Capítulo 3 Bonecas de sabugo, gatas borralheiras e jovens mães
3.3 A divisão social, sexual e racial do trabalho na catação
Por que as cooperativas de reciclagem têm uma maioria de mulheres? I: Às vezes eu acho que é por causa da renda. Talvez o homem que é pai de família, dependendo do local que ele trabalha, talvez com a renda da cooperativa não dê para sobreviver e manter a família. Mas tem homens que trabalham aqui, tiram seu sustento daqui e vivem com o salário daqui.
IV: Eu acho que a linha de mercado para homem tem outras opções que talvez sejam economicamente mais viáveis, homem pode optar por ser pedreiro, ser servente e fica competitivo ele trabalhar aqui ou em outro lugar. E eu vejo também aqui a questão da responsabilidade com a casa mesmo, a rotatividade de homens é maior que a de mulher porque 85% das mulheres são arrimo de família, elas que sustentam a própria casa, então param mais do que os homens. A oferta lá fora no mercado de trabalho é maior pra homem do que pra mulher.
(Lideranças – Caderno de Campo, Grupo focal, 2015).
As mulheres têm que ir pro mercado de trabalho, não dá pra ser dona de casa, as coisas estão muito caras, o que hoje os homens recebem não dá pro sustento. A maior parte das cooperadas são mulheres que são separadas e que sustentam a casa (Helena – Caderno de Campo, 2017).
Quando eu perguntei às catadoras que participaram do grupo focal em 2015 “porque existe uma maioria de mulheres nas cooperativas de reciclagem?” obtive apenas duas respostas, e elas vieram das cooperadas que trabalham no escritório e foram permeadas por uma visão androcêntrica da questão, em que o masculino é o paradigma para pensar todas as coisas.
A primeira colaboradora do grupo focal relacionou a renda com o “homem pai de família”, explicando que a retirada que eles fazem na cooperativa, que hoje é de um salário mínimo, não é suficiente para os homens sustentarem suas famílias, supondo ser este o motivo de não haver uma maioria masculina de trabalhadores na cooperativa. Quando ela diz “dependendo do local que ele trabalha” está fazendo referência à função que este ocupa na cooperativa, porque os prenseiros têm um sistema diferenciado de retirada e ganham bem mais que um salário mínimo.
A segunda colaboradora, influenciada pela resposta da primeira, diz que o homem tem maiores e melhores ofertas no mercado de trabalho do que a mulher, e que algumas opções são economicamente mais viáveis que o trabalho na cooperativa. Quando ela fala das mulheres é para mostrar que a responsabilidade pelo sustento da casa é que faz com que elas permaneçam mais tempo na cooperativa.
Sobre a mesma questão, a presidente da cooperativa vai dizer que a mulher precisa trabalhar para ter uma renda que o trabalho doméstico não lhe confere, por três principais motivos: devido ao consumo - porque “as coisas estão muito caras”; porque as mulheres precisam complementar a renda familiar, caso sejam casadas - “o que hoje os homens recebem não dá para o sustento”; ou porque precisam sustentar suas famílias - “a maior parte das cooperadas são mulheres que são separadas e que sustentam a casa”. Para sustentar suas famílias, o salário mínimo que a cooperativa possibilita parece ser suficiente às mulheres, mas não aos homens.
Esse modelo do homem como sujeito universal e assexuado foi objeto dos fundadores da sociologia do trabalho, e foi questionado desde os anos 1970 pela problemática da divisão sexual do trabalho, que tratou de reconceituar “trabalho”, incluindo o conceito do sexo social (do gênero) e do trabalho doméstico. A proposição epistemológica em que “trabalho profissional e doméstico, produção e reprodução, regime salarial e família, classe social e sexo social, são consideradas como as categorias indissociáveis” levou ao rompimento com a antiga noção de especificidade (HIRATA e KERGOAT, 2008, p. 44-45).
Portanto, foi a partir da década de 1970 que estudos feministas passaram a articular trabalho e gênero levando em conta a perspectiva de classe, dando “ao conceito de trabalho uma dimensão sexuada” (HIRATA e KERGOAT, 2008) e dizendo que “a classe operária tem dois sexos” (SOUZA-LOBO, 1991). Nos últimos anos, as pesquisas sobre mulheres e trabalho tem ampliado sua relevância na sociologia do trabalho francesa, porém Helena Hirata e Danièle Kergoat (2008, p. 40-41) ressaltam que “as figuras neutrasdo pobre, do precário, do vulnerável, são construídas em referência à figura masculina do assalariado com emprego a tempo integral e contrato com duração indeterminado”. Assim como:
As noções de vulnerabilidade, de desfiliação, e de flexibilidade da condição salarial são apresentadas de maneira neutra, mas representam o negativo da figura do assalariado masculino durante les trente glorieuses. Um balanço recente da situação da sociologia do trabalho indicou claramente os avanços e ao mesmo tempo as dificuldades persistentes para integrar a perspectiva de gênero (ibid., p. 40-41).
