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Em Torno das "Lettres Provinciales"

No documento Pascal (páginas 34-40)

Tão árido e de tão limitado interesse para o grande público é o tema dessa polêmica entre Pascal e os Jesuítas, que é deveras para admirar levantasse tamanha celeuma na França, e muito além das suas fronteiras. Não fosse o grande talento do solitário eremita, provavelmente morreria o caso, circunscrito à esfera puramente escolástica e teológica da época.

Conforme foi dito, agitava-se então entre os teólogos católicos a questão obscura, como a graça de Deus se compadece com a liberdade humana. Nenhum dos contendores negava a ação da graça divina nem a existência da liberdade humana, mas discutiam a maneira como harmonizavam entre si esses dois fatores aparentemente inconciliáveis.

Formaram-se dois partidos, aliás, já existentes, frisando um, com grande energia a atividade da graça, realçando o outro, com fervor, o papel da liberdade humana. Dessas concepções diversas nasceram, naturalmente, dois modos diferentes de encarar a vida humana e, sobretudo, a questão central da nossa salvação; numa palavra, duas modalidades de moral cristã.

No tempo de que nos ocupamos, arvoraram-se os Jansenistas em estrênuos advogados da graça, ao passo que os Jesuítas defendiam valentemente a liberdade. E, como sói acontecer em toda polêmica, cada um exagera a questão a seu favor, a tal ponto que, no fim, parecem inconciliáveis duas coisas que podiam andar de mãos dadas.

Os Jansenistas - que poderíamos chamar os "calvinistas católicos" — eram adeptos de uma moral cristã austera, pregando a fuga completa do mundo, dando a toda a vida cristã um colorido lúgubre de renúncia, penitência, abnegação. E não paravam em simples palavras e bons conselhos para os outros; eles mesmos davam com a pureza e austeridade da sua vida exemplo concreto da possibilidade de sua doutrina. Mère Angélique; a abadessa do mosteiro de Port-Royal, conseguira restabelecer entre as monjas cistercienses o antigo rigor do espírito do grande místico Bernardo de Clairvaux. E os eremitas que viviam a certa distância do convento, levavam a mesma vida de oração e austeridade. Neste ponto mostraram-se os Jansenistas irrepreensíveis, nem jamais pessoa alguma sincera os acusou de não levarem a sério a moral cristã. O ponto de controvérsia era a concepção da doutrina sobre a graça e a predestinação.

Os Jesuítas, por outro lado, não simpatizavam com essa espécie de Cristianismo, que mais parecia a religião de um João Batista no deserto da Judeia, do que o Evangelho de Jesus Cristo a andar no meio de homens e igualando-se aos outros homens em tudo que não fosse pecado. Achavam eles que o Cristianismo não era apenas para um grupo de homens piedosos segregados do mundo, mas para toda e qualquer pessoa da sociedade que quisesse seguir a Cristo. E, na intenção paulina de "ganhar a todos para Cristo", reduziam ao mínimo as exi- gências da moral cristã, porque só assim lhes parecia possível a cristianização do mundo, pela qual trabalhavam incessantemente. Não queriam criar mosteiros cheios de ascetas, mas, sim, um mundo cheio de cristãos. Por mais que Pascal e outros tenham dito contra os filhos espirituais de Inácio de Loiola, ninguém, de

reta consciência, negará que eles, tomados em conjunto (não há regra sem exceção!), estivessem animados das melhores intenções, embora, como veremos mais abaixo, muito dos seus membros tenham espalhado doutrinas que uma consciência intensamente cristã, como a de Pascal, não podia considerar como reflexo do espírito de Jesus Cristo.

