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A ética do discurso aplicada ao direito, à política e à economia

5. SEMIÓTICA TRANSCENDENTAL COMO PRIMA FILOSOFIA

6.3 A ética do discurso aplicada ao direito, à política e à economia

No início de nosso trabalho citávamos a preocupação de Apel frente a uma dupla problemática: por um lado, frente à ameaça ecológica e os efeitos

perversos do processo de globalização nunca uma macro-ética de responsabilidade global foi tão necessária; por outro, tal tarefa nunca foi tão complexa e mesmo sem perspectiva como na era da ciência. Buscando responder a esse duplo desafio, Apel realizou a fundamentação transcendental- semiótica da filosofia, segundo a qual todo aquele que argumenta seriamente pressupõe a priori uma comunidade ideal de comunicação, faticamente antecipada na situação real de fala. A partir do conceito de comunidade ideal de comunicação, Apel chegou juntamente com Habermas ao princípio de universalização ou princípio “U” da ética do discurso: “toda norma válida deve satisfazer a condição de que as conseqüências e efeitos colaterais que previsivelmente resultam de sua observação universal para satisfação dos interesses de cada indivíduo devem poder ser aceitas sem constrangimento por todos os afetados”289. Já nessa primeira formulação temos o problema dos

efeitos que “previsivelmente resultam” que depende dos conhecimentos disponíveis sobre a questão que é objeto da deliberação. Em termos ideais, só um conhecimento perfeito poderia responder por todos os efeitos diretos e colaterais da ação. Como tal conhecimento perfeito não existe – nem mesmo em uma comunidade ideal – Apel admite que poderão haver efeitos não previstos no momento da decisão. Segue-se daí que alguns afetados em dúvida sobre os efeitos desejados e indesejados da ação que poderiam recusar-se a decidir. Como a possibilidade da dúvida nunca poderia ser completamente eliminada, ou os participantes deliberam sem conhecimento completo ou se recusam a decidir, o que levaria a comunidade à paralisia. Além disso, como considerar o caso dos participantes que concordarem com a decisão, mas depois acabarem sendo afetados por ela de um modo não previsto? Poderão revogar a decisão? Em que casos esse recurso poderia ser considerado legítimo? Por outro lado, se revisarmos a norma o tempo todo, nunca chegaremos a deliberar sobre coisa alguma290.

289

APEL, Karl-Otto Apel. Kann der postkantische Standpunkt der Moralität noch einmal in substantielle Sittlichkeit “aufgehoben” werden? In: ______. Diskurs und Verantwortung – Das Problem des

Übergangs zur postkonventionellen Moral. Op. cit., p.122.

290

Essa é, aliás, uma crítica recorrente ao sistema parlamentar que não consegue aprovar as leis na velocidade em que a opinião pública o demanda.

Frente a tais dificuldades, Apel argumenta que a ética do discurso não é uma ética deontológica como outras éticas universais que deduzem normas, valores morais ou jurídicos a partir de princípios supostos como universalmente válidos e aplicáveis a situação histórica. Trata-se de uma ética em dois níveis em que o princípio “U” constitui a parte A e se refere à validade que se complementa com uma parte B que se refere ao a priori da facticidade historicamente condicionada. A priori segundo o qual cada argumentante pertence a uma comunidade real de comunicação que condiciona a aplicação da parte A. Dessa forma, Apel pretende escapar da crítica de Weber à ética da convicção insensível ao contexto advogando uma ética da responsabilidade capaz de responder aos conflitos de nossa época. Assim, não cabe mais falar em uma responsabilidade individual como na moral de Kant, pois não há como imputar responsabilidades individuais para problemas de ordem global, o mais apropriado é falar em co-responsabilidade. Da mesma forma, não se pode esperar que a comunidade ideal de comunicação surja como resultado da ação dos indivíduos motivados pela máxima “age como se participasse de uma comunidade ideal de comunicação”. Nesse caso, a ética do discurso se tornaria uma ética da convicção como em Kant, em que a correção da ação do indivíduo está completamente desvinculada dos efeitos da ação. Uma ética da responsabilidade deve estar atenta às conseqüências da ação e inclusive fazer uso da ação estratégica em determinadas circunstâncias em que se torna legítima a transgressão da norma.

