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Capítulo 3 Bonecas de sabugo, gatas borralheiras e jovens mães

3.1 Pobreza feminina e trabalho reprodutivo

3.1.2 Maternidade e trabalho reprodutivo

A maternidade passa a ser uma opção na vida das mulheres a partir do surgimento dos métodos contraceptivos e das campanhas feministas que buscam refutar o determinismo biológico, tornando a aceitação ou não da maternidade uma escolha reflexiva (SCAVONE, 2001). Porém a realidade entre mulheres pobres não é tão simples. O acesso falho à

informação e a métodos contraceptivos, questões culturais, machismo nas relações amorosas e a impossibilidade de um aborto seguro são algumas das questões que cerceiam o poder de escolha dessas mulheres.

D. Teresa decidiu o próprio destino e não quis a maternidade. Jaqueline tem 19 anos, é casada e afirma enfaticamente que não quer ser mãe. Todas as outras mulheres que eu entrevistei são mães: um filho, dois, três, quatro, cinco, seis.

Um estudo quantitativo realizado com os cooperados da Acácia em 2013 (SANTOS, 2013) mostra que 90% das mulheres tem filhos, enquanto entre os homens esse valor cai para 67%. Quase um terço deles declarou não ter filhos. A maioria dos homens tem um ou dois filhos, enquanto a maioria das mulheres tem três. Há também um percentual considerável de mulheres com quatro ou cinco filhos, conforme podemos ver no gráfico.

Em A maternidade e o feminismo, Lucila Scavone (2001) vai dizer que o rompimento com o determinismo biológico levou à separação definitiva entre sexualidade e reprodução. Sob a influência da obra O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir (1949), o feminismo se voltou para uma fase de olhar para a “mulher-sujeito”, sendo este conceito um elemento fundamental para a politização das questões privadas realizadas pelo feminismo contemporâneo. Um dos elementos radicais dessa politização foi “refutar o determinismo biológico que reservava às mulheres um destino social de mães”. Scavone acrescenta que a introdução do conceito de gênero nas ciências sociais faz com que a maternidade passe a ser compreendida de forma relacional: “a maternidade começava, então, a ser compreendida como uma construção social, que designava o lugar das mulheres na família e na sociedade,

28% 24% 5% 5% 5% 33% 18% 19% 25% 13% 11% 1% 1% 3% 9% 0% 10% 20% 30% 40%

1 filho 2 filhos 3 filhos 4 filhos 5 filhos 6 filhos 7 filhos 8 filhos Mais de 8 filhos Não tem filhos

Quantidade de Filhos

Homens Mulheres

isto é, a causa principal da dominação do sexo masculino sobre o sexo feminino” (SCAVONE, 2001, p. 138).

Nesse período do feminismo a maternidade era um eixo central para explicar a desigualdade entre os sexos, e o caminho para subverter a dominação masculina seria a recusa da maternidade, possível de se efetivar através da pílula contraceptiva e do aborto como direito político. Em um segundo momento, contestando a recusa da maternidade, esta passa a ser considerada uma parte importante da identidade e poder femininos. Por fim, um terceiro momento vai mostrar que “não é o fato biológico da reprodução que determina a posição social das mulheres, mas as relações de dominação que atribuem um significado social à maternidade” (SCAVONE, 2001, p. 141).

A maturidade do debate feminista acerca da maternidade se deu entre os anos de 1960 a 1980 nas sociedades ocidentais, e foi marcado pela aceleração da industrialização e da urbanização, da crescente inserção das mulheres no mercado de trabalho e do advento de métodos de contracepção medicalizada, possibilitando o controle da fecundidade.

Apesar da possibilidade do controle da fecundidade através da medicalização e da utilização de preservativos, nas práticas das relações sociais e, mais especificamente, nas práticas sexuais entre homens e mulheres ainda existe machismo, desinformação, acesso limitado a contraceptivos, preconceitos e tabus a serem vencidos. Para as mulheres de forma geral a maternidade se impõe como uma expectativa que pretende ser natural. Ao mesmo tempo, para as mulheres pobres a maternidade tem contornos de uma construção social que se impõe como valor, como algo que as qualifica.

Quem queria ser mãe e quem não queria? Foi uma das questões que eu fiz ao grupo focal de lideranças realizados com cinco mulheres no final de 2015. Três mulheres responderam que sim e duas que não. Segue o relato das mulheres que não queriam filhos:

IV: O meu aconteceu, eu não queria ser mãe, principalmente naquele momento, com 21 anos de idade, minha mãe estava deixando eu sair aquela hora, mas eu amo a minha filha.

