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Economia solidária: empoderamento feminino e redes de proximidade

Capítulo 4 – As práticas coletivas das catadoras e o modelo de gestão feminino

4.1 Economia solidária: empoderamento feminino e redes de proximidade

Economia solidária é o nome que se dá a um conjunto de iniciativas associativas, como cooperativas, associações, empresas recuperadas por seus trabalhadores, redes solidárias, clubes de troca, entre outras. O que essas experiências tão diversificadas têm em comum é a forma de geração de renda, que visa novas relações de trabalho, pautadas em princípios de uma economia que não tem o lucro como objetivo central e que tem como base os conceitos de autogestão, democracia direta e participativa, a posse coletiva dos bens e a distribuição equitativa dos ganhos. Os empreendimentos solidários, em geral, têm uma preocupação com a inclusão econômica e social de uma classe de trabalhadores desfavorecida e vulnerável (CF. CAPACLE, 2010).

Marcia de Paula Leite (2012, p. 227-228) aponta que a economia solidária tem sido um objeto de estudo importante da sociologia, seja pela novidade do fenômeno, seja pelos aspectos contraditórios que ele carrega. Ela mostra que os estudiosos sobre o tema têm se dividido entre os que defendem a economia solidária como “portadora de ideais de emancipação social”, aqueles que a veem como “um fenômeno efêmero, sem grande capacidade de transformação social” e ainda aqueles que a relacionam com o preenchimento de funções que seriam antes desempenhadas pelo Estado, ocasionando “uma tendência a corroborar as transformações introduzidas pelos princípios neoliberais e a promover o trabalho mal pago e destituído de direitos”.

O movimento social que organiza as atividades de economia solidária não tem o intuito de corroborar com o trabalho mal pago e sem direitos legais garantidos, pelo contrário, seus princípios têm como base uma economia socialista, visando a distribuição equitativa dos ganhos, a posse coletiva dos bens e a participação democrática dos associados. Internamente, existe uma tendência de os empreendimentos solidários funcionarem de acordo com seus princípios. Porém, na prática, a organização dos excluídos sob esse modelo ocupa um espaço

de trabalho precário, cuja informalidade e a baixa remuneração geram uma grande rotatividade de seus membros e a difícil sustentabilidade dessas organizações solidárias.

No caso do Brasil, observamos que os empreendimentos econômicos solidários (EES) surgem como uma alternativa ao desemprego e uma forma de gerar trabalho e renda para uma parcela da população vulnerável econômica e socialmente, com baixa escolarização e qualificação profissional, sem capital social ou condições de investimento em um negócio próprio. As associações ou cooperativas populares configuram-se como possibilidades para o início de um empreendimento que possa restituir aos excluídos trabalho, renda e condições de moradia e alimentação adequadas. O fomento de EES tem sido realizado pelo Estado, através de políticas públicas de economia solidária nas três instâncias (federal, estadual e municipal) e também por diversas entidades sociais, como ONGs, OSCIPs, Universidades, Pastorais de Rua e Movimentos Sociais (CF. CAPACLE, 2010).

Para Leite (2012), no caso das cooperativas de reciclagem, as condições de trabalho são precárias, com baixo rendimento, insalubridade e com graves implicações em termos de segurança e saúde do trabalhador. A autora mostra que a categoria raramente alcança uma renda maior que um salário mínimo e que existe uma dificuldade de um caráter realmente participativo dentro dessas cooperativas, devido ao baixo grau de escolaridade dos cooperados, das experiências de exclusão social e das poucas vivências em trabalhos mais organizados, prejudicando o entendimento deles quanto ao cooperativismo e sobre como administrar o empreendimento. Porém, a autora ressalta a importância do MNCR para a organização da categoria, abrindo possibilidades de transformação social.

O MNCR é um movimento social nascido na atividade de catação de materiais recicláveis nas ruas. Sua formação possibilitou que a representação das demandas dos catadores – que antes era realizada por entidades de apoio – fosse realizada por eles mesmos. São os catadores que formulam e organizam o movimento social.

