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A cena se desenrola da seguinte maneira: frente uma multidão de pessoas que tomavam a via pública em protesto, uma mulher falava através de um autofalante em frases entrecortadas que eram repetidas pelos manifestantes, numa maneira de fazer com que a mensagem pudesse chegar a todos que estavam ali. Ela dizia: “Penso que, daqui a 10 anos, o que se vai escrever

36Conceito jornalístico que se refere ao que a imprensa define que será noticiado, de acordo com o valor-notícia, a linha editorial e outros critérios.

sobre Seattle não será que bomba de gás lacrimogênio explodiu e em que esquina, mas que a OMC, em 1999, foi o nascimento de um movimento global de cidadãos para uma economia democrática global”.

Assim começa o documentário This is what democracy looks like (Esta é a cara da democracia), produzido pelo Independent Media Center (Indymedia) através de imagens obtidas por mais de cem pessoas, entre ativistas e produtores independentes de audiovisual, que estiveram de 30 de novembro a 4 de dezembro nas ruas da cidade norte-americana de Seattle, participando dos protestos contra a Terceira Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) que lá ocorreria, num evento que reuniu cerca de 100 mil pessoas e ficou conhecido como a Batalha de Seattle.

O Indymedia é uma rede internacional formada por produtores de informação que, no Brasil, leva o nome de Centro de Mídia Independente (CMI). A rede tem sua origem exatamente com a Batalha de Seattle. A ideia era construir um projeto temporário, que consistiria em um site para a publicação livre, no qual ativistas e jornalistas da imprensa alternativa poderiam publicar vídeos, imagens, relatos e textos em copyleft37, permitindo a cooperação mútua e objetivando quebrar o monopólio da difusão de informações pela imprensa empresarial. O projeto acabou tornando-se permanente e hoje possui núcleos em diversos países do mundo.

A Batalha de Seattle é considerada o início das grandes manifestações promovidas pelos Movimentos de Resistência Global, que têm, na verdade, sua origem no México, como veremos mais a seguir. Conforme Dias (2007):

Os Movimentos de Resistência Global surgem em cadeia planetária com a Batalha de Seattle e procuram expor para a população mundial as contradições do modelo de globalização hegemônico. Ao mesmo tempo que protestam em atos de desobediência civil nas ruas – repletos de cor, performance e música – das cidades onde há os encontros do Fundo Monetário Internacional (FMI) ou da Organização Mundial do Comércio (OMC), por exemplo, também participam de discussões que buscam encontrar alternativas ao modelo criticado. (DIAS, 2007, p. 203)

Além disso, esse evento também é tido como o marco para o movimento audiovisual que passou a ser chamado de “videoativismo”. This is what democracy looks like, assim como

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Copyleft, ou livre direito de cópia, é uma forma de usar a legislação de proteção dos direitos autorais com o

objetivo de retirar barreiras à utilização, difusão e modificação de uma obra criativa devido à aplicação clássica das normas de propriedade intelectual, exigindo que as mesmas liberdades sejam preservadas em versões modificadas.

Showdown in Seattle – five days that shook the WTO, são tidos como os documentários-rede

seminais do videotivismo, que veio influenciado pelo pensamento neozapatista, que iremos discutir mais adiante. Neves explica o porquê:

Esse programa político [neozapatismo] confluiria com a cultura hacker, no hackativismo dos anos 1990, que seria retomado, em um leque mais amplo de táticas comunicativas, com o ciberativismo da primeira década deste século. Estes movimentos políticos absorveram muitos dos procedimentos das mídias comunitárias e militantes de uma ou duas décadas antes (visíveis, por exemplo na co-produção de Showdown...). O grande mérito destas mídias, muito além de qualquer inovação formal, foi ter consolidado os experimentos de produção coletiva (ou colaborativa) de documentários que foram fragmentariamente ensaiados desde o fim dos anos 1960 (vide, por exemplo, os documentários de Chris Marker com operários de Besançon, em A bientôt, j’espère e Classes de Lutte). (NEVES, ago. 2010, p. 79)

