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Pascal e a Humanidade — O seu Livro

No documento Pascal (páginas 58-63)

"Pensées"

Pascal é uma das poucas celebridades mundiais que não publicou livros. Ver- dade é que escreveu tratados sobre matemática e geometria; mas essas conquistas, há tempo, se divorciaram do nome do seu autor e se perderam no vasto anonimato da ciência como bem comum da humanidade.

As "Lettres Provinciales", que escreveu quase por acaso, tornaram-no temido e admirado, mas não fizeram de seu autor, propriamente, uma celebridade mundial.

O livro central e eterno a que esse homem, que morreu com 39 anos de idade, deve a sua imortalidade sobre a face da terra, não foi por ele publicado; dele foram encontrados, após sua morte, apenas os tijolos do edifício, ou antes as esplêndidas peças de alvenaria, mas o edifício mesmo, em sua forma atual, é de outros. E, no entanto, bastaram essas mil e tantas "pedras" para dar a Pascal um dos primeiros lugares na galeria dos grandes gênios da humanidade e do Cristianismo.

Assim como Colombo morreu sem saber que descobrira um novo continente cheio de maravilhas e grandezas, assim deixou também Pascal este mundo sem suspeitar que aquele punhado de fragmentos de papel que deixara nas gavetas viria a ser para a humanidade do futuro uma verdadeira América de magnificências espirituais.

O Pascal que a humanidade cristã conhece, admira e ama, não é o autor do "Essai sur les coniques", nem o hábil experimentador das "Experiences nouvelles touchant le vide", nem o Pascal do "Traité de l'équilibre dês liqueurs", embora tenham esses estudos rasgado novos horizontes à aerostática e hidrostática. Nem tão pouco nos curvamos ante o vibrante polemista das "Lettres Provinciales", ainda que essas 18 cartas sejam um dos maiores monumentos da literatura francesa e o atestado de uma grande sinceridade cristã.

O Pascal que atravessa os séculos e empolga as almas de todos os tempos é o Pascal dos "Pensées", porque, por menos que os materialistas ou os intelectualistas queiram, o escol da humanidade é essencialmente espiritualista, e os melhores dentre os filhos dos homens têm os olhos voltados para os horizontes eternos da Divindade. Depois que o homem pensou, viveu, lutou e sofreu muito, está mais do que nunca disposto a crer num mundo sobre-material e ultraintelectual; ou, como dizia Pascal, "o último passo da razão (inteligência) está em admitir que há infinitas coisas que ultrapassar o seu alcance; se a isto não chegar, dá prova de grande fraqueza."

É por causa dessa inextinguível sede do sobrenatural e por causa desse veemente heliotropismo metafísico que os "Pensées" são um livro sempre novo, atual e querido, e serão lidos e meditados, enquanto as "Confessiones" de Agostinho fizerem parte integrante da literatura cristã da humanidade.

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Mas, afinal de contas, que são os "Pensées”?

O leitor comum e superficial não vê, talvez, neste livro senão algumas centenas de lindos cristais de pensamentos, idéias filosóficas, metafísicas, místicas, sobre a vida humana e o Cristianismo. Há tantos homens que coligiram belos pensamentos - Sêneca, Marco Aurélio, Rousseau; nem faltam entre os escritores cristãos coletâneas de lampejos altamente espirituais... Fossem os "Pensées" célebres apenas na França, atribuí-lo-íamos, talvez, à clássica beleza e diafaneidade de estilo, mas esse livro se tornou patrimônio espiritual da humanidade, como a "Imitação do Cristo" e as "Confessiones". Na última guerra mundial foi este livro encontrado, freqüentemente, na bagagem de soldados franceses mortos no campo de batalha.

Não é possível solvermos o mistério dos "Pensées", sem remontarmos a uma zona que, possivelmente, é terra incógnita para muitos dos nossos leitores.

Pascal é o grande representante de uma faculdade humana que poderíamos chamar ultraintelectiva, como já foi lembrado no início deste livro. E como, no fundo, essa faculdade existe e atua em todos os homens, por isto milhares de homens introspectivos encontram nos pensamentos claros e explícitos de Pascal o seu próprio pensar e sentir, embora esse seu sentir e pensar lhes seja apenas obscura e implicitamente consciente. Quando um livro nos diz o que nós mesmos quiséramos dizer, mas dizer não sabemos, então esse livro se nos torna amigo querido, confidente e conselheiro nas horas incertas e angustiosas da vida. Um livro realmente bom não tem que dizer coisas novas; tem que dizer as coisas mais antigas que existem, tão antigas como a humanidade, quase tão antigas como o próprio Deus, uma vez que todas essas coisas antigas e eternas estão dentro de nós, em estado dormente e potencial; o livro, quando realmente bom, é o misterioso condão, a varinha mágica, o divino talitha-cumi que do longo sono tia potencialidade inconsciente suscita esses elementos eternos para a luminosa vigília de uma atualidade consciente.

