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4 CAPÍTULO III – PERFORMANCE DOS MEMES: A MUDANÇA E A CRIAÇÃO

4.1 COM QUANTOS MEMES SE FAZ UM IMPEACHMENT?

Em todos os sentidos, o conhecimento está ligado à estrutura da cultura, à organização social e à práxis histórica. Entretanto, não se trata de uma dimensão apenas condicionada, determinada e produzida, já que é, ao mesmo tempo, condicionante, determinante e produzido. Além disso, o indivíduo dispõe de condições biocerebrais para produzir ideias, raciocínios, linguagens e concepções. Dessa maneira, atuam como portadores/transmissores da cultura que, recursivamente, regenera a sociedade que regenera a cultura. Nesse sentido, existe realidade no mundo imaginário, mitológico ou ideológico, pois, mesmo sendo produto, é um produto recursivamente necessário à produção do seu próprio produto antropossocial (MORIN, 2011).

Para Morin (2011), a noosfera21 compreende a um mundo dotado de seres com vida própria e de realidade objetiva. Contudo, é preciso um ponto de vista estrutural para conceder a linguagem uma virtude autoestruturante. O autor explica que tudo o que é organizado, no campo das coisas do espírito, ganha essência, realidade e autonomia. Sendo assim, é preciso reconhecer, simultaneamente, a soberania e a dependência das ideias; e, reconhecer, ainda, o seu reino no sentido dado ao mundo vivo. Entretanto, a vida das ideias não deve ser tomada pelo ponto vista metafórico da expressão “vida”, trata-se da teoria da autoeco-organização22,

mas isso não implica reduzir a ideia ao vírus, nem a vida do espírito à vida núcleo proteica.

21 Edgar Morin (2011) explica que Karl Popper divide o universo humano em três: o mundo das coisas

materiais; o mundo das experiências vivas; e a noosfera ou mundo três, correspondente ao mundo formado pelas coisas dos espíritos: produtos culturais, linguagens, noções, teorias e, até mesmo, o conhecimento objetivo.

22 Em síntese, a teoria da complexidade desenvolvida por Morin (2011), afirma que o todo está na

parte e a parte está no todo. A autoeco-organização se refere ao fato dos indivíduos se organizarem ao se relacionarem com o meio em que vivem.

Para Morin (2011), há uma relação complexa, de simbiose e exploração mútua, entre os seres do espírito e os seres humanos.

Estamos imersos em um mundo de signos, símbolos, mensagens, figurações, imagens e ideias que assinalam coisas, situações, fenômenos e problemas, sendo, então, mediadores que fundamentam as relações dos homens entre si e com a sociedade, afirma Morin (2011). Os memes da internet adentram nessa lógica como fenômeno característico da cultura digital, pois constituem memórias, saberes, programas, crenças e valores, inundando a noosfera digital com entidades formadas por substância espiritual.

Um meme-ideia, bem como o do impeachment da Dilma Rousseff, funciona como uma entidade que pode ser passada de um cérebro para outro, assim como ocorreu no país. Seguindo o raciocínio de Dawkins (2007), tal ideia se torna a base do que é compartilhado, porém, nos memes da internet, as diferenças no modo como as pessoas os transmitem compreendem ao aspecto fundamental do que é ser um meme. Em outros termos, os memes descritos por Dawkins (2007) são memórias marcantes e, por isso, mimetizadas (seja imagem, frases, ideias e etc.), enquanto os memes da internet, apesar de partirem de memórias marcantes, afirmam-se por transformar, traduzir, distorcer e até modificar os sentidos, isto é, o que entra nunca determina o que sai.

Logo, visamos traduzir o transporte dessas transformações e tecer essa rede na qual o analista está incluído. O tema escolhido compreende um acontecimento significativo da história política brasileira, que escamoteia a realidade e transmuta-se em um verdadeiro espetáculo institucional. Dele propagaram-se diversos memes, uma vez que produziu muitas memórias marcantes o suficiente para abstrair e serem replicadas enquanto unidade de sentido capaz de adaptar-se a novos enredos, mesmo remetendo à sua rede original de sentidos. Um exemplo que se destaca diz respeito ao discurso e às justificativas dos votos que, usando os termos de Prandi e Carneiro (2018, p. 8), “transformaram uma atividade parlamentar em um grande show midiático”, conforme é possível notar a partir da Tabela 1, elaborada por tais autores com base na transcrição da sessão de votação.