Isso se aplica, por exemplo, à transgressão da proibição de matar ou de mentir em uma situação de legítima defesa; ou, possivelmente, também a um pai de família que passa por necessidades e não consegue solitariamente (no sentido de um desempenho moral isolado modelar), em uma situação social de corrupção generalizada, desistir de determinadas práticas, como suborno, ludíbrio de funcionário público, propina aliciante e coisas do gênero.291

Mas mesmo aqui não fica claro quando a transgressão da norma pode ser considerada como legítima e quando não é. Os casos citados por Apel são bastante óbvios e até legitimados do ponto de vista legal, de modo que não

291

APEL, Karl-Otto. Dissolução da ética do discurso?. In: MOREIRA, Luis (org.). Com Habermas

permitem a extração de um critério distintivo para as diversas situações. Em situações mais complexas em que ambos os lados estão errados ou ambos têm parte da razão, como, por exemplo, no conflito entre judeus e palestinos ou em se traficar drogas para financiar a luta armada contra um regime tirânico, como avaliar qual ação é legitima e qual não é?

Tais dificuldades estão na base da crítica de Otfried Höffe292 a ética do

discurso. Segundo Höffe, “o princípio da ética do discurso, devido ao seu postulado da formação de consenso isenta de dominação, estaria a priori sem condições de providenciar uma legitimação à validade de normas jurídicas como normas coercitivas”293. Como sociedades complexas não podem existir

sem instituições, que sempre implicam num certo grau de dominação e alienação, Apel se viu forçado a reformular mais uma vez a ética do discurso levando em consideração a crítica de Höffe da necessidade de legitimação das instituições e, conseqüentemente, ao reconhecimento tácito da impossibilidade de realização da comunidade ideal de comunicação294. Em sua reformulação,

Apel manteve a parte A como estava e subdividiu a parte B em dois subgrupos:

Parte B1: tratará da fundamentação (e, respectivamente, da legitimação) moral das prerrogativas de coerção do Estado de Direito e, nessa medida, da validade de normas jurídicas, igualmente baseadas em coerção.

Parte B2: tratará, finalmente, da mediação moral da moralidade (especificamente da ética da responsabilidade), no sentido mais estrito (da parte A), com ação estratégica no aspecto mais amplo daquilo que podemos chamar de política responsável.295

292

Cf. HÖFFE, Otfried. Justiça política – Fundamentação de uma filosofia crítica do direito e do

Estado. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

293

APEL, Karl-Otto. Dissolução da ética do discurso? In: MOREIRA, Luis (org.). Com Habermas

contra Habermas – direito, discurso e democracia. São Paulo: Landy Editora, 2004, p. 233.

294

“Da pressuposição do a priori da facticidade e, respectivamente, da historicidade pelo princípio primordial do discurso e pelo princípio moral primordial, nele contido, resulta, nesse ponto, de antemão, a necessidade de vincular a fundamentação do princípio ‘U’ da ética do discurso, a qual pode ser derivada do postulado da comunidade ideal de comunicação, à reserva, em termos de ética da responsabilidade, da

eventual impossibilidade de aplicação ao mundo real e, depois, à comunidade real de comunicação, bem

como a um princípio de complementariedade para esse caso. APEL, Karl-Otto. Dissolução da ética do discurso? Op. cit., pp. 276-277.

295

APEL, Karl-Otto. A ética do discurso diante da problemática juridical e política: as próprias diferenças de racionalidade entre moralidade, direito e política podem ser justificadas normativa e racionalmente pela ética do discurso? In: MOREIRA, Luis (org.). Com Habermas contra Habermas – direito, discurso e

A fundamentação da legitimidade das instituições de acordo com essa nova arquitetônica da ética do discurso foi desenvolvida por Apel em sua terceira tentativa de pensar com Habermas contra Habermas intitulada “Dissolução da ética do Discurso?”. Nela, Apel apresenta a necessidade de se fundamentar as instituições que possam desonerar a “exigibilidade” ou “imputabilidade” da responsabilidade dos indivíduos sobre as ações globais. Afinal, como os efeitos das ações em uma sociedade complexa não podem ser previstos em sua totalidade, tampouco há como imputar a responsabilidade diretamente a um indivíduo ou grupo de indivíduos por ações coletivas.

