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O trabalho reprodutivo como determinante para a baixa escolaridade

Capítulo 3 Bonecas de sabugo, gatas borralheiras e jovens mães

3.1 Pobreza feminina e trabalho reprodutivo

3.1.3 O trabalho reprodutivo como determinante para a baixa escolaridade

Os dados coletados no cadastro de cooperados da Acácia mostram que 78% das mulheres que trabalham na cooperativa não completaram seus estudos, sendo que quase 60% não sabem ler ou escrever corretamente. Entre elas, 5% são analfabetas e nunca frequentaram a escola periodicamente. O problema maior incide sobre as mulheres que não completaram o ensino fundamental: elas são 52% das cooperadas, a maioria parou nas primeiras séries do ensino fundamental, tão logo ganharam idade para trabalhar fora ou dentro de casa. Apenas 13% cursaram o fundamental completo e 8% não completaram o ensino médio, essas últimas tendo como principal causa a maternidade precoce. Apenas 22% das catadoras da Acácia completaram o ensino médio.

A OIT (2001, p. 16) é enfática em mostrar que o trabalho precoce de crianças e adolescentes interfere diretamente em seu desenvolvimento físico, emocional e social:

Ao mesmo tempo, ao ser inserida no mundo do trabalho a criança é impedida de viver a infância e a adolescência sem ter assegurados seus direitos de brincar e de estudar. Isso dificulta muito a vivência de experiências fundamentais para seu desenvolvimento e compromete seu bom desempenho escolar – condição cada vez mais necessária para a transformação dos indivíduos em cidadãos capazes de intervir na sociedade de forma crítica, responsável e produtiva. Entre as crianças que trabalham há maior repetência e abandono da escola. Uma pesquisa de 1997 feita pelo DIEESE – Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos, constatou um índice de repetência de 64% em crianças trabalhadoras (OIT, 2001).

Whitaker (1989, p. 114) esclarece que a função histórica da escola é manter as crianças "ocupadas" até que atinjam certa idade, doze a quatorze anos, quando podem ser recrutadas para o trabalho. Ocorre, segundo a autora, que as crianças não são pensadas como futuros trabalhadores. Aos dez anos já são pensadas como trabalhadores para o capital. “Para aqueles que vivem nestas franjas do rural-urbano, bem como os que vivem nas camadas mais baixas da sociedade, a Escola é quando muito o sonho - local onde se fica poucas horas, durante poucos anos”.

A escola constitui o primeiro espaço público que as meninas experimentam, quando têm acesso ao ensino público. A rigor, pelas obrigações domésticas, acabam tendo de deixar a escola nas primeiras séries de aprendizagem. Os meninos são retirados da escola para ajudar o pai no trabalho ou encaminhados ao mercado informal e alcançam a rua mais cedo, uma vez que o cenário de trabalho precoce dos meninos não tem sido o ambiente doméstico (VAZ, 1999, p. 12).

A publicação da OIT (2001) sobre trabalho infantil critica o sistema educacional brasileiro, dizendo que ele contribui para empurrar as crianças para o trabalho e que as crianças e adolescentes das camadas pobres são mais atingidos pela repetência, sendo considerados como incapazes de aprender, saem da escola e são destinados ao trabalho.

O trabalho precoce interfere, pois, negativamente na escolarização das crianças, seja provocando múltiplas repetências, seja empurrando-as para fora da escola – fenômeno diretamente relacionado à renda familiar. Crianças e adolescentes oriundas de famílias de baixa renda tendem a trabalhar mais e estudar menos, comprometendo, dessa forma, suas possibilidades de vida digna (OIT, 2001, p. 17).

As mulheres da Acácia que contam hoje com mais de 50 anos estudaram muito pouco e são, em maioria, semianalfabetas. Delas, 70% cursaram o ensino fundamental de forma incompleta. Através dos depoimentos nas entrevistas e nos encontros com grupos focais sabemos que a maioria parou nos primeiros anos de escola, ou frequentou a escola de forma descontínua. Entre as mais jovens, na faixa etária de 18 a 30 anos, 52% completaram o ensino médio e outras 24% cursaram-no de forma incompleta. Na faixa etária dos 31 aos 49 anos, que é a mais numerosa da cooperativa, 64% das mulheres não completaram o ensino fundamental.

Além do trabalho infantil e da vulnerabilidade familiar vivida na infância, a maternidade e a necessidade de trabalhar na juventude foram questões apontadas pelas catadoras entrevistadas como fatores limitantes para a continuação dos estudos.

III: Eu nem estudei, meu pai largou da minha mãe e eu fui morar com minha avó e ela mudava muito porque morava de aluguel e não tinha condições de pagar, o aluguel vencia ela mudava de lugar.

II: Estudei até a oitava, parei porque arrumei minha filha, aí não tive mais coragem de estudar.

I: No início quando eu parei foi por conta de “sem-vergonhice”, vou falar a verdade...

II: Eu também...

I: Eu só estudava e praticava esporte, capoeira e futebol e começou a pesar, aí eu larguei a escola com 15 anos. Depois eu voltei a estudar e fiz até o segundo colegial, no terceiro eu engravidei e parei de novo. Voltei agora em 2013 e concluí o ensino médio.

IV: Eu concluí o ensino médio e parei porque engravidei, casei. E agora estou fazendo o curso técnico.

O mesmo perfil foi observado entre as catadoras que trabalham na esteira, conforme relatos:

Eu parei de estudar porque meus pais se separaram. Naquela época isso era um absurdo e mexeu muito com a cabeça da gente.

Eu mesma parei de estudar para ajudar meus pais. Eram sete irmãos, fui trabalhar fora de babá com a minha mãe.

Eu parei de estudar porque engravidei muito cedo, eu tinha vergonha na época. Eu tinha 15 anos e engravidei e parei de estudar, aí depois eu tentei voltar, mas não dava.

(Catadoras da esteira - Caderno de Campo, grupo focal, 2017).

Quando eu perguntei no grupo focal das lideranças se elas acham que a educação é importante para a vida, todas disseram que fez falta na vida delas. Os depoimentos que subscrevo abaixo são exemplos de que a baixa escolaridade tem um efeito geracional que pode ser perverso.

III: Outro dia minha menina trouxe uma prova pra casa e eu não sabia como explicar pra ela, ela está na oitava série e não sabe e eu estudei até a segunda, como que eu vou saber? Aí o pai dela ensinou, que o pai dela terminou o estudo.

V: Eu tive muito trabalho com meus filhos, até de chorar porque eu ia nas reuniões e a professora falava ‘mãe, você tem que sentar com seu filho, eles vêm sem fazer a tarefa’. Eu tive muito problema, mas como, eu sozinha, como eu ia ensinar se eu era burra também?

IV: A grande dificuldade das mães é que os filhos sabem mais do que as mães, então eles vêm perguntar alguma coisa e elas não sabem. (Lideranças – Caderno de Campo, Grupo focal, 2015).

Por mais que possa parecer senso comum os filhos saberem mais que do que os pais, o que vemos aqui são filhos de mulheres analfabetas que se ressentem por não conseguirem acompanhar os filhos nas tarefas da escola e por não terem tido a oportunidade da correta escolarização.