Tabela 1 – Frequências das justificativas utilizadas pelos deputados ao votarem.

Ordem das

frequências Justificativa Indicadores

Número de deputados

%

1 Pela base eleitoral do deputado

Por minha cidade, meu estado, minha região, pelo povo de minha cidade (também cada

local com o nome declarado)

321 62,8 2 Pelo Brasil Pelo Brasil, pelo país, pela pátria 195 38,2 3 Pela família e Por minha família, por meu pai, minha mãe, 136 26,6

parentes do deputado

meu(s) irmão(s), meu(s) filho(s) e filha(s), meu(s) neto(s)

4 Pela democracia Pela democracia, pelo Estado democrático 91 17,8 5 Em nome do povo

brasileiro

Pelo povo, pelo povo brasileiro, em nome do

nosso povo, por todos os brasileiros 81 15,9 6

Pela esperança e pelas novas

gerações

Pelo futuro do país, em nome das novas

gerações 70 13,7

7

Pela legalidade, votos em Dilma,

contra o golpe

Pela legalidade, pelos milhões de votos que

elegeram a presidente, contra o golpe 67 13,1 8

Contra a corrupção e

ladroagem

Contra a corrupção e os corruptos, contra a ladroagem, os ladrões do patrimônio

nacional, contra os bandidos

66 12,9 9 Pela Constituição Pela Constituição, pela Carta Magna 65 12,7 10

Em nome do partido do

deputado

Por meu partido 53 10,4

11 Em nome de Deus Em nome de Deus, por Deus, sob a proteção

de Deus 46 9,0

12

Pela instituição da família, pela família brasileira

Pela família, pela família que o PT quis

destruir, pela família brasileira 36 7,0

12

Em nome de personagens históricos e

políticos

Em nome de Ulysses Guimarães, por Teotônio Vilela, pela memória de Marighela,

por Zumbi dos Palmares, entre outros

36 7,0

14

Pelos marginalizados

sociais

Pelos pobres, pelos movimentos sociais,

pelos desempregados 35 6,8

15

Pela ética no governo, pela

Lava Jato

Pela operação Lava Jato, pelo juiz Moro, pela ética no governo, por um governo ético, pela

república de Curitiba 34 6,7 16 Contra o mau governo da presidente

Contra as pedaladas fiscais, a política de recessão, a inflação, as falências de empresas, a crise econômica; contra a incompetência, improbidade administrativa,

o rombo nos cofres, o crime de responsabilidade fiscal, o mau governo

33 6,5

16

Pelos trabalhadores do

Brasil

Em nome dos trabalhadores, pelos

empregados 33 6,5

18 Contra Lula e contra o PT

Pelo fim do governo do PT, contra a continuação de Lula e sua corja, fora Lula,

fora PT 31 6,1 19 Pela categoria profissional do deputado

Pelos advogados, corretores de imóveis, médicos, entre outras categorias profissionais

citadas

23 4,5

19 Pela voz das ruas

Pela voz das ruas, pelos que foram à rua para protestar, pelas manifestações de rua, pelo

MBL, pelos “Revoltados Online” 23 4,5 21 Pela retomada do

desenvolvimento

Pela retomada do crescimento econômico, pelo desenvolvimento, pela retomada da

economia

22

Pelo bom governo do PT e da presidente

Pelas políticas públicas, pelo aumento efetivo de postos de trabalho, pela Minha Casa

Minha Vida, bolsa família, FIES

15 2,9

23

Pela igreja e fieis da religião do

deputado

Em nome da minha igreja (denominação específica), pelos evangélicos, pelos carismáticos, pelo povo de Israel, pelos

neopentecostais, pelos carismáticos

14 2,7

23 Pela liberdade e

justiça Pela justiça, pela liberdade 14 2,7 25 Porque não há

golpe

Com a consciência de que não está havendo

nenhum golpe, porque não há golpe 9 1,8 26

Pelos que sofreram com a

ditadura

Em nome dos que sofreram pela ditadura, os

torturados 7 1,4

Fonte: Prandi e Carneiro (2018).