Apel concentra sua atenção no nível jurídico-político que teria a função de criar mecanismos para regulação da economia, já que as instituições sempre se regulam por outras instituições (ou meta-instituições). Uma meta-instituição que teria função de regular a ação de outras é o direito que assume três funções diferentes a partir do ideal da ética do discurso:

1) Da relação com a moral ideal do discurso (...) deriva a exigência relevante, em termos de legitimação, de fundar o Direito em consonância com o princípio da capacidade de consenso das normas a

serem genericamente observadas para todos os afetados, ou seja, no sentido

da idéia reguladora da identidade dos legisladores e dos destinatários do direito, o que significa também: sob a consideração do postulado moral dos Direitos Humanos universalmente válidos.

2) Da relação com o poder político – portanto, da utilização do monopólio estatal da força para fazer vigorar as normas jurídicas e impor a sua observância – deriva a exigência de limitar as obrigações jurídicas dos cidadãos, restringir a arbitrariedade quanto ao comportamento

externo e impor a sua observância, nesse sentido, de modo tão efetivo que se garanta a mais completa desoneração possível, dos cidadãos, da auto-ajuda forçada no que se refere à responsabilidade recíproca.

3) Da relação com a Economia, por fim – compreendida como forma de assegurar o provimento material dos seres humanos por meio do concurso entre os comerciantes e os prestadores de serviços no mercado – deriva a exigência de que o Direito garanta, na forma de

uma ordem que circunscreve a economia de mercado (...), a autonomia (dispor de propriedade), bem como a liberdade, de todos os

participantes do mercado, de negociar e contratar, no sentido de estrategicamente perseguirem o próprio interesse e coibirem distorções da concorrência livre.296

296

O resultado a que Apel chega à fundamentação das instituições jurídicas, políticas e econômicas é bastante modesto para enfrentar os desafios que se colocam para parte B da ética do discurso. Sua fundamentação não ultrapassa as formulações do Estado liberal do século XVIII, quando a maior parte dos direitos dos trabalhadores ainda não estava assegurada constitucionalmente. Vale dizer ainda que são os Estados democráticos das maiores economias capitalistas (o G7) que são os mais resistentes a acabarem com as barreiras protecionistas para os produtos do Terceiro Mundo ou a adotarem medidas restritivas para controlar a emissão de poluentes na atmosfera. Talvez o problema se situe em um nível de exigências que surge na facticidade da comunidade real (parte B) que entrega o papel de fundamentação da ética da responsabilidade histórica à parte A que não transcende o nível das relações formais do discurso. Apel acredita que um Estado democrático cosmopolita possa ser algo bastante próximo a uma comunidade ideal de comunicação. A questão é que tal Estado, já idealizado por Kant, talvez chegue muito tarde para poder ter alguma efetividade em um capitalismo globalizado com ampla autonomia em relação ao Estado, de modo que os “votos” em dinheiro dos acionistas nas bolsas internacionais têm muito mais reflexo sobre as decisões governamentais do que os votos dos cidadãos nas urnas. Além disso, na medida em que a ética do discurso garante a “autonomia” e a “liberdade” dos agentes do mercado “para estrategicamente perseguirem o próprio interesse” se assume como francamente capitalista sem sequer discutir que tipos de restrições são necessárias à economia de mercado, algo que mesmo economistas liberais reconhecem como necessário. Sequer Apel se posiciona, por exemplo, frente o conflito entre Direitos Humanos, democracia e livre mercado, cuja orientação para a maximização do lucro leva muitas vezes a retrocessos e déficits nos dois outros campos297.

297

Basta citar a complacência atual das grandes potências internacionais frente ao desrespeito aos direitos humanos e ao meio ambiente na China, assim como o seu papel no rebaixamento do valor da força de trabalho e na perda dos direitos trabalhistas conquistados por trabalhadores do mundo inteiro durante séculos de lutas, devido a força da “livre concorrência” com os produtores chineses.