Tais levantes como os da Batalha de Seattle, também chamados de movimentos de alterglobalização, não podem ser pensados separadamente de suas estratégias de comunicação, que auxiliaram em grandes jornadas de manifestações, como afirma Sotomaior (2014). Foi destes grupos que surgiram os movimentos de ciberativismo, com a criação de plataformas digitais livres, que permitiram a transmissão e download de conteúdos, e o próprio videoativismo, que é assim definido pelo autor:

O que viria a ser chamado de videoativismo em Seattle era baseado na presença de câmeras (geralmente mais leves e acessíveis, como as handycams), inseridas dentro dos conflitos das ruas. Junto a isso, havia processos de edição rápida e compartilhamento via internet, possibilitados pelas plataformas criadas dentro dos movimentos; além de exibições seguidas de debate em espaços públicos, como ruas, universidades, movimentos sociais, escolas e outros locais. Numa época bem anterior às exibições online em sítios como o YouTube e Vimeo, os vídeos eram vistos somente a partir de um download, ou enviados pelo correio. Mas, mesmo assim, permitiram um tipo de circulação amplo na publicização dos fatos de Seattle e outras lutas. Além disso, muitos dos filmes eram realizados a partir de processos coletivos, onde juntavam-se diferentes registros videoativistas numa mesma edição. (SOTOMAIOR, 2014, p. 338)

Sotomaior destaca que, a partir de Seattle, formou-se uma geração, em diferentes lugares do mundo, de pessoas que passaram a utilizar vídeos como instrumento das lutas sociais, em especial, na crítica e na resistência aos paradigmas do capitalismo global. Com a popularização da Internet e com aparelhos mais acessíveis de captura de vídeos, estes grupos passaram a descobrir novas possibilidades de comunicação rápidas e horizontalizadas.

O coletivo Nigéria traz muito dessas características do videoativismo. Em Fortaleza, durante as manifestações de junho de 2013, os integrantes se juntaram aos manifestantes e, muitas vezes, se confundiam com estes na cobertura dos eventos. A websérie Cartas Urbanas reúne, em alguns episódios, diversas cenas de manifestação de moradores contra a demolição de suas casas que foram acompanhadas de perto pelos integrantes do coletivo, os quais se juntavam a eles nos momentos de embate, mas trazendo como arma a câmera na mão. Desde 2010, o Nigéria está presente nas diversas manifestações de cunho popular ocorridas na cidade de Fortaleza, realizando registros audiovisuais das ações, que algumas vezes são compiladas em um documentário, outras, apenas lançadas na Internet, numa forma de divulgar os acontecimentos sobre o prisma dos manifestantes.

Estar com uma câmera na mão em situações como estas de conflito é, também, um risco. Nas gravações que deram origem ao documentário Com Vandalismo, um dos integrantes do Nigéria é atingido no olho por uma bala de borracha e outro chega a ser detido pela polícia, como destacarei no tópico 3 deste capítulo.

Este risco é mostrado em um dos documentários mais marcantes sobre o videoativismo, intitulado Brad: uma noite mais nas barricadas, produzido pelo CMI, no Brasil. O filme conta a história de luta do midiativista norte-americano Brad, que participou das diversas lutas de resistência global na década de 1990 e 2000 – incluindo dos protestos populares em Fortaleza, em 2002, durante a reunião do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) – e foi morto pela polícia em 2006, no México, enquanto filmava a repressão sofrida pela manifestação da Assembleia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO). “O envolvimento com o problema, no videoativismo, não é distanciado e vai para além de um corpo-câmera que treme e acompanha de perto o devir-mundo e os seus embates. Está na radicalidade da tomada de uma posição na situação de risco” (SOTOMAIOR, 2014, p. 301).

A história do videoativista norte-americano é contada, no filme Brad…, por um narrador brasileiro que o conhecia, o Miguel. Ao contar a história do videoativismo através da vida deste

mártir do movimento, ele destaca as manifestações de Seattle, mas ressalta: isso tudo começou bem antes. Na região pobre, montanhosa e indígena de Chiapas, no México…