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CAPÍTULO 2 – DA VULNERABILIDADE À

2.3. A debilidade do consumidor

Na sociedade contemporânea, o consumidor atua no centro das relações jurídicas. De acordo com Almeida183, “o consumo é parte indissociável do ser humano”. Somos consumidores do momento em que acordamos ao momento em que vamos dormir, salientando que até nos nossos mais profundos sonhos, permanecemos consumindo, mesmo que inconscientemente. Nessa toada, Bauman vai mais além, ao dizer que “todos os membros da sociedade são, do berço ao túmulo, consumidores de

jure”184.

180BAUMAN, Zygmunt. Op. cit., p. 82.

181 PADILHA, Valquíria. Reflexões sobre Cultura, Tempo Livre e Consumo na Pós-Modernidade. In:

Revista Cultura Vozes. Petrópolis: Editora Vozes, n. 2, vol. 94, 2000, p. 55.

182 “El sistema social funciona según el sentido que viene dado precisamente por el principio de la absoluta disponibilidad de todas las cosas para su reproducción y su destruición ilimitada”.

(BARCELLONA, Op. cit., p. 89).

183 ALMEIDA, João Batista de. Op. cit., p. 01.

184 “Ser um ‘consumidor de jure’ é, para todos os fins práticos, o ‘fundamento não jurídico da lei’, já que precede todos os pronunciamentos legais que definem e declaram os direitos e obrigações do cidadão. Graças aos alicerces estabelecidos pelos mercados, os legisladores podem estar seguros de que os sujeitos da legislação já são consumidores experientes e consumados: onde quer que interesse, podem tratar a condição de consumidor como um produto da natureza, e não como um construto jurídico – como parte da ‘natureza humana’ e de nossa predileção inata que todas as leis positivas são obrigadas a

É perceptível e incontestável a evolução contida nas relações de consumo, seja no contexto de produção, de comercialização e, principalmente, no tratamento dado ao consumidor.

Era natural que a evolução das relações de consumo acabasse por refletir nas relações sociais, econômicas e jurídicas. Pode-se mesmo afirmar que a proteção do consumidor é consequência direta das modificações havidas nos últimos tempos nas relações de consumo, representando reação ao avanço rápido que deixou o consumidor desprotegido diante das novas situações decorrentes do desenvolvimento185.

A soberania atribuída ao mercado de bens de consumo na sociedade de consumidores representa bem esse panorama, pois o domínio tornou o consumidor objeto.

O mercado de consumo coloca em segundo plano o ser humano em sua essência, dotado de dignidade. Para atingir a sua finalidade, que é a lucratividade, a massa de consumidores é vista como meros números. Para Barcellona, “a lógica da quantidade, a prevalencia dos números, a corrida desenfreada em busca da quantidade: esse é o mundo do consumo de massas” 186.

Fechar os olhos para as diferenças de idade, gênero e classe social dos sujeitos representa ferimento aos ditames constitucionais (dignidade e isonomia em especial).

Cada sujeito possui suas particularidades no mercado de consumo e reage de uma forma aos estímulos gerados pela mídia, que por meio da imagem publicitária é capaz de estabelecer o vínculo do consumidor ao produto ou serviço, à marca, convencendo-o dos benefícios que terá ao obtê-los, fomentando o desejo de consumir187.

Nas relações de consumo, o respeito à dignidade da pessoa humana e a aplicabilidade do princípio da isonomia são indispensáveis, sendo inimaginável pensar em sujeitos iguais, numa massa de consumidores com a visão objetiva que o mercado insiste em emplacar.

respeitar, ajudar, obedecer, proteger e servir; como aquele direito humano primordial que fundamenta todos os direitos do cidadão, os tipos de direitos secundários, como sacrossanto, e torná-lo plena e verdadeiramente inalienável”. (BAUMAN, Zygmunt. Op. cit, p. 83).

185 ALMEIDA, João Batista de. Op. cit., p. 02.

186 Tradução livre. No original: “la lógica de la cantidad, la prevalencia de los números, la carrera desenfrenada hacia la cantidad: ése es el mundo del consumo de masas” (BARCELLONA, Pietro. Op. Cit.,

p. 134).