Mais uma vez o problema da factibilidade reaparece como o retorno do reprimido. Apel reconheceu, através da crítica de Höffe, que não se pode pensar uma sociedade complexa sem instituições. Instituições implicam em algum grau de dominação e o conseqüente adeus ao consenso livre de coerção da comunidade ideal de comunicação. Por outro lado, Apel não pode fundamentar as instituições a partir da parte B, pois, como definiu, faz parte da facticidade contingente, só a parte A pode fornecer fundamentos para as instituições (embora essas já os tenham). Ocorre que tais fundamentos são tão abstratos que não são capazes de fornecer um aporte crítico para as modificações necessárias que tais instituições deveriam sofrer. A única coisa que podemos depreender é que elas devem ser ampliadas para além da esfera nacional. Dessa forma, a ética do discurso perde a sua eficácia teleológica, permanecendo deontológica. Para retomá-la deveria se concentrar na dialética entre o impossível e o factível na construção de modelos realmente possíveis de se serem efetivados e não multiplicar idealizações, como uma economia ideal, uma política ideal, etc.

A tensionalidade entre teoria e prática está presente na base de várias teorias empregadas por Apel, das quais ele poderia ter se servido para pensar o problema da mediação histórica da ética do discurso. Pensando “com Apel contra Apel”, podemos citar o “circulo virtuoso” hermenêutico, que a partir do real projeta um ideal que novamente volta-se para o real que modifica o ideal, aumentando a compreensão sobre o real e a possibilidade de crítica. Nas teorias da ação temos o pragmatismo de Peirce em que a crença leva o sujeito à ação, esta se confronta com a experiência que modifica ou confirma a crença ampliando o conhecimento sobre a realidade, num processo em que “o fim do pensamento é a ação à medida que o fim da ação é outro pensamento” (CP 8.272)298. Há ainda, não mais na tradição a que Apel se filia, o conceito marxista

da práxis em que teoria e ação estão dialeticamente relacionadas em um

298

Ibri expressa a relação entre conceito e ação no pragmatismo nos seguintes termos: “ao entender-se o lado externo do conceito como a ação que ele predispõe ocorrer, esta não deve tornar-se um fim em si mesma, mas ser instância na qual o pensamento se vê como sua necessária existencialização, e, portanto, retornar à sua forma original como processo de retroanálise decorrente dessa interatividade entre os planos teórico e prático”. IBRI, Ivo Assad. Pragmatismo e Realismo: a semiótica como transgressão da linguagem. In: Cognitio – Revista de Filosofia, volume 7, n° 2, São Paulo: Educ, julho/dezembro de 2006, p. 253.

processo em que o conceito transcende a experiência do sujeito na tentativa de abarcar a totalidade, o que lhe permite agir para além do meramente dado. Ao chocar-se com a realidade, o sujeito descobre que determinadas idealizações são impossíveis, o que lhe dá o limite do possível como campo de ação o que lhe permite um novo nível de conceituação, embora tal processo tenha também sua negatividade como ilusão transcendental, o que demanda uma meta-teoria como esfera crítica de discernimento – um possível espaço para ética.

Nenhum desses modelos de mediação aparece na ética do discurso. Mesmo assim, o sujeito é convidado a agir na situação histórica concreta que “sempre incluirá um engajamento arriscado que não pode ser abrangido nem pelo saber filosófico, nem pelo saber científico” e que envolve “uma decisão ‘moral’ de fé não fundamentável”299. Uma decisão moral de fé parece estar mais

próxima de uma ética da convicção do que de uma ética da responsabilidade. Talvez porque Apel acredite não ser esta uma tarefa da filosofia, deixando – em sua divisão do trabalho intelectual – tal tarefa às ciências sociais300. Mas as

ciências sociais, por seu turno, também têm os seus modelos ideais como hipóteses de trabalho e seus critérios de objetividade e talvez não fosse razoável trocar um modelo ideal por outro sem um critério que o justificasse. Dessa forma, a ética do discurso permanece sem estabelecer uma complementaridade satisfatória entre comunidade ideal e real de comunicação ou, em outros termos, entre validade e factibilidade.

