Roberto Amaral 153 constitucional, ele se esquece de que o plebiscito de 1993 transformou o presidencialismo em causa pétrea, sob a atual Constituição.
Se conseguimos, com tanto sacrifício passado, o que se pode chamar de consolidação da democracia brasileira, devemos ter cuidado e caminhar devagar com o andor, que o santo pode ser de barro.
Esta crise, deste governo, pode repetir-se com força igual ou ainda maior em futuras administrações, e não será desatada com uma simples reforma eleitoral, cuja necessidade não está em discussão. Quando tra-tarmos de uma reforma política, que importa em reforma constitucional, é imperioso considerar como necessária antiga proposta de Leonel Bri-zola de as eleições presidenciais e parlamentares se realizarem no mesmo ano, como agora, e como tem sido desde sempre, mas doravante obser-vando intervalo de um mês entre uma (a eleição do presidente) e outra (a eleição dos deputados e senadores), de sorte que o eleitorado seja cha-mado a escolher o Congresso já conhecendo o novo presidente da Repú-blica e suas propostas.
(CC, 09.04.15)
Em busca de instituições acima
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essa vitalidade institucional de hoje contrastando com o desencanto dos cidadãos diante da política que ele esperava ver festejada pelos feitos que hoje podemos comemorar.
Para socorrer os que não têm essa memória: a transição da ditadura para a democracia, a consolidação constitucional com a carta democrática de 1988, o processo eleitoral continuado sem ameaças desde 1989 (ultrapas-sando sem traumas um impeachment) e, não menos importante, quatro elei-ções presidenciais vencidas por candidatos de centro-esquerda. Há, sim, o que comemorar, bastando lembrar os avanços institucionais e políticos desses nossos 30 anos de estabilidade continuada, contrastando com os 18 anos da república de 1946-1964, juncada de golpes militares, 1954 (depo-sição e suicídio de Vargas) e 1955 (tentativa de golpe contra a posse de JK e contragolpe de Lott), dois levantes militares (Aragarças e Jacareacanga), uma renúncia e uma tentativa militar de impedir a posse do presidente constitucional, o golpe parlamentar (1961) que impôs o parlamentarismo e, finalmente, como corolário, a bem sucedida conjuração de 1964.
Qual é o indicador da crise de hoje? O desapreço do povo por essas instituições, manifestado pelo desapreço à política, aos partidos e aos polí-ticos. A política não é vista como o instrumento de realização democrática do bem comum, os partidos são julgados como corjas e os políticos como aproveitadores, desgarrados dos interesses coletivos, motivados tão só pela mesquinha luta do poder pelo poder, para nele locupletar-se. Nessa política não haveria mais distância ética entre meios e fins, pois tudo é uma coisa só.
Indicativo desse novo olhar popular das instituições construídas com tantos sacrifícios seria o deserto de homens e ideias. O homem comum não encontra mais líderes para seguir, nem ideias para defender. A política não oferece teses, não estimula o debate e o Parlamento é um simulacro do poder popular. Para pôr de manifesto esse nosso vazio, foi lembrado, naquele debate, o palanque das “Diretas Já” (1984), no qual discursavam, entre outros, Ulisses Guimarães, o “senhor diretas”, Luiz Inácio Lula da Silva, os então governadores Tancredo Neves, Franco Montoro e Leonel Brizola, além de Mário Covas e Miguel Arraes, todos verdadeiras legendas
Roberto Amaral 155 nacionais, personalidades já incorporadas como atores da história, e todos condutores de multidões.
Ficou no ar, como uma esfinge, a pergunta que ninguém se dispôs a for-mular, com medo da resposta: qual seria o palanque de hoje? (Fica o desafio também para o leitor). Certamente, penso eu, um palanque sem cor, sem his-tória atrás de si e sem multidões à sua frente, sem líderes nem liderados, vazio como está o país de quadros populares, de condutores de massas, de políticos que podem caminhar pelas ruas e praças e tomar café na esquina. A pobreza política de hoje expõe nossa tragédia com a clareza do sol de meio-dia: a ausência de biografias, e biografias de estadistas não se fazem da noite para o dia, não se fabricam em série. Elas resultam da lenta acumulação do processo histórico, que mais exclui do que incorpora, num rigoroso processo de seleção.
