a execução das ações de jogo (experiências colaterais). Na medida em que uma decisão é tomada por um jogador, a ação praticada é capaz de influenciar a leitura da situação de todos os demais atletas em quadra, sejam eles adversários, ou mesmo os companheiros daquele que executa a ação.

Ao influenciar a leitura da situação por parte dos demais atletas, o ato tático individual provoca alterações nas ações de jogo dos adversários e companheiros, que acabam, por sua vez, determinando e alterando a leitura da situação por parte do primeiro jogador, caracterizando, segundo o autor, um processo ininterrupto de ocorrências evolutivas das três etapas que compõem o ato tático.

Travassos (2014) e Pivetti (2012) destacam a influência da tomada de decisão individual no contexto coletivo de jogo. São os atos táticos individuais que, genuinamente, possibilitam as transições em diferentes níveis e contextos no decorrer de uma partida.

A compreensão do jogo, por sua vez, surge como elemento central para a transição de comportamentos individuais capazes de alterar contextos coletivos de jogo, considerando que é a capacidade de percepção e análise das diferentes situações que permitirá a correta resolução mental e motora dos problemas e os desdobramentos correspondentes às ações em quadra.

80

Neste sentido, “(...) esquecer da transição (...)” não é possível, assim como não é possível esquecer nenhum princípio inerente ao jogo. É a complexidade dos acontecimentos dentro da partida que fazem emergir diferentes demandas que precisam ser atendidas sob pena de possibilitar ao adversário condições mais vantajosas para a execução das ações de jogo.

A única possibilidade que o jogo oferece, no nível da estratégia, é a escolha por determinados conteúdos táticos em detrimento de outros, como resposta aos problemas que aleatoriamente se apresentam. Estas escolhas marcam a identidade de uma equipe, como ofensiva, defensiva, mais ou menos equilibrada etc. Entretanto, somente a compreensão do fenômeno esportivo em sua complexa imprevisibilidade determinará o nível de jogo que pode ser atingido.

Em síntese, seja pela incoerência do argumento ou pela complexidade das ações inerentes ao jogo de Futsal, é importante compreender a impossibilidade de se incrementar a marcação individual e, ao mesmo tempo, esquecer a transição, ainda que uma eventual resposta ao jogo estabelecido pela equipe adversária se imponha pela necessidade de uma maior posse de bola em detrimento de um jogo mais direto na direção da meta adversária.

No documento Braulio da Silva Machado (páginas 74-80)