Tem-se dito que a casuística ensinada no século 17, e tão tremendamente impugnada por Pascal, desapareceu dos tratados de teologia moral dos nossos dias. É fácil o leitor convencer-se da inverdade desta asserção. Basta abrir qualquer tratado, de teologia moral, de Génicot, Noldin, Gury, Ferreres, ou outros autores de nomeada, para verificar que mudou apenas o rótulo, mas não o conteúdo dessa doutrina.
Em comprovação, passaremos a citar como pano de amostra, alguns exemplos que casualmente temos à mão, extraídos da conhecida obra de Gury "Casus conscientiae", Paris 1892, 8ª_ edição, vol. I, pág. 183. O caso em apreço é textualmente o seguinte:
"Ana cometeu adultério. A princípio, interrogada por seu marido desconfiado, ela, responde a todas as perguntas que não violou o vínculo matrimonial. Interrogada pela segunda vez, e depois de ser absolvida do seu pecado (em confissão), diz: Não sou culpada desse crime! Quando interrogada pela terceira vez pelo marido, que continua a insistir, ela nega redondamente que tenha cometido adultério, dizendo: Não o cometi! subentendendo consigo mesma: um adultério que tenha obrigação de revelar a você."
Pergunta Gury se Ana é condenável neste seu procedimento, e responde:
"Ana pode ser absolvida de falsidade em todos os três casos acima mencionados. Porque, no primeiro caso, podia afirmar que não violou o vínculo matrimonial, porquanto este continuava ainda a subsistir. No segundo caso, podia afirmar que era inocente de adultério, uma vez que sua consciência estava livre do fardo, depois de se ter confessado e recebido absolvição; pois tinha a certeza moral de ter sido perdoada. Podia até fazer esta declaração sob juramento, consoante opinião geral dos teólogos, especialmente a de Santo Afonso de Ligório, Lessius, os Salmanticenses e Suarez. No terceiro caso podia, segundo opinião provável, negar ainda ter cometido adultério no sentido em que tivesse obrigação de o revelar ao marido."
É esta a "moral cristã" que, segundo Gury, merece a aprovação de todos os moralistas católicos, e que foi devidamente aprovada pela competente autoridade eclesiástica.
Poderão semelhantes doutrinas promover a grandeza moral e social de um povo?
A respeito dessa perversidade moral escreve o conhecido teólogo católico Johann Adam Moehler: "A casuística é o atomismo da moral cristã... e tem exercido efeito venenoso sobre a íntima essência da vida cristã. Profundeza religiosa, austera e santa moralidade, disciplina eclesiástica — tudo isto foi por ela solapado. Era característico dos Jesuítas transformarem a íntima essência em meras aparências externas, de maneira que chegaram ao ponto de conceber a Igreja de preferência como um Estado." (Moehler: Symbolik).
O abade Rancé, fundador da Ordem dos Trapistas, escreve no seu livro "Lettres", pág. 358: "A moral dos Jesuítas é tão corrupta, os seus princípios são tão contrários à santidade do Evangelho, que nada há mais doloroso para mim do
que ver o meu nome usado para patrocinar semelhantes opiniões, que detesto de todo o coração."
Com esses autores católicos concordam os escritores protestantes. Adolfo Harnack, então reitor da Universidade de Berlim, escreve, em seu livro "Dogmengeschichte":
"Com a ajuda do Probabilismo, conseguiu a Ordem dos Jesuítas transformarem em pecado venial quase todos os pecados mortais. Por ele se aprende como revolver-se na lama, como desorientar a consciência, e, no confessionário, varrer um pecado com outro pecado. Os extensos manuais da ética dos Jesuítas são, em parte, monstruosidades de abominação e repositórios de execráveis pecados e hábitos imundos, descrições e tratados que provocam gritos de revolta. As coisas mais chocantes são neles tratadas com cara de bronze, e isto por padres solteiros... bastante vezes com o propósito de representar as coisas mais infames como perdoáveis, e para mostrar aos mais empedernidos prevaricadores um caminho para viverem em paz com a igreja.