Desde a década de 1960, diversas experiências – muitas delas apoiadas pelas pastorais da Igreja Católica, organizações não governamentais (ONGs) e universidades – tinham buscado a aproximação com catadores e a população de rua. Com a organização do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), a partir de 2001, e a fundação do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR), em 2004, a organização política desses atores sociais se ampliou exponencialmente e contribuiu para colocar no mapa das políticas públicas os temas cotidianos e a visão sobre o

Brasil desses movimentos sociais (SANT´ANA; METELLO, 2016, p. 21).

O processo de organização do MNCR contribuiu para a valorização da categoria e para elevar a importância da reciclagem com inclusão de catadores. Para os autores, três questões merecem destaque: o orgulho que o catador tem de sua profissão; a forma de organização solidária por meio de cooperativas e associações; e o fato de que “os catadores são um dos principais agentes políticos na defesa do desenvolvimento sustentável e, em termos de penetração popular, o principal movimento organizado” (ibid., p. 24).

Nos últimos doze anos, esse processo se fez sentir com um conjunto de inovações normativas, do qual a Lei no 12.035/2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos, é o exemplo maior. Fez-se também sentir com a aplicação de mais de R$ 500 milhões (Metello, 2015) nos últimos cinco anos destinada à promoção da reciclagem por meio de cooperativas de catadores de materiais recicláveis e ainda consolidou o Movimento dos Catadores como um ator-chave na discussão sobre reciclagem e meio ambiente no Brasil (SANT´ANA; METELLO, 2016, p. 22).

Em 2003, o presidente Lula (PT) criou o CIISC – Comitê Interministerial de Inclusão Social dos Catadores e consolidou os almoços natalinos com os catadores e moradores de rua de São Paulo. Essa relação estreita com o governo federal possibilitou uma abertura na agenda política e a construção de políticas públicas específicas para atender a demanda dos catadores: leis, estudos, projetos de formação, programas para adequação de infraestrutura e aquisição para equipamentos, entre outros benefícios conquistados pela categoria.

Ao meu ver, entre as conquistas do MNCR, duas são principais: a possibilidade de realizar contratos de prestação de serviço entre cooperativas de catadores e prefeituras municipais para a execução de programas de coleta seletiva, com dispensa de licitação (Lei n° 11.455 de 05 de janeiro de 2007)9, e o Projeto Cataforte, em suas três edições.

O contrato de prestação de serviços de cooperativas de catadores passou a ser um modelo defendido pelo MNCR e tem sido a principal pauta de discussão do movimento com os governos locais. A PNRS, instituída pela Lei n° 12.305/2010, obriga os órgãos públicos municipais a elaborem os planos de resíduos sólidos, fecharem os lixões e implantarem coleta

9 “A Lei Nacional de Saneamento (no 11.445/2007) trouxe a mais significativa alteração legal que pode propiciar

um grande salto na inclusão dos catadores. Ela alterou a Lei de Licitações permitindo que municípios pudessem contratar cooperativas e associações de catadores para realizarem coleta, processamento e comercialização de resíduos sólidos sem a necessidade de licitação” (SANT´ANA; METELLO, 2016, p. 29).

seletiva, assim como coloca como prioridade a inclusão social dos catadores e a gestão compartilhada dos resíduos sólidos. Dessa forma, com o respaldo dessas duas leis nacionais, o contrato se torna uma ferramenta nas mãos dos catadores, para cobrar do setor público a sua responsabilidade pela implementação de programas de coleta seletiva com inclusão de catadores.

A regulamentação da PNRS se deu pelo Decreto no 7.405/2010, que destaca que os municípios devem priorizar a participação de cooperativas e associações de catadores de materiais recicláveis na coleta seletiva. Se, na Lei de Saneamento Básico, esta possibilidade foi aberta, com a PNRS, a contratação de catadores deveria ser priorizada (SANT´ANA; METELLO, 2016, p. 29).

O contrato permite às cooperativas que elas desenvolvam uma gestão mais autônoma, menos dependente de iniciativas do poder público ou de entidades de apoio e fomento. Uma vez que a cooperativa presta o serviço ao município e recebe um pagamento mensal, os trabalhadores conseguem se organizar de modo a custear as principais despesas da cooperativa e a folha de retiradas dos cooperados, sem depender exclusivamente da venda dos materiais recicláveis coletados e das oscilações de mercado. O que ocorreu com todas as cooperativas que têm contratos é que elas tiveram que se organizar jurídica e financeiramente, e isso possibilitou que esses empreendimentos participassem de editais públicos e conseguissem recursos para adequação de espaço físico, aquisição de equipamentos e caminhões, realização de melhorias na infraestrutura e de cursos de capacitação para os cooperados.

