Roberto Amaral 141 distante do controle do governo e a ele hostil, como também hostil ao PT. O segundo maior partido da Câmara está fora da Mesa, exerce papel secundário na principal CPI da Casa, criada, aliás, tão só, para gerar problemas ao governo e ao PT. O que vem logrando. A presidenta certamente já está conversando com o ex-presidente Lula, o único líder capaz de retomar o diálogo com as ruas, e a última esperança de salvação para o PT. E o vice-presidente da República – até há pouco arredio – é, a olho nu, o único personagem que, a esta altura, pode trazer de volta o rebanho peemedebista para formar uma base qualquer, antes que sua liderança seja totalmente erodida dentro do próprio partido, pelos seus aliados e concorrentes Eduardo Cunha e Renan Calheiros.
A busca da governabilidade é tão difícil quanto necessária.
(CC, 18.03.15)
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partido de massas que era o PCI de Gramsci e Togliatti. O fracasso dos comunistas e socialdemocratas abriu espaço para a emergência e avanço de figuras que transitam do burlesco ao trágico, como ilustram Berlusconi, Sarkozy e Marie Le Pen, ao lado do conservadorismo de Cameron e Ângela Merkel, cujas lideranças foram recentemente confirmadas nas urnas. Aqui o quadro é similar, com o Partido Comunista Brasileiro transformando-se em sua contrafação, o PPS, o PSB renunciando ao sonho de seus funda-dores e retirando-se do campo da esquerda, e o PSDB renunciando à social-democracia para transformar-se naquilo que o DEM não conseguira ser:
o primeiro grande partido da direita brasileira. As eleições de 2014 já se realizaram sob esse signo.
A crise da esquerda brasileira, assim, não é nova, nem nasceu com a crise do PT de hoje, que apenas a agudizou. Após 40 anos de ascensão continuada e conquistas eleitorais (dentre as quais por quatro vezes seguidas conquistando a Presidência da República) o campo popular (onde, evidentemente, nem todo mundo é de esquerda) se vê ameaçado de ceder posições. Depois de 1974, com a vitória eleitoral do MDB que começou a desestabilizar a ditadura, seguiram-se a luta pela Anistia, a campanha pelas Diretas Já e, culminância, a derrota da ditadura no colégio eleitoral. Nesses momentos, forças progressistas, liderando setores liberais avançados, empurraram a direita para trás. Quando se inicia o quarto período de governo de centro-esquerda, a reversão desse processo é inquietante.
Antes, as esquerdas brasileiras, assim mesmo no plural, esquecidas do dever da reflexão, haviam seguido acriticamente o comando do PT, o par-tido hegemônico do campo, que, a partir de 2002, optara pelo pragmatismo eleitoral que levaria todos à vitória eleitoral. No governo, porém, essas forças, despreparadas do ponto de vista ideológico, cobrariam a abdicação de certos princípios programáticos, e as forças destinadas historicamente à renovação terminaram por adotar como suas as práticas conservadoras sempre rejeitadas pela esquerda. A crise de valores foi fatal e suas conse-quências são de domínio público.
Roberto Amaral 143 A reflexão sem prática é inócua, dizem os ativistas (em férias), esque-cidos de que a práxis sem reflexão leva ora à “doença infantil do esquer-dismo”, ora ao voluntarismo, ora, como agora, à anomia. As esquerdas também erraram quando não se prepararam para exercer um governo de centro-esquerda em país capitalista, de formação autoritária, sabidamente conservador. E, por haver perdido o hábito da reflexão, não compreen-deram, nossas lideranças, a realidade na qual foram chamadas a atuar, braços dados com uma base parlamentar conservadora, e sofrendo, sem reação, o ataque de uma imprensa unanimemente reacionária. E, desco-nhecendo a realidade, ficaram sem condições de estabelecer sua própria estratégia. Condenaram-se, assim, a ser governadas pelo adversário.
Despreparados estrategicamente, PT e seus aliados governaram segundo o modelo tradicional-conservador. Diante da emergência reacio-nária, os partidos estão hoje atônitos, sem resposta política, sem formulação, sem ação. Não falam e não agem, por não saberem o que dizer e o que fazer, após haverem, coletivamente, renunciado ao enfrentamento ideológico.
Cabe ao PT, após a autocrítica que ainda não fez, não só proceder à (auto)revisão (política, ideológica e orgânica), mas, fundamentalmente e de forma urgente, construir uma estratégia de ação, e construir um programa que fale ao Brasil de hoje. Mas esse “programa” não pode ser um mero dis-curso: a sociedade aguarda atos e fatos. Trata-se de refundar-se, no que esta expressão encerra de mais radical. No caso das esquerdas, o imperativo é a revisão de nossos paradigmas, rever-se política e ideologicamente, rever-se do ponto de vista orgânico, rever a práxis. Voltar a pensar e formular. Pre-cisamos voltar a falar com o povo, os trabalhadores e os estudantes. Ter dis-curso e atos audíveis e visíveis não apenas pelos nossos militantes. É preciso romper o casulo para o qual refluímos.
A análise da crise só se consolida, se enseja uma alternativa. As forças populares, no Brasil e no mundo, têm a tradição dos movimentos de frente política, com fins eleitorais ou não. Foi uma frente popular, integrada por trabalhadores, estudantes, intelectuais e militares, que fez no Brasil a vito-riosa luta pelo “O petróleo é nosso”. Foi uma frente democrática, unindo
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esquerda e liberais, que derrubou o “Estado Novo”. Foi a frente política de todos os adversários da ditadura que nos legou a redemocratização.
Nossa crise – da democracia representativa, do presidencialismo como tal e do presidencialismo de coalizão de forma específica, crise da demo-cracia ameaçada, crise da institucionalidade diante das seguidas ameaças ao pronunciamento da soberania popular em 2014 – exige das esquerdas brasileiras o patrocínio e a liderança de um imenso movimento de massa com o objetivo de enfrentar a ascensão conservadora e promover reformas políticas profundas, que nossos governos não tiveram forças para sequer intentar, e por isso mesmo o Estado de hoje é o mesmo de 2002 e a corre-lação de forças permanece adversa.
Essa grande mobilização exige a formação de uma Frente, não só de partidos, mas que, nucleada ou não por partidos, seja fundamentalmente uma frente popular, nascida das organizações de massa da sociedade civil e nacional, porque uma vez mais se coloca como prioridade a defesa do país.
Precisamos de uma frente nacional popular, na qual os partidos do campo da esquerda terão acolhimento, mas lado a lado do movimento social, dos sindicatos e dos trabalhadores e assalariados de um modo geral, do movimento estudantil, de políticos com ou sem vinculação partidária, de intelectuais e pensadores, de liberais e democratas progressistas, de todos aqueles que, enfim, entendam como chegada a hora de lutar: 1) pela demo-cracia no seu significado mais amplo, nele entendida como peça destacada a democratização dos meios de comunicação; 2) pela defesa da soberania nacional como pilar de qualquer programa politico; 3) pelo fim de todas as desigualdades e discriminações; 4) pela defesa e aprofundamento dos direitos dos trabalhadores e assalariados de um modo geral; e, corolário, 5) lutar pela retomada do desenvolvimento com distribuição de renda.
Resta-nos a esperança de que se firmem reações, como o Podemos espa-nhol e o mais ou menos vitorioso Syriza grego, mas é preciso lutar firme-mente para que seus influxos cheguem até nós.
(Carta Maior, 19.03.15)
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