Aparece aqui a influência deletéria de um sistema religioso do qual esses homens são servidores, uma vez que esse sistema é capaz de produzir tão sutis licenciosidades e tão perversa avaliação dos princípios morais... E tudo isto em nome do Cristo. . . O interesse que preside a tudo isto está em manter e robustecer a força e o prestígio externo do eclesisticismo”(l).
Essa mesma doutrina deletéria, explanada nos tratados de teologia moral, e contra a qual tanto se revoltou Pascal, aparece também nos Catecismos populares, embora em forma menos positiva. Tenho casualmente sobre a mesa um exemplar do "Catholic Manual of Christian Doctrine", usado nas escolas católicas dos Estados Unidos e devidamente aprovado pela autoridade diocesana. Na pergunta 41 vem explicado que uma pessoa convencida de que recebe de menos por seu trabalho ou mercadoria, pode, sem pecar, praticar "compensação oculta", isto é, em bom português, furtar o resto a que julga ter direito. Onde o empregado ou a empregada que não esteja convencido de receber de menos1?
Na conhecida revista católica "The Ecclesiastical Review", publicada pela Universidade Católica de Washington. D. C., Estados Unidos escreve o Padre J. Francis Connel, C. SS. R. (isto é, da Congregação do Santíssimo Redentor), às páginas 68-9, número de janeiro de 1945, o seguinte:
(1) Ver: Harnack: História do dogma, Vol. VIII pg. 102, Oxford 1899.
“Question: What would be regarded now-days as the absolute sum for grave theft?
Answer: To lay down a genral norm, in view of actual conditions and the value of money, it would seem that the absolute sum for grave theft would be about $ 40."
Em tradução: "Pergunta: Qual seria, hoje em dia, considerada como soma absoluta para constituir roubo grave?
Resposta: Para estatuir norma geral, atentas as condições reais e o valor do dinheiro, parece que a soma absoluta para constituir roubo grave seria cerca de 40 dólares."
Quarenta dólares equivalem mais ou menos a Cr$ 4.500,00 cruzeiros (ou 80 reais hoje) nossos. Quer dizer que, segundo as normas morais do padre Connel, aprovadas pela competente autoridade eclesiástica e reconhecidas pelos
responsáveis da "Ecclesistical Review" da Universidade Católica de Washington, quem rouba menos de Cr$ 4.500,00 (80 reais hoje) não comete pecado mortal. Quem por exemplo, rouba Cr$ 500,00, certamente não incorre em culpa grave. E como, segundo a Teologia Moral, a soma dos pecados veniais, por mais numerosos que sejam, não chega nunca a perfazer pecado mortal, pode o adepto de semelhante moral rouba sucessivamente centenas de cruzeiros, sem cometer pecado mortal.
Como se vê, persiste em nossos dias a mesma casuística funesta e anticristã contra a qual o autor das "Lettres Provinciales" vibrou a tremenda clava da sua esmagadora dialética.
"Meu Reino não é Deste Mundo"
O Cristianismo saiu da forja divina do Evangelho em estado incandescente, na mais intensa ignição espiritual. E esta divina incandescência continuou ainda por diversos séculos. O que os primeiros discípulos do Cristo praticavam, ou antes, viviam, era Cristianismo em estado puro, essência cristã — e isto os levou a tremendos conflitos com o mundo profano, porque "o seu reino não era deste mundo", assim como deste mundo não era o reino de seu divino Senhor e Mestre.
Expulsos da sociedade, varridos da superfície da terra — onde, aliás, viviam apenas os seus corpos — refugiaram-se esses heróis para baixo da terra, enquanto seus espíritos viviam nas alturas do céu, onde era o seu verdadeiro reino, seu clima divino.
Em princípios do 4º_ século apareceu um imperador que veio a tornar-se para o jovem cristianismo pavoroso desastre, desastre incomparavelmente maior do que haviam sido os Nero e Diocleciano, porque estes, alimentando a tempestade da perseguição, aumentavam cada vez mais a divina incandescência dos discípulos do Nazareno — assim como impetuosa rajada de vento faz redobrar o fogo de um vasto incêndio e comunicar maior ignição ao ferro lançado na forja.
Apareceu no cenário, depois desses inimigos manifestos, um inimigo oculto, incomparavelmente pior que aqueles Constantino Magno.
