CAPÍTULO I – CAPITALISMO, CAPITALISMO PERIFÉRICO, DEPENDÊNCIA E POBREZA
I. 4.3 Capitalismo e pobreza: uma relação causal
Desde o advento da Revolução Industrial Inglesa constitui-se definitivamente um binômio: capitalismo e pobreza. Nesta consolidação de um modelo amplo, como se verificou, as questões sociais estarão quase que indissociavelmente ligadas à pobreza oriunda da dinâmica capitalista. Portanto, identificar as raízes e formulações teóricas sobre a pobreza se torna papel fundamental deste trabalho, na medida em que o debate sobre a ação estatal em Políticas de Segurança Pública, Política/Estrutura Carcerária e de Cidadania gira em torno dessas questões.
Para o pensamento liberal a pobreza é um dos elementos da questão social e sua origem será interpretada de acordo com as variações ideológicas do capitalismo.29 Trata-se de uma concepção hegemônica deste modelo, variando sempre em função de uma necessidade didática e metodológica de convencimento. Pode-se, portanto, inferir que o conceito de pobreza, neste caso, é um resultado direto dos interesses do capitalismo em dissimular os aspectos da luta de classes e da dinâmica histórica de acumulação capitalista num plano mundial. Este tipo de enfoque resulta numa concepção de “cultura da pobreza”.30 Como nos esclarece Carlos Montaño (2012: 270-271):
Primeiramente a pobreza no pensamento burguês estaria vinculada a um déficit educativo (falta de conhecimento das leis “naturais” do mercado e de como agir dentro dele). Em segundo lugar, a pobreza é vista como um problema de planejamento (incapacidade de planejamento orçamentário familiar). Por fim, esse flagelo é visto como problemas de ordem moral- comportamental (mal gasto de recursos, tendências ao ócio, alcoolismo, vadiagem etc.)
Mais adiante complementa:
A expressão ‘questão social’ começa a ser empregada maciçamente a partir da separação positivista, no pensamento conservador, entre o econômico e o social, dissociando as questões tipicamente econômicas das “questões sociais” (cf. Netto,2001,p.42). Assim, o ‘social’ pode ser visto como ‘fato social’, como algo natural, a-histórico, desarticulado dos fundamentos econômicos e políticos da sociedade, portanto dos interesses e conflitos sociais. Assim, se o problema social (a “questão social”) não tem fundamento estrutural, sua solução também não passaria pela transformação do sistema.
29
Utiliza-se aqui a conceitualização althuseriana de ideologia, a qual será objeto de análise mais adiante.
30 Nesta perspectiva concebe-se a pobreza como sendo fruto e consequência do próprio indivíduo que se mostra incompetente e irresponsável para lidar com suas próprias necessidades e prefere viver na miséria e no ócio. Tal perspectiva é reflexo típico de uma cultura que vem da Europa nos séculos XVI a XIX – aqui há que se dizer que pobreza é algo antigo e pouco discutido; entretanto esta questão terá como seu enfrentamento as bases das ações filantrópicas. Num primeiro momento. Estas ações visam educar e moralizar, dai nascem os pressupostos para os abrigos para os “pobres”, as organizações de caridade e filantropia. Bem como as Leis direcionadas a esta categoria de desafortunados. (MONTAÑO - 2012)
O que se tenta, portanto, é dar à questão da pobreza um caráter individual e a- histórico. Desta intenção surge a falsa ideia, por exemplo, de que se trata de fenômeno de “disfuncionalidade social” sem nenhuma associação às causas estruturais da dinâmica capitalista. Busca-se um convencimento de que as desigualdades sociais são superáveis, mas que só acontecem através do esforço individual.
Na contramão desta conceituação liberal tentamos aqui definir pobreza a partir de um enfoque sociológico e histórico mais amplo, não limitado exclusivamente às questões materiais.
Num primeiro enfoque temos a pobreza como um processo multidimensional em que causas e consequências se completam. Neste sentido a pobreza transcende as questões materiais, ou seja, trata-se de uma condição sociológica em que satisfação de necessidades não se localiza apenas na dinâmica da acumulação capitalista e a consequente insuficiência de renda. Trata-se, sobretudo, de um resultado socioeconômico, dentro da dinâmica capitalista em que a condição humana se deteriora frequentemente em um ambiente em que o antagonismo entre acumulação capitalista e miséria se expressa sistematicamente, o que, com certeza provoca um processo que se auto-alimenta. Ou seja, causa e consequência são os elementos impulsionadores desta tragédia da modernidade.