Integrar a perspectiva de gênero à figura do catador (pobre, estigmatizado e vulnerável) tem sido o desafio desse capítulo. A maioria das catadoras são mulheres negras, pobres e sem escolarização, são mães e são responsáveis economicamente pelas suas famílias. Qual é o papel da divisão social, sexual e racial na catação?
Na divisão do trabalho entre os sexos há um controle social da sexualidade e da função reprodutiva das mulheres, onde se entrecruzam: exploração, dominação e opressão. As “três formas canônicas” de manifestação dessas relações podem ser exemplificadas “pelas diferenças salariais, pela maior vulnerabilidade e maior risco de ser vítima de violências” (KERGOAT, 2010, p. 95).
Heleieth Saffioti (1987, p. 60) vai mostrar que, com o advento do capitalismo, houve uma simbiose ou uma fusão entre três sistemas de “dominação-exploração”: o patriarcado, o racismo e o próprio capitalismo. Embora a autora explique os três sistemas de forma separada para facilitar a compreensão, ela vai afirmar que “eles são inseparáveis, pois se transformam, através deste processo simbiótico, em um único sistema de dominação- exploração, aqui denominado patriarcado-racismo-capitalismo”. Para a autora:
As classes dominantes usufruem da simbiose dos três sistemas de dominação-exploração, na medida em que esta simbiose consolida o poder do macho branco e adulto. Às mulheres das classes privilegiadas é dado o direito de usufruir da riqueza que possuem, riqueza esta amealhada graças à exploração das classes trabalhadoras em geral, e especificamente da mais intensa exploração de mulheres e negros destas camadas. Mais do que isto, a burguesia formula normas de conduta através das quais subordina os trabalhadores, mas não se submete a elas (SAFFIOTI, 1987, p. 64).
Saffioti (1987) vai afirmar que todas as atitudes machistas reforçam a fusão do trio “dominação-exploração”, em que o homem rico, branco e adulto é o beneficiado. Para as mulheres, a autora evidencia que existe uma diferenciação de classe social que pode amenizar ou intensificar determinados sofrimentos, em que a mulher rica e branca possui privilégios em relação a mulher pobre e negra.
Nesse mesmo sentido, Danièle Kergoat (2010) defende que as relações sociais são relações abstratas e antagônicas, que opõem grupos sociais em disputa. A autora demonstra que nenhuma relação social tem prioridade sobre outra, porque não há contradições principais ou secundárias, e que elas não podem ser consideradas isoladamente.
A minha tese, no entanto, é: as relações sociais são consubstanciais; elas formam um nó que não pode ser desatado no nível das práticas
sociais, mas apenas na perspectiva da análise sociológica; e as relações sociais são coextensivas: ao se desenvolverem, as relações sociais de classe, gênero e “raça” se reproduzem e se co-produzem mutuamente (ibid., p. 94).
Segundo Kergoat (2010, p. 100), consubstancialidade “é o entrecruzamento dinâmico e complexo do conjunto de relações sociais, cada uma imprimindo sua marca nas outras, ajustando-se às outras e construindo-se de maneira recíproca”. A autora utiliza a metáfora da espiral para mostrar que “a realidade não se fecha em si mesma” e que é necessário “enxergar os entrecruzamentos e as interpenetrações que formam um ‘nó’ no seio de uma individualidade ou um grupo” (ibid., p. 100).De acordo com Kergoat (ibid., p. 95), as relações de gênero, classe e raça são relações de produção, nas quais a apropriação do trabalho de um grupo por outro ocasiona uma disputa das relações sociais.
Para Saffioti (1987, p. 112) o “nó” também está na simbiose dos três sistemas de “dominação-exploração” e a autora aposta na ampliação da cidadania feminina como forma de enfrentamento dessa questão.
Kergoat (2010, p. 95) afirma que as relações intersubjetivas entre casais podem ter mudado, mas “as relações sociais de sexo permanecem intactas”. E completa dizendo que “são as práticas sociais — e não as relações intersubjetivas — que podem dar origem a formas de resistência e que podem, portanto, ser as portadoras de um potencial de mudança no nível das relações sociais”.