V: Eu arrumei de tanto meu marido falar, que os outros já estavam tendo e eu não, que eu era maninha, árvore seca. Eu tomava remédio escondido, aí teve os remédios de farinha e eu engravidei. Se ele pegasse eu tomando remédio, ele me batia. Nunca tive vontade de arrumar, depois que arrumei encarrilhou.

(Lideranças - Caderno de Campo, Grupo focal, 2015).

A intenção desse trabalho grupal era explorar questões sobre o universo feminino no mundo do trabalho produtivo e doméstico, com o intuito de verificar como estão

estabelecidas as questões de gênero dentro da cooperativa e na vida privada dessas mulheres. Participaram do trabalho cinco catadoras que eu convencionei chamar de lideranças, porque ocupam postos de coordenação na cooperativa, sendo que duas são membros do Conselho Administrativo e três são Coordenadoras de grupos, que ficam na Pré-Triagem e na Esteira de seleção. Todas trabalham na Usina de Reciclagem.

Tabela 7 - Perfil das Lideranças - Grupo Focal - Cooperativa Acácia 2015 Nome Idade Cor/raça Escolaridade Estado

Civil Filhos(as) Local de trabalho

I 28 Parda Ensino médio completo Solteira 1 Escritório II 30 Parda Ensino Fundamental completo Solteira 4 Pré-triagem III 34 Negra Analfabeta, parou na 2ª série Casada 4 Pré-triagem IV 35 Parda Ensino Médio completo Solteira 1 Escritório V 43 Negra Analfabeta, não estudou Casada 6 Esteira

Conforme podemos ver na Tabela 7, a faixa etária variou de 28 a 43 anos. Três mulheres se denominam pardas e duas negras. Duas estão casadas, uma delas pela terceira vez, e três estão solteiras, mas já foram casadas. Todas têm filhos. Duas terminaram o ensino médio e estão fazendo curso técnico em RH - são elas que participam do Conselho Administrativo e trabalham no escritório. As demais têm baixa escolarização - uma terminou o ensino fundamental e as outras duas são analfabetas e não estudaram. Para reproduzir as falas e dar voz a essas mulheres, preservamos suas identidades e as nomeamos por participante I, II, III, IV e V.

Observei três grupos principais de mães na Cooperativa Acácia mesclando os dados do trabalho de campo de 2015 e 2017: mães solteiras de apenas um filho, cujo pai não assumiu a responsabilidade; mães com muitos filhos (quatro ou mais) frutos de dois ou mais casamentos, algumas ainda casadas, a maioria solteiras; e mulheres que permaneceram casadas por muito tempo (algumas ainda permanecem) com o pai de seus filhos, mesmo sofrendo violência doméstica, por não terem outra forma de sustenta-los. Fato é que todas, em algum momento, tiveram que recorrer ao trabalho remunerado para auxiliar o sustento de suas famílias. A maioria delas é arrimo de família, termo muito usado entre as catadoras.

Scavone diz que a questão da maternidade gera um sentimento ambíguo entre desejo e fardo e ainda é um dilema para mulheres que querem seguir carreira profissional, já que as mulheres são mais sobrecarregadas nas responsabilidades parentais. A atuação exclusiva do sexo feminino na maior parte das funções de cuidado das crianças dificulta ou

impede a participação das mulheres em outras esferas e, “muitas vezes, não permite que usufruam o próprio prazer da relação com as crianças” (SCAVONE, 2004, p. 156).

As mulheres que participaram do grupo focal relataram que a maior dificuldade doméstica é o cuidado dos filhos, que demanda maior trabalho. Quando questionadas sobre a existência de alguém que ajude nesses cuidados, as mulheres contaram que recebem ajuda de outras mulheres: mãe, sogra, comadre, vizinha ou os filhos cuidam uns dos outros. Os homens/pais, no geral, não participam do cuidado dos filhos. Apenas uma das participantes diz que o marido é presente na educação dos filhos.

IV: O mais crítico, quando você volta para casa, não é nem o serviço, é ter ânimo e pique para acompanhar os filhos, que daí é a hora que eles querem atenção e eles não entendem que a sua trajetória começou muito cedo e eles estão lá com pique todo.

III: Meus filhos, eu não vi nenhum crescer. Eu sempre tive “escadinha”, então um vai cuidando do outro, o mais velho cuida do mais novo.

