• Nenhum resultado encontrado

1. OLHARES SOBRE A CONTEMPORANEIDADE

1.3. A complexidade como proposta

A ordem, a separabilidade e a lógica, enquanto conceitos cartesianos, foram, assim, os pilares da ciência moderna que constituíram o enquadramento de um mundo de certezas. E foram tais os sucessos alcançados, que as suas repercussões se estendem a todas as áreas da actividade e da natureza humana, desde a tecnologia, as artes e humanidades, ao domínio político ou até religioso, verificando-se em muitas áreas da actividade humana uma larga supremacia da razão e uma desvalorização de outros modos de pensar e sentir. São, porém, aqueles sucessos que possibilitam hoje, ironicamente, questionar aqueles pilares. Enquanto as ciências tradicionais como a Física, a Química e a Biologia exploram as fronteiras do conhecimento, em grande parte na procura das potencialidades organizadoras da desordem, surgem outros domínios teóricos neste contexto, como a cibernética, a teoria dos sistemas, as neurociências ou a

33

inteligência artificial (Pessis-Pasternak, 1993). O diálogo entre as disciplinas estabelece- se hoje em muitas áreas desde a procura de explicação para as turbulências e alterações climáticas ou para as flutuações bolsistas, até aos esforços para compreender as mais diversas dimensões da humanidade: aqui falamos do diálogo, por exemplo, entre ciências, humanidades, artes e filosofia.

A ideia de complexidade vem enquadrar muito do pensamento e do desenvolvimento científico do século XX. Enquanto objecto científico, estende-se a muitas áreas do conhecimento, como a meteorologia, a economia ou os estudos demográficos, compreendendo o estudo de sistemas sociais e humanos, mas também sistemas “artificiais”, como as simulações de computador (Lewin, 2004). Aqui, as ciências da complexidade estudam, muitas vezes, o caos determinista, aquele onde um conhecimento exaustivo e rigoroso das partes de um sistema é suficiente para fazer previsões causais, parecendo subentender, esta designação, a ideia de que há domínios em que o caos é produzido pela pura eventualidade. Em Morin, Motta, e Ciurana, (2004), porém, é dado mais um contributo para a clarificação do alargamento do conceito de complexidade, ao incluir a dimensão poiética, o que significa novidade, criação e temporalidade.

A complexidade é também, num sentido mais lato, entendida em termos filosóficos, como uma maneira de ver, em que a etimologia da palavra vem ajudar na clarificação: complexidade vem do latim “complexus”, tecido em conjunto, e sugere o entrelaçamento das partes na composição de um todo. Traduz o fenómeno que tem inerente uma incerteza que não pode ser erradicada e transporta em si a possibilidade da novidade, da criação e da emergência. Por isso, Benkirane (2004) afirma que a fórmula consagrada da complexidade é a, já citada, de que «o todo é maior do que a soma das

partes».

É esta última dimensão a que nos interessa essencialmente neste trabalho, quer pelo campo imprevisível que é o da educação, quer na concretização temática que faremos no domínio da Física Quântica.

A complexidade enquanto maneira de ver baseia-se na simplificação através da complexificação da forma de pensar. Trata-se da modelização do real através de ferramentas conceptuais de pensamento. Trataremos de seguida de dois aspectos cruciais neste quadro de racionalidade, ou sejam: os sistemas complexos e o pensamento

complexo segundo Edgar Morin.

Sistemas complexos

O mundo da complexidade pressupõe que o real seja visto em termos de

sistemas complexos, necessidade que se impõe, também, pelo facto de a evolução do

conhecimento levar a que os objectos em estudo sejam cada vez mais complexos. Retomando os preceitos de Descartes, estes podem revelar-se insuficientes, ou mesmo inviáveis, para o estudo de um objecto. Por exemplo, o segundo preceito, ao conduzir a que o objecto de estudo seja fragmentado nas suas partes, faz com que a atenção do estudioso se desvie do objecto como um todo para as suas partes que, muitas vezes,

34

constituem um somatório diferente (maior ou menor) do todo. Outra questão é a das

propriedades emergentes da síntese e interacção dos componentes, muitas vezes

inesperadas, mas sempre imprevisíveis, que, não se manifestando em nenhuma das partes, tornam ineficaz o método cartesiano.

