CAPÍTULO III ENFOQUES CRIMINOLÓGICOS
III. 3.1 “Teoria Econômica do Crime” e “Janelas quebradas”
A partir das crises do petróleo147, na década de 1970, o capitalismo – no centro e na periferia, passa a se adequar às novas condições e ações geopolíticas dos diferentes “parceiros” capitalistas. Como consequência os problemas distributivos se ampliam ao mesmo tempo em que as ações dos Estados Nacionais (no centro e na periferia) passam a se readequar em todos os setores. Grosso modo pode-se dizer que as ações dos governos – mesmo os de tradição socialdemocrata – passam a ampliar mecanismos de defesa do processo de acumulação capitalista sempre em detrimento da preservação da renda dos trabalhadores.
Isto significa que o caráter dos diagnósticos e, por consequência, das soluções aos problemas de segurança pública também sofrem alterações estabelecendo contradições analíticas que podem ser justificadas por perspectivas ideológicas que sempre se confrontaram (mais à direita e/ou mais à esquerda). Neste cenário, portanto, surgem formas diferenciadas de análises sobre os problemas dos crimes e das penas, sempre na perspectiva dos estados burgueses.
Neste sentido, autores como Gary Becker (1968), James Q. Wilson e George L. Kelling (1980) acabam por materializar novas formas de análise – e prescrição de solução – da questão do combate à criminalidade que vão alterar profundamente os enfoques doutrinários até então estabelecidos. A partir de posturas mais “racionais” e menos “sociológicas” estes autores passaram a apresentar alternativas em que estas questões deveriam estar no âmbito da Economia, ou seja, os conceitos de “escolha racional”, “custo/benefício”, “gestão eficiente” etc, dentro de uma lógica microeconômica, passariam a orientar as Políticas Públicas no âmbito da criminologia. O que se coloca neste enfoque é que
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Reações dos produtores de petróleo aos resultados do chamado “anos dourados” (HOBSBAWM: 1995) do capitalismo pós-guerra, em que as taxas de crescimento do capitalismo mundial alcançaram médias superiores à 4% aa. Criou-se a OPEP (grupo de países produtores de petróleo), cortou-se a produção em 50% e cartelizou-se o preço internacional provocando aumento generalizados nos custos de produção mundial.
a partir da dinamização da crise capitalista (e suas conseqüências) a ação dos Estados Nacionais Soberanos deveriam se pautar pelos crescentes afunilamentos orçamentários obrigando-os, dentro desta lógica, a fazer escolhas que priorizassem as “vítimas” para que se alcançasse uma pax social efetiva.148
Becker foi o precursor de uma “teoria econômica do crime”149 e do “modelo do ator racional”. Para ele a existência de uma relação entre o crime (prática e frequência/quantidade), os custos de uma possível condenação, a probabilidade de apreensão e de detenção poderia ser elemento que levasse o indivíduo a calcular qual a vantagem da ilicitude comparado aos ganhos no mercado legal; ele ainda adiciona neste cálculo a existência de disposição para cometer o crime, já que os criminosos possuem uma preferência pelo risco. Se os resultados de uma vida no mercado de trabalho for economicamente inferior aos “custos-benefícios”, segundo estas variáveis, o indivíduo optará pelo crime.150
No âmbito da punição, Becker propõe a “otimização” das condições e dos recursos, de modo que se minimizem os impactos dos custos sociais do delito a favor de um maior bem-estar da sociedade. Isso significa considerar que alguns custos da punição são muito altos aos outros membros da sociedade como, por exemplo, os custos da prisão, da liberdade condicional e do probation.151 Ou seja, o custo social total das punições é, portanto, o custo para os criminosos mais ou menos o ganho para os outros membros da sociedade. O
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Num primeiro plano podemos apontar como reação às mudanças das relações sociais e o consequente aumento da criminalidade, sob uma lógica mais liberal, a existência de duas correntes: 1) as correntes que analisam as motivações individuais e processos sociais que levariam as pessoas para a criminalidade – abordagens propositivas; e, 2) as correntes que analisam as taxas de crime com relação às culturas e as mudanças nos modos de organizações sociais – abordagens analíticas. 149
Trata-se de uma derivação da “teoria da escolha racional” baseadas na” teoria econômica da empresa”. Para os teóricos desta corrente o que distingue esta perspectiva das demais é o estudo dos micro-fundamentos da análise institucional tais como regras do processo decisório, mapeamento dos atores, voto, etc. Por meio das interações estratégicas dos agentes, cada qual com suas preferências definidas, dentro de um determinado contexto. A perspectiva da maximização das preferências individuais abrangem todas as questões sociais e políticas, desde os efeitos das grandes instituições políticas como legislaturas, cortes, eleições, burocracias a fenômenos como a corrupção, produção e troca, revolução ou nos estudos da criminalidade. (FEREJOHN & PASQUINO: 2001).