O que pode de fato questionar as relações sociais de sexo são as práticas sociais coletivas: por exemplo, decisões como quais as mulheres que terão as responsabilidades formais (presidência da associação) e práticas (responsabilidades organizacionais durante as manifestações), ou a decisão de que haja um aprendizado coletivo em situações de fala diante de um público etc. (ibid., p. 95).
Qual é o potencial de mudança das práticas coletivas das mulheres catadoras? A organização do trabalho produtivo e as relações estabelecidas a partir dele poderiam conduzir mudanças de ordem econômica, social e cultural? Que mudanças seriam essas?
A pesquisa de Wirth (2010, 2013) avaliou em que medida existe espaço para a mudança da divisão sexual do trabalho dentro das cooperativas de catadores, uma vez que estas se orientam por princípios de solidariedade e participação democrática, ou seja, “em que medida as experiências de trabalho associado modificam as relações sociais de sexo” (WIRTH, 2013, p. 195). A autora observou exemplos que mostram que “o trabalho associado
é um terreno fértil para a introdução de algumas modificações no que se refere às relações de gênero no ambiente de trabalho” (ibid., p. 200). No entanto, ela vai dizer que a divisão sexual do trabalho é uma organização social estruturante, que se impõe no cotidiano das cooperativas e é guiada pelas pressões do mercado.
Na organização do trabalho das cooperativas de catadores de materiais recicláveis existe uma nítida divisão sexual do trabalho. Comumente, o “trabalho de homem” está destinado ao maquinário e à exigência de força física, enquanto o “trabalho de mulher” está atrelado à sua maior “habilidade manual, atenção e agilidade” (WIRTH, 2010). Estereótipos que se naturalizam no cotidiano das atividades laborais e que demonstram a intrínseca ligação entre trabalho produtivo (trabalho masculino) e trabalho reprodutivo (trabalho feminino).
Nas cooperativas de catadores, as mulheres trabalham predominantemente na coleta e na triagem dos resíduos recicláveis, e os homens no carregamento, na prensagem e na armazenagem do material. Segue abaixo um trecho do trabalho de campo em que as mulheres comentam sobre essa divisão na cooperativa Acácia:
IV: A maioria na cooperativa é mulher e aí acaba ficando o serviço de maquinário para os poucos homens que tem. Eu não sei porquê dessa cultura.
III: Nós já trabalhamos na prensa.
IV: Aqui tem mulher que trabalha na prensa, assim, na falta deles. E na rua, por exemplo, o homem só é cargueiro, só cata o bag com o material e põe dentro do caminhão. Acredito que pelo exercício físico mesmo de erguer o bag pra colocar no caminhão, apesar que as mulheres vão pra carga também, quando não tem o homem.
[Pesquisadora]: O homem assume a função que a mulher tem quando precisa? Eles vão para a esteira, vão bater na porta dos moradores? IV: Não, tem uns que vai até embora. Como hoje, que não tem energia elétrica, não tem como ir pra prensa, tem alguns que preferem ir embora pra casa, ao invés de ficar aqui fazendo outra coisa, ajudando as mulheres.
(Lideranças - Caderno de Campo, Grupo focal, 2015).
A pesquisa realizada por Wirth (2010, p. 139) também demonstra claramente essa divisão sexual do trabalho no interior dessas organizações:
A triagem é concebida como trabalho feminino, o que é justificado pelo fato da mulher ter habilidades mais finas para reconhecer as características do material, bem como por ser mais caprichosa. O transporte e a prensagem do material são concebidos como trabalho masculino, o que é justificado pela demanda de maior força física. As
justificativas utilizadas denotam uma combinação entre características entendidas como femininas e habilidades de trabalho. A sensibilidade, a atenção, o “ser detalhista” e o “ser caprichosa” são compreendidas como características intrinsecamente femininas. (...) ocorre assim um mecanismo de naturalização das habilidades de trabalho das mulheres, que está muito presente no mercado de trabalho como um todo. A lógica dominante atua como se as características femininas fossem determinadas pelo sexo biológico, em vez de construídas socialmente. Outros trabalhos, como de Souza-Lobo (1991), de Kergoat (2002) e de Nobre e Freitas (2012), evidenciam a existência de certa naturalização das habilidades femininas, usadas como justificativa para determinar uma remuneração inferior às trabalhadoras, inclusive por essas características não serem reconhecidas como qualificações. Wirth mostra que, em contrapartida, o trabalho masculino está relacionado à técnica, e lembra que “o domínio da técnica pelos homens é historicamente um dos elementos que sustenta o seu poder sobre as mulheres” (COCKBURN, 1998; WAJCMAN, 1998 apud WIRTH, 2010, p. 180).