Quem apenas leu compêndios de história eclesiástica e livros com "Imprimatur" do clero, ficará espantado em face desta minha afirmação, porquanto está habituado a ver em Constantino Magno o "primeiro imperador cristão", o insigne benfeitor do Cristianismo primevo. Nem eu tenho intenção de negar ao filho de Santa Helena certo verniz de religiosidade — embora seja ele, aliás o tipo do político sagaz e do diplomata solerte que até com a protelação do batismo procura fazer negócios. Das suas intenções íntimas julgará Deus. Nós tratamos apenas dos fatos objetivos, históricos - - e é inegável que com as medidas governamentais de Constantino Magno começou a decadência do Cristianismo.
Saiu da forja divina dos sofrimentos o ferro em brasa — e arrefeceu por falta de fogo... O "imperador cristão" concedeu ao Cristianismo plena liberdade, cumulou de honras os chefes espirituais da jovem igreja, confiou-lhes elevados cargos na política e na administração do império, entregou-lhes as chaves para grandes fortunas — e estava lançado o germe da corrupção interna, não do Cristianismo em si mesmo, que é incorruptível porque divino, mas de numerosos cristãos que tinham nas mãos os destinos históricos do Evangelho do Cristo.
Os chefes da igreja trocaram a força do espírito pelo espírito da força.
Diluíram em águas humanas a essência divina do Nazareno servindo ao mundo um cristianismo falsificado, afirmando ser aquilo o Cristianismo puro e integral...
Há um grande mistério no seio do Cristianismo: quando tomado em estado puro, incompatibiliza o homem com o mundo profano e pecador. Por quê? Porque "o seu reino não é deste mundo"... Jesus Cristo foi de todos os homens o mais incompatível com o mundo, e, quanto mais cristão é um homem, tanto mais o mundo o considera corpo estranho e quisto inassimilável no meio do seu organismo profano.
Bem sabemos que certos apologistas modernos, tentam provar, em livros e conferências, a perfeita compatibilidade entre Cristianismo e mundo; provam,
com impecáveis silogismos, que o reino divino do Nazareno é, ou pelo menos pode ser "deste mundo".
Têm razão, esses paladinos dum Cristianismo moderno, chique, granfino, aristocrático, elegante, up-to-date — lá do seu ponto de vista — tanta razão têm eles quanta aquele que tenta realizar um consórcio entre o fogo e a água. É possível esse consórcio, pois não — mas o que desaparece é o fogo, e o que fica é a água... Água morna...
É o que provam os séculos, desde o tempo de Constantino Magno, esse solerte político e hábil congraçador do fogo do Evangelho e das águas do mundo...
Quando o diabo, no deserto, mostrou a Jesus "todos os reinos do mundo e sua glória", afirmando que tudo aquilo era dele, não mentiu, por exceção, porque tudo aquilo era de fato dele, ele era o "príncipe do mundo", como Jesus reconhece explicitamente. O mundo sem o Cristo pertencia a Satanás — e pertence-lhe ainda onde o Cristo não domina. E esse mundo satanizado não é, sem mais nem menos, cristificável, se assim se pode dizer. Só um mundo "dessatanizado" é que pode ser cristificado, e só ele é compatível com o Cristo.
Com o advento do Cristo tem o homem a possibilidade de se "dessatanizar" e cristificar. "Eu venci o mundo — diz Jesus — chegou a hora em que será expulso o príncipe deste mundo"...
Essa "dessatanização" foi realizada solenemente entre Belém e o Gólgota, e todo o homem que viver o Cristo, em sua vida, morte e ressurreição, será "dessatanizado" e cristificado.
Mas, viver o Cristo é nutrir-se de cristianismo puro, alimentar-se de puríssima essência cristã. Qualquer diluição, qualquer enfraquecimento desse divino elixir da suprema espiritualidade é ato de traição, beijo de Judas, porque assassínio da alma divina do Cristianismo.
É este o crime máximo que certas igrejas cristãs estão cometendo, desde os primórdios do 4º_ século, quando Constantino Magno elaborou a fórmula diabólica de um consórcio entre Cristo e Satanás, um compromisso covarde entre o reino de Deus, que não é este mundo, e o reino deste mundo, que não é de Deus.