299

APEL, Karl-Otto. O a priori da comunidade de comunicação e os fundamentos da ética. In: APEL, Karl-Otto. Transformação da Filosofia 2: o a priori da comunidade de comunicação. Op. cit., p. 491

300

CONCLUSÃO

Ao examinar a fundamentação pragmático-transcendental da filosofia realizada por Karl-Otto Apel, salta aos olhos sua capacidade de síntese das diferentes correntes filosóficas e a familiaridade com que trata de cada uma delas. Tudo isso sem perder de vista a perspectiva de uma “transformação da filosofia” capaz de recolocar a questão das condições de validade e possibilidade de fundamentação do conhecimento novamente no centro do debate filosófico tal como o fizera Kant séculos antes. Também chama a atenção o esforço de Apel por integrar diferentes tradições filosóficas como a hermenêutica, a filosofia da linguagem e a pragmática, assimilando criticamente as contribuições de cada uma delas. Dessa forma, Apel não realiza uma mera apropriação de conceitos isolados, mas busca “mudar o curso”, por assim dizer, das correntes filosóficas de modo a confluírem em sua reconstrução hermenêutico-pragmática da filosofia transcendental. Isso permite a Apel a fundamentação da filosofia a partir de várias perspectivas, chegando a uma hermenêutica transcendental, ao jogo de linguagem transcendental e a semiótica transcendental da comunidade ideal de comunicação pressuposta em todo processo argumentativo.

Entre as várias formas de fundamentação, Apel elege a pragmática transcendental como tendo uma anterioridade em relação as outras por sua possibilidade de fundamentação reflexiva, ou seja, a incontornabilidade da situação de argumentação, cuja tentativa de refutação constitui uma contradição performativa que reconhece tacitamente justamente o que pretendia refutar. A fundamentação reflexiva, ou argumento elêntico, já usado por Aristóteles, ganha uma importância central na filosofia de Apel graças à dimensão pragmática da situação comunicativa. Faltava a Apel, entretanto, um elemento que lhe permitisse retirar conseqüências éticas de sua fundamentação pragmática, o que ele relata ter encontrado na obra de Ch. S. Peirce. Em Peirce. Nesse autor, Apel encontra um dos pilares de sua filosofia através da

transformação do conceito peirciano de comunidade ilimitada de investigadores em comunidade ideal de comunicação pressuposta contrafacticamente em toda situação de fala. Mas, de fato, ao compararmos o conceito de comunidade ideal de comunicação de Apel com a comunidade ilimitada de investigadores de Peirce é fácil perceber que o conceito peirciano serviu apenas como aporte heurístico para a filosofia de Apel. Isso porque em Peirce, a comunidade ilimitada de investigadores funciona como um ideal regulativo (em sentido kantiano) postulando que se levarmos a investigação até as suas últimas conseqüências e nos submetermos ao processo autocorretivo da experiência absorvido no interior da comunidade de investigadores, melhoraríamos significativamente nosso conhecimento da realidade. Isso é coerente com a perspectiva de Peirce de que todo conhecimento é um esse in futuro, ou seja, todo conhecimento deve ser capaz de prever eventos futuros e, dessa forma, orientar a ação. Apel muda a direção do conceito de Peirce para um a priori no qual a investigação joga papel normativo, através das regras de validade próprias à situação argumentativa. Ao postular o a priori da comunidade ideal de comunicação, Apel pretende juntar princípios constitutivos e regulativos em um único conceito, algo que não encontra suporte no pragmatismo de Peirce que atribui o papel regulativo às ciências normativas que orientam a ação. Além disso, a fundamentação reflexiva não pressupõe uma comunidade ideal de comunicação, mas apenas um argumentante, real ou possível, disposto a contestar a validade da argumentação. A comunidade ideal é uma projeção em termos transcendentais da comunidade real de argumentação. Tal projeção é comum tanto à ciência quanto ao pensamento utópico e pode servir como guia para se pensar o possível a partir do impossível. Em Apel, porém, a comunidade de comunicação ideal constitui a base da ética do discurso da qual deriva a obrigação de realizar a comunidade ideal na comunidade real de comunicação,