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O desafio atual do governo

No documento ss A erpente em casca (páginas 93-96)

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sociais”. Por isso mesmo, a tentativa de desconstrução de Dilma e de seu governo não conhece limites e se transfere da campanha eleitoral para um segundo governo que sequer se instalou. A intolerância é a matéria-prima.

A tarefa que se coloca para os democratas e os progressistas brasi-leiros, hoje, é fortalecer o governo Dilma e a liderança da presidenta. Forta-lecer no Congresso para que possa fazer frente à coalizão de centro-direita, mas igualmente fortalecer junto à cidadania, para que possa avançar com as reformas que o país reclama e constituíram a base ideológica de sua campanha; fortalecer para enfrentar as distorções do “presidencialismo de coalizão” – e a primeira delas é a formação de sua atual “base parlamentar de governo”, com suas notórias fragilidades políticas, ideológicas e éticas.

Se o encontro heterodoxo entre partidos sem parentesco ideológico ou pro-gramático, ou comportamental, é indispensável (e o é), faz-se igualmente indispensável que a presidenta encontre respaldo na sociedade, no movi-mento social em todo o seu espectro. É preciso fortalecer a presidenta como conditio sine qua non para o funcionamento da República, no presidencia-lismo, qual o praticamos. É preciso fortalecer a presidenta para que, livre, leve a termo o governo de suas próprias aspirações mirando para além das circunstâncias atuais e livre de compromissos que, voltados a um amanhã ainda invisível, sirvam apenas para tolhê-la no presente.

Fortalecê-la para enfrentar a aliança imprensa-partidos de oposição.

Não obstante o desempenho eleitoral dos partidos que constituem a base do governo, não há qualquer segurança parlamentar para Dilma e seu governo na próxima legislatura, pois sua base de apoio parlamentar é inconfiável, como o demonstram as crescentes dificuldades enfrentadas pelo governo nas duas Casas do Congresso.

Junte-se à fragilidade da base governista a promessa de guerra com que ameaça o país uma oposição movida pelo ódio gratuito e pelo ódio pago, açulando os instintos mais primitivos de uma direita sem perspectiva histó-rica, mas com muita capacidade de causar danos. Junte-se a essas armadilhas a fragilidade do sistema de partidos e, principalmente, a fragilidade dos par-tidos que caminham no campo democrático-progressista, acentuadamente

Roberto Amaral 95 apartados do movimento social; junte-se os amuos de uma classe-média receosa da competição social representada pela ascensão dos de baixo. Jun-te-se aos obstáculos que se apresentam à presidenta Dilma, já antes do início do segundo mandato, a oposição– política, ideológica, doutrinária – que lhe move uma imprensa sem assento na ética, desligada dos interesses do país e de sua gente, contra os quais milita; uma imprensa reacionária que no Brasil exerce funções partidárias sem se submeter à legitimação do voto.

Louvem-se, pois, todas as propostas visando à constituição de Frentes de esquerda e de centro, para, com papéis obviamente distintos, assegurar a sustentação do governo. Na sugestão do governador Cid Gomes – apoio-me no precário noticiário da imprensa – a essa Frente de Centro caberia uma certa contraposição às tergiversações do instável e inconfiável PMDB. A uma Frente de esquerda – acrescentamos nós, caberia reunir os partidos desse naipe para constituir o que inexiste hoje e inexistiu no governo Lula: um núcleo progressista hegemônico cuja solidez político-ideológica possibi-litaria a convivência com uma base de centro com participação mesmo de configurações conservadoras.

Do ponto de vista estratégico, a proposta é oportuna, correta e ingente.

Ocorre, porém, que não podemos pensar em Frentes de Partidos quando partidos não temos, o que, suponho, é verdade que dispensa demons-tração. Pois os nossos são partidos de fancaria, mera necessidade jurídica para a disputa de eleições, amontoados de deserdados de ideias, domi-nados por “caciques” regionais, interesses corporativos contraditórios, sem disciplina, sem programas, mas plenos de interesses. Mais efetiva do que uma Frente de Partidos, para o que quer que seja, indico a Frente de Parlamentares – por exemplo, uma Frente de parlamentares de Esquerda, ou de deputados e senadores progressistas, eis meras ideias – reunidos em torno de objetivos comuns e unificadores, para além das legendas nas quais estejam abrigados. Mas isso ainda seria muito pouco, pois o país, nesse transe, carece é de frentes políticas suprapartidárias, reunindo par-lamentares e políticos de um modo geral, dialogando com a sociedade e principalmente trazendo para o círculo político as aspirações e as

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sões populares, que devem ser estimuladas. Uma Frente política que reúna toda sorte de lideranças, populares, sindicais, universitárias, para uma ação política e politico-organizacional casada com uma profunda reflexão sobre nosso país e seus impasses, sobre nosso governo e seus objetivos estratégicos, sobre a política e sua crise, sobre a esquerda e sua crise, sobre o socialismo e sua crise… uma reflexão que, “passando a limpo” todas as questões do presente, e livre de parti pris ideológico, nos faça ingressar em uma nova contemporaneidade.

Uma reflexão e uma ação, um agir orientado pela análise crítica orien-tada para o fazer. Um fazer que compreenda uma nova relação com os movimentos sociais (neles incluídas as organizações sindicais e o movi-mento estudantil); uma nova organização partidária e um novo sistema de partidos que concilie o pragmatismo com a ética, a opção eleitoral com a preservação de princípios democráticos. Uma ação que altere a correlação de forças a favor dos pleitos democráticos, que requerem reformas estru-turais que não se encerram na democratização dos meios de comunicação – sem a qual, porém, pouco poderá ser feito.

Mas o primeiro dos desafios, o mais imediato, é garantir, a favor do governo, a sucessão na presidência da Câmara dos Deputados.

(CC, 14.11.14)

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