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Se não há direito anterior condicionando o julgado, se o direito atual pode ser modificado, se os conceitos dos institutos jurídicos podem ser alterados a cada voto para justificarem decisões, o Estado de direito, tão referido pelos julgadores e reclamado pelos juristas, transforma-se em estado de desassossego.
A crise da política compreende a crise das instituições e caminha para a crise da democracia representativa, alimentada pelo fracasso rotundo dos partidos e a ausência de lideranças com as quais possa o cidadão comum se identificar num momento de pânico cívico. Adolf Hitler já foi tábua de salvação de um povo levado ao desespero, desespero que na Itália pavi-mentou a ascensão de Mussolini, na Argentina elevou Perón, porque as crises costumam se transformar em tragédia, como foi na Itália contempo-rânea a emergência de Berlusconi navegando nas vagas das Mãos Limpas.
(CC, 04.12.15)
Roberto Amaral 191 monopólio ideológico administrado por cartéis empresariais intocáveis.
Essa unanimidade ideológico-política dos meios de comunicação de massas é, assim, a mesma dos anos do pretérito. O diferencial, agravando sua periculosidade, é a concentração de meios facilitando o monopólio, anulando qualquer possibilidade de concorrência, blindando o sistema de eventuais contradições e “furos”.
Que fizeram os governos democráticos – que fez a sociedade, que fez o Congresso, que fez o Judiciário – para enfrentar esse monstro antidemo-crático que age sem peias, a despeito da ordem constitucional?
As razões para a crise remontam à concepção de nação, sociedade e Estado que as forças conservadoras – ao fim e ao cabo nossos efetivos governantes – estabeleceram como seu projeto de Brasil. O desenvol-vimento de nossos países pode mesmo ser admitido por esses setores – sempre que o malsinado Estado financie seus investimentos –, conquanto que respeitados determinados limites (não os possa tributar, por exemplo), ou comprometê-los com objetivos nacionais estratégicos, como respeitosos com essa gente foram os anos de ouro do juscelinismo.
Jamais um desenvolvimento buscadamente autônomo, como preten-deram o Chile de Allende, com as consequências sabidas, e a Venezuela, acuada e acossada desde os primeiros vagidos do bolivarianismo, o qual, seja lá o que de fato seja para além de discurso, perseguiu um caminho próprio de desenvolvimento econômico-social, à margem dos interesses do Departamento de Estado norte-americano, do Pentágono, e do FMI.
Democracia até que é admissível, conquanto não se faça acompa-nhar da ascensão das grandes massas, pelo que João Goulart se arriscou e perdeu o poder. A propósito, F. Engels (introdução ao clássico Luta de classes na França, de Marx) já observava que “… a burguesia não admitirá a democracia, sendo mesmo capaz de golpeá-la, se houver alguma possibilidade de as massas trabalhadoras chegarem ao poder”.
Ora, na América Latina basta a simples emergência das massas ao cenário politico, sem mesmo qualquer ameaça de ascensão a fatias mínimas de poder, para justificar os golpes de Estado e as ditaduras.
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Além de promover essa emergência do popular no político, trazendo massas deserdadas para o consumo e a vida civil, Lula intentou uma polí-tica externa independente, como independente poderia ser, nos termos da globalização e de nossas limitações econômicas e militares. Desvela-se, assim, o “segredo” da esfinge: não basta respeitar as regras do capitalismo – como respeitaram Getúlio, Jango, Lula, e Dilma respeita – posto que fun-damental é, mantendo intocada a estrutura de classes, preservar a depen-dência ao modelo econômico-político-ideológico ditado pelas grandes potências, EUA à frente.
O Não contém o Sim. O que não é possível diz o que é desejado; iden-tificar o adversário é meio caminho andado para a nomeação dos aliados e servidores. Assim se justifica, por exemplo, tanto a unanimidade da opinião publicada em favor de Mauricio Macri, a mesma que acompanhou os últimos governos colombianos, quanto a unanimidade dos grandes meios contra os Kirchner, até ontem, e ainda hoje contra Rafael Correa e Evo Morales, bem como o ódio visceral ao “bolivarianismo”, na contramão dos interesses das empresas brasileiras instaladas e operando na Venezuela.
