Roberto Amaral 69 pelo poder, pode alimentar projetos pessoais que se sobreponham aos partidos, pode negar a política, pode apegar-se ao imobilismo, e ainda assim estará ideológica e politicamente coerente com seus interesses, simplesmente porque o poder já lhe pertence.
(CC, 24.01.12)
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lembram a África do Sul do apartheid, deixando-nos a amarga pergunta:
recuamos tanto assim em nosso processo civilizatório? A barbárie, porém, é festejada em prosa e verso por locutores, chamados inapropriadamente de “âncoras”, portanto jornalistas, de um dos telejornais brasileiros e por seus êmulos nas dezenas/centenas de programas policiais, de rádio e tevê, necessariamente reacionários, espalhados por todo o país.
A foto, na dramaticidade que só a imagem encerra, revela a presença, forte, potente, da tradição oligárquica e racista produzida por 300 anos de escravidão e iniquidade. Mas revela principalmente os novos tempos em construção. Lembra o Brasil arcaico que queremos superar – aquele Brasil que o saudoso Eduardo Coutinho fotografou, para denunciar, no seu imortal Cabra marcado para morrer. Um Brasil ainda muito forte que se agarra com todas as forças no passado para impedir o nascimento do futuro. O velho, cheio de vigor, ameaça o novo, sem forças para nascer.
É o Brasil da casa grande que não se conforma com a implosão da sen-zala, na qual, assim pensa a classe dominante, deveriam estar, ainda hoje, os muitos que não cabem na pequena mesa onde se banqueteiam os poucos donos do poder.
Penetrando através os sulcos abertos pelo autoritarismo larvar, a visão de mundo de direita se espalha pela sociedade e está presente nas instituições, nas relações sociais, nas relações interpessoais, nas relações econômicas e nas relações políticas, empedrando corações e manipu-lando mentes. Construindo homens e mulheres de cidadania diferenciada, segundo a renda, a cor, o gênero, a origem, a naturalidade. Não se trata de caruncho carcomendo entranhas, mas de um vírus. Espero estar enganado, mas desconfio de que, se não lhe for oposta resistência, breve essa peçonha poderá ter infectado todo o organismo social.
O tal de “rolezinho”, um passeio programado de jovens pobres e “de cor” pelos shoppings de luxo em São Paulo, é reprimido por seguranças pri-vados, armas em punho, pela polícia, e, inacreditavelmente, proibido pela justiça, que deveria assegurar o direito de ir e vir de todos, senão fosse uma justiça de classe, de olhos bem abertos para ver as diferenças e proteger o mais
Roberto Amaral 71 forte. O espaço público é de todos, mas esses jovens vêm, na sua maioria, das periferias e, por isso, são negros e pobres. E pobres porque negros.
Com a ascensão social e econômica esses jovens passaram a reivindicar o direito de circular nos salões até aqui inacessíveis. Ora, na sociedade de classes o bom pobre é aquele que “conhece o seu lugar”, a saber, fora dos templos do consumo, onde sua presença só faz perturbar a consciência tran-quila da pequena burguesia, que, supõe ela, nada ter a ver com a pobreza e a concentração de renda, de que é simplesmente a beneficiária. Torna-se insuportável a presença desses pobres intrometidos que, até, já deram adeus aos ônibus interestaduais e viajam de avião “entulhando os aeroportos”.
No Rio de Janeiro, virou moda subir o morro “pacificado” e desfrutar da linda vista do Vidigal ou do Chapéu Mangueira. A classe média e turistas confraternizam. Se o asfalto pode subir, os do morro não podem pensar em descer! Imagina se amanhã os pobres resolvem governar...
Na Câmara dos Deputados, um conhecido parlamentar, ex-oficial do Exército, bem formado e bem nutrido pela caserna, vocaliza o pensamento de direita que contamina a classe média brasileira e aplaude a violência com seu português claudicante: “Praticaram [os agressores] um ato corajoso [30 jovens parrudos contra um menino de 15 anos…] quem deu uma surra nesse vagabundo, porque os moradores estão cansados de serem roubados e assaltados por essa gentalha”.
É em nome de tais valores que esse deputado pleiteia a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos. Nos púlpitos eletrônicos, incons-titucionais, nossa gente, crédula, prostra-se à mercê da pregação diária do primitivismo e do medo, medo que passa a ser a característica de nossos tempos. Com seu óbolo, seu dízimo, sua esmola, tirados do arroz e do feijão, enriquece empresas de toda sorte, inclusive poderosas empresas de comu-nicação, mas guarda a esperança de que, se aqui na terra a realidade é tão severina, no além que lhe promete o pregador-empresário terá a vida eterna.