Após realizar a pesquisa nas duas cooperativas em Campinas, Wirth (2013, p. 199) concluiu que a “exploração que se processa na cadeia produtiva da reciclagem é sexuada”. Nos dois estudos de caso, a autora encontrou uma predominância do trabalho feminino (60% em uma cooperativa e 75% em outra) e “a alocação das mulheres numa função específica do processo produtivo: a triagem”. Os mesmos resultados foram encontrados na Cooperativa Acácia, onde 70% dos cooperados são mulheres e a triagem é realizada exclusivamente por elas. Encontramos trabalhando na esteira dois homens, ambos homossexuais, e uma transexual.
A atividade de triagem consiste na seleção criteriosa dos mais de 30 tipos de material reciclável. Trabalhando de pé, em bancadas ou mesas de triagem, as mulheres separam os materiais utilizando visão e tato, e por vezes submetendo alguns materiais ao teste de fogo e cor da fumaça, analisando sua flexibilidade e densidade. Esse processo é realizado com agilidade, quase que ininterruptamente, ao longo do expediente (WIRTH, 2013, p. 199)
Wirth (2013) mostra que os homens não realizam a triagem, salvo exceções. “Eles transportam o material dentro da cooperativa, alimentam as mesas de triagem, prensam o material separado, manejam os fardos e carregam o caminhão”. Atividades que demandam “maior esforço físico concentrado e estão relacionadas à utilização de maquinário como prensa e empilhadeira” (ibid., p. 199). Essa realidade foi encontrada também na cooperativa Acácia: os homens operam as prensas, a motocana que alimenta as esteiras com material, carregam, descarregam e dirigem os caminhões, arrastam os bags e manejam os fardos.
Mesmo no grupo que trabalha no monte, onde é realizada a pré-triagem, os homens dificilmente fazem a triagem.
Para muitas mulheres, de acordo com Wirth (2013, p 200), “o trabalho associado representa uma ocupação de grande duração e com remuneração significativa em suas trajetórias ocupacionais, além da possibilidade de conciliar melhor as atividades produtivas e reprodutivas”. Porém, a ausência das mulheres para resolver problemas familiares não é amparada financeiramente pela cooperativa, as faltas são descontadas e os cooperados recebem a retirada de acordo com os dias trabalhados.
O trabalho na Cooperativa Acácia é dividido entre coleta seletiva e usina de reciclagem. A remuneração é igual para os dois tipos de trabalho. A retirada é calculada com base no salário mínimo (R$ 937,00 em abril de 2017), os únicos descontos são a quota parte (R$ 15,00/mês/cooperado) e a contribuição mensal para o MNCR (R$ 1,00/mês/cooperado). O INSS é recolhido à parte pela cooperativa e não é descontado na folha de pagamento. Os membros do Conselho Administrativo e os coordenadores recebem R$200,00 a mais, e esse valor adicional é justificado pela maior responsabilidade da função, desempenhada, atualmente, apenas por mulheres. Também recebem um valor diferenciado os cargueiros e os prenseiros, funções ocupadas por homens, cuja justificativa é que a diferença de retirada foi necessária para manter os homens na cooperativa.
A cooperativa ainda é vista como um refúgio. Os homens procuram a cooperativa quando estão recebendo o seguro desemprego ou afastados por alguma coisa, a rotatividade de homem é grande e isso dificulta manter o homem na cooperativa. E por questão também física. Na coleta seletiva, por exemplo, o homem normalmente fica no caminhão que é onde tem que erguer o material e fazer a carga. Eu acredito que na coleta seletiva, a mulher é mais carinhosa, mais atenciosa, ela tem um contato melhor com a dona de casa do que um homem, ela é melhor recebida na porta de casa do que um moço (Gildete – Coordenadora do Monte, Caderno de Campo, 2017).