Pascal é o locutor consciente do subconsciente da humanidade.

Há certas realidades que o homem atinge, não com um dos cinco sentidos, nem com a inteligência, mas com uma faculdade que, por ignota, não tem nome próprio; uns lhe chamam "coração"; outros, "intuição" ou "razão"; Bérgson fala num certo "élan vital". No fundo, todas estas palavras tentam exprimir a mesma faculdade anônima e inominável que preside aos mais profundos conhecimentos do homem (1).

O que se pode provar matemática ou analiticamente, por meio de cálculos ou silogismos, são realidades relativamente simples e primitivas, mais próximas do jardim de infância ou da escola primária do que da Universidade do nosso verdadeiro Eu humano. As mais altas realidades estão para a inteligência, assim como a luz solar está para o cego ou as vibrações sonoras estão para o surdo.

O homem comum considera a inteligência consciente como o mais perfeito estado do ser humano, o que é, certamente, um grande erro, ou então uma filosofia fartamente infantil. Há um estado superconsciente, que é incomparavelmente mais perfeito do que o estado comumente chamado consciente. O gênio, nos seus momentos mais fecundos e dinâmicos, não age de um modo plenamente consciente; está "inspirado", dizemos, isto é, tomado de um "espírito", de uma força cósmica, que não coincide simplesmente com o Eu histórico desse homem, é algo que ultrapassa todas as barreiras da sua consciência intelectual. O verdadeiro gênio é antes "atuado" do que "atuante"; é empolgado e arrebatado por uma potência superconsciente e, quiçá, ultrapersonal.

(1) Pascal toma o termo “raison" (razão) como idêntico a "inteligência". Na realidade, a "Razão", o Logos dos pensadores helênicos, é o espírito. O 4° Evangelho identifica o Logos com Deus, a Razão cósmica, o Espírito Eterno.

Também o místico, nas suas visões e nos seus arroubos, é superconsciente. A palavra "êxtase" é uma das mais felizes e precisas que a língua humana possui. "Ec" ou "ex" quer dizer "fora"; "stasis" significa o "ato de estar". De maneira que "êxtase" diz literalmente o estado de um homem posto fora de si mesmo. Todo homem superconsciente acha-se "fora de si mesmo", porque seu verdadeiro Eu ultrapassou o âmbito dos sentidos e do intelecto consciente, e entrou numa zona ignota, anônima, vedada a essas faculdades diurnas; entrou na zona noturna que são o domínio da faculdade superconsciente. De per si, é essa zona noturna muito mais diurna e clara do que a zona diurna dos sentidos e do intelecto, mas para estas faculdades inferiores é ela noturna - assim como a luminosa claridade do dia é escuridão para as aves noturnas, ao passo que as trevas lhes parecem luminosas.

A alma ou espírito humano, superando os sentidos e o intelecto, entra no reino da superconsciência. Devido ao caráter misterioso desse estado superconsciente, muitos o confundem com a subconsciência ou inconsciência — como se uma luz excessivamente forte fosse idêntica à treva, pelo simples fato de ultrapassar os li- mites da penumbra.

A nossa atual consciência intelectiva é comparável à penumbra, ao passo que a superconsciência é luz integral.

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Há aqui no mundo homens altamente superconscientes, ou, como se diz geralmente, intuitivos, visionários, videntes. Quase todos nós, em certos momentos da vida, somo videntes ou intuitivos. Atingimos, então, realidades inacessíveis à faculdade puramente intelectiva, ou aos sentidos corpóreos. O sofrimento contribui poderosamente para a intensificação da vidência ou intuição. Também o jejum e a oração dispõem a alma para esse estado superior, libertando-a, por assim dizer da tirania da matéria, que lhe veda ou cerceia o poder intuitivo.

A intuição é como que uma antena ou um aparelho receptor dotado de extrema sensibilidade; apanha vibrações que não afetam o aparelho grosseiro da consciência puramente intelectiva. É fora de dúvida que a faculdade intuitiva é de uma finura e receptividade muito superior à faculdade intelectiva.

Ora, sendo Deus e as coisas divinas algo essencialmente ultraintelectivo e superconsciente, é natural que essas supremas realidades sejam mais facilmente atingíveis por uma faculdade superconsciente, como é a intuição, do que por uma faculdade consciente, como é a inteligência.

Pascal é um dos homens mais superconscientes da humanidade, no que revela grande afinidade com seu mestre Agostinho. E tanto mais estranho é isto, à primeira vista, quanto maior era o seu potencial consciente e intelectivo. De fato, porém, não há antagonismo entre o poder intelectivo e o poder intuitivo. Esse aparente antagonismo é devido à fragilidade da nossa compreensão. Deus é infinitamente inteligente e infinitamente intuitivo ou racional.

