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Capítulo 3 Bonecas de sabugo, gatas borralheiras e jovens mães

3.1 Pobreza feminina e trabalho reprodutivo

3.1.1. a As bonecas de sabugo e o trabalho na roça

Nasci em Ibaté, éramos em 12 irmãos, meu pai era caldeireiro desde quando veio do Pernambuco, minha mãe veio de lá com ele, já tinha a D. Teresa e o Sr. Cláudio, que nasceram lá. Meu pai trabalhava na Usina da Serra e a gente morava em uma colônia da Usina, eu nasci lá. Depois, com 5 ou 6 anos fomos para outra Usina, a Usina Zanin, morar na Colônia das Flores (Helena – Caderno de Campo, 2017).

A Usina da Serra foi criada em 1953 na “cidade-dormitório” de Ibaté, entre Araraquara e São Carlos, em um contexto de constituição da monocultura da cana na região, como nos mostra Beatriz Medeiros de Melo (2008). De tradição inicialmente pecuarista, conhecida como os Sertões de Araraquara, a região começa a ser produtora de café na segunda metade do século XIX, com a crise de produção do café no Vale do Paraíba. Com o café e as estradas de ferro, surgem os pequenos núcleos urbanos às margens das ferrovias. Mas o início do século XX é marcado pela crise de superprodução do café e baixa dos preços, dando novo impulso à produção de cana-de-açúcar, desta vez em larga escala. A autora vai mostrar que nossa região é marcada por uma “territorialidade própria do capital agroindustrial” e que este “vem se fortalecendo desde que se instauraram os primeiros Complexos Agroindustriais na região de Ribeirão Preto” na década de 1970 (MELO, 2008, p. 32).

A Usina da Serra foi sustentada inicialmente pelo sistema de colonato, mas que já estava mostrando sinais de decadência, fato atribuído ao Estatuto do Trabalhador Rural, que individualiza o trabalho das mulheres e das crianças e desconta do salário a produção de subsistência, fazendo com que o colonato fosse perdendo seu sentido. “E seu fim compõe o quadro da migração campo-cidade, quando ex-colonos passam a migrar para as cidades circunvizinhas” (MELO, 2008, p. 37).

Dulce C. A. Whitaker realizou uma pesquisa em seu doutorado, mostrando a ideologia e as práticas culturais na zona rural em transformação, impactada pelo complexo industrial da cana. A pesquisa foi realizada da década de 1980 nos canaviais do entorno de Araraquara, especificamente em escolas rurais da cidade de Santa Lúcia. A pesquisadora denomina esse espaço de “franjas do rural-urbano”, espaço marcado pelo predomínio do trabalho volante. Ela mostra que velhas fazendas de café foram arrendadas pela Usina e transformadas em plantations, onde foram construídas casas de alvenaria para fixar um certo número de trabalhadores/cortadores de cana (WHITAKER, 1989, 2002).

Num determinado momento deixava de ser racional às empresas a superexploração dos cortadores de cana, porque miséria e absenteísmo faziam cair a produção. Entre as soluções encaminhadas, merece especial atenção aquela que resultou no fornecimento da moradia para fixar um quantum de trabalhadores (WHITAKER, 1989, p. 105). Dulce vai mostrar que morar nessas casas exigia da família trabalhadora o cumprimento de duras exigências. A mulher era proibida de trabalhar fora e tinha que cumprir seu papel de dona de casa com eficiência, mantendo a limpeza e ordem da casa, a limpeza dos filhos, a manutenção de todo o serviço doméstico, cuidando de uma horta doméstica e

transformando mercadorias em valor de uso, para baratear os custos da força de trabalho e manter a harmonia familiar.

Helena, contando sobre o tempo de infância em que morou nas colônias, diz que a mãe dela gostava de plantar e tinha horta, milho, mandioca, abóbora, manga, abacate. O pai era caldeireiro. As meninas mais velhas ajudavam a mãe a cuidar da casa e dos irmãos, o pai e os irmãos trabalhavam na roça.

Whitaker (1989, p. 111) desmascara a ideologia que esconde a exploração do trabalho infantil, mostrando que a valorização do trabalho, culturalmente importante nas camadas populares, é manipulada para que o trabalho abstrato, submetido a normas alheias e hostis, seja aceito como algo natural. No caso em questão, a usina constrói escolas, fornece merenda, supervisiona o trabalho de professoras e a frequência dos alunos, “mas logo esse interesse cessa quando a criança apresenta massa muscular suficiente para o corte da cana, o que revela o caráter manipulador da sua interferência”.

