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4.2 A CEPAL e a dependência: as primeiras descobertas

CAPÍTULO I – CAPITALISMO, CAPITALISMO PERIFÉRICO, DEPENDÊNCIA E POBREZA

I. 4.2 A CEPAL e a dependência: as primeiras descobertas

Dentre as teorias mais elucidadoras da realidade, dificuldades, limitações e necessidades da periferia, a “teoria da dependência” pode ser considerada uma das mais importantes de todo escopo cepalino. Isto porque ela avançou sobre questões para além da Economia. Constitui-se, a partir destes debates, uma nova percepção de que os problemas materiais (reais) do subdesenvolvimento estavam diretamente ligados aos problemas históricos, sociológicos, políticos e, principalmente, geopolíticos.

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Neste contexto utilizamos as concepções de SUNKEL & PAZ (1974) em que, apesar dos diferentes possíveis termos de caracterização das condições e estágio econômico e social dos países, em essência, existe apenas dois tipos de estruturas: países “desenvolvidos” ou “subdesenvolvidos”. Sinteticamente país desenvolvido é aquele que gera riqueza com processos produtivos de alta produtividade ao mesmo tempo em que se promove a “justa” distribuição da riqueza gerada neste contexto para toda a sociedade. Trata-se, portanto de um processo pleno em que o resultado será um desenvolvimento socioeconômico completo. Não é suficiente, como se pensou durante muito tempo, gerar a riqueza sem que haja a respectiva distribuição da mesma.

A partir da metade dos anos 1950 a América Latina, como um todo, passa a sofrer grandes transformações, ao mesmo tempo em que o projeto imperialista norte-americano se consolida sobre o continente. Neste momento o capitalismo desenvolvido se expande, ampliam-se as necessidades de transformações estruturais da periferia, na medida em que o mundo passava por rearranjos. Na esteira dos “anos dourados do capitalismo” (HOBSBAWN - 2002: Cap. 9), as necessidades de industrialização se tornam fundamentais, mesmo porque aquele era o momento em que se acirravam as posições de uma “Guerra Fria” em que se definia a divisão do mundo entre EUA e URSS. Adicione-se a estas questões a ocorrência da Revolução Cubana (1959) que amplia a ação dos EUA, haja vista a criação da Organização dos Estados Americanos (OEA) que implementou o “Programa Aliança para o Progresso” a ser executado sobre o continente, com clara orientação “socialdemocrata”. (BIELSCHOWSKY - 2000: 37)

O que se consolida neste processo é a percepção de que os problemas e entraves da região só se resolveriam com a construção de processos em que os aspectos sociológicos fossem a pedra basilar, ou seja, para além da perspectiva econômica, as transformações estruturais mais importantes deveriam ocorrer no campo social. Isto, de início, já demonstra que os problemas políticos (internos) e geopolíticos (continentais) alcançariam dificuldades muito maiores, principalmente em função dos elementos de formação histórica (colonialismo escravagista e extrativista) da região. Não se tratou apenas de limitar os problemas às questões de “insuficiência dinâmica” ou de uma “tendência à estagnação”; eram necessárias mudanças estruturais mais amplas (dinamização social, distribuição de renda, reforma agrária etc.), em consonância com as transformações daquele momento de dinamização capitalista mundial.

Estas convicções fazem com que autores cepalinos de peso intelectual incontestável apontassem para a necessidade de transformações estruturais, principalmente no que se refere à distribuição de renda e dinamização do emprego como forma de combater a estagnação e o aprofundamento da dependência.26

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Como explica BIELSCHOWSKY (2000: 40): O argumento de Furtado sobre a tendência à estagnação tem em comum

com o de Prebisch sobre “insuficiência dinâmica”, além da defesa da reforma agrária, a idéia da “dependência tecnológica”. A periferia estaria utilizando a tecnologia gerada exogenamente, no centro, em condições de dotação de recursos totalmente distintas, e seu emprego implicava sobreutilização do recurso escasso, capital, em detrimento do recurso abundante, trabalho. A diferença é que Furtado irá d

erivar uma tese de insuficiência dinâmica “da demanda”.

Furtado parte da ideia de que a má distribuição de renda será responsável por orientar a estrutura produtiva a um padrão de industrialização pouco empregador de trabalho, e reforçador da má distribuição. À medida que a industrialização prosseguia a estágios mais avançados, os novos setores não somente eram cada vez mais intensivos em capital, como ainda

Destes enfoques desenvolve-se a teoria da dependência que vai produzir duas vertentes de análise: uma “predominantemente política e a outra predominantemente econômica”.27

Por um lado têm-se a visão sociológica que aponta a dinâmica política e geopolítica como elemento determinante do subdesenvolvimento e, portanto, da dependência instalada. Trata-se de uma análise em que a inserção da periferia na dinâmica internacional (mercado mundial) se deu a partir de um processo histórico em que as relações entre as sociedades (periféricas/centrais) se estabeleceram provocando uma definição de classes sociais internas distintas, sempre relacionadas à estrutura de poder existente. Este seria o mote para relacionar o subdesenvolvimento da periferia a uma dependência histórica das economias dos países capitalistas originários (BIELSCHOWSKY - 2000: 41). Esta análise é de fundamental importância para que se possa perceber os desdobramentos da dependência, ou seja, ela não se limitará apenas às questões sociológicas e econômicas, mas terá um alcance político e cultural determinante.