A noção de sistema, se bem que dependente da área, dos objectivos ou do modelo construído, centra-se na ideia de um conjunto de elementos inter-relacionados, comum à maioria das definições de SISTEMA (Carvalho, Ramos, & Gonçalves, 2002, p. 3). Uma definição de SISTEMA enfatiza, assim, a existência de partes e as suas interligações.

A emergência do estudo dos sistemas surge na década de cinquenta do século XX com o aparecimento de três novas teorias: a cibernética, a teoria dos sistemas, e as novas teorias da informação. São estas teorias que vão proporcionar os meios intelectuais e conceptuais para o estudo dos sistemas complexos. A cibernética traz consigo a ideia de retroacção e circularidade que mostra que os factos podem tornar-se causadores ao retroagir sobre a causa, num processo recursivo de auto-regulação dos sistemas. A teoria dos sistemas, com origem na biologia, propõe que o todo é maior, ou menor, que as partes, salientando o papel das propriedades emergentes. Por sua vez, as teorias da informação prestaram contributos, segundo Edgar Morin (Pessis-Pasternak, 1993) sobre o tratamento a dar à incerteza.

Quando o que está em causa é a modelização da estrutura de uma entidade activa, o sistema, surgem outros contributos, do que se destaca Le Moigne (2004). Para este filósofo francês, modelizar é o principal modo de estudar grandes sistemas complexos que são, eles mesmos, resultado de uma modelização. Isto, depreendido da citação que faz de Claude Bernard (ibidem): «Les systèmes complexes ne sont pas dans

la nature mais dans l’esprit des hommes». Assim, o sistema é uma criação do

pensamento humano, e que a modelização dos sistemas complexos é uma metodologia para entender o real. Conhecer é modelizar, defendendo este autor uma postura metodológica na qual possamos realizar a concepção dos modelos para o estudo de determinada entidade, mas também, e principalmente, analisar os princípios que permitem o acto de modelizar. Seguindo estes princípios, o sistema pode ser descrito de uma forma geral como sendo:

…alguma coisa (o objecto de interesse);

…que em alguma coisa (o ambiente); …para alguma coisa (a finalidade); …faz alguma coisa (a actividade); …através de alguma coisa (órgãos);

…que se transforma com o tempo (evolução). (Le Moigne, 1990 citado

em Carvalho, Ramos, & Gonçalves, 2002, p. 10)

O Quadro 2, retirado de Bidarra (2005) no website da Universidade Aberta, resume as características dos sistemas complexos, de um modo geral. Uma questão importante na dinâmica dos sistemas complexos é, portanto, a interacção, quer entre os

35

elementos do sistema, quer do sistema com o exterior. Dessa interacção resulta o (já referido) terceiro elemento, ao mesmo tempo resultado e elemento activo: o terceiro

incluído. Lerbet (2005) propõe precisamente este modelo explicativo da passagem da

estrutura ao sistema: «Partindo de uma abordagem sistémica, e de enfoque na abertura

sistémica, faz emergir um novo espaço, um "entre deux", um interface que, não sendo um espaço materialmente visível, aparece com uma grande importância para a compreensão das transformações que se operam quando dois sistemas interactuam. Trata-se, portanto, de uma ferramenta epistemológica para aceder ao estudo dos objectos complexos»14. Destes contributos, concretamente desta ideia de emergência, a evolução do estudo dos sistemas complexos introduziu os conceitos de auto-reparação, e também de auto-organização.

1) O todo é superior, mas também inferior, à soma das suas partes e tem características próprias.

2) As partes integrantes dum sistema são interdependentes (estrutura). 3) Sistemas e subsistemas relacionam-se e estão integrados numa cadeia

hierárquica (nesta perspectiva pode encarar-se o universo como uma vasta cadeia de sistemas).

4) Os sistemas exercem auto regulação e controlo, visando a manutenção do seu equilíbrio.

5) Os sistemas influenciam o meio exterior e vice-versa (através do input/output de energia e informação).

6) A auto regulação dos sistemas implica a capacidade de mudar, como forma de adaptação a alterações do meio exterior.

7) Os sistemas têm a capacidade de alcançar os seus objectivos através de vários modos diferentes.