187 FONTENELLE, Isleide Arruda. O nome da Marca – McDonald’s, Fetichismo e Cultura Descartável. São Paulo: Boitempo, 2006, p. 236.

O sujeito rico, obviamente poderá gastar mais dinheiro sem que haja grande impacto no seu orçamento familiar, mas a sua fonte não é inesgotável. Ele, assim como os consumidores dotados de menor poder aquisitivo, deverá agir com planejamento igualmente, sob pena de ocuparem o mesmo polo como superendividado perante o mercado de consumo. Ambos podem ser dotados de vulnerabilidade acentuada, mas sobretudo os consumidores mais pobres acabam sendo mais afetados, pois ao caírem nas armadilhas do mercado e consumir como forma de inclusão, acabam comprometendo parte importantíssima da sua renda, que é desvirtuada de gastos tidos como necessários para ser destinada a algo supérfluo, causando grande prejuízo.

O pobre é forçado a uma situação na qual tem que gastar o pouco dinheiro ou os parcos recursos de que dispõe com objetos de consumo sem sentido, e não com suas necessidades básicas, para evitar a total humilhação social e evitar a perspectiva de ser provocado e ridicularizado188.

Ao invés de olhar para os consumidores em massa, deve-se prezar pela visão individual e diferenciada do sujeito, indo de encontro ao atual cenário consumerista, em que os contratos são, em sua quase totalidade, uniformizados, que a lei classifica como de adesão. Essa característica traz celeridade às contratações nas relações consumeristas, mas em contrapartida, coloca o sujeito numa situação ainda mais fragilizada, pois a simples adesão ao contrato, geralmente, vem atrelada ao desconhecimento do seu teor.

O poder do fornecedores permite ditar o padrão exigido pelo mercado. O consumidor acredita estar fazendo uma escolha, quando na verdade, ele está sendo seduzido a desejar os modelos impostos. Incentiva-se “o desejo da marca, que é, no final das contas, o do próprio capital, é criar um estado de dependência absoluta do sujeito que, do ponto de vista de um ‘tipo ideal’, constituiria o mesmo que acontece com a toxicomania”189.

Há uma inversão de valores, um verdadeiro aproveitamento acerca da fragilidade do consumidor. Ele crê ser dotado de escolha perante o mercado de consumo, mas este é o real detentor da soberania nessa escolha, pois molda a sociedade a sentir a necessidade de consumir aquilo que transborda lucro, satisfação momentânea e descartabilidade, mantendo o ciclo vicioso do consumo sempre ativo.

188 SHRESTHA, N. R. apud BELK, Russell W. The human consequences of consumer culture. In: Karin M. Ekstrom e Helene Brembeck. Elusive Consumption, Berg, 2004, p. 69.

A vida do consumidor, a vida de consumo, não se refere à aquisição e posse. Tampouco tem a ver com se livrar do que foi adquirido anteontem e exibido com orgulho no dia seguinte. Refere-se, em vez disso, principalmente e acima de tudo, a estar em movimento. [...] A satisfação deve ser apenas uma experiência momentânea, algo que, se durar muito tempo, deve-se temer, e não ambicionar – a satisfação duradoura, de uma vez por todas, deve parecer aos consumidores uma perspectiva bem pouco agradável190.

O controle exercido perante os consumidores, fazendo com que eles sejam vislumbrados como meros objetos de consumo – utilização com satisfação momentânea e descarte – trazendo lucratividade para o mercado, transforma o indivíduo em mercadoria. Ninguém se torna sujeito sem que antes vire mercadoria na sociedade de consumo191. A própria subjetividade do sujeito está atrelada à permanência deste como mercadoria vendável.

A vulnerabilidade coloca o consumidor nessa posição. Ele se sente empoderado, mas na verdade é marionete na mão dos fornecedores, que agem sem ética e respeitabilidade aos direitos e garantias fundamentais.