São os fabricantes de opinião contrariando nossos interesses econô-micos e erodindo nosso natural peso regional – onde alimentamos justas expectativas de exercício de poder –, mas, como sempre, fazendo o jogo dos interesses de Wall Street e da City.
Essa lógica da dependência – ou de comunhão de interesses entre nossa burguesia e o poder central, acima dos interesses nacionais – explica também a unanimidade contra Dilma e contra o que ideologicamente é chamado de “lulismo” ou “lulopetismo”, nada obstante suas (suponho que hoje desvanecidas) ilusões relativamente à “conciliação de classes”.
Conciliação que não deu certo com Vargas e não está dando certo com Dilma, não obstante suas concessões ao capital financeiro, malgrado o alto, muito alto preço representado pelo desapontamento das forças populares que a elegeram no final do segundo turno.
Esse movimento – que representa dar dois passos atrás contra só um à frente, detectado a partir de dezembro de 2014, valeu-lhe a ainda
insupe-Roberto Amaral 193 rada crise de popularidade, sem a compensação do arrefecimento da fúria oposicionista ditada a partir da Avenida Paulista.
Atribui-se a Lula a afirmação de que os banqueiros jamais teriam obtido tantos lucros quanto lograram em seu governo. Anedota ou não, o fato objetivo é que segundo o bem informado Valor (jornal dos Frias e dos Marinhos), o lucro dos bancos foi de 34,4 bilhões de reais na era FHC, e de 279,0 bilhões de reais no período Lula, ou seja, oito vezes maior, já descontada a inflação.
Por que então essa oposição à Dilma se seu governo, como os dois ante-riores de Lula, não ameaçou nem ameaça qualquer postulado do capita-lismo, não ameaça a propriedade privada, não promoveu a reforma agrária, não ameaça o sistema financeiro, não promoveu a reforma tributária?
Por que esse ódio vítreo da imprensa se sequer ousaram os governos Lula/Dilma – ao contrário do que fizeram todos os países democráticos e desenvolvidos – regulamentar os meios de comunicação dependentes de concessões, como o rádio e a tevê? Por que essa unanimidade, se os governos do PT (e a estranha coabitação com o PMDB) não tocaram nas raízes do poder, não ameaçaram as relações de produção fundadas na preeminência do capital (muitas vezes improdutivo) sobre o trabalho?
Por que tanto ódio, se os governos do PT sequer são reformistas, como tentou ser o trabalhismo janguista com seu pleito pelas “reformas de base”?
Ora, o Estado brasileiro de 2016 é o mesmo herdado em 2003, e “os donos do poder” são os mesmos: o sistema financeiro, os meios de comunicação de massas vocalizando os interesses do grande capital, o agronegócio e as fiespes da vida.
Ocorre que, e eis uma tentativa de resposta, se foram tão complacentes com o grande capital, ousaram os governos Lula e Dilma ainda ousa, pro-mover a inclusão social da maioria da população e buscar ações de desen-volvimento autônomo, nos marcos da globalização e do capitalismo, evi-dentemente, mas autônomo em face do imperialismo.
Assim, negando o comando do FMI, negando a Alca e concorrendo para o fortalecendo do Mercosul, esvaziando a OEA e promovendo a
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nidade de Países da América Latina e Caribe (Celac) e, audácia das audácias, tentando constituir-se em bloco de poder estratégico no Hemisfério Sul, com sua influência na América Latina e a aproximação com a África.
Nada de novo no castelo de Abranches, nem mesmo a miopia dos que não veem, ou, que por comodismo ou pulsão suicida, preferem não ver o que está na linha do horizonte. Supor que a presidenta está à salvo da onda golpista é tão insensato quanto supor que o projeto da direita se esgotaria no impeachment.
Há ainda muito caminho a percorrer. O projeto da direita é de cerco e de aniquilamento das esquerdas brasileiras. Nesses termos, o assalto ao mandato da presidenta é só um movimento, relevantíssimo, mas só um movimento num cenário de grandes movimentações, a porta pela qual avançarão todas as tropas.
O projeto da direita é mais audacioso, pois visa à construção de uma sociedade socialmente regressiva e politicamente reacionária, com a tomada de todos os espaços do Estado.
O primeiro passo é a demonização da política. Já foi atingido.
(CC, 28.01.16)