Entre 2003 e 2008 diversas iniciativas de apoio financeiro para associações e cooperativas de catadores foram realizadas, principalmente pelo BNDES, FBB e FUNASA. Mas foi a partir de 2008 que a SENAES/MTE e a FBB uniram esforços e lançaram o Programa Cataforte.

O programa consistia em fomentar ações variadas de capacitação, assessoramento técnico para consolidação dos empreendimentos de catadores, bem como a elaboração de um plano de atuação em rede. A estratégia de atuação em redes foi fomentada pelo governo federal em consonância com o MNCR, por se entender que uma cooperativa/associação atuando de forma isolada não conseguiria ter força suficiente para sobreviver no mercado de alta competitividade e marcado por grande exploração da sua ponta mais fraca – os catadores. Neste momento, o programa atendeu aproximadamente 11 mil catadores e catadoras em todas as regiões do Brasil (SANT´ANA; METELLO, 2016, p. 30).

Em 2010 foi lançada a segunda parte do programa conhecida como Cataforte II – Logística Solidária, com a parceira adicional do BNDES e da Petrobras, “o programa consistia em capacitação e elaboração de plano de logística e doação de caminhões para a operacionalização da logística em rede. Foram doados cerca de 140 caminhões para 35 redes, em quinze estados da Federação” (ibid., p. 31).

O Cataforte III – Negócios Sustentáveis em Redes Solidárias, foi lançado em julho de 2013.

Nesta terceira etapa, o programa prevê a elaboração de planos de negócios que nortearão investimentos de cerca de R$ 200 milhões em capacitação, aquisição de equipamentos, construção e reforma de galpões e assessoramento técnico para as redes de cooperativas e associações de catadores. Com isso, objetiva-se “o fortalecimento de redes solidárias de empreendimentos de catadores de materiais recicláveis, de modo a possibilitar avanços na cadeia de valor e sua inserção no mercado da reciclagem, impulsionando a inclusão social e econômica dos catadores de materiais recicláveis e a implementação da Política Nacional de Resíduos Sólidos” (ibid., p. 31).

De acordo com dados apresentados por Sant´Ana e Metello (2016, p. 32) foram apoiados um total de 1.017 empreendimentos econômicos solidários, constituídos por catadores de materiais recicláveis, em 526 municípios brasileiros, pelas diversas ações do governo federal entre os anos de 2003 e 2015. “Entre os empreendimentos apoiados estão 40 redes de cooperação, 191 grupos informais, 739 cooperativas e 828 associações. Nestas ações foram atendidos 30.240 catadores e catadoras, dos quais 57% são mulheres.

No caso da Cooperativa Acácia de Araraquara, a assinatura do contrato com o DAAE em agosto de 2008 representou um divisor de águas para a cooperativa, que conseguiu garantir desde então uma retirada equiparada ao salário mínimo vigente a todos os seus cooperados, além de avançar na conquista de outros benefícios, como descanso anual remunerado, décima terceira retirada, o pagamento correto do INSS, bonificação e compra dos EPIs e de uniformes. A cooperativa também assumiu a manutenção da Usina de Reciclagem, que facilita a autonomia na gestão e melhora a dinâmica de trabalho do local.

A Acácia foi beneficiada desde 2007/2008 por diversos programas federais e de outras entidades de apoio. Participou das três edições do Cataforte, recebeu formação política e capacitação para todos os seus cooperados, apoio de assessoria e logística, equipou seu refeitório, melhorou seu galpão de trabalho e adquiriu caminhões, outros veículos e diversos equipamentos (prensas, empilhadeiras, carrinhos, etc.) que possibilitam que a cooperativa

preste um serviço de coleta seletiva, triagem e prensagem, cuja abrangência chega a 98% do município, sendo que esse trabalho é realizado exclusivamente por catadores de materiais recicláveis. Como vimos, a Acácia possui 160 cooperados, sendo que 70% são mulheres e são elas que organizam e coordenam o trabalho na cooperativa.