Mas o problema aflorado pelo debate não se conforma na ausência e pobreza de agentes do processo histórico, posto que contamina as insti-tuições republicanas.
E é disto que cuida. Não se trata, pois – e há muito que lamentar –, da pobreza específica deste ou daquele fazer político, pois a crise de repre-sentação se espalha como metástase por todo o corpo social, engolfando a todos na mesma mediocridade que perversamente domina a vida par-lamentar, domina a governança, domina governantes e oposicionistas, domina o Judiciário, porque domina a vida pública em geral, nela incluído o ofício jornalístico que, com surpreendente desenvoltura, logo se adaptou à nova ordem da mediocridade, que aprofunda e estimula, porque seu ali-mento passou a ser a pasmaceira intelectual atrás da qual se esconde.
A crise, porém, percorre todo o tecido social. Um grande líder nacional, que surgiu na política depois dos anos 1970, comentava comigo, faz dias, ser um homem de muita sorte por haver vivido e feito política num momento riquíssimo da vida nacional. E apontava haver visto e vivido as greves do ABC, as campanhas pela Anistia e pelas “Diretas Já”, das quais participara, a queda da ditadura e a retomada democrática, da qual fôra ator. Havia acompanhado, como todos nós, o surgimento de artistas e compositores como Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso, havia torcido pelo
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esfuziante futebol brasileiro, para chorar diante de nossa última partici-pação em Copa do Mundo. Que poderão contar amanhã, para seus filhos, as gerações de hoje? De qual Brasil terão memória?
A política, de há muito, deixou de ser o estuário do civismo (palavra condenada como anacrônica), para transformar-se no espaço das revoluções pessoais. Reduzida ao pragmatismo rasteiro, fez-se mãe e filha da desna-turação do sistema de partidos, no mais das vezes meras corporações de interesses escusos. Partidos sem política, sem programas, sem projeto de sociedade, sem projeto de Brasil e muito menos visão ideológica do mundo.
Partidos negócio, partidos lobbies, donde políticos igualmente descompro-metidos com o interesse público. Para o cidadão, o eleitor, o homem comum, este que realmente faz o país, os partidos são instrumentos sem serventia, cuja função ignora no processo democrático representativo que não entende.
Como falar, portanto, em “instituições robustas” se a democracia representativa carece de partidos e os partidos de lideranças; se o político é malvisto e a política, por consequência, é abjurada, com razão, pelo eleitor que vai às ruas para dizer que não se identifica com o fazer político, que nutre desprezo pelos políticos, e simplesmente ignora os partidos, esse ins-trumento de mediação insubstituível nas democracias de massas?
O fato objetivo é a crise política (de que, nesse caso, a crise econômica é uma derivação), e nela a crise do segundo mandato da presidenta Dilma é um ponto relevante, mas não é o todo. A crise profunda, mãe de todas as demais, é a crise da representação, resumida no fato de o eleitor não se iden-tificar com o mandatário que acaba de eleger. Esta afirmação é recorrente porque precisa ser repetida cem vezes! Causa e efeito ao mesmo tempo, cupim que pode corroer a instituição democrática, a crise de representação está no centro de tudo. Não se trata de problema jurídico a ser resolvido pela alquimia dos constitucionalistas sempre à mão da classe dominante.
Ingrediente perigoso da crise é a exaustão do presidencialismo, a degene-ração terminal do “presidencialismo de coalizão” apressada por um sis-tema eleitoral canhestro que favorece a malversação do voto mediante o financiamento empresarial de campanhas, a violência do poder econômico
Roberto Amaral 157 e o abuso do poder político. Ingrediente perigoso é a falência do sistema de partidos, exaurido pela ausência de matéria prima. O que não se resolve apenas com mecanismos legislativos.
Sem povo se expressando e sendo ouvido e se identificando com o que fazem e dizem seus representantes, não há possibilidade de instituições acima de qualquer risco.
(CC, 23.04.15)