Capítulo 3 Bonecas de sabugo, gatas borralheiras e jovens mães
3.2 Mulheres pobres e novas configurações do trabalho
Quando eu procurei a Acácia eu estava desempregada, eu estava em uma situação muito difícil, muito mesmo, teve dia de eu falar “eu vou dar um fim”. Eu já tinha separado do marido, estava eu e a Vânia [filha], aí uma amiga minha falou assim para mim “Marilene, porque que você não vai lá na Usina de Lixo, manda um currículo lá, eu vou
levar você lá”, eu aceitei, ela me trouxe e me esperou ali na portaria, eu deixei meu currículo, não demorou nem uma semana e a Helena me chamou. Daí eu vim, cheguei e olhei no povo e falei “meu Deus, que que eu estou fazendo aqui?”, achei muito estranho e porque tinha lixo orgânico no meio, mas assim eu fiquei olhando aquilo e resolvi ficar naquele dia para não fazer feio, “mas amanhã eu não volto”. E naquele tempo, a gente não tinha essas coberturas, era tudo sol, você chegou a ver essa época? Nós tirávamos tampinha ali tudo no sol. Não tinha essas prensas, cobertura era só da esteira e da esteirinha, todo dia tinha que limpar um pouco de pet´s, tirar a tampinha, aí subia um pouco para a esteira e quem ficava tinha que ficar no sol. “Meu deus, eu não vou ficar aqui, eu não mereço isso, eu não aguento de dor no corpo”... Se for juntar as idas e as voltas, faz uns 10 anos ou mais que eu estou na Acácia. Quando eu cheguei aqui pela primeira vez, a gente trabalhava com o lixo orgânico ainda, faz muito tempo, depois que começou a vir a coleta, porque a gente passava o lixo orgânico primeiro e depois passava a coleta (Marilene - Caderno de Campo, 2017).
Não tenho vontade de sair daqui. Eu adoro. Para você ver, é o meu primeiro serviço, que eu estou fixa, é a cooperativa. Nunca trabalhei, nunca. É o primeiro serviço meu, sempre fui dona de casa, cuidava de casa (Kika – Caderno de Campo, 2017).
Marilene nasceu no Paraná e me contou que a vida da família lá era sofrida, que quando ela era jovem trabalhou no café e cortando cana porque em sua casa eram seis irmãos. Ela veio para Araraquara aos 24 anos morar com a tia na Usina Maringá, onde ela trabalhou na cana: “de tudo eu já fiz, corte da cana, colher laranja, apanhar algodão, quebrar milho, todos serviços braçais, pesados”, ela comenta. Depois ela conheceu o ex-marido, casou-se e teve apenas uma filha, a Vânia. Quando procurou trabalho na cooperativa, ela estava separada, com a filha adolescente para sustentar e desempregada. No início foi difícil para ela porque eles ainda trabalhavam triando o lixo domiciliar, mas entre idas e vindas ela foi resistindo e ficando na cooperativa.
Eu perguntei para ela se o trabalho na cooperativa mudou a sua vida e ela me respondeu da seguinte forma:
Mudou. Depois que eu comecei a trabalhar aqui, minha vida mudou muito, para melhor, porque antes eu trabalhava como faxineira e faxina é uma coisa que uma época vai muito bem, mas tem época que já não, então, para você ter o dinheiro você tem que trabalhar todos os dias, entendeu? Faxina é uma coisa muito corrida, você ganha até bem, mais ou menos, mas a sua vida também é uma correria, você tem que pegar uma casa inteirinha, desmontar ela tudo num dia e montar de novo, você imagina de segunda a sexta ou sábado, todo dia a
mesma coisa. Eu ganhava mais ou menos, mas era muito cansativo. Depois que eu comecei a trabalhar aqui eu ganhava bem menos que como faxineira, mas com o salário daqui é que eu consegui todas as conquistas que eu tenho (Marilene – Caderno de Campo, 2017). Assim como Marilene, muitas catadoras tiveram uma trajetória profissional semelhante, intercalando o trabalho nas safras da cana e da laranja, o trabalho como faxineiras e o trabalho na cooperativa Acácia.
Eu gosto do trabalho na Acácia, prefiro do que o trabalho anterior no corte da cana, que era muito mais pesado (Cleuza – Caderno de Campo, 2017).
Eu estava desempregada, fazia faxina, mas eu cansei e vim pra cá. Depois eu saí daqui. Aí cansei da faxina, vim pra cá de novo (Roseli – Caderno de Campo, 2017).