Esses tipos de justificativas foram capazes de estabelecer certa conformidade, por assim dizer, de espíritos, por meio do que Tarde (2011) chamaria de sugestão-imitação. Foram cerca de 10 horas de alegações desconcertantes, às quais se tornaram os principais memes em virtude de outra característica: o fato de carregar em si uma potência chistosa, que pode ser explorada pelos caçadores digitais, conforme vemos na Figura 23.

Figura 23 – Tweet que usa a imagem do cantor e deputado Sérgio Reis (Partido Republicando Brasileiro - SP) para ironizar seu voto, relacionando-o à sua música famosa, a qual afirma

“panela velha é que faz comida boa”.

Como afirma Freud (2017), o chiste é um exemplo de presença de espírito, e as palavras são materiais plásticos; com elas, pode-se fazer tudo, mas o meio digital inclui, consideravelmente, as imagens nessa afirmação. Em sua análise acerca dos chistes, o autor aponta, como uma das técnicas chistosas, expressar um absurdo, o que, em outros termos, significa dizer que uma dessas técnicas consiste em produzir algo absurdo, estúpido, com sentido voltado para expor outra coisa estúpida e absurda. Seguindo essa lógica, o exemplo de meme apresentado na Figura 23 usa essa técnica do absurdo a fim de transmitir uma ideia e desnudar a estupidez, manifestada nos discursos de justificativas dos parlamentares. Neste caso, o modo de expressão (que veicula uma ideia) é responsável por capturar muito mais do que a ideia em si, tendo em vista que, como frisa Han (2016), os caçadores digitais não são seduzidos por elaborações profundas.

Se mudássemos o modo de expressão “pelas panelas velhas que faz comida boa, eu voto sim” por “esses discursos são absurdos e estarrecedores”, por exemplo, perderia a característica chistosa e, também, a condição de meme. Seria como conceder respeito e solenidade ao que não merece, justamente por ser absurdo. Dessa forma, o que se quer dizer de fato está implícito. Outro exemplo de técnica do chiste desenvolvida por Freud (2017) é o que foi denominado pelo autor como deslocamento, o qual desvia o curso inicial do pensamento, isto é, desloca-o. Isso pode ser exemplificado através do que está representado na Figura 24, na qual o desvio de um pensamento para outro atravessa a votação na Câmara acerca do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, retornando à Copa do Mundo de 2014.

Figura 24 – Tweet relacionado à votação na Câmara dos deputados, estabelecendo uma conexão com um personagem alvo de memes durante a Copa do Mundo de 2014.

A imagem retrata, à esquerda, o deputado Luiz Carlos Ramos (Partido Trabalhista Nacional - Rio de Janeiro) em foto tirada durante a votação na Câmara, e, à direita, retrata o conhecido “Gaúcho da copa”, o senhor Clóvis Acosta Fernandes durante um jogo da Copa do Mundo 2014, o qual se tornou torcedor símbolo da Seleção Brasileira de Futebol. O desvio no pensamento segue de um evento a outro e compreende o trabalho que se teve para criar o chiste e que, também, sustenta o meme ou memória marcante que se replica. Esse parlamentar também ganhou destaque na produção de memes em razão de seu momento de fala na votação: “pelos moradores de rua, que dormem na rua, que nascem na rua e morrem na rua, sem programa social de governo; pela Zona Oeste, Rio da Prata, Bangu, onde morei 33 anos; Campo Grande, em que moro há 31 anos; pelos vendedores, que, quando não têm uma profissão detalhada, é uma opção de mercado, voto sim”. A referida votação é atravessada por uma paixão pelo real reacionária, a qual, no sentido descrito por Zizek (2011), é o endosso do reverso da lei. O próprio evento usa a técnica de deslocamento, uma vez que apresenta um argumento geral como se fosse lógico, mas, na verdade, é ilógico, ou seja, a peculiaridade dessa votação em relação aos memes é que ela surpreendeu os memes e o não o inverso.