Observamos na cooperativa Acácia que existe uma busca em seguir os princípios da economia solidária, além da posse coletiva dos bens e da distribuição equitativa dos ganhos, também foi possível verificar que existe uma autogestão e uma democracia direta realizada pelos seus trabalhadores.

Sobre autogestão, Leite (2012, p. 235) mostra que um “empreendimento autogestionário se torna praticamente inviável no quadro de um mercado capitalista”. Para a autora:

As pressões para a competitividade são tantas, que as práticas menos democráticas de tomada de decisões acabam se tornando quase uma questão de sobrevivência. Nesse sentido, o máximo que poderíamos falar seria de empreendimentos que buscam seguir (com maior ou menor grau de sucesso) práticas inspiradas em princípios autogestionários (ibid., p. 235).

A autogestão consiste no gerenciamento da cooperativa pelos próprios trabalhadores, por meio da eleição de um conselho gestor. A Acácia realiza eleições em Assembleia Geral dos cooperados a cada 4 anos. Todos os cooperados têm direito a voz e voto. Todos os Conselhos (Administrativo, Fiscal e de Ética) são eleitos pelo conjunto dos cooperados de forma direta. No caso da Acácia, a autogestão acaba sendo facilitada pela autonomia da cooperativa em relação ao poder público e a entidades de apoio.

A fragilidade da gestão na cooperativa Acácia está no fato de a maioria dos cooperados não se envolverem nos processos participativos e de gestão da cooperativa. O que se vê é um núcleo de pessoas presentes na cooperativa há muitos anos, a partir das quais se construiu uma forte rede de relações que dá sustentabilidade ao empreendimento. Existe na cooperativa um grande contingente de trabalhadores que “gravitam” em torno desse núcleo central, devido às relações familiares ou de proximidade, mas que não se envolvem nos processos organizativos. Há também aqueles trabalhadores que recorrem à cooperativa em momentos de extrema necessidade, mas pouco permanecem, seja porque não aguentam o processo ou porque conseguem um emprego com carteira assinada. A rotatividade entre os trabalhadores da Acácia é grande. A maior parte deles entra por indicação de algum cooperado ou é chamada após a entrega de um currículo; entram acreditando que a presidente

é a dona da empresa, aceitam as normas ou, quando não concordam com elas, deixam o trabalho.

Quando a Acácia foi formada (2001), Helena despontou como a liderança articuladora desse processo, intermediando o apoio e a tutela do poder público local com a reunião de um grupo de catadores que viviam e trabalhavam no lixão. Helena se engajou no MNCR, participou de muitas formações políticas, empoderou-se enquanto uma liderança entre os catadores de Araraquara e continuou na intermediação com o poder público, devido a sua filiação ao PT. Em sua gênese, a Acácia era composta por três grandes famílias, que dividiam o espaço de trabalho e também a proximidade das moradias. Helena era a presidente da associação e em torno dela havia uma gestão familiar.

Quando os grupos se juntaram em 2005 (Associação Acácia e grupo de coleta seletiva do ecoponto do Carmo), novas questões surgiram da dinâmica de participação para aprovação do estatuto social da cooperativa Acácia. Antigos associados e novos cooperados foram aprendendo sobre autogestão e participação política. Com a ampliação da coleta seletiva para 100% da cidade, a Acácia precisou de mais cooperados no escritório, ao mesmo tempo em que as coordenadoras dos grupos de coleta passaram a integrar o Conselho Gestor de coleta seletiva. Essas mulheres, que nunca tinham ocupado um espaço público para falar de seus problemas, suas demandas e dificuldades, começaram a ganhar voz e se articular politicamente. Novas lideranças surgiram na cooperativa Acácia e, com a assinatura do contrato com o DAAE, a gestão familiar precisou ser elevada a uma gestão eficiente, com a capacitação de cooperadas e a admissão de novos membros: os gestores “de fora”.

