• Nenhum resultado encontrado

A alienação conservadora

No documento ss A erpente em casca (páginas 78-82)

78

A Serpente sem casca

Roberto Amaral 79 anunciado fim da disjuntiva esquerda-direita, de livre curso ente nós. É um dos discursos da “pós-modernidade”.

Hoje, antigos partidos socialistas, como o português e o francês, no governo, optam por políticas reacionárias. Na França, a “novidade” é a ascensão de François Hollande, lamentável contrafação de François Mit-terrand. Portanto, não se pode considerar extemporâneo o crescimento da ultra direitista Marine Le Pene e de sua Frente Nacional, caminhando para tornar-se o maior partido da França. Organizações outrora de esquerda, como o Partido Trabalhista inglês (LP) de Harold Laski, se confundem com os partidos conservadores. Na Alemanha, a Social Democracia (SPD) é sócia menor dos conservadores (CDU) de Merkel. A Itália, até recente-mente comandada pela direita grotesca de Berlusconi, é hoje governada pela direita pré-fascista de Matteo Renzi. É consenso entre os analistas que as eleições europeias de final deste maio trarão o aumento significativo de votos da extrema direita. Concluamos: nos EUA a “esquerda” é repre-sentada pelo Partido Democrata de Barack Obama… A China (em conflito com o Vietnã) cuida de seu capitalismo de Estado.

No mundo e no Brasil – para o bem e para o mal não somos uma ilha – o avanço do cardápio conservador tem as características de uma hegemonia ideológica: faz parecer que os interesses de uma classe – a classe dominante – coincidem com os interesses da maioria, ou seja, dos pobres. Assim é que vemos desqualificar a política quem mais precisa dela, combater o Estado quem mais depende dele, criticar a presença do governo quem mais precisa dela. É a vitória da manipulação ideológica.

Os jornalões festejam nas recentes pesquisas de opinião os altos índices de eleitores que nas eleições presidenciais deste ano (2014) integram o grupo dos indecisos e dos que se propõem a votar nulo ou em branco, enquanto outros muitos dizem rejeitar os partidos políticos e reduzir a política à corrupção, sempre enfocada pelos meios de comunicação no cor-rupto, para que se demonstre a ineficiência do Estado, esquecendo-se do corruptor, um agente do mercado, pois é ele quem de fato maneja os cor-dões. Para essa alienação trabalham diuturnamente os aparelhos

ideoló-80

A Serpente sem casca

gicos da classe dominante, à frente de todos e o mais eficiente de todos, os grandes meios de comunicação, com o propósito de desqualificar a política e de desconstituir o Estado, para promover o neoliberalismo e o mercado, e ao fim impor a verdade única. A ação desses meios promove uma verda-deira guerra ideológica, visando à alienação, ao desenraizamento, ao desâ-nimo, à impotência cujo fim é convencer o povo de que as coisas são assim porque assim devem ser, e nada há por fazer, senão conformar-se.

Sejam quais forem as razões explicativas, o fato objetivo é que vivemos um repouso intelectual-ideológico, com a ausência do debate, o silêncio da Academia, os pleitos corporativistas do mundo sindical sem vida, a paz de um movimento estudantil preocupantemente bem comportado. Não há teses por defender, não há bandeiras por levantar. Os idos de junho de 2013 – eloquente sinal de insatisfação – não deixaram legado político. Talvez em face de sua essência anarquista, terminaram diluídos na ansiolítica, na antiorganização, contra os partidos e os sindicatos. É verdade que acica-taram a sociedade, assusacica-taram governo e vida política, mas, passados os eventos, tendem a deixar atrás de si o silêncio, como o Occupy Wall Street.

Sua força – a não organização, o voluntarismo – é igualmente sua limitação.

Ficou, porém, uma advertência: o larvar descontentamento de nosso povo, insatisfeito com sua qualidade de vida, insatisfeito com a escola que lhe oferecem, com o transporte que lhe oferecem, com a moradia que lhe ofe-recem, com a saúde que lhe negam. Uma irritação generalizada que ainda não encontrou seu alvo. Por enquanto é apenas denúncia de decepção, cons-ciência do malogro e muito desassossego.

