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2.3.3 A Constituição de 1946: democracia e ilegalismos

CAPÍTULO III ENFOQUES CRIMINOLÓGICOS

IV. 2.3.3 A Constituição de 1946: democracia e ilegalismos

Considerada “a mais democrática de todas as Constituições brasileiras”,199 a Constituição de 1946 se destaca pela iniciativa de recolocar na dinâmica da República,

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Com a efetivação deste Tribunal os mecanismos e as práticas processuais se moldam a um regime de exceção, ou seja, as possibilidades de preservação de direitos jurídicos e humanos, associados a uma intervenção direta sobre a justiça tornam os ilegalismos mais correntes e quase oficializados. Como destaca CANCELLI (1994: 102): “A criação do Tribunal de Segurança Nacional, em 12 de setembro de 1936, facilitou a ingerência na Justiça. Como uma criação que visava efetivamente manter o governo no poder através dos atos policiais de terrorismo e repressão, a existência do Tribunal de Segurança começava a preencher uma lacuna na estratégia totalitária de poder. Aliada ao temor que as pessoas começavam a sentir e à vigilância que cada um fazia de si próprio e dos que o cercavam, havia agora um palco de encenações para a farsa judiciária.”

198 Com respeito aos impactos provocados pelas prisões na Era Vargas, e suas consequências, ler CANCELLI (1994: 180- 215)

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Fruto de uma Assembléia Nacional Constituinte, em 1945, a Constituição de 1946 vai ser marcada pelo pluralismo ideológico(o PCB participa ativamente dos trabalhos), sempre com a predominância da lógica liberal. Dentre os aspectos mais importantes destacam-se: a) a igualdade de todos perante a lei; b) a liberdade de manifestação de pensamento, sem censura, a não ser em espetáculos e diversões públicas; c) a inviolabilidade do sigilo de correspondência; d) a liberdade de

padrões mais democráticos com fundamentações mais liberais. Resultante de uma repactuação do Pós II Guerra Mundial, o que se observa é a proposta de construção de princípios de valorização da cidadania e da democracia em termos mais gerais, sem que isto tenha significado modificações substanciais nos conflitos das relações de classes, principalmente no que concerne às Políticas de Segurança Pública.

As dificuldades de ampliação dos direitos democráticos são imensas, haja vista que, mais de 50% da população não adquire o direito ao voto e o Partido Comunista Brasileiro seria colocado na ilegalidade em 1947. (BATTIBUGLI-2006: 18-21) No âmbito do papel das polícias e das ilegalidades por ela praticada, tal qual no Estado Novo, poucas ou quase nenhuma, foram as transformações. Como destaca Thais Battibugli (2006: 13):

A atividade policial é dirigida mais para quem a pessoa é do que para a sua conduta em si. As arbitrariedades ocorrem, freqüentemente, em alvos preferenciais: desprivilegiados sociais, jovens e negros, vistos como mais inclinados a cometer infrações ou como menos propensos a denunciar possíveis desvios que resultem em punição ao policial infrator. Um jovem negro pobre e um senhor rico branco, ao praticarem os mesmos atos, certamente receberiam tratamentos distintos, diferenciação que reflete os preconceitos, a distribuição de privilégios de uma determinada sociedade, o que contribui para a proteção e manutenção de suas estruturas de poder. A atividade policial tem em si um cunho discriminatório que não pode ser ignorado, cujo problema não está na existência de conduta movida pela suspeição; mas, no conteúdo de tais percepções preconceituosas, compartilhadas pela cultura policial e por vários setores da sociedade (Reiner, 2004, p. 139-140; Bittner, 1990, p. 96-99, 129). (grifo nosso)

Isto equivale ao fato de que as relações das polícias com a sociedade não se alteraram, ao contrário, acabam por construir novos pontos de conflito na medida em que aspectos como o corporativismo e a grande dificuldade de um efetivo controle pela sociedade e pela justiça comum, se tornam quase impossíveis. Na prática a manutenção e a estrutura estatal como se desenvolve ampliam as possibilidades da prática reiterada dos ilegalismos, não cabendo ao cidadão comum distinguir os limites, assim como, as possibilidades de reação e/ou resistência; daí a ampliação do problema. Como explica BATTIBUGLI (2006: 10):