Vale destacar a formulação conceitual de Maria Carmelita Yasbek (2012: 73-74):
A noção de pobreza é ampla, ambígua e supõe gradações. Embora seja uma concepção relativa, dada a pluralidade de situações que comporta, usualmente vem sendo medida através de indicadores de renda(múltiplos e submúltiplos do salário mínimo) e emprego, ao lado do usufruto de recursos sociais que interferem na determinação do padrão de vida, tais como saúde, educação, transporte, moradia, aposentadoria e pensões, entre outros. Os critérios, ainda que não homogêneos e marcados por um viés economicista, acabam por convergir na definição de são pobres aqueles que, de modo temporário ou permanente, não têm acesso a um mínimo de bens e recursos, sendo portanto excluídos, em graus diferenciados, da riqueza social. (...) (...) A pobreza é expressão direta das relações materiais vigentes na sociedade e certamente não se reduz às privações materiais. Alcança o plano espiritual, moral e político dos indivíduos submetidos aos problemas da sobrevivência. Martins mostra que a pobreza, muito mais que a falta de comida e de habitação, é “carência de direitos, de possibilidades, de
esperança”. Considera vergonhosa essa forma de pobreza, “que é a pobreza
de direitos” (Martins, 1991: 1ª - 15).
Ao analisarmos tal concepção percebemos que as novas configurações da pobreza, também vão alcançar as novas formas de trabalho (sub trabalho, trabalho informal,
terceirizações etc.) que desestabilizam a sociedade, ao mesmo tempo em que o projeto (neo)liberal passa a determinar os limites e padrões da ação estatal, via financiamento das políticas públicas (definição política do Orçamento Público).
Neste sentido o caráter da pobreza torna-se plural, ou seja, não se restringe à total ausência de renda (emprego), mas, principalmente, se conforma em diferentes possibilidades analíticas e descritivas, ampliando, em muito, seu caráter e alcance.31 Disso resulta que a forma de “tratamento” da pobreza irá variar sempre em função de sua potencial “ameaça”; trata-se de uma percepção negativa em que a luta de classes se encobre, ao mesmo tempo em que o combate a estes males serão seletivamente definidos e destinados aos que “mereçam” ou àqueles que o reconhecem como legitimo. Como esclarece Serge Paugam (2003: 54-55):
O fato de alguém ser pobre não significa que ele pertença a uma categoria social específica de “pobres”. Ele pode ser um pobre comerciante, um pobre artista ou um pobre empregado, mas continua se situando em uma categoria definida por uma atividade específica ou uma posição. Nesta categoria ele pode ocupar, devido à sua pobreza, uma posição que se modifica gradualmente. Mas os indivíduos que, em diversos status e ocupações, encontram-se nessa situação, eles não ficam ainda reagrupados de alguma maneira numa totalidade sociológica particular distinta da classe social à qual pertencem. É a partir do momento que passam a ser assistidos, talvez mesmo quando sua situação poderia normalmente lhes dar direito à assistência, mesmo antes desta ser concedida, que eles se tornam parte de um grupo caracterizado pela pobreza. Esse grupo não permanece unificado pela interação entre seus membros, mas pela atitude coletiva que a sociedade em sua totalidade adota em relação a ele.
Neste sentido a concepção estruturalista de análise social, econômica e política (visando o combate ao subdesenvolvimento), só terá validade a partir da percepção desta multidimensionalidade.
31 YASBEK (2012) amplia o entendimento deste conceito ao afirmar: “Do ponto de vista conceitual as abordagens sobre a pobreza podem ser construídas de diversas formas: 1) a partir de diferentes fundamentos teórico metodológicos: positivistas (funcionalistas, estruturalistas) marxistas; 2) do ponto de vista do desenvolvimento histórico social e político da sociedade capitalista: do Estado liberal (prevalência do mercado) ao Estado social (diretos sociais); 3) do ponto de vista da definição de indicadores, as medidas da pobreza podem ser monetárias, quando utilizam a renda como principal determinante da linha de pobreza e podem recorrer a indicadores multidimensionais, que incluem atributos não monetários para definir a pobreza, como o IDH, e o índice Gini. Esses indicadores multidimensionais incluem aspectos que afetam o bem-estar dos indivíduos e a não satisfação de suas necessidades básicas. Consideram como essencial para definir a condição de pobreza o acesso a alguns bens, de modo que sem esses os "cidadãos" não são capazes de usufruir uma vida minimamente digna. Incluem: água potável, rede de esgoto, coleta de lixo, acesso ao transporte coletivo, educação, saúde e moradia. O caráter multidimensional da pobreza leva á necessidade de indicadores que tenham uma correspondente abordagem multidimensional e que levem em consideração como o indivíduo percebe sua situação social. (...)”