A hegemonia conservadora que pervade os partidos de esquerda – que não souberam administrar nem a relação partido-governo e nem muito menos as relações partidos-movimento social, contamina o modo como ten-demos a avaliar a inserção internacional do Brasil. Dispensando a análise empírica – estamos nos habituando a muita opinião e pouca informação e nenhuma reflexão – somos levados a crer que o melhor para nosso povo é atrelar o desenvolvimento brasileiro ao da Europa e ao dos EUA – que conti-nuam sendo nossas matrizes civilizacionais – e de embalo atrelar nossa visão

Roberto Amaral 81 de mundo à visão de mundo deles, nossos valores aos valores deles, nossa cultura à cultura deles. Embora saibam todos e saiba mais do que todos a classe dominante colonizada, que nem a União Europeia e nem os EUA estão – porque jamais estiveram – propensos a fazer as concessões que nos inte-ressam em nossas relações comerciais. Igualmente, não estão interessados no desenvolvimento tecnológico brasileiro, pois bloqueiam nosso programa espacial, nosso programa nuclear, nosso desenvolvimento em cibernética e em nanotecnologia. O FED (Banco Central dos EUA), aliás, voltemos à eco-nomia, não costuma pensar no Brasil ou na Argentina quando decide cortar juros para estimular o aquecimento da economia dos EUA. Nem muito menos nos considera para alguma coisa o Banco Central Europeu, cuja polí-tica cambial visa a facilitar suas exportações para nossos países (e fortalecer seus produtos nos nossos mercados internos) e dificultar as importações de nossos poucos produtos exportáveis, commodities inclusive.

Mas, que esperar, seriamente, de concessões de uma Europa às voltas com o Pacto de Estabilidade imposto por Bruxelas e suas políticas de cortes e demissões, crescendo a 0,2%? Nessa Europa existem hoje 36 milhões de desempregados. Apesar de tanta obviedade, a classe média, marioneta nas mãos da classe dominante, alienada, faz cara feia toda vez que se defende nossa abertura ao comércio com o maior número de países, e especialmente com a América do Sul, a África e a Ásia. Apesar de o caminho da diversifi-cação das parcerias haver-se revelado tão importante quando o do enfren-tamento da crise de 2008. Para essa gente – e dela é porta-voz o candidato tucano – o único caminho é fechar as portas do Mercosul, entregar-se à UE e retomar a Alca. Assim, ao final, seremos um grande Porto Rico.

Outro instrumento dessa perversa busca da alienação – utilizado à sacie-dade pelos meios de comunicação e os intelectuais da classe dominante –, é a técnica do despistamento que visa a trazer para a cena política temas irre-levantes ou periféricos, à custa do esquecimento das questões estruturais que afetam o país, a democracia e a qualidade de vida de nossas populações.

Enquanto a pauta da grande imprensa traz ao debate questões vencidas nas eleições de 2010 e que foram o cavalo de batalha do candidato da direita, como

82

A Serpente sem casca

aborto, homossexualismo e liberdade religiosa, importantes, mas marginais diante do vulto de nossos problemas sociais e econômicos, em xeque, são postos de lado os temas de interesse concreto para a vida das pessoas, como a brutal, crescente e injusta concentração de renda: aqui (dados de 2012), os 10% mais ricos detêm 42% da renda e 40% dos brasileiros, os mais pobres, respondem por apenas 13% da renda nacional; a renda real do trabalho do 1%

de mais ricos é 87 vezes superior à dos 10% dos mais pobres. Como na matriz, é alta a desigualdade – nada obstante os esforços de inclusão social levados a cabo nos últimos 12 anos – e baixa a taxa de crescimento econômico, a qual, mantida, nos assegurará a pobreza por mais 50 anos.

Assim, nada discutindo ou discutindo o supérfluo, evitamos o debate em torno de questões cruciais para a vida das pessoas como a expansão do mercado interno, a política de distribuição de renda e aumento do poder de compra dos trabalhadores. E o crescimento, se possível sem inflação.

Por essas e outras trampas, nosso povo, que até pouco tanto se orgu-lhava de seu país, volta a deixar-se dominar pelo derrotista sentimento de inferioridade que o faz descrer até de si mesmo. A destruição do orgulho de ser, da satisfação do pertencimento e do amor próprio, é a forma mais eficaz de minar uma nação. Em seu lugar se instala a idealização do outro, supe-rior, mais culto, mais forte, destinado à vitória e ao sucesso, cujo reverso é o autodestruidor “complexo de vira lata”.

A alienação proposta pela direita tem um só objetivo: soterrar a alma nacional.

(CC, 21.05.14)

No documento ss A erpente em casca (páginas 78-82)