CAPÍTULO III ENFOQUES CRIMINOLÓGICOS
III. 3.2 Conceito de “Estado Penal” Loic Wacquant
A partir de uma nova abordagem, principalmente sociológica, surgiram estudos que relacionam as taxas de crime com as mudanças nas formas de sociabilidade contemporânea de alguns Estados ocidentais, principalmente EUA e Grã-Bretanha e, por conseguinte nos países periféricos. Tais mudanças são reflexos diretos do recrudescimento das políticas de controle do crime e do criminoso. Estes novos enfoques acabam por materializar o que se torna conhecido como Estado Penal: encarceramento em massa, “Cultura do Controle”, recrudescimento penal, etc. As referências teóricas mais fortes desta perspectiva serão encontradas nos trabalhos de Wacquant (2001; 2004) e Garland (1999 e 2008).
De modo geral, a tese de Loic Wacquant, acerca da punição em alguns países ocidentais na atualidade, é colocada nos termos de um Estado que reduziu seu papel social. Após a decadência do Welfare State nos EUA, Inglaterra e França entre outros países, ampliou-se a intervenção penal, endurecendo-a. A ideia básica é que “O Estado-providência
europeu deveria doravante ser enxugado, depois punir suas ovelhas dispersas e reforçar a ‘segurança’, definida estritamente em termos físicos e não em termos de risco de vida (salarial, social, médico, educativo, etc.) ao nível de prioridade da ação pública.”
(WACQUANT - 2001:18)
Os think tanks156 americanos (posteriormente fixados na Inglaterra, Itália, México
entre outros países), seriam fundamentais na propagação e proposição de tais ideias mais punitivas. Ainda segundo Wacquant (2001: 80-93), a mudança do paradigma punitivo vigente
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“Pensamos que este deseo de ‘des criminalizar’ conductas desviadas que ‘no dañan a nadie’- y así eliminar la última
sanción que la policía puede emplear para mantener el orden en el barrio – es un erro. Arrestar a un simple borracho o vagabundo que no ha hecho daño a ninguna persona identificable parece injusto, y en cierto modo lo es. Pero no hacer nada respecto a una veintena de borrachos o uma centena de vagabundos podría destruir toda una comunidad. Una regla particular que parece tener sentido en un caso individual no lo tiene cuando se la convierte en universal y se la aplica a la totalidad rapara y mil ventanas rotas” (WILSON & KELLING - 2001:75)
156 Trata-se de “institutos de consultoria” que analisam problemas e propõem soluções nas áreas militar, social, política ou, no caso estudado, na segurança pública. Teriam por base as políticas americanas de tolerância zero, juntamente com a teoria das janelas quebradas de James Q. Wilson e George Kelling. De um modo geral, ainda que essas teorias diferenciem-se nos conteúdos teóricos e proposições de combate ao crime, propõem o aumento da repressão aos “delitos de menor potencial ofensivo em áreas degradadas”, por exemplo, mendicância, uso de drogas e entorpecentes, prostituição são delitos estratégicos na busca pela “comunidade segura”. (WACQUANT - 2001)
até os anos 70, reside da contradição em que “... à atrofia deliberada do Estado Social
corresponde a hipertrofia distópica do Estado Penal: a miséria e a extinção de um têm como contrapartida direta e necessária a grandeza e a prosperidade insolente do outro”. 157 Essa hipertrofia do sistema carcerário (principalmente do encarceramento da população pobre) seria, portanto, caracterizado como Estado Penal nos EUA.158
O diagnóstico, portanto, corresponde a uma dinamização (neo)liberal sobre o planeta; trata-se do tratamento penal da miséria. Tal fenômeno que atinge principalmente os países citados acima (EUA, Inglaterra e França), também se verifica com clareza em países da América Latina como o Brasil. Para Wacquant, o que ocorreu foi o enfraquecimento da capacidade de intervenção social do Estado, com o abandono de suas prerrogativas diante da figura do mercado, desde os anos 70, em conjunto com o ápice das teorias neoliberais na década de 90 do século XX: A penalidade neoliberal que pretende remediar um Estado menos econômico e social com um Estado cada vez mais policial.