A reificação geral, a redução de tudo a valor de troca, é precisamente “o mundo que se converte em fábula”; é uma debilidade da força da pressão da realidade. No mundo de valor de troca generalizado tudo é dado como história. Não há necessidade de um centro de referencia. As imagens das mensagens dos meios de comunicação de massa se convertem em uma queda vertiginosa das relações entre o presente e a mesma tradição192.

A capacidade crítica dos consumidores é praticamente inexistente. Há a mitigação da sua liberdade de escolha, que fica atrelada e completamente dependente da finalidade econômica do mercado de consumo. Os sujeitos são inseridos na categoria de objetos.

A facilidade com que o mercado faz isso demonstra o quão vulnerável é o consumidor frente ao fornecedor. A capacidade de manipulação exercida provoca no sujeito o sentimento de que ele tudo pode, além do fato do produto e do serviço comercializados se tornarem necessários, mesmo que sejam, em prática, supérfluos.

A mídia impõe necessidades, por enxergar o ser de forma matemática e não na essência da sua dignidade. Nesse caso, “a publicidade [...] incide sobre a dignidade da

190 BAUMAN, Zygmunt. Op. cit., p. 126-127. 191 BAUMAN, Zygmunt. Op. cit., p. 20.

192 Tradução livre. No original: “La reificación general, la reducción de todo a valor de cambio, es precisamente ‘el mundo que se convierte en fábula’; es un debilitamiento de la fuerza apremiante de la realidad. En el mundo del valor de cambio generalizado todo viene dado como relato. Ya no hay necesidad de un centro de referencia. Las imagenes se suceden los mensajes de los medios de comunicación de masas se convierten en una declinación vertiginosa de las relaciones entre el presente y la misma tradición” (BARCELLONA, Pietro. Op. cit., p. 37).

pessoa com o objetivo de induzi-lo a comprar”193. A criação de necessidades das massas “popularizadas através de fórmulas publicitárias de grande potencialidade para condicionar o consumidor psicologicamente para o aumento da sua propensão para compra”194.

A liberdade de consumir traduz-se numa mera ilusão aos indivíduos, que possuem seus desejos manipulados195 e totalmente mascarados pelo marketing agressivo praticado com a intenção de atrair, de convencer e de vender.

A comunicação de massa no âmbito consumerista atua como meio de informação, inspiração, convencimento, entretenimento, mas põe o receptor da mensagem limitado apenas a receber as mensagens, sem resposta interativa, traduzindo- se essa na tomada de uma atitude ou na realização de uma ação196 diante das possibilidades postas à sua disposição. Atitudes que se demonstravam espontâneas, são resultados de ações planejadas e incentivadoras a aquisição de bens e serviços.

A fragilidade do consumidor é tão flagrante, que o próprio CDC já o presume vulnerável em toda e qualquer relação de consumo197.

O cenário que vem sendo demonstrado no presente trabalho põe em evidência a indispensabilidade da presunção de vulnerabilidade do sujeito no mercado de consumo, pois a fragilidade é inerente às relações jurídicas consumeristas e no momento da contratação ocupa posição de destaque. Aliado à previsão constitucional do papel do Estado em promover a defesa do consumidor198 e, à luz dos princípios norteadores, protege-se o consumidor de forma especial por vislumbrá-lo em situação de desvantagem frente aos fornecedores.

A Política Nacional das Relações de Consumo tem como um dos seus objetivos a harmonização das relações de consumo, ou seja, o reequilíbrio, a paridade entre as

193 CCICO, Maria Cristina de. A pessoa e o mercado. In: TEPEDINO, Gustavo (org.). Direito Civil

Contemporâneo: novos problemas à luz da legalidade constitucional. São Paulo: Atlas, 2008, p. 111.

194 Tradução livre. No original: “popularizadas mediante fórmulas publicitarias de inmensa potencialidad para condicionar psicológicamente al consumidor hacia el acrecentamiento de su propensión a adquisición” (STIGLITZ, Rubén; STIGLITZ, Gabriel A. Contratos por adhesión, cláusulas abusivas y

protección al consumidor. Buenos Aires: Ediciones Depalma, 1985, p. 03).