II: Os meus ficam meio período em casa e meio período vão para a escola, dois de manhã e dois à tarde. As duas mais velhas estudam de manhã e chegam a tempo de fazer o almoço e levar as mais novas à tarde na escola.

II: Sempre tem uma vizinha, sempre tem alguém para olhar, para ajudar... vê que trabalha, que é sozinha, depende de você para sustentar a casa, sempre tem alguém...

III: A gente divide, tem que dividir, não dá para ficar tudo com a mulher.

(Lideranças - Caderno de Campo, Grupo focal, 2015)

Quando eu perguntei às catadoras quem administrava o lar e o dinheiro, elas demonstraram as dificuldades em sustentar e encaminhar os filhos sozinhas, conforme discussão abaixo:

V: Eu ainda tenho dificuldade com meu pagamento, ainda não aprendi a administrar meu dinheiro, porque a pessoa que eu moro, ele não se importa e eu ainda tenho filho pequeno para cuidar. Ele não me ajuda nessa parte financeira, ele dá 300 reais para mim e eu tenho que me virar com todas as contas da casa. Se eu vou reclamar, ele fala que tem só uma filha comigo e eu que me vire com roupa, com sapato, com uniforme, material de escola, então, eu que tenho que me virar.

[E o pai dos outros não ajudam com nada?] V: Nunca deram nada...

IV: Até o ano retrasado eu recebia pensão certinha, só que em questão de educação ele ajuda a atrapalhar, porque ele é o pai bonzinho, ela apronta e ele leva para tomar sorvete, para entender o que está acontecendo, a mãe bate e manda para escola. Mas ele sofreu um avc ano passado e agora paga só quando dá, esse ano foi mais difícil, mas deu pra levar. Eu tenho uma só, você que tem mais eu imagino como é mais difícil, não é difícil de dar sapato, a roupa e a comida, difícil é encaminhar para a vida, orientar, acompanhar.

II: Quando está com o coração mole ele dá pensão, mas se precisar, você tem que acertar o dia.

(Lideranças - Caderno de Campo, Grupo focal, 2015)

São as próprias catadoras que me explicam que 85% das mulheres da Acácia são arrimo de família e que elas são mais comprometidas com o trabalho porque precisam sustentar a própria casa e os filhos.

Todos os cooperados da Acácia recolhem o INSS e, portanto, todas as mulheres têm direito à licença maternidade. Mas não foi sempre assim. Entre as participantes do grupo focal (elas tiveram os filhos antes do trabalho na cooperativa ou da regulação do INSS), duas conseguiram ficar com os filhos nos primeiros meses porque eram casadas e o maridos sustentavam as casas; uma não teve licença para os dois primeiros filhos e teve nos dois últimos; e uma delas, com seis filhos, nunca teve licença maternidade.

V: Eu sofri, trabalhava até o fim da gravidez. Na época dessa mais nova eu trabalhei até o fim aqui no lixão, carregando material... nunca tive ajuda de família, era eu e eu mesma.

I: Na época que eu tive minha filha, eu era casada, eu não trabalhava, não fazia nada... fiquei até os seis meses.

III: Amamentei todo mundo [quatro], o último até os 3 meses. Eu já saí do hospital dando a mamadeira porque sabia que eu ia voltar a trabalhar.

I: Amamentei até um ano, foi quando eu entrei aqui e sofri um acidente de furar o dedo com uma seringa, aí não pude mais amamentar.

(Lideranças - Caderno de Campo, Grupo focal, 2015).

Scavone mostra que existe um aumento significativo de mulheres responsáveis economicamente pela família, e que também há uma participação mais efetiva das mulheres brasileiras no mercado de trabalho, “confrontando e/ou conciliando a vida profissional com a vida familiar” (SCAVONE, 2004, p. 182). O problema da maternidade é que:

(...) por um lado, ela é valorizada, por outro não são dadas as condições materiais para a sua realização, e, em consequência desta

falta, a maternidade como prazer torna-se privilégio de classe. Entretanto, tal privilégio apóia-se numa desigualdade profunda, que perpassa todas as classes sociais: a que desfavorece as mulheres em benefício dos homens no conjunto das relações sociais (SCAVONE, 2004, p. 156).

Entre as catadoras entrevistadas individualmente existem também muitos relatos que mostram as dificuldades de conciliação do cuidado dos filhos com o trabalho produtivo, bem como da necessidade da remuneração para a sustentação da família.