Do louvável intuito dos Jesuítas, e outros, de levar todo o mundo aos pés do Cristo e facilitar-lhe o mais possível o Cristianismo, nasceu uma teologia moral que veio tornar-se tristemente célebre sob o nome de "casuística". Os livros de casuística, escritos geralmente em latim, procuravam dar aos confessores e dire- tores espirituais normas pelas quais pudessem conduzir os seus penitentes e as almas a eles confiadas. Infinitamente várias são as condições e circunstâncias da vida humana; sem conta as cores e cambiantes dos pecados que os homens cometem. E, para cada situação moral, tem o confessor ou diretor de almas de ter uma norma que salvaguarde os princípios eternos da moral cristã, por um lado, e, por outro, respeite a liberdade do penitente e não o repila da igreja. Navegar entre tantos escolhos sem naufragar, não é fácil tarefa para o piloto espiritual... Nada mais difícil do que estabelecer normas éticas. Cravam-se as balizas ou muito para a direita, ou muito para a esquerda, provocando colisão com uma de duas coisas que devem ser, ambas, intangíveis...

Os Jansenistas eram, neste particular, simplesmente "direitistas", exigindo dos cristãos os mais pesados sacrifícios — ao passo que os Jesuítas, muitos deles, praticavam um "esquerdismo" tão largo e liberal que, segundo a opinião dos adversários, destruíam o próprio Cristianismo. Em vez de converter os pecadores, negavam os próprios pecados, tendência essa que pôs nos lábios de um dos amigos de Pascal esta observação sarcástica: "Eis aí os homens que tiram os pecados do mundo!" Estas palavras incisivas, parafraseando conhecido texto evangélico, reproduzem bem a mentalidade de Pascal, embora não sejam da sua descoberta.

Foi assim que dois partidos católicos, ambos, certamente, com as melhores intenções, se digladiavam reciprocamente e se cobriam de injúrias nada cristãs.

***

O mundo católico da época não conhecia, geralmente, os livros de casuística escritos em latim; eram uma literatura quase privativa do clero; mas, como por estes princípios dirigia o clero os seus penitentes, compreende-se a indignação de Pascal, ao ter conhecimento de semelhantes normas de vida cristã. E, para prevenir do perigo o mundo leigo católico, resolveu divulgar em vernáculo o que havia de mais "escandaloso" nessa casuística. E com tanta eficiência se desincumbiu da tarefa que as "Lettres Provinciales" provocaram inaudita sensação em todas as camadas sociais, o que prova que a sociedade leiga não estava alheia aos princípios exarados nesses livros.

Para que os nossos leitores possam julgar por si mesmos o caráter desses livros, passaremos a dar um resumo de alguns dos mais conhecidos. É fora de dúvida que os casuístas forjaram contra si mesmos armas terríveis, e não admira que um homem da tempera ética de Pascal, tomado de profunda indignação, levasse ao pelourinho do desprezo público certos moralistas do seu tempo.

Acresce a agravante que não se tratava de opiniões pessoais e particulares deste ou daquele religioso, uma vez que todos esses livrosvinham com permissão do Superior Provincial dos Jesuítas e de outras autoridades, recaindo, assim, esse

laxismo moral não apenas sobre o autor do livro, mas sobre o próprio espírito da Ordem que tais coisas aprovava como sendo expressão do espírito do Cristo — ou melhor, esse laxismo ético afetava a própria igreja de que essa Ordem era parte integrante e que se mostrava solidária com essa orientação. Pascal, pois, combate, indiretamente, o espírito da própria hierarquia da igreja de Roma.

Início da Polêmica Entre Pascal e os Jesuítas

Em 1649 extraiu a Faculdade Teológica da Universidade de Paris, do livro "Augustinus", de Cornélio Jansênio, falecido Bispo de Ypres, cinco proposições que estariam em contradição com a doutrina da Igreja e enviou as mesmas à Roma. Os jansenistas reconheceram o caráter herético dessas sentenças, condenadas, em 1653, pelo Papa Inocêncio X, reconhecendo também à Santa Sé o direito de as reprovar, mas negaram que as ditas sentenças se encontrassem no livro"Augustinus".

Pelo que, em 1654, o Papa declarou expressamente que essas proposições se encontravam no dito livro.

