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A Serpente sem casca
nidade de Países da América Latina e Caribe (Celac) e, audácia das audácias, tentando constituir-se em bloco de poder estratégico no Hemisfério Sul, com sua influência na América Latina e a aproximação com a África.
Nada de novo no castelo de Abranches, nem mesmo a miopia dos que não veem, ou, que por comodismo ou pulsão suicida, preferem não ver o que está na linha do horizonte. Supor que a presidenta está à salvo da onda golpista é tão insensato quanto supor que o projeto da direita se esgotaria no impeachment.
Há ainda muito caminho a percorrer. O projeto da direita é de cerco e de aniquilamento das esquerdas brasileiras. Nesses termos, o assalto ao mandato da presidenta é só um movimento, relevantíssimo, mas só um movimento num cenário de grandes movimentações, a porta pela qual avançarão todas as tropas.
O projeto da direita é mais audacioso, pois visa à construção de uma sociedade socialmente regressiva e politicamente reacionária, com a tomada de todos os espaços do Estado.
O primeiro passo é a demonização da política. Já foi atingido.
(CC, 28.01.16)
vio-Roberto Amaral 195 lência e sem determinarem rupturas constitucionais e muitos não podem – a exceção talvez seja o contragolpe de 11 de novembro de 1955 — ser classificados como coup de main por não envolverem qualquer sorte de sur-presa. Ao contrário, muitos, como o 24 de agosto de 1954 e o 1º de abril de 1964 explodiram como tragédias anunciadas.
Golpes operados ‘dentro da ordem’ foram, por exemplo, a insubordi-nação das tropas que em 1831 levou o primeiro Pedro à abdicação do trono e, mais tarde, o “Golpe da maioridade” (assim foi registrado pela História) que levaria seu filho ao trono em 1840, aos 15 anos incompletos.
O fato histórico Proclamação da República, porém, apresenta as carac-terísticas clássicas dos golpes de Estado, a saber, a ilegalidade (o levante das forças armadas contra seu chefe supremo e o regime que juraram defender) e a ruptura da ordem constitucional, com a queda do Império.
A rigor, a implantação da República tem no golpe de 1889 apenas o seu parto, pois o novo regime só se consolidaria, ainda criança, com o golpe, de explícita ilegalidade, do marechal Floriano Peixoto (1891), investindo-se na presidência após a renúncia de Deodoro, contra o ditado da Constituição republicana recém-aprovada.
Nesta República de muitos golpes e contragolpes, dois golpes clás-sicos merecem destaque, a saber: um, que rasgando a Constituição de 1934 instituiu a ditadura do “Estado Novo” (1937) e aquele outro que em 1º de abril de 1964 instaurou a ditadura militar, decaída em 1984. O primeiro ditado pelo próprio príncipe, o segundo tramado nas entranhas do poder contra o chefe de Estado.
A característica comum de todos eles é a ruptura da ordem consti-tucional, nos dois últimos casos mediante a violência, compreendendo alteração institucional e instauração de regimes de exceção caracterizados pela repressão policial-militar, a revogação dos direitos individuais e das garantias constitucionais, a supressão das liberdades – especificamente das liberdades de imprensa, de reunião e de associação – e a revogação dos mecanismos da democracia representativa (“Estado Novo”), ou sua vigência custodiada pelo novo regime (1964-1984).
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Mas a história republicana está a sugerir uma categoria de golpe de Estado que, alterando a composição do poder, a função e o objeto de todo e qualquer golpe ou insurreição ou revolução, se opera dentro da ordem institucional-legal vigente.
Lembro, a propósito, dois episódios recentes de nossa história, o já mencionado 11 de novembro de 1955 e a instituição, em 1961, do parlamen-tarismo. Ambos formalmente legais e ambos curatelados pelos militares e ambos operados pelo Congresso Nacional e o primeiro, afinal, absorvido pelo Supremo Tribunal Federal.
O primeiro decorreu de reação de setores militares legalistas, dados pelo ministro da Guerra, o general Henrique Lott, à manobra coman-dada pelo presidente da República e seus ministros da Aeronáutica, da Marinha e da Casa Militar, visando a impedir a posse de Juscelino Kubits-chek e João Goulart, eleitos presidente e vice-presidente da República.
Diante da reação do Exército, o Congresso decretou numa assentada o impedimento do presidente licenciado para tratamento de saúde (Café Filho, que assumira com o suicídio do titular, Vargas) e do presidente em exercício (Carlos Luz, presidente da Câmara dos Deputados) e, na sequência, na ordem da sucessão constitucional, empossou Nereu Ramos, vice-presidente do Senado.
O fato foi apresentado como “contragolpe legalista” e, assim, feste-jado. Em outras palavras, o Congresso, atendendo à voz majoritária das Forças Armadas e no rigor de sua competência constitucional, dava um golpe de Estado (o impedimento dos presidentes), para impedir, eis sua justificativa em busca de legitimação, o golpe de Estado que visava a fra-turar a Constituição, impedindo a posse dos eleitos.