Quadro 2: Características dos sistemas complexos (Fonte: Bidarra, 2005)

O sistema é, portanto, algo activo (faz alguma coisa) e estável mas evolutivo (os órgãos combinam-se numa estrutura estável que evolui no tempo) num ambiente e em relação com alguma finalidade (Le Moigne, 1996). A descrição da estrutura de um sistema é, assim, realizada recorrendo aos órgãos, às actividades e ao ambiente. A finalidade é o elemento chave que justifica as actividades a desempenhar.

Para muitos autores, como veremos, a questão central é a forma de pensar. Le Moigne, e a modelização, correspondem a uma vertente dessa forma de pensar global, da qual Edgar Morin é o principal representante, a do pensamento complexo.

14 Reflexão de Álvaro Leitão no âmbito da disciplina Cultura Conhecimento e Identidade, do programa de

36

O pensamento complexo segundo Edgar Morin

Neste domínio, o nome de Edgar Morin, trabalhando na interface da reflexão filosófica e da ciência, constitui uma importante referência. É, precisamente, a partir da reinterpretação de leis e de resultados da investigação, salientando os estudos em cibernética e em teoria da auto-organização, que Edgar Morin se apresenta hoje como o grande arquitecto da complexidade, ao criar e reinventar pensamento e instrumentos conceptuais, como o pensamento complexo, para o seu tratamento (Benkirane, 2004).

O mundo da razão é o da lógica e do raciocínio, é o que confere um sentido objectivo. Interligar a razão e a paixão significa, muitas vezes, associar ciência a moral, a estética ou a filosofia, numa interligação dos saberes mais básicos (sensoriais) até ao conhecimento mais estruturado. Fazer uso consciente destas interligações poderá ser a base da reforma do pensamento. Para Edgar Morin (1992, 2004), a busca de uma nova percepção do mundo, a partir da nova óptica da complexidade constitui o cerne do

pensamento complexo, um modelo de pensamento que é uma concepção

epistemológica: em oposição a um pensamento reducionista cartesiano, propõe-se uma percepção sistémica.

O pensamento complexo encontra as suas principais vertentes nos três desafios que a complexidade coloca à ciência moderna – as relações entre a ordem e a desordem; a separabilidade ou a não separação; e o problema da lógica.

Em resposta à regra da separabilidade, propõe Morin "discutir sem dividir", fazendo jus ao significado do termo complexo, o que é tecido junto. Nas questões da ordem e da desordem, o pensamento complexo assume a incerteza no sentido operativo, levando a assumir posturas face a esta: a plausibilidade ou a probabilidade são elementos de consciencialização e decisão no mundo flutuante em que nos movemos. Por fim a questão da lógica é vista como a oposição de uma racionalidade fechada a uma racionalidade aberta, capaz de lidar com o imprevisto e ciente de que «a vida existe à temperatura da sua própria destruição»15 ou «no limiar do caos» (Lewin, 2004).

O pensamento complexo, segundo Edgar Morin, implica uma visão de mundo abrangente, que deve nascer da complementaridade, do entrelaçamento, do abraço, enfim. Assim, Morin denomina o pensamento complexo, o pensamento do abraço, na forma de pensar e construir o conhecimento. Uma forma de pensar que inclui o entendimento dos sistemas como complexos e adaptativos (perspectiva dos sistemas complexos), que se baseia num continuado entendimento entre distintas formas de sentir e de conhecer, nomeadamente as razões e as paixões, ou entre a ordem e a desordem (perspectiva dialógica), e que requer o diálogo disciplinar permanente e um entendimento à escala global, uma vez que para conhecer o todo é necessário assumir a potencialidade das partes, e o conhecimento das partes só se revela no todo (perspectiva hologramática)16.

15 Henri Atlan, citado em Reeves (2000).

16 O que encontra eco na visão de Caraça & Carrilho (1992), onde se disserta sobre a ligação entre as

37

Complexidade: um novo paradigma?

Segundo a proposta da complexidade, o pensamento humano deverá incluir essa vertente globalizante, complexa, no seu esforço de se conhecer, de compreender os sistemas nos quais se insere e de agir relacionalmente. Procurar novas formas de relacionamento entre as pessoas e entre estas e a natureza é, na actualidade, uma questão que se coloca em todas as áreas da actividade humana, e constitui um desafio para a contemporaneidade. O paradigma da complexidade é tido como uma opção ideológica e epistemológica, um “marco orientador” para uma nova forma de estar e compreender o mundo e adquirir critérios de participação na sua transformação (Bonil, Sammartí, Tomás, & Pujol, 2004).