O papel do contrato com o poder público e, principalmente, dos gestores, embora possa sugerir uma contradição, foi essencial para fomentar novas práticas democráticas e participativas na cooperativa. Podemos observar em várias falas o quanto os gestores incentivaram as catadoras a estudar, a assumir funções e responsabilidades, e como esse processo de surgimento de novas lideranças foi propulsor de uma nova dinâmica participativa na Acácia. Essas transformações, no entanto, não teriam sido possíveis se a liderança principal não houvesse “permitido” e incentivado esse processo. Helena continua sendo a presidente da cooperativa, mas tem um papel importante no empoderamento das mulheres da Acácia, as mesmas que foram assumindo as responsabilidades de gestão e coordenação da cooperativa, que participam constantemente de cursos técnicos, de formação política de

lideranças, de reuniões com autoridades, de viagens de trabalho onde encontram outras catadoras e expandem seus horizontes.

Para Nobre e Freitas (2012, p. 413), a maior inovação da economia solidária “se dá com a participação das mulheres na gestão dos empreendimentos, em especial no estabelecimento de relações horizontais, o que rompe com a associação entre atividades femininas e atividades servis, e com a ausência das mulheres em posições de decisão”.

O empoderamento e a politização das lideranças são chaves imprescindíveis para entender como as mulheres catadoras da Acácia conseguem enfrentar a opressão e a dominação dentro e fora da cooperativa.

A participação da mulher no trabalho associado, analisado sob o ponto de vista da economia feminista, traz para o âmbito da economia solidária a valorização dos saberes femininos e a transformação deles em práticas coletivas.

As práticas econômicas inovadoras. A economia solidária faz parte disso. Ao revalorizar as atividades de reciprocidade e de cuidar dos outros, não mais consideradas “virtudes” femininas, mas uma responsabilidade coletiva que contribui para o desenvolvimento pessoal de cada um; ao facilitar a expressão de problemas particulares e a reivindicação de soluções para eles; e, enfim, ao desempenhar um papel de mediação entre diferentes esferas com muita frequência consideradas compartimentadas, as práticas da economia solidária demonstram que a questão da pobreza feminina e, de maneira mais ampla, a das desigualdades entre homens e mulheres não são uma fatalidade, desde que se admita que dependem de uma responsabilidade compartilhada (GUÉRIN, 2003, p. 71-72).

As mulheres, historicamente responsabilizadas pelo trabalho reprodutivo, têm assumido, cada vez mais, a responsabilidade econômica pela família. É comum entre as catadoras entrevistadas a fala de que elas são “arrimo de família” ou “chefe de família”. No entanto, elas continuam tendo a mesma dificuldade de ocupar empregos assalariados e de trabalhar por conta própria, uma vez que são mulheres pobres e negras, com acesso limitado à propriedade, à terra e ao crédito. O trabalho associado surge como uma oportunidade em um momento de grande necessidade para todas elas.

Guérin (2003, p. 73) vai dizer que a economia solidária pode ser entendida em um sentido mais amplo, reunindo “um conjunto de atividade econômicas privadas que aposta mais no interesse coletivo e na solidariedade do que na busca do lucro”. A autora ressalta como pontos positivos dos empreendimentos solidários o papel que desempenham em relação

a uma justiça de proximidade, a criação de espaços para discussões e reflexões coletivas, e a redefinição dos papéis na sociedade.

Em primeiro lugar, desempenham um papel de justiça de proximidade, e esse papel é essencial diante do caráter multidimensional da pobreza. Em segundo lugar, criam espaços de discussão, de reflexão e de deliberação coletivas; nesse caso, apresentam-se como formas de acesso à fala em público para pessoas que, em geral, não têm e, por meio da expressão e da reivindicação coletivas, podem participar da transformação das instituições, seja da legislação ou das normas sociais. Em terceiro lugar, contribuem para redefinir a articulação entre família, autoridades públicas, mercado e sociedade civil, além de participarem da revalorização das práticas de reciprocidade; ora, essa redefinição e essa revalorização devem permitir a luta contra as desigualdades dentro da família, permitindo às mulheres, mas também aos homens, conciliarem melhor a vida familiar e a vida profissional” (GUÉRIN, 2003, p. 77).

Para Nobre e Freitas (2012, p. 401), “a economia solidária interessa à economia feminista como uma possibilidade de romper a divisão sexual do trabalho, segundo a qual o trabalho produtivo é associado aos homens e vinculado ao espaço público, e o trabalho reprodutivo associado às mulheres e à esfera privada”.

Um grande número de experiências de Economia solidária é animado por mulheres ou destinado a elas. As mulheres avaliam sua participação, não apenas do ponto de vista da remuneração