De forma similar, tivemos o golpe parlamentarista de 1961, já referido, quando o Congresso Nacional, diante da sublevação militar que intentava impedir a posse do vice João Goulart (episódio decorrente da renúncia de Jânio Quadros, essa sim uma tentativa, frustrada de coup de main), revogou o presidencialismo e aprovou a implantação pro tempore do parlamentarismo.
Roberto Amaral 197 Nas duas situações agiu o Congresso Nacional nos termos de sua competência constitucional.
E, lamentavelmente, parece que fizemos escola. Similarmente, o Con-gresso paraguaio, em 2012, revogou, mediante impeachment, o mandato do presidente Fernando Lugo e o Judiciário hondurenho decretou, em 2009, a deposição e prisão do presidente José Manuel Zelaya.
Se o golpe de Estado, em regra, é promovido contra um governante, em 1937, no Brasil, foi a arma de que lançou mão o próprio governante, para fazer-se ditador, donde não ter havido mudança de mando nem de controle do poder.
O golpe clássico – com a deposição do governante— é substituído pela mudança de governo, mantido o governante.
O golpe operou-se por dentro, manipulado pela burocracia estatal associada a segmentos da classe dominante. É quando o golpe também pode ser manipulado de forma lenta e continuada, sem ruptura institu-cional, mas determinando alterações na ordem constitucional.
Neste caso, o que caracterizaria o golpe de Estado (ou essa espécie de golpe por dentro do sistema) seria a alteração de poder sem violência e dentro da ordem legal, ou seja, utilizando-se da própria ordem legal para fazer as alterações requeridas pelo novo projeto de poder.
Permanece a definição de golpe de Estado porque sua efetividade determina uma nova coalizão de poder, ao arrepio da soberania popular.
É um golpe de Estado que não pode ser acoimado de ilegal. Essas refle-xões tentam compreender a crise constituinte brasileira de hoje ao iden-tificar a operação de um “golpe” dentro do Estado, comandado interna-mente por uma burocracia estatal, autônoma em face da soberania popular e dos instrumentos da democracia representativa. Nesse caso não há rup-tura de qualquer sorte, nem mudança de mando, mas radical mudança de política, agora sim rompendo com o pacto político de sustentação do governo. Refiro-me à mudança da política econômica do governo Dilma, na passagem de 2014 para 2015.
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Essa burocracia governativa opera em condomínio com forças poderosas do capital concentrado, cujo objetivo é, na contramão do pro-nunciamento eleitoral de 2014, restaurar o controle neoliberal sobre a economia e o Estado.
O cerco do Estado em função dessa política, sem voto, mas represen-tativa do poder econômico, revela seus primeiros movimentos ainda em 2014, quando, perdidas as eleições, decide o grande capital a tomada do governo, impondo-lhe a política rejeitada eleitoralmente.
Nesse sentido, operou e opera de forma desabusada a imprensa mono-polizada, ecoando o que lhe dita a direita.
Seu primeiro fruto foi o ajuste fiscal, mas a ele não se limitou, impondo todo o receituário neoliberal: privatizações, precarização das relações de trabalho, independência do Banco Central, política de juros altos, as medidas recessivas que constroem o desemprego e, com audácia jamais vista, a fragilização da Petrobrás, para que se torne irrelevante e possibilite que o Pré-Sal, maior reserva de hidrocarbonetos descoberta no planeta nos últimos 30 anos, seja capturado pelas grandes petroleiras multinacionais.
Para tanto chegou-se ao requinte: a empresa, atacada por escândalos e pela crise internacional do petróleo, é desmoralizada; a queda de suas ações em bolsa é atingida pela especulação e pela campanha de descré-dito da grande imprensa, e nesse quadro anuncia-se a redução dos inves-timentos e a venda de ativos, evidentemente na bacia das almas. Privati-zação e desnacionaliPrivati-zação.
A agenda do governo é ditada pelos adversários do governo e dentro dele estamentos burocráticos autarquizados – setores do Ministério Público, setores do Judiciário, setores da Polícia Federal, associados à grande imprensa e por ela comandados – operam no sentido da desestabi-lização do governo.
Juiz de estranha jurisdição nacional preside, como se delegado fosse, inquérito que lhe caberia sanear e julgar com isenção; procura-dores, promotores e juízes, até mesmo ministros de tribunais superiores, antecipam juízos sobre pessoas que estão sendo ou serão por eles
jul-Roberto Amaral 199 gadas, a prisão preventiva é transformada em instrumento policial que visa a obter delações premiadas.
A imprensa, irresponsável em sentido pleno, transforma o acusado em condenado sem sursis e o submete à execração pública irreparável. O Congresso, comandado política e ideologicamente por uma oposição majo-ritária, opera o desmonte das conquistas sociais das últimas décadas.
O governo, nascido das bases populares da sociedade, opta pelo acordo de cúpula com os partidos, tornando-se prisioneiro de uma base parlamentar infiel, desleal e extremamente cara.
Necessitado do apoio social faz concessões às forças conservadoras;
afasta-se das massas sem demover a direita de seu projeto golpista.
Quem não se inspira na história está condenado a repeti-la, repetindo seus erros.
(CC, 09.02.16)