Diariamente nas emissoras de rádio, o tempo todo, nos finais de tarde nos canais de televisão, o cantochão é a ladainha do atraso. As programações das emissoras de rádio (valho-me do que ouço nos táxis), em todo o país, a toda hora mas pela manhã principalmente, reunindo
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grupos de idiotas adrede selecionados, em programas de falsos debates, abusa-se do direito de desinformar e formar mal, defende-se a violência como resposta à violência, a discriminação e os preconceitos mais primários. No altar da irresponsabilidade o pleito da pena de morte, a exaltação da repressão policial como alternativa a “uma justiça que não pune” e a um Poder Legislativo ‘que não vota a redução da maio-ridade penal’. Este, aliás, é Poder execrado. E para todos eles, os tais
“debatedores”, o grande mal é a política e os políticos, sem os quais, lembremos, não há democracia alguma, uma das lições da última dita-dura, instaurada em 1964 exatamente para livrar a nação dos políticos e da política. Deu no que deu. Para compreender o filme será necessário pedir uma reprise?
É sempre assim que o ovo da serpente é chocado.
Em nome da liberdade de imprensa, e em plena democracia, hoje, desapareceu o debate, desapareceu o contraditório, desapareceu o con-fronto ideológico, restrito a dois ou três “jurássicos” com seus textos circulando em públicos restritos. Em seu lugar foi instaurado o dis-curso monocórdio da direita, unívoco, a mesma ideologia, repitamos sempre, que construiu as bases políticas do golpe militar que, em nome da democracia, a aboliu por 20 anos. A direita parece haver ganho uma guerra que não precisou disputar. O adversário capitulou.
Longe do articulista temer o avanço político ou mesmo eleitoral dessa direita. Ela sempre perdeu as eleições e vem sendo derrotada segui-damente pelo voto popular, pelo que a única alternativa que conhece é o golpe de Estado, em qualquer de suas múltiplas modalidades. Por isso repudia a política e os políticos, e se coloca à margem dos partidos.
A questão que procuro sublinhar é o espaço crescente que passa a ocupar em nosso país o pensamento da direita orgânica. Ele está hoje pre-sente em todos os aparelhos ideológicos; está na burocracia e na tecno-burocracia; está nas salas de aula; está no Poder Judiciário, está no Poder Legislativo em seus diversos níveis; avança, até, entre o chamado mundo do espetáculo. Se começa pela grande imprensa, transborda para a
Aca-Roberto Amaral 73 demia, passando pelos movimentos estudantil (aí estão os Blackblocs, de nítida inspiração fascista) e sindical, este de corte puramente econômico e dominado pelo “sindicalismo de resultados”. Aliás, buscar resultados, tão só o resultado, a qualquer preço, inocular como valor essencial o “ganhar a vida” a qualquer preço, ao preço até da honra, o mais rapidamente pos-sível, se possível sem muito trabalho (para isso está de portas abertas o mercado financeiro), a velha doutrina do “levar vantagem sempre”, essa é a grande vitória ideológica da direita no Brasil. Na contraface, a ausência do pensamento progressista, na medida em que os partidos revolucioná-rios sucumbiram e os partidos que se diziam de esquerda e os que se dizem da esquerda reformista são dominados pelo império do sucesso eleitoral, este também a qualquer preço, mesmo que seja ao preço da renúncia a programas e doutrinas.
Desapareceram, como formuladoras de pensamento e ação, e assim mobilizadoras da chamada “opinião pública”, as grandes entidades da sociedade civil, hoje fantasmas de um passado que não conseguem reviver, pois a história não dá meia volta. Não são mais os estudantes que saem às ruas mobilizados por suas entidades de classe. São os jovens desorganizados em busca de causa. Extinguiu-se o que o sempre saudoso Antônio Houaiss chamava de “pensação”, a arte (dever) do livre pensar, mas pensar sempre, produzir sempre. Pensar o Brasil, suas crises e suas soluções, pensar o povo brasileiro.
Na ausência do pensamento de esquerda, silente, na ausência do pen-samento e da formulação socialistas (órfãos), na ausência do confronto ideológico (evitado pela esquerda), crescem o pensamento e a ação da direita, monopolizando as correias de transmissão de ideias, a formação de militantes, de quadros, de pensadores, de formuladores.
Não há mais necessidade dos Chicago boys. Eles podem ser formados aqui mesmo.
(CC, 12.02.14)
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