Os "Pensées" movem-se essencialmente nesse ambiente superconsciente, por mais intelectualmente conscientes que pareçam. São de fato "um apelo da razão

(inteligência) para o coração; um recurso do tribunal da inteligência para o Supremo Tribunal da intuição.

Aliás, quem lê os Evangelhos verifica que estes se acham no mesmo plano. O homem puramente intelectual não compreende os Evangelhos, ou, como diz Paulo, "o homem intelectual não compreende as coisas que são do espírito de Deus, até lhe parecem estultícia; pois devem ser entendidas em sentido espiritual". Só num ambiente de intuição espiritual é que os livros divinos podem ser compreendidos. Toda teologia ou exegese puramente intelectual acaba em apostasia do Cristianismo.

Os melhores dentre os homens creem mais na super-consciência do coração do que na consciência do intelecto - e por isto os "pensamentos" de Pascal lhes dão resposta clara ao que obscuramente lhes ia na alma. É este o segredo do fascínio de Pascal através dos séculos.

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Pedira Pascal a Deus que lhe concedesse dez anos de saúde, a fim de escrever uma apologia do Cristianismo; Deus, porém, como ele diz, lhe deu apenas quatro anos de enfermidade. E, assim, não pôde terminar sua obra.

O que dessa obra existe como dissemos, são mais de mil pensamentos avulsos, que, depois da morte de Pascal, foram encontrados no seu quarto, escritos em bilhetes de tamanhos diversos e enfiados em cordéis.

Os testamenteiros espirituais do autor empreenderam o trabalho árduo de sistematizar esses pensamentos e reduzi-los, quanto possível, a um todo uniforme e lógico, o que só em parte conseguiram.

Ao darmos crédito ao editor Léon Brunschvieg, tencionava o autor dialogar o seu livro, suposição esta que explica certas frases que parecem contradizer às idéias e convicções que Pascal tinha em matéria de religião; provavelmente, representavam esses tópicos ideias e objeções do adversário.

As primeiras edições dos "Pensées" apareceram "expurgadas", isto é, com frases truncadas ou parcialmente modificadas, a fim de as tornar mais assimiláveis para certos leitores. Mais tarde, porém, prevaleceu o bom senso, e apareceram edições genuínas e autênticas, que reproduzem fielmente as idéias de Pascal.

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Através de todo esse livro frisa o autor duas coisas: a grandeza e a pequenez do homem. Em face da imanência de Deus no homem, é este divinamente grande; em face da transcendência de Deus, é o homem indizivelmente pequeno. Ai do homem que só experimentar em si o Deus imanente! Acabará num panteísmo amorfo, em que pecado e santidade não o mesmo. Ai do homem que só crer no Deus transcendente! Acabará na frialdade polar do desânimo ou desespero.

Feliz do homem que se sentir divinamente grande e humanamente pequeno! A tensão dinâmica entre esses dois polos lhe dará força e arrojo para se elevar às alturas do Cristo, do Deus-homem, do homem-Deus.

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Pascal pretende convencer os cépticos e ateus da verdade da revelação cristã e mostrar-lhes o absurdo da sua incredulidade. Embora nem sempre pareçam de todo convincentes os argumentos que aduz, a extraordinária firmeza e convicção do autor é, por vezes, argumento mais poderoso a favor da verdade do que os silogismos que forja.

Pascal é, antes de tudo, um filho da graça divina, e como tal se sente ele, com toda a humildade e alegria. Esta sua disposição fundamental transparece de todas as palavras de sua obra, comunicando ao leitor incrédulo ou céptico algo da firmeza do autor.

Tem-se dito — e não sem alguma razão — que falta ao autor dos "Penses" certo senso empírico, certa noção das realidades da vida, o que não admira, quando se conhece a vida eremítica que Pascal levou. As suas deduções são rigorosamente lógicas, cativando nas malhas de uma impecável coerência o intelecto do leitor; mas há também, uma "lógica da vida", quem nem sempre coincide com as conclusões retilíneas de um silogismo impecável. A lógica da vida real é, por vezes, tremendamente "ilógica". Quem leu "O Gênio do Cristianismo", de Chateaubriand, sabe com que "ignorância genial" desenvolve o autor certas verdades teóricas que, no plano da vida prática, assumem colorido bem diverso. Por vezes encontramos nos "Pensées" frases magníficas que lembram o idealismo abstrato de Chateaubriand. Mas... Quem deixaria de se deliciar aos raios benéficos do sol por saber, pelas aulas de física ou astronomia, que o grande astro tem suas manchas?...

No meio de um mundo corroído de materialismo, indiferentismo ou cepticismo religioso, atua a obra de Pascal como um poderoso ímã que em sua misteriosa corrente empolga nossa alma e polariza todos os átomos do nosso ser, norteando-os rumo a Deus e às coisas divinas. E isto é de imensa necessidade, no meio desta humanidade rasgada de desarmonias.

No documento Pascal (páginas 58-63)