Na coleta seletiva, os cargueiros, que fazem a carga do material coletado nas ruas pelas mulheres, recebem um valor adicional de R$ 50,00 por mês e ganham “horas extras” quando trabalham depois das 17 horas. Na usina de reciclagem, cabe ressaltar o pagamento adicional aos prenseiros. Existem seis prenseiros na cooperativa Acácia, entre eles uma mulher. Os prenseiros recebem um valor adicional por fardos produzidos; eles explicam: “você faz 8 fardos para a cooperativa e depois somos nós que ganhamos em cima, depois é por produção. Cada um fardo feito a mais é R$3,00” (Adevair – prenseiro – Caderno de
Campo, Grupo focal dos homens, 2017). Os prenseiros produzem mensalmente em torno de 160 a 200 fardos extras, cada um. Isso significa que ao final do mês a retirada de um prenseiro é, em média, de R$1.500,00.
Luciana é a única mulher que trabalha na prensa. Kely também já trabalhou, na época era um sistema de revezamento com alguns homens, ela ficava 15 dias no mês na prensa, isso foi antes dela ir para as ruas fazer coleta e se tornar coordenadora da coleta seletiva. Luciana é homossexual e a maneira como se veste e se comporta não revela de início a presença de uma mulher no ambiente. Entretanto, observamos que foi ela a prenseira com menor produção no mês de abril de 2017: apenas 13 fardos extras. Na folha de pagamento do então mês de abril, Luciana recebeu R$940,00 e Adevair recebeu R$ 1.678,00.
Os carrinheiros, outro nicho masculino, não recebem uma remuneração adicional e, de acordo com os relatos das catadoras, tendem a compensar a “defasagem” trabalhando menos.
Eu vejo muita diferença do trabalho do homem e da mulher porque as mulheres, a maioria, se tem que descer, vamos descer, vamos limpar esteira, vamos tirar sacaria, elas fazem e, as vezes, você pede para um carrinheiro e ele fala “eu não vou, vou depois” (Vânia – Caderno de Campo, 2017).
Entre as mulheres, as únicas que recebem uma remuneração diferenciada são as representantes do Conselho Administrativo e as Coordenadoras de grupos. São seis coordenadoras na coleta seletiva e cinco na usina de reciclagem. Cada grupo e coordenadora têm sua própria dinâmica, como veremos no próximo capítulo. Tem também dois coordenadores homens que são, na realidade, motorista e operador de motocana, ou seja, não coordenam grupos, apenas recebem um adicional pelas funções “especializadas” que ocupam. As mulheres da coleta seletiva trabalham menos horas que as mulheres da usina de reciclagem, pois são dispensadas assim que percorrem o trecho estipulado para o dia. Na usina de reciclagem, as mulheres que trabalham na esteira são as mais numerosas e que trabalham nas condições mais precárias: são as únicas com horário realmente fixo de trabalho (das 7 às 17 horas, com apenas 1 hora de almoço); o ritmo é empregado pelo funcionamento da esteira, o local é insalubre, elas permanecem em pé por nove horas diárias, realizando uma atividade repetitiva. Além disso, as trabalhadoras da esteira sofrem pressão de todos porque a produção da usina depende, principalmente, do trabalho delas.
A flexibilidade de horário ajuda muito para as meninas que ficam na rua, porque as mães que deixam os filhos na creche têm que trabalhar até às 16 horas, porque as 16h45 já tem que buscar eles. Essas que trabalham na rua têm flexibilidade de horário, agora, quem trabalha na usina não tem: elas entram às 7 e vão até às 5 da tarde, então elas têm que tirar do seu orçamento um dinheiro pra pagar alguém pra levar e buscar a criança na creche, aí fica difícil (Anna Paula – Coordenadora do Grupo A de Coleta Seletiva, Caderno de Campo, 2017).
Eu tiro o chapéu pra quem trabalha 9 horas na esteira, não que eu não vá fazer isso se eu precisar, mas eu prefiro a prensa... 9 horas sem dó nem piedade, o pessoal do monte fala que é difícil trabalhar, mas a esteira é muito puxado, em pé, num cubículo desse tamanho, cheio de sacaria, quando eles [carrinheiros] não tiram a sacaria você quase não se movimenta. Eu ficava com os pés inchados (Vânia – Assistente Administrativo, Caderno de Campo, 2017).
Wirth (2013) mostra que a flexibilidade das relações de trabalho, a precariedade e a instabilidade ocupacional recaem de forma mais forte sobre as mulheres e ela conclui dizendo que:
Dessa forma, a predominância da força de trabalho feminina nesse segmento, a divisão sexual do trabalho interna às cooperativas e a possibilidade de conciliação das atividades produtivas e reprodutivas por parte das mulheres são três dimensões de gênero que se revelaram entrelaçadas e configuram uma condição de exploração específica dessa mulher trabalhadora (WIRTH, 2013, p. 201-202).