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Defendendo Jesus Contra os Jesuítas

No documento Pascal (páginas 32-34)

As famosas "Lettres Provinciales" fazem, hoje em dia, parte da literatura mundial, tanto pelo espírito que as ditou como pela forma literária que revestem. Raras vezes terá um homem defendido, com tamanho ardor, com tão arrasadora sátira e com tão ofuscante brilho intelectual, as suas convicções religiosas como o autor dessas 18 cartas.

Ao lê-las, é necessário ter sempre presente que, por detrás de tudo aquilo, está a vastíssima zona noturna do subconsciente (1) pascalino. Não é, em última análise, contra os Jesuítas que Pascal se revolta, mas, sim, contra um elemento visceralmente contrário às profundas experiências religiosas do solitário eremita de Port-Royal, elemento personificado, nesse tempo, em diversos casuístas da Companhia de Jesus. Port-Royal, elemento personificado, nesse tempo, em diversos casuístas da Companhia de Jesus. As "Lettres Provinciales" são, na sua essência, o brado de uma ingente paixão religiosa. Pascal luta pela suprema razão-de-ser da sua existência, luta pela sua fé cristã, luta por seu Deus e pela Eternidade. Pascal luta, a bem dizer contra um pseudo — ou ex-Pascal, isto é, contra aquilo que ele mesmo fora, contra uma ideologia, que ele mesmo, em tempos idos, já professara, em parte, e da qual se libertara definitivamente, na memorável noite do seu encontro pessoal com Deus.

(1) O que, por via de regra, se chama subconsciente espiritual é, na realidade, um superconsciente.

Nunca luta o homem com maior convicção e veemência do que quando toma a ofensiva de um Eu contra um ex-Eu.

Os adversários de Pascal, percebendo o fraco da sua defensiva, passaram também à ofensiva, cobrindo-o seu agressor de impropérios, atribuindo-lhe as intenções mais infames, acusando-o de falsário, ridicularizando-o como palhaço, tachando-o de herege, mas sem conseguirem destruir o ponto central da controvér- sia. Pascal servia-se de armas forjadas pelos seus próprios adversários, de livros deles estampados em dezenas de edições, e ainda que, na tradução do latim para o francês, incorresse em uma ou outra inexatidão insignificante, qualquer pessoa sincera poderá verificar, à luz dos próprios originais latinos, que o verdadeiro alvo das acusações não é afetado por nenhuma dessas pequenas divergências de tradução e citação. Mesmo que coássemos os "mosquitos", sempre ficariam os "camelos"...

Pode um homem mudar de ideias puramente intelectuais, mas não pode discordar da sua íntima experiência. Essa experiência íntima é, para ele, o Supremo Tribunal, a última instância, da qual não há apelação. O que o homem viveu e sofreu nas mais profundas profundezas do seu Eu espiritual, isto a tal ponto se consubstanciou e identificou com ele que chega a ser ele mesmo, o seu próprio Ser personal. E, como ninguém pode divorciar-se de si mesmo, assim também não pode o homem renunciar à sua íntima experiência espiritual. Um homem desses está disposto a sacrificar tudo - forças, tempo, mocidade, carreira, amigos, saúde, seu bom nome, a própria vida - em defesa do seu supremo ideal. Tudo o mais lhe parece secundário; a própria morte se lhe afigura sem im- portância em face da estupenda realidade interior que domina a sua vida.

Pascal, como foi dito, passou por essa grande experiência interior. Viveu a Deus. Teve o seu Damasco, o seu encontro pessoal com Cristo. Viu a malícia do pecado. Viveu a grandeza da redenção. Sentiu o terremoto da santidade de Deus. Viu-se colocado na linha divisória entre a grande treva e a grande luz. Por isto lhe parecia horripilante blasfêmia e sacrilégio qualquer compromisso covarde entre a luz e as trevas, entre a santidade de Deus e a miséria do pecador, como tentavam fazer os moralistas contra os quais ele vibrou o flamejante gládio do seu grande espírito e da sua arrasadora dialética.

Nas "Lettres Provinciales" revela Pascal uma face do seu caráter que ninguém lhe conhecia e que também não aparece nos "Pensées": serve-se de um estilo irônico, esfuziante de chiste e genialidade, que, por vezes, faz lembrar o deslumbrante chispar de uma esguia chama de oxigênio a derreter duros metais. O seu gênio era antes melancólico do que colérico ou sanguíneo. O seu estilo é, por via de regra, calmo, ponderado, algumas vezes épico e trágico.

Por que, pois, se serve Pascal, em sua polêmica, de um modo de escrever que parece não condizer com o seu caráter?

Estamos aqui diante de um fenômeno psíquico dos mais notáveis. Por vezes é uma sonora risada a manifestação de uma profunda tristeza. Pode a maior comicidade revelar a mais sangrenta tragicidade de uma alma. Pessoas há que trazem a alma em chaga viva, dia e noite, mas que são tidas na sociedade por creaturas felizes e despreocupadas; o público ignora que essa aparente serenidade é a única defesa e válvula de segurança para conter e disfarçar o candente vulcão que estua nas ignotas profundezas dessas almas torturadas. Se um desses mártires é interrogado a respeito do seu bem-estar, afirma invariavelmente que vai às mil maravilhas, porque essa afirmação categórica é necessária para manter o status quo e impedir o impetuoso transbordamento da lava ígnea que arde nas profundezas dessa alma... Pois a sociedade, em geral, não permite ao homem ser o que é. . .

Foi o que se deu com Pascal. O fundo melancólico e trágico de sua alma explodiu numa verdadeira tempestade de ironia e sátira, quando viu que homens tidos por muito religiosos desacreditavam o que para ele havia de mais querido e sagrado: o seu Cristianismo. E Pascal, o grande asceta que, apesar de fraco e doentio, cingia duro cilício sobre as carnes nuas; ele, o grande amigo da pobreza que se privava de tudo para acudir aos indigentes; ele, o solitário eremita que amava o silêncio e detestava o ruído — Pascal desce a mais ruidosa liça da época e desfere a seus adversários golpes tais que até ao presente dia não lhes cicatrizaram as chagas.

Se se tratasse de uma ofensa pessoal, não teria o grande asceta escrito uma só palavra contra seus ofensores. Mas aqui estava em jogo a pureza da doutrina do Cristo, o Evangelho de seu divino Senhor e Mestre, pelo qual havia o eremita renunciado a todas as grandezas do mundo e escolhido a vida de solicitude e me- ditação.

Quando, pouco antes da sua morte, perguntaram a Pascal se se arrependia de haver escrito as "Lettres Provinciales", respondeu que não, e que, se mais uma vez tivesse de escrevê-las, escrevê-las-ia com maior rigor ainda. Prova isto que as escreveu por convicção íntima, e não por algum sentimento de rancor ou inimizade.

Escreveu-as com os lábios transbordantes de sátira - e com o coração afogado em lágrimas. Irrompeu o vulcão da sua grande dor em uma tempestade de risadas irônicas...

No documento Pascal (páginas 32-34)