Em consequência, Antônio Arnauld, lente da Faculdade e destemido Jansenista, foi demitido da sua cadeira. Estava assim o Jansenismo condenado em Roma e pelos Teólogos da Sorbonne.

Arnauld, porém, não se conformou com a decisão pontifícia e teológica, e apelou para o bom senso do povo católico, para a "anima naturaliter christiana", como diria Tertuliano. Era necessário que alguém explicasse ao público, em língua vernácula e estilo acessível ao público, o ponto de controvérsia, para que todo o mundo visse até que ponto os teólogos adulteravam a doutrina do Cristo. Arnauld tinha certeza de que a alma cristã do povo não faria causa comum com os teólogos e jesuítas, mas defenderia a causa do Evangelho que os Jansenistas diziam ensinar em toda a pureza.

É característico, nessa polêmica, o apelo do tribunal da aristocracia teológica para o da democracia popular, apelo esse que inclui a suposição tácita de que o catolicismo se encontra mais puro e incontaminado entre o simples povo cristão do que entre os eruditos profissionais da teologia. Mais tarde, Pascal foi além e "apelou de Roma para Deus", na certeza de que Roma, dando razão aos Jesuítas, não representava, nesse particular, o verdadeiro catolicismo, do qual não queria ele separar-se de forma alguma, nem jamais se separou.

Tem-se dito que Pascal estava imbuído de ideias protestantes, tanto pelo fato de não ver nessa decisão do Papa a expressão pura do Cristianismo, como também por dar excessiva importância à Sagrada Escritura. Mais exato seria, talvez, compará-lo com um católico ortodoxo, como os da igreja grega, que não querem saber nem Romanismo nem Protestantismo, mas tão somente de Catolicismo, com todos os Sacramentos e todos os esplendores litúrgicos. Já dissemos em outra parte que Pascal, apesar de ser um homem inteligente e intelectual, é contudo, o tipo clássico do homem intuitivo — e a intuição das supremas realidades ultrapassa tudo que a filosofia ou teologia especulativa possam descobrir e ensinar. O apelo de Arnauld, da inteligência dos teólogos para a alma do povo, e o apelo que Pascal faz, da inteligência dos teólogos e do Papa para "o Senhor Jesus", simbolizam, em última linha, um apelo do intelecto para a intuição, do consciente intelectual para o superconsciente intuitivo. Por detrás dessa aparente rebeldia está a grande idéia cósmica — não o pensamento individual - de que o espírito da doutrina do Cristo é algo infinitamente além de tudo que a humana teologia possa atingir.

Arnauld exigia, pois, que a decisão fosse entregue ao povo católico. Mas quem havia de elaborar essa exposição popular que vazasse em linguagem simples e diáfana as complicadas controvérsias dos teólogos da Sorbonne?

Ninguém se sentiu com suficiente capacidade para essa empresa, pois é incomparavelmente mais fácil escrever de um modo obscuro e complicado do que de um modo simples e claro. Por fim, Pascal prometeu querer "tentar" uma exposição em vernáculo; ia dar apenas um ligeiro esboço que servisse de diretriz para outro homem mais competente. No dia seguinte apresentou esse esboço, em forma de urna carta, que leu diante da assembléia. Foi unânime a aprovação, e grandes os aplausos e entusiasmos que essa exposição mereceu.

No dia 23 de janeiro de 1656, apareceu, impressa, essa carta com o título "Lettre à un Provincial par un de sés amis" (Carta a um homem da Província, por um de seus amigos). Vinha assinada com o pseudônimo "Louis de Montalte". Esse anonimato, que a um leitor dos nossos dias, talvez, cause estranheza, era medida de prudência naquele tempo, em que a Inquisição levava ao cárcere ou à fogueira mi- lhares de "hereges". Se o autor tivesse dado o seu verdadeiro nome, é certo que as restantes dezessete cartas não teriam aparecido, nem mesmo a segunda. Por amor à causa sagrada em questão convinha, pois usar da máxima prudência.