195 MARQUES, Cláudia Lima; BENJAMIN, Antônio Herman V.; BESSA, Leornardo Roscoe. Manual de

Direito do Consumidor. 2.ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2009, p. 38.

196 GOMES, Neusa Demartini. Publicidade: comunicação persuasiva. Porto Alegra: Sulina, 2003, p. 42. 197 CDC, Art. 4º.

partes, e o princípio da vulnerabilidade é um dos que compõem o rol a ser respeitado em busca desta finalidade199.

A vulnerabilidade funciona como vetor da Lei n. 8.078/90, uma vez que presume o desequilíbrio das relações consumeristas, atuando o consumidor no polo mais fraco em comparação ao fornecedor. Segundo Miragem, “a existência do direito do consumidor justifica-se pelo reconhecimento da vulnerabilidade”200 do sujeito.

Como regra, existem quatro tipos de vulnerabilidade: técnica, jurídica, fática e informacional, chamada de vulnerabilidade básica201. A vulnerabilidade técnica se caracteriza quando o consumidor não tem conhecimento específico sobre o bem adquirido, sendo, portanto, ludibriado de modo mais fácil em relação às características e utilidades do objeto ou do serviço contratado. Essa vulnerabilidade é presumida para o consumidor não profissional, porém, excepcionalmente, pode atingir o sujeito profissional que seja destinatário fático do bem202.

A vulnerabilidade jurídica ou científica configura-se diante da ausência de conhecimentos nas searas da economia, da contabilidade ou jurídica. A sua presunção atua para os consumidores pessoa física e não profissional203. Nesse sentido esposado, Paulo Valério Dal Pai Moraes204 considera que corresponde a mesma vulnerabilidade técnica acima exposta. O autor compreende que a vulnerabilidade jurídica ocorre na fase extrajudicial, pré-processual e também na fase judicial, no momento em que surge algum problema decorrente da relação de consumo.

Já a vulnerabilidade fática ou socioeconômica, corresponde a uma superioridade exercida pelo fornecedor em virtude da sua “posição de monopólio, fático ou jurídico” e também “por seu grande poder econômico ou em razão da essencialidade do serviço”205. Caracteriza a vulnerabilidade informacional a baixa qualidade de informação repassada aos consumidores. Moraes206 a configura como um dos motivos da

199 “Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como a transparência e harmonia das relações de consumo, atendidos os seguintes princípios:

I - reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo; [...]”.

200 MIRAGEM, Bruno. Curso de Direito do Consumidor. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012, p. 99. 201 MARQUES, Cláudia Lima; Miragem, Bruno. O novo direito privado e a proteção dos vulneráveis. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014, p. 156.

202 MARQUES, Cláudia Lima; Miragem, Bruno. Ibid., p. 156. 203 MARQUES, Cláudia Lima; Miragem, Bruno. Ibid., p. 158. 204 MORAES, Paulo Valério Dal Pai. Op. cit., p. 146.

vulnerabilidade técnica, qualificando a sua ocorrência por “falta de informação, informações prestadas incorretamente e, até mesmo, o excesso de informações desnecessárias, esta última, muitas vezes, tendo o condão de impedir que o consumidor se aperceba daquelas que realmente interessam”, o que torna mais fácil a sua ludibriação.

A atuação desenfreada do mercado vai de encontro ao direito fundamental de defesa do consumidor, previsto no art. 5º, XXXII da Carta Magna de 1988. Portanto, a ação mercantilista não é ilimitada a ponto de se permitir o atual cenário vivenciado, pois “o consumidor, antes mesmo de ser agente econômico, é pessoa e como tal deve ser tutelada”207.

De acordo com o Superior Tribunal de Justiça, “o ponto de partida do CDC é a afirmação do Princípio da Vulnerabilidade do Consumidor, mecanismo que visa a garantir igualdade formal-material aos sujeitos da relação jurídica de consumo”208.