Eu trabalhei na coleta, aí eu fiquei fora 1 ano e fui trabalhar de fazer faxina. Aí meu marido foi preso e minha vida mudou completamente (Sônia – Caderno de Campo, 2017).
Quando eu tive a Aldriene estava desempregada e fazia só faxina. Ela tinha 3 para 4 anos na época que eu conheci a coleta seletiva lá no Ecoponto (Débora – Caderno de Campo, 2017).
Cleuza está há 7 anos na cooperativa. Roseli, desde a última vez que voltou já soma 8 anos. Sônia faz 11 anos que está na cooperativa, ficou apenas 1 ano fora. Débora começou no grupo do Ecoponto há 12 anos e depois ingressou na Acácia. As quatro são coordenadoras: Cleuza e Roseli são coordenadoras de produção na usina de reciclagem, Sônia e Débora coordenam os grupos F e C da coleta seletiva.
Para Kika, que é coordenadora do grupo D da coleta seletiva, a cooperativa representou a oportunidade do primeiro trabalho, pois ela sempre foi “dona de casa”. Na infância, cuidou dos irmãos, casou cedo e teve uma filha. Quando o marido morreu, ela voltou a morar com a mãe e passou a receber uma pensão do INSS pela morte do cônjuge. Depois de alguns anos casou novamente e agora tem outro filho com 6 anos. Ela começou a trabalhar na Acácia antes de ter o segundo filho e trabalhou até o dia em que ele nasceu, teve direito à licença maternidade e ficou mais dois anos desligada da cooperativa para cuidar do bebê. Depois voltou e diz que adora o trabalho.
Para Marta, a cooperativa também representou a conquista do primeiro trabalho e foi uma necessidade para sustentar sua filha, devido à separação do marido:
Com a reciclagem foi quando eu me separei, que eu nunca tinha trabalhado, sempre fui autônoma. Antes de entrar na cooperativa, eu trabalhava com lingerie, mas com a crise, ficou difícil manter a
mercadoria para vender e me vi desempregada, e a primeira oportunidade que apareceu de convite foi entrar na cooperativa. Foi onde eu entrei e sofri muito nesse período porque muitos criticavam, ninguém conhecia, era um serviço ainda desvalorizado, mas era a oportunidade que eu tinha, sem estudo, sem experiência em qualquer área, foi o que me surgiu. E desde lá é onde eu estou, porque a gente melhorou, conquistou várias coisas e eu também pessoalmente progredi muito conhecendo pessoas, tendo contatos e oportunidades (Marta – Caderno de Campo, 2017).
Kely também entrou na cooperativa por necessidade de sustentar a filha. Ela engravidou com 19 anos, foi morar com o pai da criança, mas separou-se quando a menina tinha 4 meses porque ele era usuário de drogas. Voltou para a casa da mãe e começou a catar material reciclável na rua, como autônoma. Ela armazenava num canto da casa e vendia no depósito de um japonês perto de sua casa. O dinheiro da venda do material dava para comprar as fraldas para a filha. Logo ela conseguiu uma vaga no programa Frentes de Trabalho (um programa da prefeitura municipal de Araraquara que contratava trabalhadores em regime temporário para o serviço de limpeza urbana) e trabalhou 1 ano registrada. Nesse tempo ela conheceu a Marta, que fazia coleta seletiva no bairro onde elas moravam. Ao ficar desempregada, Kely levou um currículo na Acácia e foi chamada para trabalhar em menos de 1 mês.
Gildete sempre cuidou da casa e dos irmãos, teve duas filhas ainda muito nova, com 15 e 17 anos e continuou solteira, morando na casa dos pais e cuidando de todos. Depois casou duas vezes e teve mais dois filhos. Ela me contou que fazia “bicos” de babá ou doméstica, que fazia tricô e tapetes para vender, mas que “trabalhar mesmo de verdade, foi só quando eu larguei desse último marido meu, pai do caçula” (Gildete – Caderno de Campo, 2017).
Michele começou na Acácia com 19 anos, precisava ajudar em casa, a mãe ficara viúva e ela diz não ter encontrado outra opção. Foi a Edinalva, mãe dela e cooperada antiga, que inseriu a filha na cooperativa. Edinalva hoje está aposentada.
Para Jaqueline, 19 anos, foi também o primeiro trabalho, embora já tivesse feito faxinas. Foi também sua mãe, Norma, que a colocou na cooperativa. Outra moça jovem é a Deise, que tem 20 anos e me contou que terminou o colegial e fez um curso para entrar no corpo de bombeiros, mas não conseguiu realizar a prova porque no dia do exame ela não tinha dinheiro para a passagem de ônibus.
