2 DA REPRESENTAÇÃO E DE SEUS LAÇOS COM A AÇÃO E COM A IMAGEM
2.2 A REPRESENTAÇÃO COMO CONCEITO NA PSICANÁLISE E NAS PSICOLOGIAS COGNOSCITIVA E SOCIAL
2.2.1 A centralidade da imagem no conceito freudiano.
O conceito de representação está intimamente ligado ao esforço empreendido por Sigmund Freud para descrever e analisar a vida mental e, mais especificamente, o funcionamento das formações constitutivas do inconsciente. O termo, contudo, já circulava amplamente na filosofia, na psicologia e na psicofisiologia contemporâneas ao autor de A interpretação dos sonhos44.
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Em 1915, no ensaio metapsicológico “O inconsciente” (cf. o volume XIV da Edição
Para cumprir seu objetivo, Freud empreende um vasto edifício teórico no qual, segundo Fábio Thá (2004), em virtude do recorte que estabelecemos, torna- se necessário estabelecer uma primeira grande dicotomia:
Em Freud, a tradicional dicotomia entre o lado material, ou do conteúdo ideativo, tradicionalmente identificado como a faceta psicológica e subjetiva do fenômeno mental, e o lado formal, ou do pensar, também por tradição identificado com a faceta lógica e objetiva, vão assumir a forma da dicotomia entre representação (Vorstellung) e pensamento (Gedanke). Os processos perceptivos fornecem o conteúdo representacional dos processos mentais, e a experiência do sujeito, relativa a esse conteúdo, fornece seu processamento, os chamados ‘processos de pensamento’.
As representações são constituídas, neste leito teórico, a partir de mecanismos da percepção, acionada por traços mnésicos (internos) de excitações vivenciadas pelo sujeito e por imagens mnésicas (externas) de objetos. Podemos entendê-las, na definição proposta por Fábio Thá, como imagens psíquicas, geralmente associadas entre si, de objetos e sensações, relações e eventos, todos sempre exteriores ao aparelho psíquico.
Esta definição é sutilmente diferenciada daquela oferecida por Laplanche e Pontalis (1998, p. 448) — cujo verbete designa, via de regra, representação como “aquilo que forma o conteúdo concreto de um ato de pensamento” ou “a reprodução de uma percepção anterior” —, que nos fornecerão, por outro lado, importante contribuição na definição dos diversos tipos de representação referidos por Freud.
Reconhecemos a importância inestimável do trabalho dos psicanalistas franceses para uma tipologia das representações. Acatamos, com igual deferência, a crítica às suas insuficiências. Todavia, antes de buscar a operar um ajuste na sua tipologia das representações, cita, por exemplo, o filósofo John Stuart Mill, autor de A system of logic, o que comprova a circulação do termo.
compreensão do conceito a partir da dicotomia entre pensamento e representação, por eles negligenciada, passaremos a explicitar a heterogeneidade lexical desta noção na obra freudiana, com o auxílio de Luiz Hanns, autor de A teoria
pulsional na clínica de Freud, que trata do problema ao abordar a relação entre
pulsão e representação.
Um primeiro termo, darstellen, possui em alemão o sentido de “mostrar”, “dar uma forma captável”. Hanns assevera que, neste sentido, a palavra recobre semanticamente a “ação de colocar algo, que ainda não está apreensível, na dimensão apreensível da linguagem (linguagem sensorial, pictórica, auditiva, cinestésica, etc.), e, em seguida, mostrá-lo.” (HANNS, 1999, p. 79). Tal vocábulo permite a configuração do conceito de Darstellbarkeit (representabilidade ou figurabilidade), freqüente na teoria dos sonhos. Como o termo também pode designar a criação de imagens onde não havia anteriormente, decorre desse vocábulo um uso adjetivo, dargestellt, quando se almeja expressar algo que toma/recebe forma. Nesta acepção, diríamos, por exemplo, que MACABÉA e
MARIA DE FRANÇA são representações de mulheres pobres e vulneráveis.
