3 CAPÍTULO II – POTÊNCIAS INVENTIVAS: UM MOVIMENTO
3.4 A AÇÃO E OS MEMES
Nesse sentido, se a sociedade é uma organização da imitatividade, conforme pensa Tarde (2000), os memes compreendem a um tipo de laço social atual constituído por conexões híbridas. Essa modalidade de comunicação se sobressai por oferecer uma ótica destoante, engenhosa e criativa. Neste aspecto, é interessante citar uma ocorrência inusitada relativa aos memes no Twitter: as denominadas guerras memeais. Houve mais de uma, porém a primeira se sobressaiu pela repercussão e entusiasmo, iniciada no dia 13 de junho de 2016, com a disputa entre brasileiros e portugueses por um meme que tinha sido popular no Brasil em 2015 e que estava sendo usado “indevidamente” pela conta In Portugal WeDon’t, a qual estaria “roubando” um meme brasileiro, o in brazilian portuguese we don’t say (Figura 17).
Figura 17 – Exemplo do meme “in brazilianportuguesewedon’tsay”.
Fonte: Twitter.
Esse meme troca expressões estrangeiras por outras que sejam características do Brasil, e a conta portuguesa adaptou o meme às suas expressões. A questão é que os brasileiros se sentiram “afrontados” e acusaram os portugueses de roubarem seus memes18. Em resposta, os brasileiros declararam “guerra”, usando a hashtag #BRXPT e
18 De acordo com Pedro Zambarda (2016), o meme não é exatamente brasileiro, pois sua origem
#PrimeiraGuerraMemeal garantindo lugar no trending topic do Twitter. Por fim, a conta portuguesa foi apagada diante dos ataques brasileiros de ironias e de sátiras.
Além do Brasil ser considerado vitorioso nas disputas memeais, os memes se tornaram alvo de um grupo de estudos formado, entre outras instituições, por alunos de graduação em Estudos de Mídia/UFF; de pós-graduação em comunicação/UERJ; e professores do Departamento de Estudos Culturais e Mídia/UFF. Esse grupo trabalha no projeto #MUSEUdeMEMES, o qual se trata de um Webmuseu, que, desde 2011, coleta, monitora e organiza materiais bibliográficos relativos ao tema, sendo os alunos responsáveis por isso e pela organização dos ciclos de debates chamados #memesclubes.
A potência comunicacional da internet interconecta e estabelece raios imitativos incomensuráveis. Inserida nesse panorama, a imitação aparece não apenas pouco fiel, como também ainda mais independente das suas máquinas humanas. Por outro lado, mesmo afirmando que se referem a um fenômeno que tende a se universalizar, as diferentes formas com as quais esse objeto se apresenta podem expressar grandes distâncias de mentalidades, desejos e paixões. O caso brasileiro é emblemático. Ao que parece, “vencemos” todas as guerras memeais que sucederam, o mais importante, estamos diante de um objeto rico no quesito: deixar traços das hesitações relativas aos impulsos dos seus atos (Figura 18).
Figura 18 – Tweet referente à vitória brasileira na guerra memeal.
Fonte: Twitter.
A segunda fonte de incerteza proposta por Latour (2012) diz respeito à ação, a qual não ocorre sob o absoluto controle da consciência. Desse modo, deve ser vista como um nó, um conglomerado de muitos conjuntos de funções que só podem ser desemaranhados pouco a pouco. Por isso, a noção de ator na teoria Ator-Rede, longe de compreender a fonte de um ato, refere-se ao alvo móvel de um verdadeiro enxame de entidades (variadas). Nesse interim, a ação é tomada, de empréstimo, distribuída, sugerida, influenciada, dominada, traída, traduzida, etc. Em síntese, ao usarmos a teoria Ator-Rede, implica em admitirmos a nossa total incerteza quanto à origem da ação. Entretanto, será que não poderíamos afirmar que a
fonte dos memes escolhidos aqui para enfoque temático é justamente a votação do
impeachment na Câmara dos Deputados, afinal, “assistimos mais de 10 horas de votação do impeachment pra fazer piada”.
A escolha desse acontecimento é arbitrária. Latour (2012) aponta, como uma vantagem da definição performática, a ênfase dada tanto aos meios imprescindíveis para manter indefinidamente os grupos, quanto a colaboração, também importante, do analista. Escolhemos para estudo um ponto de partida que faz parte de uma crise política mais ampla, cujos sentidos19 produzidos nem mesmo se limitam a tal acontecimento, como é visível na Figura 19 A e na Figura 19 B.
Figura 19 – (A) Tweet que estabelece conexão entre o impeachment e o fim da dupla Sandy e Júnior. (B) Tweet que estabelece conexão entre o impeachment e o fim do grupo Rebelde.
Fonte: (A) Twitter. (B) Twitter.
Qualquer escolha de ponto de partida nos levará a um desenho social absolutamente diferente, mesmo restringindo o foco temático. Se, para os sociólogos do social, a sociedade está sempre aí (sustentada pelo veículo que lhe puder carregar), em contraposição, os sociólogos das associações (sociologia proposta por Bruno Latour) entendem que os laços sociais devem ser traçados pela circulação de diferentes veículos não intercambiáveis. Em outras palavras, o que os últimos fazem é traduzir um tipo de conexão que transporta transformações. Logo, a rede é definida como aquilo que é traçado pelas traduções nas explicações dos pesquisadores.
19 Os memes transcendem facilmente os mais variados assuntos. Consequentemente, manter-se na
temática do impeachment sem fugir demais teve que ser um cuidado constante, porque a votação na Câmara dos Deputados em si apresentou muitas memórias que se tornaram memes e abordavam outros assuntos que não estavam relacionados ao impedimento da presidente, assim como vários memes sem relação direta com essa votação foram usados para abordá-la.
A incerteza deve ser constante, já que não é uma opção afirmar que os atores talvez não saibam o que fazem e que os cientistas sociais conhecem uma força social capaz de “forçá-los” a fazer o que não querem. O cerne da questão reside na ideia de que o social ainda não está pronto, porém, como estão sempre envolvidos por outros na função de formar e dissolver grupos, os atores desvelam-se em relatos controvertidos sobre os seus atos e dos atos dos demais. Assim sendo, qualquer narrativa ou comentário, que pareça ou não trivial, fornecerá rastros das entidades envolvidas no curso de uma ação.
Como, por essa lógica, as controvérsias devem ser exploradas a fundo, o que poderia induzir atores a passar mais de 10 horas assistindo à votação só para fazer piada? Nossa dita afinidade com os memes se resume à falta de consciência política, à futilidade, à mentalidade superficial ou à capacidade de rir da própria desgraça? O espetáculo cômico-trágico incorporado pela votação na Câmara dos Deputados acerca da admissão do processo de
impeachment da Dilma Rousseff, como um acontecimento que induziu a produção memes,
sugere uma realidade que não pode mais ser levada a sério?