O aparecimento deste movimento emergente, leva muitos autores, dos mais variados campos do conhecimento17, a referirem-se a este cenário, onde em muitos domínios as ideias e os valores se esgotaram, onde os interesses e as rotinas nos limitaram os horizontes e onde se está a gerar um profundo sentimento de insatisfação, como potenciador, também devido a estes factores, da necessidade da mudança, só comparada à que criou a dinâmica para o movimento renascentista do século XVI. A expectativa é a de uma nova renascença, plena de criatividade, humanismo e articulação dos saberes.

Por outro lado, as ciências da complexidade procuram também, através de processos de modelização, criar cenários de futuro que possam nortear, alguns caminhos a seguir e definir necessidades urgentes. Murray Gell-Mann18 refere, entre outras «a

prevalência de atitudes que favoreçam a unidade na diversidade — a cooperação e a competição não violenta entre tradições culturais e Estados/nações19 diferentes — paralelamente a uma coexistência sustentável com os organismos que connosco partilham a biosfera» (Gell-Man, 1997, p. 398). Acrescenta o mesmo autor: A situação descrita parece utópica e talvez impossível de atingir mas vale a pena tentar construir modelos de futuro – não como planos pormenorizados mas como auxiliares de imaginação – para ver se podem ser esboçados percursos capazes de conduzir, nos finais do próximo século [séc XXI], a esse mundo sustentável e desejável, um mundo no

saberes”; também Caraça (2005) vem dizer-nos que a necessária articulação, imposta pelos desenvolvimentos sociais em que vivemos, entre a ciência e a tecnologia e os outros saberes, como a filosofia, a moral, o direito ou a estética pode ser formulada na ideia de que há que amar as razões e compreender as paixões.

17Por exemplo, Sá-Chaves (2004a)

18 Murray Gell-Mann, físico americano, ganhou o Prémio Nobel em 1969 pelo trabalho desenvolvido na

classificação e estudo de interacção das partículas elementares. O seu mais conhecido livro, O Quark e o Jaguar- Aventuras no simples e no complexo, Gell-Man (1997) disserta sobre a simplicidade (um quark num átomo) a complexidade (o jaguar na floresta) e os sistemas adaptáveis complexos (numa ligação possível entre o quark, o jaguar e a humanidade).

38

qual toda a humanidade e o resto da natureza operem como um sistema adaptável complexo20 num grau muito superior ao que hoje acontece.» (Gell-Man, 1997, p. 399)

Em suma, a posição do homem no planeta requer hoje mudanças de atitude. São exigidas consciencializações colectivas e o surgir de novas formas de pensar, sentir e agir que permitam conjecturar a hipótese de um futuro alternativo. As sociedades humanas, ou a humanidade de uma forma geral, já reconhecem legitimação e também alguma capacidade de intervenção a este nível. Também por isso, a responsabilidade de assumir os seus compromissos e as suas finalidades começa a impor-se.

A evolução lógica do cenário criado pela história do pensamento humano nestas últimas décadas, poderá associar-se a uma mudança de paradigma em todo o nosso conhecimento, um paradigma que será, segundo Morin (2002b) o da religação,

conjunção, implicação mútua e distinção (Figura 1). Poderemos então, estar a viver um desses períodos excepcionais e revolucionários, acompanhados de rupturas, sobressaltos e passos em falso que, segundo Kuhn (2009), levam à mudança de paradigma. Esta crise é a crise do modelo da racionalidade científica (Santos, 1993), que dura há um século, e que não se sabe quando acabará.

Figura 1: A evolução do conhecimento leva à complexidade

20 Os sistemas adaptáveis complexos serão tema de breve tratamento adiante. Aqui salienta-se a

importância do equilíbrio em torno de pequenas flutuações, decorrente das conexões entre os elementos numa rede complexa, que incluem evolução, adaptação, aprendizagem.

teoria da comunicação teoria dos sistemas cibernética auto-organização auto-produção auto-regulação auto-eco- organização imprevisibilidade (incerteza) recursividade emergência mudança de paradigma complexidade

39