Na visão econômica o eixo teórico está lastreado na percepção da existência de um capitalismo mundial integrado associado a uma prática imperialista com a cooperação de uma elite local. Isto significa que o subdesenvolvimento se apresentaria como uma manifestação de um processo amplo de acumulação em que a industrialização forçaria os trabalhadores das regiões subdesenvolvidas a um processo de exploração ampliado, em nível internacional. Como esclarece BIELSCHOWSKY (2000: 42):

(...) o processo de acumulação era indissociável da expansão capitalista internacional e do imperialismo, e constituía parte de um processo que apenas enriquecia os países desenvolvidos e a pequena elite dominante local que os representava. O sistema capitalista mundial funciona na base da formação e exploração de um conjunto de satélites e subsatélites, que se reproduz dentro de cada país, formando subsistemas de exploração domésticos ligados ao sistema mundial.

De modo geral, é necessário entender que, para a CEPAL, as mazelas da periferia não se configuram como processos isolados e autônomos da dinâmica capitalista internacional. As discrepâncias (principalmente no que se refere à incorporação do trabalho)

exigiam cada vez maiores escalas. Em outras palavras, empregavam cada vez menos mão-de-obra e exigiam cada vez mais mercado consumidor. (...)

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Dentro de um caráter mais sociológico, Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto produzem a obra “Dependência e desenvolvimento na América Latina” (1969), por outro lado André Gunder Frank, nos anos 1960, desenvolve uma análise de base marxista com um caráter mais econômico. (BIELSCHOWSKY – 2000: 41-42)

equivalem a um reflexo direto das diferenças de aplicação e dinâmica do capitalismo no centro e na periferia. Destaque-se neste sentido o papel preponderante da expansão mundial das corporações transnacionais. Osvaldo Sunkel, dentro de uma perspectiva mais ampla (política e sociológica), num texto de 1969, DESENVOLVIMENTO, SUBDESENVOLVI- MENTO, DEPENDÊNCIA, MARGINALIZAÇÃO E DESIGUALDADES ESPACIAIS: POR UM ENFOQUE TOTALIZANTE, sintética e conclusivamente apresenta os elementos essenciais e crônicos da dependência. Como demonstra BIELSCHOWSKY (2000: 42):

(...) Seu argumento central partia do postulado de que havia no mundo uma única economia capitalista. Tanto no que se refere à padrões tecnológicos como a padrões de consumo ela era total e crescentemente integrada, (...). O problema do subdesenvolvimento residia no fato de que, enquanto no ‘centro’ a maior parte dos trabalhadores encontrava-se integrada ao mundo moderno, na ‘periferia’ isso ocorria somente com uma pequena fração da população. Pior ainda, o avanço desse modelo mundial de acumulação tinha efeitos sociais degradadores, porque tendia a marginalizar mesmo os agentes econômicos com maiores potencialidades produtivas.

Apesar dessas percepções, a ideia de ruptura com o modelo capitalista não se torna uma alternativa, ao contrário, preconiza-se uma superação através de “políticas econômicas e sociais bem orquestradas, a nível nacional e internacional”, ou seja, não se considerava a possibilidade de superação do subdesenvolvimento como algo que devesse ocorrer fora do capitalismo.28

É, portanto, na lógica da dependência que se encontram os entraves fundamentais que, em não se modificando, perpetuariam as condições do subdesenvolvimento. Daí a necessidade de se entender a dependência como um processo integrado e resultante de três elementos: a) dependência econômica, b) dependência política, e c) dependência cultural. Neste sentido, e à vista do que já foi explicitado, a dependência será sempre o elemento formulador do subdesenvolvimento, não o contrário. Nesse aspecto ressalte-se a preponderante influência da “dependência cultural” como elemento determinante dos demais.

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(...) A ideia era de que o padrão ou estilo de desenvolvimento econômico teria que ser alterado, através de melhor

distribuição da renda e de profundas reformas, agrária, patrimonial, financeira, tributária, educacional e tecnológica. E entendiam que para tanto se fazia necessário profunda transformação política, nela incluída, centralmente, a recuperação da democracia nos países em que se haviam instalado ditaduras militares. (BIELSCHOWSKY - 2000: 43)

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