Antes trabalhei de entregar panfleto, no MC Donalds, na eleição e na pastelaria. Eu estava indo atrás de serviço e não achava, aí minha cunhada Karina conhece a Roseli e conversou com ela. Eu vim, trouxe os papéis e no outro dia já comecei. Minha cunhada não quis, só eu. Ela era meio nojentinha. Eu gosto de trabalhar aqui. No começo foi difícil, as meninas pegavam muito no meu pé, “faz isso, faz aquilo”, aí como é novato... depois peguei o jeito e vi que não era tão ruim assim (Deise – Caderno de Campo, 2017).
A Vânia me contou que tem diabetes e sua mãe nunca deixou ela trabalhar por conta disso, “ela acha que eu sou uma pessoa doente, porque já me viu na UTI, já me viu entubada, perdendo a vida e tomando choque para voltar”, então ela conta que a mãe não acreditava ser possível ela conseguir trabalhar na Acácia.
Um dia a sobrinha da Roseli falou que a Kely ia me contratar para trabalhar na coleta, que na rua sai cedo e é melhor por causa de ter filho, facilita deixar e buscar na creche. Primeiro emprego com 22 anos, grupo D, 26 de setembro de 2012 (Vânia – Caderno de Campo, 2017).
Para as mulheres que entrevistei, o trabalho na cooperativa surge como a única ou a melhor alternativa ao desemprego. Quando voltei a campo em 2017 para entrevistar as catadoras e conhecer a trajetória de vida e de trabalho delas, me dei conta que por trás de cada depoimento havia questões e relações complexas que envolvem trabalho e gênero. A pobreza é uma marca na vida dessas mulheres, majoritariamente negras. Quando elas começaram a falar da infância, suas memórias trouxeram à tona a questão do trabalho infantil, da responsabilidade em cuidar da casa e dos irmãos, da impossibilidade de estudar. Algumas me contaram episódios de discriminação racial e de violência doméstica, tanto na infância quanto na vida adulta. A maioria delas, quando adultas, foi trabalhar na safra da cana e da laranja ou fazendo faxinas, muitas casaram bem cedo para fugir do ambiente familiar parental, quase todas tiveram o primeiro filho em torno dos 20 anos ou muito antes dessa idade.
Existe uma relação intrínseca e de difícil ruptura entre gênero, pobreza e trabalho precário. A baixa escolaridade e a ausência de qualificação profissional, o peso que o trabalho reprodutivo ocupa na vida das mulheres pobres e a necessidade de adquirir renda para o sustento da família direcionam essas mulheres para ocupações precárias.
De acordo com Heleieth I. B. Saffioti (1987, p. 8), a identidade da mulher e também do homem são construções socioculturais que lhes atribui determinados papéis sociais de acordo com diferentes categorias de sexo. “A socialização dos filhos, por exemplo, constitui tarefa tradicionalmente atribuída às mulheres”, mesmo quando elas exercem um trabalho extra lar. Quando conseguem delegar essa função a outra pessoa é, geralmente, para
outra mulher. A autora ressalta que “a responsabilidade última pela casa e pelos filhos é imputada ao elemento feminino” (ibid., p. 9), mas que existe uma diferenciação de classe social já que mulheres com maior poder aquisitivo podem contar com os serviços de outras mulheres no trabalho doméstico e no cuidado dos filhos, mostrando que “a vida de mulher varia segundo a classe social dos elementos do sexo feminino” (ibid., 9).
Para Saffioti, a atribuição do espaço doméstico à mulher é uma construção sociocultural em que a sociedade investe esforço para naturalizar esse processo. “Quando se afirma que é natural que a mulher se ocupe do espaço doméstico, deixando livre para o homem o espaço público, está-se, rigorosamente, naturalizando um resultado da história” (ibid., p. 11). A autora também afirma que existe uma desvalorização social do espaço doméstico e uma ideologia da inferioridade feminina, que se baseia no argumento de que as mulheres são menos inteligentes do que os homens. Essa discriminação da mulher mascara o fato de que as especificidades da “vida de mulher” levam ao confinamento doméstico e que “ficando em casa todo ou quase todo o tempo, a mulher tem menor número de possibilidades de ser estimulada a desenvolver suas potencialidades. E dentre estas encontra-se a inteligência” (ibid., p. 14). Ou seja, a inferioridade feminina é social e advém de estruturas de dominação masculinas, como veremos mais adiante.
