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experiência cristã

B. A análise da experiência cristã

A iniciativa procede do lado divino. A mensagem nos al­ cança, na maioria das vezes, através de agentes humanos. A sua importância maior é que Deus estava em Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo (2 Co 5.19). A salvação do pecado e de suas conseqüências é a responsabilidade do chamado do evangelho. Os homens são convidados a abandonarem seus pecados e a confiarem e obedecerem a Deus, que se aproximou deles em Jesus Cristo. Assim percebe-se que Jesus Cristo é central e vital na mensagem do evangelho. O evangelho perde seu significado quando separado dele.

1.0 ponto de contato da mensagem do evangelho nos homens é a consciência de pecado. Existem outros elementos subordinados da consciência de pecado, tal como o sentimento de desamparo e dependência, e o sentido de necessidade. Eles estão acompanhados, em graus variados, pelo sentido de solidão doentia e de culpa. Em muitos casos assume a forma de autocondenação e de extremo desespero. Na linguagem da psicologia, esse estado da mente é algumas vezes descrito como "contradição interior", "um sentido de mal consigo mesmo, tais como somos por natureza" e "o ego dividido", entre outras.

O evangelho intensifica a consciência de pecado. Naqueles que não regenerados há vários graus de sua manifestação. Algumas vezes não existe de forma alguma como "consciência de pecado" mas de outra maneira, como o sentido de dependência, ou o almejar por coisas mais elevadas. Em cada instante, entretanto, o efeito do apelo do evangelho, quando a consciência natural é despertada, é um aprofundamento do sentido de pecado e culpa. A ação renovadora do Espírito Santo, no impacto da mensagem do evangelho, é vista quando o pecador adentra um novo universo moral, com novos potenciais morais à medida que passa do estágio de transtorno ao da regeneração.

2. A resposta do pecador à mensagem do evangelho é um ato de liberdade moral. Deus se aproxima graciosamente dos homens com a oferta da salvação através de Cristo. Mas as forças divinas que operam através do evangelho estão ordenadas e adaptadas para evocarem uma livre resposta moral da parte do homem. Coação aqui, como em qualquer parte na esfera moral, destruiria o mais elevado elemento na natureza humana.

A resposta humana ao apelo do evangelho consiste, nos primeiros estágios, de dois atos: primeiro, em afastar-se do pecado e, segundo, em um ato de confiança em Jesus Cristo como redentor propiciatório. O arrependimento, ou o afastar-se do pecado, é uma parte necessária da relação entre Deus e o homem, visto que uma renovação da comunhão será impossível enquanto o pecado — que anteriormente havia destruído essa comunhão — permanecer.. A fé, ou confiança em Deus como revelada no Cristo propiciador, também é essencial, porque a união com Deus que efetua a renovação espiritual é impossível de outro modo.

3. A atividade divina na experiência cristã é correlativa com a humana. Há quatro aspectos dessa atividade que devem ser mencionados. O primeiro é o perdão. A certeza do perdão se torna uma necessidade espiritual logo que se concebe o pecado

como um rompimento da comunhão com a pessoa divina. Se o pecado é considerado uma enfermidade ou meramente um equívoco, ou mera ignorância, ou uma fase simplesmente no crescimento humano, o perdão não seria um dos imperativos da experiência religiosa. Uma visão panteísta do mundo acompanha estas concepções menos relevantes de pecado. A revelação cristã exalta personalidade em Deus e no homem. Por isso, o perdão se torna uma necessidade absoluta, para a consciência de redenção se tornar eficaz ao homem.

Intimamente relacionado com o perdão está a justificação. A justificação, o ato de Deus que declara os culpados livres da penalidade do pecado, está alicerçada na obra propiciatória de Cristo. Assim, Deus justifica os ímpios e provê para eles um novo estado. Perdão e justificação estão intrinsecamente relacionados. No Novo Testamento a justificação é o ato de Deus que declara essa nova relação. O perdão estabelece essa relação. Nela o homem é aceito e restaurado ao favor divino.

A regeneração é o resultado da ação direta do Espírito Santo sobre o espírito do homem. Nela o crente arrependido recebe uma nova natureza. Ali há uma mudança radical no alvo e propósito de vida, o advento de um novo conjunto de motivos e uma renovação moral e espiritual da vontade. Nas escrituras, a mudança de na­ tureza é descrita como o "novo nascimento" ou a "nova criação".

A adoção é o ato de Deus aceitando a pessoa regenerada como seu filho. Nela o Espírito Santo confere a consciência filial pela qual clamamos: "Aba, Pai". Nossa filiação é assim uma re­ lação de natureza, desde que nascemos de novo, e também uma relação constituída por designação divina, pois é o estado da graça de Deus.

A consciência de nossa filiação e da paternidade de Deus é o clímax da consciência cristã. Nela está contida toda possibilidade

de transformação moral para o indivíduo e para a sociedade. Nesta consciência filial, de fato, toda experiência e toda vida são transformadas para o cristão, e todas as experiências comuns são cumpridas em suas formas elevadas. Conhecemos obediência na forma comum, mas a obediência filial é nossa suprema emancipação. Conhecemos o pecado em nossas relações sociais, mas o sentido de pecado contra o Pai celestial se torna a mais pungente de todas as aflições e tristezas. Conhecemos a vergonha em nossas relações humanas, mas nesta relação a vergonha se torna degradação pessoal, ao mesmo tempo que todas as outras espécies de vergonhas parecem levianas. Temos conhecido a esperança, mesmo esperança religiosa, baseada em doutrinas filosóficas. Mas esperança filial, baseada no conhecimento experimental de Deus Pai, é o apogeu e glorificação de toda esperança. Temos conhecido o amor pessoalmente, mas essa afeição filial é um "amor divino que excede todos os amores". Nossa consciência filial se torna assim a consciência dominante de toda a vida e o cumprimento transformador de todo elemento de nosso ser.

A conversão é o ato exterior humano correspondente ao conceito que acabamos de descrever em esboço. A mudança interior da vontade afastando-se do pecado para a retidão tem a sua expressão externa adequada na conduta diária. O que chamamos de experiência cristã, portanto, não é meramente o que se conhece normalmente como experiência de conversão. A experiência de conversão é o estágio inicial de um processo que se estende por toda a vida. Além disso, concentra em si mesma todos os elementos que operam posteriormente. É a vida cristã na forma germinal. Mas devemos evitar pensar a respeito da experiência cristã meramente em termos de experiência de conversão, o que é apenas um fragmento do todo.

A análise precedente da experiência cristã foi feita propo­ sitadamente de forma resumida. Ela constitui o trabalho de base do sistema doutrinário que seguirá neste tratado. Também é vital

para a discussão da questão diante de nós, isto é, como podemos conhecer a Deus?

Há certas características da experiência cristã que devem ser consideradas um meio para mostrar o conhecimento de Deus e preparar o caminho para uma conclusão geral sobre o assunto.