As 10 primeiras cartas são dirigidas a esse tal "homem da Província"; as 6 subsequentes, aos Jesuítas; e as duas últimas, ao Jesuíta P. Annat, confessor do rei de França.

Apenas estava na rua a primeira carta, quando foi fechada, por ordem superior, a oficina gráfica em que fora impressa. Mas nem por isto deixaram de aparecer os outros números, estampados em oficinas clandestinas, que ninguém conseguiu localizar. De um a outro número cresciam a curiosidade e sensação des- pertadas por esses panfletos originais.

Logo depois de publicar a primeira carta, deixou Pascal Port-Royal, onde, naturalmente, se suspeitava estar o autor da mesma, e retirou-se para Paris. Na metrópole montou o seu quartel-general no hotel "Rói David", por detrás da Sorbonne, bem defronte ao colégio dos Jesuítas. Ali, no coração da zona inimiga, ninguém o viria procurar, e Pascal teria todo o sossego para forjar as suas terríveis armas. Dezenas de homens foram detidos como sendo os autores das fulminantes "Lettres". Quase ninguém pensava em Pascal, que nesse tempo, não era conhecido como polemista nem como escritor tão brilhante e popular qual se revelava "Louis de Montalte". Por fim, condensaram-se quase todas as suspeitas na pessoa do abade de Haute-Fontaine, por nome Lê Rói, como também, da parte de alguns, no romancista Gomberville. Ambos, porém, negaram a sua paternidade literária, ainda que por motivos e de modos diversos: Gomberville queixou-se amargamente do mau juízo que dele formavam; Le Roi lamentou sinceramente não ser o autor...

Depois da impressão da 6ª carta fora Pascal por um triz descoberto como autor dos panfletos, como ele mesmo insinua, com a devida cautela e discrição, no princípio da 8ª_carta. Nesse comenos viera a Paris seu cunhado Périer e se hospedara no mesmo hotel. Um jesuíta, amigo dele, veio visitá-lo e pediu-lhe prevenisse Pascal, porque as suspeitas se concentravam cada vez mais na pessoa dele como sendo o autor das "Lettres Provinciales". Périer estava sobre brasas durante essa visita, porque, na mesma ocasião, se achava sua cama coberta de exemplares da 7ª_ carta, que acabavam de chegar das oficinas gráficas; felizmen- te, porém, estavam corridas as cortinas diante da cama - e assim saiu o Jesuíta da caverna do leão sem nada suspeitar.

E as terríveis folhas volantes continuaram a sair regularmente. No fim da 17ª_ carta, dirigindo-se aos Jesuítas, diz o autor: "É sabido que enganastes o Papa; mas isto já não causa escândalo porque agora todos vos conheceu."

Os Jesuítas, como é natural, replicaram a essas cartas, procurando desmoralizar como falsário e herege o autor das mesmas. Citaram diversos textos dos moralistas de sua Ordem que Louis de Montalte teria falsificado no intuito de atacar o "laxismo moral" dos Jesuítas. Mas, em breve, essa arma foi provada ineficaz, porque ao menos 99% dos textos citados estavam rigorosamente certos; apenas uma ou outra citação é ligeiramente inexata, e isto por tê-las o autor das Cartas traduzido do latim para o francês. Nunca foi provada falsificação acintosa ou de importância substancial que mudasse o sentido.

Queixaram-se ainda os Jesuítas do fato de citar Montalte exclusivamente textos em desabono deles, quando havia livros inteiros de doutrina evidentemente boa e sã. Qualquer pessoa vê que semelhante resposta não tem' cabimento. Pascal nunca afirmou que esses religiosos só ensinavam moral ambígua; mas, sendo os "casuístas" diretores de numerosas almas, uma única doutrina moralmente perniciosa redundava num mal enorme e seria capaz de contaminar gerações inteiras, quando considerada como genuína doutrina do Cristo, sobretudo porque vinha amparada pelo prestígio de uma grande Ordem religiosa.

Nas Trincheiras

Inimigas.

No documento Pascal (páginas 34-40)