O modo como a polícia trata o cidadão é para este um forte definidor da forma como o Estado o respeita ou o desrespeita, pois é uma instituição estatal de grande visibilidade (Bittner, 1990, p. 19). A polícia como agente do Estado reflete, até certo ponto, em suas ações, as diretrizes

consciência, de crença e de exercício de cultos religiosos; e) a liberdade de associação para fins lícitos; f) a inviolabilidade da casa como asilo do indivíduo; g) a prisão só em flagrante delito ou por ordem escrita de autoridade competente e a garantia ampla de defesa do acusado; h) extinção da pena de morte; e, i) separação dos três poderes. CONSTITUIÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL (DE 18 DE SETEMBRO DE 1946) In: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao46.htm Acessado em 22/02/2015.

governamentais, ainda que tenha relativa margem de autonomia para estruturar e realizar tarefas de policiamento. A polícia é, portanto, uma instituição chave para se avaliar a efetividade dos valores democráticos de um país, de seu governo e sociedade.

Destaque-se que, apesar dos anseios democratizantes, a lógica de controle e repressão política não se altera, assim como não se corrigem os “desvios”; ao contrário, não ocorre nenhum movimento de restrição e/ou diminuição dos gastos nesta área. A Delegacia de Ordem Política e Social – DOPS, por exemplo, surgida em 1944, no Estado Novo, apesar da redemocratização, não sofre nenhum tipo de reestruturação, mantendo-se suas funções e objetivos: “(...) já que houve a continuidade da legislação de repressão a partidos e movimentos de esquerda...”200

(BATTIBUGLI-2006: 47). Nunca é suficiente lembrar o papel que este órgão desempenhou durante a Ditadura Civil-Militar, pós 1964.

Outro elemento importante se refere ao fato de que a Constituição de 1946 não restringe ou impede o processo de militarização das polícias, fato este iniciado no século XIX, ao contrário, molda-se uma cultura policial201 caracterizante de toda estrutura. O caso da Força Pública de São Paulo (criada em 1831) torna-se um exemplo elucidativo, pois em 1947, a Constituição do Estado de São Paulo, em seu artigo 148 estabelecia: “A Força Pública,

corporação militar essencialmente obediente ao Governo do Estado, é instituição permanente, destinada á manutenção da ordem e da segurança pública.”202 Além disso cria- se um caráter quase que totalmente autônomo desta Força o que, de fato, amplia muito as possibilidades dos ilegalismos.203 Como esclarece BATTIBUGLI (2006: 49) sobre as consequências desta lógica:

Para Miranda, a existência de conflitos entre esfera estadual e federal e a tendência autoritária dos estados regionais explicavam a forte militarização das PMs e a sua manutenção na Constituição de 1946. De fato, não apenas o problema das polícias dos estados-membros continuou em aberto, mas também a questão da instabilidade política no país que culminou com o golpe militar de 1964 (Gaspari, 2002, p. 45-58)

200 “(...) lei nº 38 de 4 de abril de 1935, lei nº 136 de 14 de dezembro de 1935 e o decreto-lei 413 de 18 de maio de 1938, continuou a vigorar até a revogação dela em 1953, sete anos após a instauração da democracia (...)” BATTIBUGLI (2006: 47)

201

A este respeito ver BATTIBUGLI (2006: 62-66)

202 Constituição do Estado de São Paulo, de 1947. Disponível em: http://www.al.sp.gov.br/leis/constituicoes/constituicoes- anteriores/constituicao-estadual-1947/ . Acessado em 27/02/2015.

203

“Os soldados apenas cumpriam ordens exigidas pelo comandante do destacamento, pois não havia o dever de se atender a solicitações diretas do delegado. O decreto das atribuições, fixado em 1951, preocupou-se em alertar os soldados para o uso comedido da força, mas inseriu o termo muito vago , que poderia servir para legitimar possíveis violências cometiddas.” BATTIBUGLI (2006: 50)

Também foi mantido na Constituição de 1946 o processo iniciado na década de 1930 de submissão destas corporações ao Exército, assim como o caráter corporativista desta Força, fato este que torna crônico os problemas da violência policial e seus ilegalismos.