O segundo vocábulo, vertreten, retoma a noção de “estar no lugar de outro” e inclui uma nuance de agência, de agir em lugar de outrem. Nesse sentido, vertreten concorre em língua alemã com repräsentieren, que também pode significar “corresponder ou estar correlacionado a”. Surge, na terminologia freudiana, quando um elemento é substituído por outro. Se Clarice Lispector, em
A hora da estrela, propõe RODRIGO S. M. como um modelo de intelectual em voga naquela quadra histórica e investe tanto em suas aptidões como em suas insuficiências, de modo semelhante ao que faz Osman Lins com seu ELOCUTOR,
podemos acatar como admissível que ambos os autores propõem uma representação do intelectual. Note-se que a distinção entre uma acepção e outra é suficientemente clara: dar forma palpável — pela mediação da linguagem — a uma imagem difere nitidamente de interpor, pela criação artística, um sujeito ficcional no “lugar” de um ou de vários modelos concretos e não-ficcionais.
O terceiro termo, que nos é mais caro, é sich vorstellen, que manifesta o conteúdo de reproduzir mentalmente ou visualizar internamente. O substantivo,
pensamento ou representação. Segundo Hanns, trata-se de “invocar ou montar uma cena ou imagem a partir de elementos já disponíveis. Algo diverso do trabalho de constituição e mediação de darstellen.” (1999, p. 80) Trata-se do contexto em que se pode dizer: os romances de Lispector e de Lins dos quais nos ocupamoss contém representações da escritura romanesca, da pobreza, do amor, do desamparo etc. Estes conteúdos, acrescentemos, depende das palavras e/ou de seus arranjos. Ao falar da palavra, no já referido ensaio sobre o inconsciente, Freud (1996, v. XIV, p. 163-222) afirma, esclarecedoramente, que sua representação (Vorstellung) baseia-se em quatro elementos: imagem sonora (Klangbild), imagem visual da letra (visuelle Buchstabendbild), imagem motora da fala (Sprachbewegungsbild) e imagem motora da escrita (Schreibbewegunsbild).
A aproximação semântica do termo representação com a noção de imagem (Bild) é irrefutável, portanto. Reside, principalmente, neste aspecto etimológico, a preferência que reputamos ao conceito colhido em Thá, em detrimento daquele oferecido por Laplanche e Pontalis, cuja reflexão sobre o conceito não privilegia o aspecto imagético nele contido e parece-nos muito próximo de uma cultura neurológica contemporânea à atividade de Freud. Vejamos, por ora, o complexo semântico envolvido na tradução do alemão para o português, a partir do seguinte trecho de Luiz Hanns (ibidem, p. 83):
Voltando aos significados lingüísticos da palavra “representação”, quando Freud diz que a pulsão é psiquicamente “representada”, pode, conforme a palavra alemã utilizada, referir-se a um dos três sentidos: a pulsão é darstellbar (traduzível, exprimível, configurável) em imagens, vertretbar (substituível, delegável, simbolizável) por essas imagens e essas mesmas imagens são Vorstellungen (representações internas, reproduções mentais, são imagens guardadas na memória que
reproduzem objetos ou ações aos quais a pulsão se liga e que
Tomando agora como base a distinção do destino dos elementos nos
processos psíquicos, Freud distingue representação de afeto, devendo-se mesmo
admitir, em dada vertente da psicanálise freudiana, que opõe os dois conceitos, ainda que tal conclusão não seja um ponto pacífico na psicologia derivada da contribuição freudiana.
Se fôssemos, portanto, buscar uma demarcação para o conceito de representação na constituição da psicologia psicanalítica freudiana autógrafa, o percurso mais seguro seria dado pelo rastreamento das passagens em que Freud se serve dos vocábulos alemães que, habitualmente, constam em nossas traduções como “representação”, nas principais etapas em que seu esforço de elaboração persegue a descrição do funcionamento da vida mental. Em Freud, o modelo e funcionamento do aparelho psíquico e os processos do pensamento são componentes teóricos distintos e isso é fundamental para o estudioso lusófono, posto que, muito freqüentemente, o termo representação aparece, em língua portuguesa, com conteúdo que se pretende semelhante àquele que o termo tem na argumentação que Freud construiu na descrição do aparelho psíquico e de seu funcionamento, mas nitidamente associado ao conjunto organizado daquilo que reconhecemos como sendo o do pensamento e de seu funcionamento.