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Segundo Ari Francisco de Araújo Jr. (2002), o modelo de Becker pode ser apresentado como: NBi = li – ci – wi – (pr *
pu); no qual: a) NBi = beneficio líquido do indivíduo i; b) li = valor monetário do ganho com o crime; c) ci = custo de
planejamento e execução do crime; d) wi = custo de oportunidade; e) pr = probabilidade de captura e condenação; e, f) pu = valor monetário do castigo. Neste sentido, renda, salário, educação, etc, entendidos como os fatores positivos, seriam as variáveis que estimulam o indivíduo pela busca do mercado de trabalho. Já o nível de eficiência do aparato da justiça criminal e da polícia, bem como a severidade das punições são os fatores negativos (deterrence - dissuasão), ou seja, são as variáveis visadas que podem desestimular o cálculo pelo crime. Assim, depreende-se que um aumento nas atividades legais, na obediência em comparação ao rigor da punição ou ainda alterações nas formas de punição em relação à lei, devem reduzir os incentivos às atividades ilegais.
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O modelo de combate ao crime baseado na otimização dos recursos deve ser dividido em 5 categorias: (1) o número de crimes e os custos destes; (2) número de crimes e as punições distribuídas; (3) número de crimes apreendidos e condenados, e os gastos públicos das polícias e da justiça criminal; (4) número de condenações e os custos da prisão e de outros tipos de punição; (5) o número de crimes e os gastos privados sobre proteção e apreensão. ARAÚJO JR. (2002).
bem estar social funciona como o bem estar econômico e assume que a sociedade tem por função medir as perdas sociais das “ofensas”.152
Dentro desta mesma perspectiva teórica, na década de 1980, surge uma teoria de dois autores americanos James Q. Wilson e George L. Kelling: “Broken windows” (janelas quebradas).153
O ponto de partida para esta proposta se encontra na percepção dos próprios autores de que na década de 1960 o principal problema dos EUA eram as revoltas urbanas. A partir daí começou-se a explorar cuidadosamente a função policial de manter a ordem – não de tornar as ruas mais seguras, mas sim de reduzir a incidência de violência massiva. Já nos anos 70 a atenção se desviou para o combate do crime e os estudos se ampliaram passando da “manutenção da ordem” para converter-se em esforços para comprovar de que modo a polícia poderia resolver mais crimes, reunir mais evidências e prender mais.154
Em resumo, para Wilson e Kelling (2001), o que se deve buscar é a garantia de que cada delito (mesmo os pequenos) merece punição. Desta forma a manutenção da ordem não é feita através do policiamento apenas reativo, mas fundamentalmente por meio do fortalecimento de mecanismos de controle social informal da própria comunidade. Isto tudo na procura de se identificar os bairros e os pontos em que a ordem pública está se
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Nesta concepção crimes como assassinato ou estupro devem ser resolvidos mais frequentemente e punidos mais severamente do que crimes mais “leves” como roubo de carro e pequenos furtos. Becker enfatiza que a otimização das decisões são interpretadas como formas de decisões que “minimizam as perdas sociais” em contrapartida das rendas para os criminosos. Essas perdas são representadas e equivalem à somatória dos danos (prejuízos), custos de apreensão e condenação e os custos da manutenção das punições impostas. Neste sentido punições/privações devem ser utilizadas conjuntamente à multas que penalizem, inclusive, a renda dos criminosos.
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“Ventanas Rotas: La polícia y La seguridad en los barrios” (2001) - Publicado originalmente em The Atlantic Monthly, vol. 249, n° 3, p. 29 a 38, march, 1982. O artigo relata o fato que em meados da década de 70, o estado de New Jersey, lançou o programa ‘bairros limpos e seguros'. O foco central do programa era a mobilidade e patrulhamento do policiamento a pé ao invés das viaturas utilizadas. Cinco anos depois, a fundação Policial de Washington DC, publicou uma avaliação do projeto de patrulhamento a pé, na qual, avaliou que o patrulhamento a pé ainda não havia reduzido as taxas de delinquência. No entanto, os residentes nos bairros com esse tipo de patrulhamento sentiam-se mais seguros do que as pessoas de outras áreas. Além da maior sensação de segurança, os cidadãos moradores nestes locais tinham uma opinião mais favorável ao policiamento, do mesmo modo que os policiais tinham uma moral mais elevada, mais satisfação no trabalho e atitudes positivas em relação aos cidadãos quando comparados com os policias que estavam nos automóveis.
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Para os autores, encontrar a resposta da ‘maior sensação de segurança’ acima descrita só seria possível a partir da compreensão de que a maioria das pessoas teme, em lugares públicos, ser vítima de um delito que implique um ataque repentino e violento de um ‘estranho’. O que os policiais elevaram foi o nível da ordem pública nesses bairros. Vale explicitarmos o conceito dos autores de ‘estranho’: Este riesgo é muy real, tanto en Newark como en muchas grandes
ciudades. Pero tendemos a pasar por alto otra fuente de temores: el miedo a ser molestado por gente indisciplinada. No se trata de gente violenta, ni necesariamente delincuente, sino personas desaliñadas, revoltosas o impredecibles: mendigos, borrachos, adictos, adolescentes ruidosos, prostitutas, vagabundos, personas mentalmente perturbadas. (WILSON &
deteriorando, mas ainda pode ser recuperada. Porque, o importante é reparar uma janela quebrada antes que todas estilhassem. 155