A divisão sexual do trabalho é uma categoria importante para entender a dinâmica entre gênero e trabalho associado em cooperativas de catadores. O referencial teórico utilizado para analisar tais questões segue as indicações da pesquisa realizada por Ioli G. Wirth (2010, 2013) em duas cooperativas de catadores da cidade de Campinas/SP. Baseando- se na sociologia do trabalho e do gênero, a autora vai mostrar como gênero, definido por Joan Scott (1994, p.13) como “a organização social da diferença sexual”, articula-se com trabalho, realizando uma reinterpretação do conceito de classe (SOUZA-LOBO, 1991; HIRATA e KERGOAT, 1994) e uma ressignificação das “categorias do mundo do trabalho à luz das relações sociais de sexo” (WIRTH, 2013, p. 60). Assim, abre-se um novo campo de investigação com foco na divisão sexual do trabalho, ou seja, na divisão desigual do trabalho entre homens e mulheres, divisão hierárquica, que valoriza mais o trabalho masculino do que o feminino, assim como o trabalho produtivo em detrimento do reprodutivo.
No âmbito da Sociologia do Trabalho, Angela M. C. Araújo (2012, p. 167), diz que as relações de gênero no Brasil foram impactadas por um conjunto de transformações, mas sem alterar a divisão sexual do trabalho de forma significativa. A autora acrescenta:
O peso para as mulheres das obrigações relativas às atividades reprodutivas permanece como um elemento a influenciar sua inserção
e confinamento, principalmente no contexto da informalidade, nas atividades e relações de trabalho mais desqualificadas e desvalorizadas por serem vistas como uma continuidade das tarefas desempenhadas no espaço doméstico (ARAÚJO, 2012, p. 168). Essa é a conclusão do artigo Informalidade e relações de gênero, em que a autora vai mostrar a configuração de uma “nova informalidade”, que “engloba as novas modalidades e relações de trabalho desprotegidos”, assim como “nichos de geração de autoemprego” (ARAÚJO, 2012, p. 165). Ela mostra que as formas flexíveis de contratação e relação do trabalho reforçam a divisão sexual do trabalho “entre setores da economia e no interior das cadeias produtivas, ao realocar a força de trabalho feminina nas empresas, atividades e trabalhos autônomos terceirizados, recriando uma segregação das mulheres nas ocupações desprotegidas, mal remuneradas e instáveis” (ibid., p.166).
De acordo com Leite (2011), desde a década de 1970 pode-se verificar um processo de mudança no mundo do trabalho e uma redefinição do pacto entre Estado, capital e trabalho.
O conjunto de transformações políticas e sociais que se seguiram, com o fortalecimento das políticas neoliberais, a diminuição da intervenção estatal, a reestruturação produtiva e o arrefecimento do crescimento econômico das principais economias mundiais, significou a abertura de um quadro extremamente difícil para os trabalhadores, marcado por crescimento do desemprego, perda do valor real dos salários e aumento das formas consideradas “atípicas” de trabalho, como o trabalho por tempo determinado, por tempo parcial ou terceirizado (LEITE, 2011, p. 29).
O trabalho desenvolvido por Araújo (2012) mostra que houve uma feminização do mercado de trabalho, ou seja, um “crescimento vertiginoso da participação feminina no mercado do trabalho, ocorrido nas últimas três décadas, com o ingresso de 32 milhões de mulheres” (ibid., p.136). Para a autora, nem mesmo a redução do desemprego e da informalidade, em tempos de crescimento econômico, foi suficiente para diminuir as desigualdades de gênero, e grande parcela das trabalhadoras foi inserida em posições precárias de trabalho. Ao final da década de 2000 as desigualdades de gênero e cor são essenciais na explicação da informalidade, uma vez que os “dados indicam que houve uma redução da participação dos homens e dos brancos (as) e um crescimento da presença de mulheres e dos negros (as)” (ibid., p. 160). E ainda ressalta que, entre as mulheres, “as não brancas foram as mais penalizadas pelo desemprego, com uma taxa, em 2008, de 11%, contra 8,3% das brancas e amarelas” (ibid., p. 164).
A feminização do mercado de trabalho ocorreu junto com a crescente escolarização feminina (BRUSCHINI e LOMBARDI, 2001/2002), que acarretou um processo de dualização ou bipolarização da ocupação feminina (KERGOAT, 1998). A bipolarização feminina no mercado de trabalho é um processo que se dá pelo crescimento de dois polos: um grupo de mulheres com alta escolarização e profissões qualificadas, e outro grupo de mulheres com pouca ou nenhuma qualificação, “desempenhando atividades não valorizadas, comumente sem contratos nem proteção legal” (LOMBARDI, 2012, p. 118).
