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3 – Capitalismo e governo: uma dualidade definitiva

CAPÍTULO I – CAPITALISMO, CAPITALISMO PERIFÉRICO, DEPENDÊNCIA E POBREZA

I. 3 – Capitalismo e governo: uma dualidade definitiva

Como visto anteriormente, principalmente a partir do século XV, constrói-se um novo processo de desenvolvimento intelectual humano no qual a exaltação do individualismo consolida-se na possibilidade de que o homem pode enriquecer (a cobrança do juro e a percepção do lucro deixaram de ser pecado). Com o enfraquecimento dos feudos surge a

necessidade de construção de uma política nacional, ou seja, o “Estado Moderno”16 passa a ser

um agente fundamental como gestor e/ou organizador das forças materiais e humanas. Adicione-se a esse processo a consolidação de novos processos de navegação que resultou numa reconstrução geopolítica incorporando o “Novo Mundo”17, e, ainda, a consolidação de

uma nova ciência, a Ciência Política a partir da obra de Maquiavel.18

Com o advento do capitalismo (séc. XVIII) se faz necessário uma nova transformação deste Estado. Isso porque nas novas relações sociais e econômicas, os protagonistas passam a desempenhar papéis distintos que, na essência, diferenciam os homens em função da propriedade de capital ou sua subordinação a ele. Na prática pode-se inferir que a Revolução Francesa (1789)19 acaba por definir tais mudanças. Nela se consolida a estrutura

do “Estado Burguês” em que, apesar da implementação da “democracia liberal-burguesa”20

como regime político, estes governos passam a ser ocupados por grupos de poder que sobrelevam os interesses do capital em detrimento dos interesses do trabalho (sociais). Vale destacar que a Política e o Estado (através dos três poderes: Legislativo, Executivo e Judiciário) têm em comum a referência ao poder, daí sua intercambialidade, pois não há teoria

16

A partir do século XIII inicia-se uma nova estrutura em que o governo passa a ser responsável pela manutenção das condições materiais dos indivíduos, principalmente contra as tentativas de avanços de outros estados. Para tanto a Igreja se desloca para uma posição secundária na dinâmica de poder (Política X Religião), cabendo ao “príncipe” exercer o poder para garantir a defesa do território, a manutenção da ordem econômica e um poder centralizado. Como consequência dá-se ao governo um caráter público dentro de padrões administrativos (burocrático) e padronizados, sendo que isso dependerá do grau de soberania e autonomia destes “estados Nacionais” modernos. A este respeito ler BOBBIO (2009: 435-429)

17

Como visto em SOUZA, (2000: 43) este novo ciclo - descobertas ultramarinas – “resultou em afluxo de metais preciosos para a Europa, deslocando o eixo econômico do Mediterrâneo para novos centros como Londres, Amsterdã, Bordéus e Lisboa.”

18

Nicoló Di Bernardo Dei Machiavelli (1469 - 1527), de Florença (Itália) - Sua obra fundamental escrita em 1513: "De

Principatibus" (Il Principe).

19

Importante destacar o caráter da Revolução Francesa no que se refere à sua origem e engendramento. Como explica HOBSBAWN (2010: 105): “A revolução Francesa não foi feito ou liderada por um partido ou movimento organizado, no sentido moderno, nem por homens que estivessem tentando levar a cabo um programa estruturado. Nem mesmo chegou a ter ‘líderes’ como as revoluções do século XX, até o surgimento da figura pós-revolucinária de Napoleão. Não obstante, um surpreendente consenso de ideias gerais entre um grupo social bastante coerente deu ao movimento revolucionário uma unidade efetiva. O grupo era a ‘burguesia’; suas ideias eram as do liberalismo clássico, conforme formuladas pelos ‘filósofos’ e ‘economistas’ e difundidas pela maçonaria e associações informais.”