Quando eu tinha nove anos eu sofri um acidente com álcool, fui acender o fogão de lenha com álcool para fazer comida para meus irmãos levarem no corte da cana. Queimei mais de 50% do meu corpo, fiquei nove meses internada no hospital. Meus pais vieram então morar no Santana [bairro de Araraquara], até por conta do que aconteceu comigo (Helena, Caderno de Campo, 2014).

O trágico acidente com Helena deixa claro que durante a morada nas colônias das usinas os meninos trabalhavam no corte da cana, enquanto as meninas ajudavam no trabalho doméstico. O acidente desencadeou uma mudança estrutural na vida dessa família, do campo para a cidade, do trabalho rural para os biscates urbanos. As crianças seguiram trabalhando, pois de outra forma a família não conseguiria se sustentar.

Depois que eu sofri o acidente, minha mãe resolveu morar na cidade para ficar mais fácil. Meu pai tinha um terreno no Santana, morava todo mundo em dois cômodos, aí mudou tudo, escola, aí já tinha que pôr um para vender sorvete, outro para engraxar sapato, minha irmã foi trabalhar de doméstica, outro irmão minha avó adotou e levou para São Paulo (Helena – Caderno de Campo, 2017).

Para Maria Aparecida Cecílio, aprender a trabalhar para produzir não envolve princípios educativos emancipatórios. “A realidade das famílias dos trabalhadores rurais, em sua maioria analfabetas é permeada pelo trabalho infanto-juvenil de caráter penoso em atividades braçais, que exige esforço físico concentrado” e que resultam em diversos problemas como a impossibilidade de frequência escolar, o distanciamento entre pais e filhos, doenças e, inclusive, “na consolidação do pensamento popular que extrai do trabalho precoce

a justa medida para combater os problemas sociais que afetam a criança e o adolescente, justificando com a precocidade laboral, a garantia do sustento da família” (CECÍLIO, 2004, p. 16).

Entre as catadoras entrevistadas, todas as que nasceram nas décadas de 1950 ou 1960 trabalharam na roça durante a infância. Se considerarmos o total das catadoras da Cooperativa Acácia, veremos que 30% delas têm 50 anos ou mais. A maioria dessas mulheres (76%) nasceu em Araraquara ou nas cidades vizinhas. Seis vieram de Pernambuco, duas da Bahia, uma da Paraíba, duas do Paraná e duas de Minas Gerais.

Cleuza tem 54 anos, nasceu e mora em Américo Brasiliense, cidade vizinha a Araraquara, teve sete irmãos e estudou até a quinta série. Ela estava com muita vergonha de falar comigo e me contou que sua infância foi boa, mas que o pai era bravo demais. “Comecei a trabalhar com 13 anos no corte da cana, na laranja, amendoim e parei de estudar, meus pais não faziam questão, precisava mesmo era trabalhar. Hoje eu me arrependo, queria ter estudado” (Cleuza – Caderno de Campo, 2017).

Rejane nasceu em Pernambuco, tem hoje 53 anos, contou que teve uma infância boa e que em sua casa eram oito crianças - quatro homens e quatro mulheres. O pai tinha um engenho. Perguntei o que é um engenho e ela me esclareceu que é um sítio grande, onde eles plantavam de tudo e vendiam na feira. “A família toda trabalhava na propriedade”, diz Rejane (Caderno de Campo, 2017).

Roseli tem 53 anos, nasceu em Araraquara e contou que ela e o irmão trabalharam na roça: “eu já colhi algodão, já cortei cana, já puxei colonhão com meu irmão, a única coisa que não me dei bem foi quebrar milho e amendoim. Nossa, dá dor nas costas, eu não prestei não” (Roseli – Caderno de Campo, 2017).

Marlene nasceu no Paraná, em sua casa eram seis irmãos. Hoje ela tem 55 anos e conta que teve uma infância muito boa, que tinha um pai maravilhoso e a mãe também, mas que a vida lá era mais sofrida do que aqui: “quando a gente era mocinha trabalhava no café, cortando cana, sabe? Era mais sofrida, trabalhava na roça” (Marlene – Caderno de Campo, 2017).

Milhares de crianças e jovens trabalham de sol a sol nos canaviais e no engenho, principalmente em Alagoas, Bahia e São Paulo. Na safra, fazem o corte da cana, ajudam a transportar os feixes para o engenho. Na entressafra, pegam na enxada para ajudar os pais a limpar o canavial (OIT, 2001, p. 22).

Encerro o dia de entrevistas me lembrando da minha avó materna, que contava do trabalho na roça como parte da infância, assim como da minha mãe recordando que com 7 anos já sabia cozinhar o arroz.