Para Araújo (2012, p. 136), apesar da feminização do mercado de trabalho e da crescente escolarização das mulheres, não foram superadas a “tradicional divisão sexual do trabalho e as discriminações de gênero ainda presentes no mundo do trabalho”.
O trabalho de Maria Rosa Lombardi (2012, p. 119) sobre desigualdade de gênero no mercado de trabalho mostra que no Brasil existe a permanência de “aproximadamente 1/3 das mulheres em atividades precárias, como o emprego doméstico, a produção para o consumo próprio e o trabalho sem remuneração”. Ela retoma Hirata e Kergoat (2008) para mostrar que essas autoras identificam também uma bipolarização do trabalho doméstico feminino, sendo que “mulheres com trabalho mais qualificado externalizam o trabalho doméstico para mulheres mais pobres e vulneráveis” (ibid., p. 118). As mulheres que têm uma produção econômica e não conseguem externalizar parte do trabalho doméstico a outras mulheres acabam vivenciando uma maior ou dupla jornada de trabalho.
Além disso, entendendo que a flexibilidade da jornada para produção econômica influencia a parte do tempo destinada à reprodução social e que, quanto maior a flexibilidade, maior a precariedade, o mesmo autor entende que “o grau de precariedade da regulação social do trabalho tende a ser amplificada pela pressão sobre o trabalho de reprodução social” (DEDECCA, 2008, p. 294). Esse cenário atinge principalmente aqueles 12 milhões de trabalhadoras em posições precárias no mercado de trabalho” (LOMBARDI, 2012, p. 120-121). O crescimento do número de mulheres nas cooperativas e associações de catadores pode ser explicado pelo aumento do desemprego, pela falta de oportunidades de emprego formal e pelo baixo grau de escolaridade dessas mulheres, assim como pela flexibilidade das regras de trabalho existente nas cooperativas, que tende a se adequar melhor ao peso que as atividades reprodutivas têm em suas vidas.
Wirth (2010, p. 119/120) chega a concluir, após analisar cooperativas de catadores em Campinas, que a predominância feminina está ligada à precariedade na qual se encontram
essas cooperativas. Ela ressalta que a “articulação entre as tarefas produtivas e reprodutivas, que recai quase que exclusivamente sobre as mulheres, é uma das chaves explicativas para a situação comparativamente mais precária de inserção ocupacional da mulher”.
Miriam Nobre e Taís Viudes de Freitas (2012, p. 410) mostram que o aumento do trabalho feminino em cooperativas de reciclagem tem ganhado notoriedade e que muitas mulheres foram trabalhar em cooperativas de reciclagem “por estarem desempregadas e com poucas possibilidades de encontrar emprego, devido à baixa qualificação e por terem mais de 40 anos”. Algumas mulheres fizeram a opção por essa atividade em detrimento de outras, como, por exemplo, o de empregadas domésticas, e “preferiram a ‘experiência de não ter patrão’ e relações mais horizontais presentes nestas cooperativas”.
Na pesquisa realizada com as catadoras da Acácia, assim como na pesquisa de Wirth (2010, 2013), os depoimentos demonstram que o trabalho associado permite certa conciliação entre o trabalho produtivo e o reprodutivo, devido a acordos mais flexíveis, que lhes permitem enfrentar os problemas privados e se manter no trabalho.
IV: Aqui, como é cooperativa, não tem umas regras como tem a CLT e quando é mulher na coordenação fica mais fácil a gente se identificar e reconhecer o problema da outra, problema com os filhos, com creche quando não funciona. Eu sendo mulher e sendo mãe eu compreendo o problema que ela tem, porque eu também poderia ter, e para o homem já não.
III: Eu tenho muito problema, minha mãe está doente, eu comecei a mexer com os meus dentes. Eu tenho muitos problemas na minha casa, então eu tenho que perder dia. De primeiro eu não faltava muito, eu vinha certinho, mas eu tenho meus problemas
(Lideranças – Caderno de Campo, Grupo focal, 2015).
Analisando as quantidades de faltas dos cooperados da Acácia no mês de abril de 2017, percebemos que 42% das mulheres tiveram pelo menos uma falta no mês, sendo que mais de 20 mulheres faltaram de 1 a 2 dias, 13 mulheres faltaram de 3 a 5 dias e 9 mulheres