Constantino e seus auxiliares conseguiram em poucos anos de paz o que Nero, Diocleciano e seus comparsas não haviam conseguido em três séculos de guerra: tirar da forja divina do Evangelho o ferro candente da alma cristã e fazê-la arrefecer ao contato das auras frígidas do mundo circunjacente.
Desde esse tempo, a igreja cristã, livre e respeitada, ganhou imenso em organização jurídica e hierárquica, tornou-se uma potência política, diplomática, financeira e militar — ela, filha daquele homem que era mais pobre que as aves do céu e as raposas da terra, — a igreja do pobre Nazareno — acabou milionária! Na Idade Média chegou a igreja a ser a maior e quase a única potência mundial, nomeando reis, depondo monarcas, marchando à frente de formidáveis exércitos. Hoje em dia, é a hierarquia romana a maior potência financeira e política do globo.
Dizem então os homens ignaros, deslumbrados com essa pasmosa organização política, diplomática e financeira da igreja, que o reino de Deus vai de triunfo em triunfo. Como se o espírito do Cristo fosse susceptível de organização burocrática! Como se catálogos, estatísticas e bitolas padronizadas pudessem dizer algo da grandeza espiritual, que é essencialmente anônima! Como se a essência divina do Evangelho pudesse ser rubricada, carimbada, manipulada à guisa de qualquer mercadoria venal do comércio ou da indústria humana!
Nunca foi o cristianismo tão glorioso e tão ele mesmo como naquele momento tragicamente sublime em que o Cristo, chaga viva, ludíbrio do mundo inteiro,
suspenso entre o céu e a terra, gemia: "Pai, em tuas mãos encomendo o meu espírito"... Nunca foi a igreja tão divinamente bela e vitoriosa como naqueles 300 anos em que vivia em extrema pobreza e suprema espiritualidade, no fundo das catacumbas ou ensangüentava a arena do Coliseu...
"Estão por dentro todas as magnificências da filha do rei"... "O reino de Deus está dentro de vós"...
Quem considera as organizações eclesiásticas como bitola do espírito do Cristo mostra que é analfabeto e tábua-rasa precisamente naquilo que é a essência do Evangelho. Leia o Sermão da Montanha, leia o colóquio noturno de Jesus com Nicodemos, e procure retificar o seu erro à luz desses relâmpagos divinos.
Pode a organização eclesiástica atingir ao infinito — e o espírito do Cristo estar a zero. Pode a parte humana da igreja subir ao supremo zênite — e o elemento divino descer ao mais profundo nadir". ..
"Quem não renascer pelo espírito não pode ver o reino de Deus"... "O meu reino não é deste mundo"...
É necessário que a Divina Providência, para contrabalançar a obra nefasta dos Constantinos, nos mande alguns Neros, a fim de que a benéfica inimizade destes reconstrua o que a maléfica amizade daqueles destruiu, a fim de arrasar a orgulhosa torre de Babel do nosso cristianismo político-diplomático-financeiro e levantar o divino santuário dum cristianismo espiritual como o dos primeiros tempos...
Uma vez que, segundo Tertuliano, toda alma é cristã por natureza, é certo que as almas sinceras se voltarão sempre, como plantas heliotrópicas, para lá onde sentem irradiar a "luz do mundo"...
Foi por este Cristianismo que Pascal lutou a vida inteira, desde a sua conversão definitiva, defendendo-o contra todas as tentativas de adulteração ou mescla com elementos profanos. Está provado, através de quase vinte séculos, que só um Cristianismo puro, 100% genuíno e integral, é que possui a força de arrancar os homens da Sodoma da sua luxúria ou da Babel do seu orgulho.
Os que advogam um cristianismo político, diplomático, moderno, elegante, tipo salão, ou outra espécie qualquer de cristianismo "condicionado" - são piores inimigos do Cristianismo do que os hereges e ateus manifestos.
Ou aceitamos um Cristianismo em estado puro, assim como brotou dos lábios do Nazareno — ou não somos cristãos de forma alguma!...
O reino de Deus está no mundo — mas "não é deste mundo". . .