Casei cedo, um casamento que não deu certo, cedo eu já estava sozinha com uma filha pra criar. Não tive licença maternidade porque eu nunca tinha trabalhado, não tinha sido registrada. Foi difícil esse período dela pequena. Depois ela cresceu. Sempre tive ajuda da minha mãe. E foi difícil porque você procurar serviço com criança pequena você não é aceita, porque mãe sempre falta por causa de criança, mãe sempre tem problema por causa de criança (Marta – Caderno de Campo, 2017).

Quando eu larguei um dos meus companheiros, o pai das duas primeiras filhas, ele não dá pensão até hoje, é só eu, elas e Deus. O menino de 5 anos, o pai dá pensão, mas só. Tudo eu, tudo é mãe, os pais não vêm ver. Eu trabalho aqui e nos fins de semana, eu trabalho num buffet de freelancer também, eu vou trabalhar no que aparece depois do serviço aqui. Tem festa que paga uns 80, 90 reais e esse dinheirinho já me ajuda bastante, fora o salário que eu ganho da Acácia (Anna Paula – Caderno de Campo, 2017).

Depois que eu tive minha menina, que eu comecei a trabalhar na coleta, eu tive mais dois filhos com o mesmo marido. Na época que eu tive o segundo, meu menino, ainda era Ecoponto, não estava na cooperativa, eu não tive licença maternidade, eu tinha que levar ele para trabalhar comigo, eu levava lá para o Ecoponto, tanto eu quanto a Paula, a gente levava e deixava eles no carrinho na sombra, a gente não tinha condições de pagar alguém e precisava trabalhar, então a gente cuidava deles lá mesmo. Não arrumava vaga na creche de jeito nenhum. Depois eu tive o outro menino, o terceiro, eu já estava na cooperativa, consegui me afastar pelo INSS, consegui receber meu auxílio maternidade, foi outra história (Débora – Caderno de Campo, 2017).

Meu marido foi preso, na época eu tinha minha menina, ela tinha 2 anos, foi difícil, tinha que deixar ela, eu saía de casa às 6 horas e voltava às 18h30, chorando... (Sônia – Caderno de Campo, 2017).

Pesquisas indicam que as mulheres continuam sendo as principais responsáveis pelo trabalho reprodutivo (trabalho doméstico, cuidado dos filhos e da família) e que isso

repercute no trabalho produtivo, ou seja, afeta diretamente as suas possibilidades de trabalhar e se dedicar à carreira profissional (FCC, 1998; LOMBARDI, 2012).

O trabalho reprodutivo é um trabalho invisível, ele é realizado no âmbito privado, de forma silenciosa, majoritariamente por mulheres. Ele é imprescindível ao bem-estar do ser humano, à manutenção da vida e à reprodução da sociedade, mas não tem um caráter mercantil. De acordo com Melo e Castilho (2009, p. 137):

Essa divisão sexual do trabalho reflete o fato que a maioria dos homens exerce suas atividades no mercado de trabalho capitalista (o chamado “trabalho produtivo”) e as mulheres dividem seu tempo “naturalmente” entre a produção de mercadorias fora de casa e a realização das tarefas domésticas relativas aos cuidados da família (o dito “trabalho reprodutivo”).

Em uma análise feita por Dedecca (2008) sobre a jornada de trabalho, dividindo-a em reprodução social e produção econômica, ele observou que as mulheres, além da jornada dedicada à produção econômica, dispendem uma maior dedicação à reprodução social, ou seja, quanto maior o tempo que a mulher trabalha “fora de casa”, maior sua jornada de trabalho total.

Como vimos, entre as catadoras da Cooperativa Acácia, 85% são chefes de família e as mulheres entrevistadas afirmaram realizar as tarefas domésticas sozinhas ou com a ajuda dos filhos, antes de sair para o trabalho, na volta do trabalho ou aos finais de semana. Mesmo as casadas não contam com a realização do trabalho doméstico por parte dos maridos.

Ao longo dos últimos 15 anos, observa-se a manutenção da tendência de aumento na proporção de famílias chefiadas por mulheres, que passou de 22,3%, em 1993, para 33%, em 2007 (PINHEIRO et al., 2008, p. 17).

Ainda assim, muitas mulheres ficam afastadas de uma atividade remunerada devido ao casamento, à maternidade ou aos cuidados com a família. Depois enfrentam certa dificuldade para se recolocar no mercado de trabalho, seja pela idade, pela falta de experiência ou investimento na carreira. Ioli Wirth (2010, p. 194) afirma que “a cooperativa surge para essas mulheres como possibilidade de voltar a ter uma ocupação remunerada”.