5.2 AUTONOMIA E A AUTORRESPONSABILIDADE DA VÍTIMA COMO
5.2.2 A autorresponsabilidade como capacidade sistêmico-penal de
As ações em seu aspecto externo, ou seja, quando passam a afetar a sociedade, possuem um direcionamento heterônomo dado por outros seres humanos, pelo sistema social, assim como por instrumentos de controle, como o direito penal. Nesse sentido, boas intenções nem sempre vão resultar na exteriorização de boas ações, e a realização de uma ação penalmente proibida pede mais que a má-intenção das pessoas.
As ideias de contrato social e de Estado de Direito vieram instrumentalizar a liberdade do ser humano moderno em referência ao âmbito de responsabilidade de outro ser. O sistema social e o direito, formam um instrumento heteronomo necessário à projeção social das várias possibilidades de ação do ser humano moderno. Para se garantir igualdade de possibilidades e acesso à cidadania, no entanto, é necessário limitar a
162 liberdade a partir de instrumentos heterônomos. Se somos diferentes em essência, considerando que cada ser humano é irrepetível, então a plena liberdade se afasta e contradiz a ideia de igualdade. Se todos são naturalmente livres, as diferenças ontologicamente constituídas serão evidentes e inevitáveis331.
Daí, a ideia de bem jurídico, como referencial político-criminal ao processo de incriminação e limite à determinação material de espaços de proibição, representou instrumento essencial à proteção da liberdade individual, assim como ao respeito à igualdade jurídica a partir do reconhecimento da necessidade de proteção às vulnerabilidades. Se se reconhece na lesão ao bem jurídico um limite ao direito de punir, só se legitimará a manifestação punitiva em face do comportamento que lese ou seja capaz de lesar tal bem.
A norma penal, como instrumento heterônomo, determina o conteúdo mínimo do não agir, garantindo os espaços de sociais de liberdade de ação para uma convivência pacífica em sociedade. A socialização reproduz uma realidade social a partir de uma rede de interação entre pessoas, em que as ações produzem um significado ecológico: a ação de um ser humano alcança e afeta o significado do próximo, não se pode garantir à pessoa uma liberdade externa absoluta como se não houvessem outras pessoas que também exercem suas liberdades.
A autonomia é núcleo da dignidade humana e conduz à consideração da autodeterminação e ao respeito da esfera de liberdade alheia, conforme o padrão de pessoa fundamental. No entanto a necessidade de alcançar a igualdade sociológica e jurídica com as diferenças naturais que marcam as pessoas limitam o alcance da perspectiva da autonomia em kant, assim como de todo o potencial dado à liberdade.
O pós-positivismo jurídico, acompanhado da difusão dos ideais do neoconstitucionalismo e a construção do sistema jurídico a partir de valores e princípios contribuiu ao desenvolvimento do princípio da autorresponsabilidade como
331 As pessoas não são iguais, e não querem sê-lo. Cada um é um acontecimento único e irrepetível. O que as pessoas querem é ter participação igual nos benefícios da vida em sociedade. Deixadas em liberdade, suas diferenças vão se tornar evidentes. Para impor-se a igualdade, será necessário abolir- se a liberdade. ROCHA, op. cit. p. 176.
163 um referencial sistêmico da ideia de pessoa objetivamente livre construída a partir da liberdade de ação constitucionalmente assegurada nos estados democráticos. Esse princípio é tomado como fundamento material para solução de impunidade aos atores que contribuem para uma construção do perigo cooperado pela vítima.
O princípio da autorresponsabilidade é um correspondente jurídico da liberdade e do livre desenvolvimento da personalidade individual da pessoa autônoma. Para esse princípio, cada pessoa livre e imputável deve ser responsável por suas ações, sendo que a responsabilidade se encerra ao alcançar as consequências das ações autorresponsáveis alheias. Cada um é responsável por si, não pelo comportamento do outro.
A partir daí se entende que cada pessoa deve ser responsável por suas ações, pelo curso causal e pelos resultados inerentes à mesma: a expressão da personalidade decorre da liberdade e, ao ser livre ao agir conforme a sua vontade, a pessoa passa a ser responsável por sua existência, incluindo as lesões que pratica contra si mesmas.
O sistema jurídico-penal, considerando a dignidade humana como conteúdo do programa que direciona o desenvolvimento das estruturas do sistema, tem na autonomia e na racionalidade pressupostos para direcionar o perfil do âmbito de organização estabelecido ao exercício da liberdade pessoal. A autorresponsabilidade é o fundamento que determina a competência e os papéis que vinculam a pessoa ao sistema social, na medida em que estabelece os limites da responsabilidade de cada cidadão em face do âmbito de organização a ser garantido pelo comportamento
autorresponsável alheio. É aqui que Câncio Meliá332 e Jakobs333 sustentam as
construções que partem de uma compreensão normativa do âmbito de organização
332 MELIÁ, Manoel Cancio. La Exclusión de la Tipicidad por la responsabilidad de la Vícitma (“imputación a la víctima”). Colombia: Universidade Esternado de Colombia, 1998. (Cuadernos de Conferencias e
Artículos, 19).