20 A queda da Bastilha significou, antes de tudo, a queda de um “símbolo”. Apesar disso o surgimento do novo modelo se caracteriza por uma nova forma de exercício do poder em que o processo é “representativo”. Nesta novidade os anseios liberais e burgueses se consolidam sem que isto significasse uma plenitude democrática profunda. Como destaca HOBSBAWN (2010: 106): “(...) Mais especificamente, as exigências do burguês foram delineadas na famosa Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789. Este documento é um manifesto contra a sociedade hierárquica de privilégios nobres, mas não um manifesto a favor de uma sociedade democrática e igualitária. ‘Os homens nascem e vivem livres e iguais perante as leis’, dizia seu primeiro artigo; mas ela também prevê a existência de distinções sociais, ainda que ‘somente no terreno da utilidade comum’. A propriedade privada era um direito natural, sagrado, inalienável e inviolável. (...) A declaração afirmava (como contrário à hierarquia nobre ou absolutismo) que ‘todos os cidadãos tem o direito de colaborar na elaboração das leis’; mas ‘pessoalmente ou através de seus representantes’. E a assembleia representativa que ele vislumbrava como órgão fundamental de governo não era necessariamente uma assembleia democraticamente eleita, nem o regime nela implícito pretendia eliminar os reis. (...)”

política que não parta de alguma maneira, direta ou indiretamente, de uma definição de poder. Neste sentido o entendimento sobre o Estado se resume no estudo dos diversos poderes que competem ao líder ou soberano.

Este seria o arremate necessário à consolidação do capitalismo nos moldes que se pratica até os dias atuais em que os governos, diferentemente dos anseios e da retórica liberal, se tornam instrumentos vitais à dinâmica e à expansão capitalista, principalmente no âmbito geopolítico.

Como se trata de elemento central na proposta deste trabalho vale a pena entender a lógica desta condição burguesa do Estado, pois as ações e os efeitos produzidos serão sempre determinantes para os resultados de qualquer sociedade, em todos os campos. O Estado burguês moderno equivale a uma estrutura em que o poder se dá de forma relacional,21

mas o controle deste Estado pertence a grupos determinados a partir de disputas no ambiente do capitalismo. Como explicita Antonio Gramsci (2000/3: 41-42):

(...) O Estado é certamente concebido como organismo próprio de um grupo, destinado a criar as condições favoráveis à expansão máxima desse grupo, mas este desenvolvimento e esta expansão são concebidos e apresentados como a força motriz de uma expansão universal, de um desenvolvimento de todas as energias ‘nacionais’, isto é, o grupo dominante é coordenado concretamente com os interesses gerais dos grupos subordinados e a vida estatal é concebida como uma contínua formação e superação de equilíbrios instáveis (no âmbito da lei) entre os interesses do grupo fundamental e os interesses dos grupos subordinados, equilíbrios em que os interesses do grupo dominante prevalecem, mas até um determinado ponto, ou seja, não até o estreito interesse econômico-corporativo. (...)

Outro elemento relevante destas transformações se refere ao caráter jurídico- político que se estabelece. Ou seja, a partir da consolidação de um Modo de Produção

Capitalista (MPC), uma das formas que se consolidam nas sociedades modernas e no Estado

burguês-liberal, se manifesta no exercício do poder pela força, a partir de uma concepção de

monopólio legítimo da repressão física. Como explica Nico Poulantzas (1971: 57-58 – vol.

II):

(...) O exercício da repressão física passa a ser legitimado pelo fato de se apresentar como correspondendo ao interesse geral do povo-nação: a legitimidade relaciona-se, aqui, exclusivamente ao Estado. (...)

(...) Deste modo, esta detenção pelo Estado capitalista do monopólio legítimo da repressão física organizada aparece ligada à autonomia

21

Trata-se de uma relação entre dois sujeitos onde o primeiro obtém do segundo um comportamento, que caso contrário, não ocorreria. (BOBBIO, N., 2000: 78)

específica das instâncias características de uma formação denominada M.P.C., que atribui ao Estado o seu lugar. Ainda mais: esta característica do Estado capitalista está implícita no próprio funcionamento do modo capitalista de produção tal como Marx o descreve em O Capital. Digo implícita, visto que esta característica do Estado encontra-se aí igualmente delineada de forma indireta. O funcionamento deste modo de produção “puro” só parece possível na medida em que a repressão física organizada não é diretamente exercida pelos agentes no domínio das relações sociais de produção, mas é reservada ao Estado. (...)

Também esta característica, como veremos posteriormente, será fundamental para que se entenda as distorções e os elementos definidores de toda estrutura carcerária configurada, principalmente a partir do meio do século XX.

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