Este quadro se torna mais trágico quando projetado para países como o Brasil. Possuidor de uma elite conservadora e antinacionalista, caracterizado por fortes desigualdades econômicas e sociais, desprovidos de tradição democrática e de instituições que possam vir a ser capazes de amortecer os impactos causados pela mutação do trabalho, pelo recuo das proteções coletivas e pela mercantilização das relações humanas. Desta forma corre-se o risco de perpetuação do enfraquecimento da capacidade de intervenção social do Estado, com o
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Este crescimento da população de encarcerados nos EUA, corresponde a uma doutrina que segundo seus ideólogos, responderia ao crescimento nos índices de criminalidade e da violência contra pessoa. No entanto, os dados das estatísticas criminais americanas assinalam que a delinqüência e a criminalidade estagnaram ou até tiveram um recuo dos anos 70 até início dos anos 90, como também, que a maioria dos novos detentos cometeram pequenos delitos. De 1973 a 1982, 40 milhões de americanos foram vítimas de incidentes criminais e em 1992, esse índice caiu para 35 milhões. Já nos índices de violência contra a pessoa, os assaltos qualificados diminuíram entre 1974-78, continuaram decrescendo entre 1981-85 até crescer lentamente até 1994, sem, no entanto, ter havido um aumento significativo nos índices. Quanto ao ataques violentos, houve uma queda de 1974 a 80, depois estabilizou até atingir seu ponto mais baixo em 1993. E nos índices que se referem à probabilidade de ser vítima de golpes e ferimentos, as taxas estagnaram desde o fim dos anos 70, e no início dos anos 90 estavam ao mesmo nível do fim dos anos 60. (WACQUANT, 1999).
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A tese do Estado Penal possui cinco elementos centrais, resumidos assim: 1) Expansão vertical do sistema: significa o crescimento das populações aprisionadas no aparelho carcerário americano; 2) Extensão horizontal da rede penal: o número de pessoas condenadas por sursis (probation) e em liberdade condicional (parole) dispara, quadruplicando em 16 anos para, nos anos 2000, chegar a 5,7 milhões de Americanos nas “mãos da Justiça”; 3) Crescimento excessivo do setor
penitenciário no seio das administrações públicas: entre 1979 e 1990 nos EUA, os gastos penitenciários dos estados
cresceram 325% quanto ao funcionamento e 612% quanto à construção; 4) Ressurgimento e prosperidade da indústria
privada carcerária: o aparato carcerário privado nasceu em 1983 nos EUA. Englobou em 1988 4.630 mil lugares; 1993 esse
número passa a 32.555; 1998 chega a 132.572; e, 5)Política de ação afirmativa carcerária: “bairros deserdados” tornam-se alvos prioritários; são famílias em bairros pobres das metrópoles americanas, particularmente com população negra. Mesmo
fenômeno na Europa: o aumento nas taxas para cada 100.000 habitantes nos países da Europa, no período de 1985-1995,
tiveram um acréscimo significativo: Portugal 93 para 125, 57 para 102 na Espanha; 90 para 101 na Inglaterra (com País de Gales); 76 para 90 na Itália; 76 para 95 na França; 62 para 76 na Bélgica; 34 para 65 na Holanda; 49 para 65 na Suécia; 36 para 56 na Grécia. (WACQUANT-2001: 80-93)
abandono de suas prerrogativas diante da figura do mercado, desde os anos 70. Adicione-se a isto o ápice das teorias neoliberais na década de 90 do século XX: “A mão invisível tão cara a
Adam Smith certamente voltou, mas dessa vez vestida com uma ‘luva de ferro’”
(WACQUANT - 2001:151).
III.3.3 – “Cultura do Controle”: “novo aparato de prevenção e segurança” -