Como destaca BATTIBUGLI (2006: 52-54):

Assim, o policial da FP era investigado e julgado apenas por seus pares, pois toda conduta praticada em serviço era tipificada como de âmbito militar (transgressão disciplinar ou crime militar) e sujeito à sua jurisdição, mesmo que a conduta fosse realizada contra civis. (...)

(...) Dessa forma, a FP era marcada por uma forte identidade, cultura militar, que privilegiava aspectos propriamente militares, não policiais. (...)

(...) Em 1964, a tropa de choque da FP era de aproximadamente 3.000 integrantes e suas operações, em caso de distúrbios civis, eram coordenadas por delegados do DOPS. A FP tinha ainda uma unidade de contra- inteligência para investigações de atividades consideradas subversivas, o que seria, em teoria, função exclusiva do DOPS.

Desta forma se torna interessante perceber que no âmbito do controle social, apesar de um projeto de democratização da sociedade, paralelamente à efetiva dinamização capitalista em vigência, marcadamente a partir da década de 1950,204 o que se percebe é a ampliação da “gestão diferencial dos ilegalismos”. Por outro lado, não se pode descartar o fato da dinamização da produção industrial nos grandes centros urbanos do Sudeste, fato que modifica significativamente o relevo das grandes cidades (distribuição populacional) em função de sua correspondente ocupação territorial. O crescimento populacional associado ao dinamismo do emprego industrial, muito provavelmente poderão explicar o porquê da redução das taxas de detenções correcionais durante os anos 1950 (extremamente inferiores às taxas do Estado Novo), voltando a se elevar muito a partir de 1961, 1962 (momentos de fortes transformações econômicas, políticas e geopolíticas). Apesar disso os números absolutos continuaram a ser muito elevados, ou seja, o comportamento destes dados não se refere a alguma justificativa que sugerisse uma “pretensa estratégia de combate à criminalidade”. (TEIXEIRA-2012: 80)

O que fica claro é que as transformações ocorridas seguiram a mesma lógica estabelecida em nossa história, qual seja, a ampla dificuldade de se resguardar os direitos da cidadania, sempre através do próprio aparelho de Estado. Neste sentido o sistema judiciário

204

O efetivo “nacional desenvolvimentismo”, estruturação do Estado e sua participação direta no crescimento da produção com a criação de estatais como: Siderbrás, Eletrobrás, Petrobrás, Vale do Rio Doce, BNDES etc. (CANO-1999) (LESSA- 1981)

reproduz de forma ininterrupta as distorções e ilegalidades que deveriam ser seu alvo de combate. Nas palavras de BATTIBUGLI (2006: 16):

O monopólio estatal do uso da força pode ser utilizado tanto para proteger, como para ameaçar e cometer ilegalidades, o que consiste num instrumento social perigoso caso não seja controlado pelo sistema judiciário e pela sociedade civil, porque a instituição policial carrega forte tendência a ser

non-accountable, ou seja, não ser responsabilizada por suas arbitrariedades

perante o Estado e a sociedade (Keane, 1988, pp. 179-180).

Não menos importante é o fato de que o período entre 1946 e 1964 se caracteriza por transformações, conflitos (políticos e geopolíticos), rupturas profundas e rápidas em todos os sentidos. Considerando-se o modelo federativo implementado, há de se perceber que a eficiência deste se torna um “Calcanhar de Aquiles”, ao mesmo tempo em que se transforma no “criadouro” de todo tipo de distorções e arbitrariedades, pois a ação dependeria sempre de fundamentos e propósitos objetivos incorporados – e praticados – por todos os entes federativos. Isto significa que o monopólio da força se fragiliza em função da multiplicidade de interesses e ausência de uma real cidadania em uma sociedade que se pretende civilizada.205

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