333JAKOBS, Gunther. A Imputação Objetiva no Direito Penal. Tradução: André Luís Callegari. São
164 formado pela autorresponsabilidade para negar a imputação nos casos de ação a próprio risco ou de competência da vítima334.
A Constituição tem a dignidade humana como parâmetro ao desenvolvimento do núcleo de direitos e garantias fundamentais e a autonomia é um dos núcleos do valor humano: o princípio da autorresponsabilidade resulta da compreensão da capacidade constitucionalmente reconhecida do cidadão ser livre e capaz de se determinar, sendo assim garantido o livre desenvolvimento de sua personalidade.
A partir desse princípio, Claus Roxin pretende negar a imputação objetiva do resultado aos casos de participação em autocolocação em perigo e na heterocolocação em
perigo consentida, quando equiparável a uma autocolocação335. Shünemann sustenta
que é na autorresponsabilidade que se encontra o fundamento material à vitimodogmática como uma proposta que toma o princípio vitimológico como elemento geral de não imputação em casos de autoexposição da vítima ao perigo336. Frisch337 nega a existência de conduta típica nos casos de participação em autocolocação em perigo e autolesão. Para Greco338 o princípio corrige o curso de uma orientação
paternalista do Direito Penal.
Eles consideram que o livre desenvolvimento da personalidade faz do cidadão uma pessoa autorresponsável e consequentemente garantidora dos seus bens e responsável pelos riscos, perigos e lesões livremente realizados. Em face dessa auto- organização do seu âmbito vital, as pessoas possuem uma responsabilidade prevalente na guarda de sua vida e sua integridade física.
334 Cf. Capítulo 07.
335 ROXIN, Claus. Sobre a Discussão acerca da Heterocolocação em Perigo Consentida. IN: LEITE, Alaor (org.). Novos Estudos de Direito Penal. São Paulo: Marcial Pons. São Paulo: Marcial Pons, 2014. 336 SCHUNEMANN, Bernd. A posição da vítima no sistema da justiça penal: Um modelo em três
colunas. IN: Estudos de Direito Penal, Direito Processual Penal e Filosofia do Direito. São Paulo:
Marcial Pons, 2013.
337 WOLFGANG, Frisch. Comportamento Típico e Imputación del Resultado. Tradução de Joaquín Cuello Contreras y José Luis Serrano González de Murillo. Madrid: Marcial Pons, 2004.
338 GRECO, Luís. Um Panorama da Teoria da Imputação Objetiva. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013.
165 A autorresponsabilidade não é a autonomia. Ser autônomo é um pressuposto à autorresponsabilidade. O sentido natural e ontológico do fenômeno (autonomia), apesar de não determinar por si só o sentido de princípios normativos, precede ao significado um instituto jurídico constitucional-penal (princípio da autorresponsabilidade). A construção axiológica do instituto não deve desprezar a compreensão ontológica do fenômeno339.
O princípio da autorresponsabilidade, por si só, não é capaz de estabelecer uma responsabilidade prevalente da vítima face das lesões que recai sobre os seus bens. A dignidade humana e os direitos que, constitucionalmente, decorrem dela se impõem não apenas em uma perspectiva positiva de necessidade de garantia ao seu exercício, mas também negativa, de proteção, de direitos que devem ser protegidos de lesão.
Nesse sentido, o direito à autodeterminação que se possa deduzir da dignidade humana, da autonomia e das liberdades constitucionalmente asseguradas não apenas se expressa como uma responsabilidade prevalente de cada pessoa por seus atos, mas, sobretudo como a necessidade de respeito e proteção de seus bens para que possam ser livres. Luzon Peña critica que o princípio da autorresponsabilidade, para além de não se fundamentar suficientemente em uma base legal, não passa de uma petitio principii, pois não há fundamento para justificar que “terceiros ya no tendrían um deber de tutela y respeto de sus bienes jurídicos y quedarían exonerados de responsabilidade si los lesionan”340. Se diz que o princípio da
autorresponsabilidade estabelece um dever de guarda prevalente da vítima em face de seus bens, mas não se diz por que deve ser assim.
339 Schünemann, por exemplo, em seu método, busca “uma síntese entre o normativismo e ontologismo. De um lado, o discípulo de Roxin é um dos proeminentes defensores de uma perspectiva teleológico-funcional do direito penal, isto é, de uma perspectiva segundo a qual o sistema e os conceitos da teoria do delito têm de ser construídos tendo em vista finalidades político criminais. Mas [...] Schünemann enfatiza a importância de dados ontológicos, de estrutura lógico-reais ou lógico- materiais, quase no sentido que lhes conferia o finalismo, para que essas finalidades possam vir a ser alcançadas.” IN: SCHÜNEMANN, Bernd. Estudos de Direito Penal, Direito Processual Penal e Filosofia
do Direito. Coordenador: Luís Greco. São Paulo: Marcial Pons, 2013. p. 09.
340 LUZÓN PEÑA, Diego-Manuel. Princípio de alteridad o de identidad vs. princípio de autorresponsabilidad. Participación en autopuesta en peligro, heteropuesta en peligro consentida y
equivalencia: el criterio del control del riesgo. IN: Revista Nuevo Foro Penal. Vol. 6, nº 74, enero-junio 2010, pp. 58-80, Universidad EAFIT, Medellín.
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