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5.4.3 – A disponibilidade de níveis económicos de ataque

No documento A Protecção Integrada (páginas 86-92)

5.4.3.1 – O carácter empírico da generalidade dos níveis económicos de ataque e a viabilidade da sua utilização

A complexidade do conjunto de factores, condicionantes da dinâmica de crescimen- to da população de um inimigo da cultura e da natureza e maior ou menor importância económica dos prejuízos causados numa cultura agrícola, justifica a escassa disponibi- lidade actual de níveis económicos de ataque decorrentes de rigorosos estudos científicos, cuja importância é realçada, nas Regras de Produção Integrada da OILB/SROP de 1993

(93) e de 1999, onde se considera a necessidade da sua obtenção.

Esta situação não invalida que a investigação sobre a dinâmica de populações das pragas e os factores que a condicionam tenha sido realizada, a partir dos anos 60, permitindo, por exemplo, na Europa, no âmbito do Grupo de Trabalho de Protecção

Integrada em Pomóideas da OILB/SROP, a definição, já em 1968 (87), de NEA relativos

a 22 pragas da macieira. A experiência foi-se acumulando e a ACTA divulgou, entre 1974 e 1980, informação desta natureza não só para macieira mas também para perei- ra, pessegueiro e vinha.

e culturas agrícolas, concretizando-se, em Portugal, a sua divulgação, a nível oficial, a

partir de 1977. Na 2.ª Edição de Protecção Integrada de Pomóideas (35), divulgada em

2002, refere-se que: “Após oito anos de experiência e aplicação prática considera-se que os níveis económicos de ataque referenciados na primeira versão da lista de pomóideas, de um modo geral, se apresentam adaptados à realidade nacional.”

De facto, o que actualmente predomina são os níveis económicos de ataque empíricos, cuja viabilidade tem sido evidenciada pela experiência de muitos anos em diversos países. Estes NEA devem ser encarados não como entidades matemáticas rigorosas mas como dados a utilizar com adequada ponderação.

Aliás, já em 1982 Baggiolini (28) referia:

“A utilização prática do nível económico de ataque exige bom conhecimento quer dos inimigos das culturas a combater quer da cultura que se pretende de- fender; normalmente, torna-se indispensável dispor de um serviço regional de assistência técnica funcionando com eficiência. Por outro lado, os níveis económicos de ataque, indicados na literatura da especialidade, embora sejam o resultado de demorada experimentação prática, realizada, muitas vezes, por diferentes inves- tigadores em diversos países, devem ser tomados como mera referência

e somente adoptados depois de devidamente testados.”

De facto “os dados referentes a níveis económicos de ataque não têm valor

aritmético rígido. Estes níveis devem ser utilizados com prudência, bom senso

e competência, tomando em consideração, nomeadamente, o grau de experi-

ência do observador e os elementos (ex.: clima, estado da cultura, carga

de frutos, auxiliares) que, no momento das observações, possam influenciar,

de forma particular, o risco em estudo.”

E a concluir realçava que “o aperfeiçoamento do valor intrínseco e prático dos

métodos de amostragem, bem como das possibilidades de utilização prática

dos níveis económicos de ataque, constituem permanente preocupação dos técnicos”.

Em 1990, a propósito da pretensa rigidez dos números relativos ao NEA e da

indispensabilidade de prévia investigação, Baggiolini esclarecia (29):

Os níveis económicos de ataque “dão a impressão de uma rigidez … mas os números nunca são precisamente exactos. Esses valores devem ser tomados como um ponto de referência, tendo em conta as condições do clima, etc. Logo os níveis que vêm do exterior, largamente experimentados noutras regiões, regi- ões antagónicas mesmo, Norte, Sul, são muito úteis como dados de informação. Pode-se, por isso, partir destes dados e utilizá-los na prática.

É preciso com este material disponível tratar de pô-los em prática, com olho

de aprendiz, com o olho daquele que começa e quer ser ele o primeiro a fazer

experiências, para ver se resulta. Por vezes, certas normas sobre a utilização dos níveis económicos de ataque, baseadas em condições climáticas diferentes da- qui, não podem ser aplicadas tal qual, mas há uma imensidade de outras que

são perfeitamente aplicáveis, ou que poderiam ser utilizadas de um dia para o

outro. Assim, podem utilizar-se normas que nos chegam do exterior, da experi- ência da OILB, por exemplo, para começar já a trabalhar…”

“Não há ninguém que queira, com entusiasmo e às escuras, aplicar normas que de qualquer maneira exigem observação. Observando, ele verá logo aquilo que é aceitável e o que não é. Não é nada de automático, como o simples carre- gar de um botão. Não. O nível económico de ataque surge do exame da

cultura, alicerçado em adequadas técnicas de estimativa do risco, que

esclarecem a viabilidade da sua utilização.”

5.4.3.2 – Os níveis económicos de ataque disponíveis em Portugal

No Simpósio de Protecção integrada em Macieira e Pereira, em Dezembro de 1991, numa comunicação sobre “O nível económico de ataque de pragas de macieira e perei-

ra”, Amaro (9) frisava que, em Portugal nos últimos 15 anos não evoluíram as

recomendações oficiais sobre níveis económicos de ataque de pragas da macieira e pereira que se limitam ao aranhiço vermelho. E esclareceu:

“o facto das diferenças entre os níveis económicos de ataque adoptados em diferentes países, como Alemanha, França e Suíça, serem muito reduzidas e de, para um país, com a diversidade ecológica da França, se adoptarem os mesmos níveis económicos de ataque levou a considerar que, afinal, parece reduzido o risco de adoptar, em Portugal, níveis económicos de ataque praticados noutros países. Estas considerações são reforçadas, ainda, pela evidência da escassa evo- lução desses valores, registada no período de 7-8 anos, na França e na Suíça.”

“Esta análise, aliás generalizável a outras culturas e ainda reforçada quando a comparação é efectuada com países como a Espanha e Itália, levou a que desde o início, em 1988, da disciplina de Protecção Integrada, em licenciaturas do ISA e também nos cursos Mestrado em Protecção Integrada, a partir de 1989, se insistisse claramente quanto ao reduzido risco de utilizar, em Portugal, ní-

veis económicos de ataque praticados noutros países, especialmente com condições ecológicas similares às de Portugal.”

Apesar do financiamento, proveniente do 2.º Quadro de Apoio à Agricultura Portu- guesa, no âmbito das Medidas Agro-Ambientais, ter permitido, desde 1994, fomentar a prática da protecção integrada, só a partir de 1997 foi iniciada a divulgação de listas de

níveis económicos de ataque para pragas de pomóideas (35, 45), vinha (49, 50), citrinos

(34, 46), oliveira (52), prunóideas (48, 76) e arroz, milho e cereais de Outono/Inverno (47).

Actualmente dispõe-se de informação oficial relativa a 94 inimigos das culturas, essencialmente artrópodos (insectos, 81%; ácaros, 15%), e ainda a duas doenças (oídio-da-macieira e pedrado-de-pomóideas) e a dois grupos de infestantes do arroz (Echinochloa spp. e gramíneas anuais; e infestantes de folha larga e ciperáceas) (Qua- dro 10). Nesta análise não se englobam níveis económicos de ataque em hortícolas (pepino, pimenteiro e tomateiro) pois limitam-se praticamente à referência a “presen- ça” (58). No Manual de Protecção Integrada em Culturas Hortícolas Protegidas da Região do Oeste são referidos NEA para inimigos da alface, beringela, feijão-verde, meloa,

pepino, pimento e tomate (62). Também no Manual de protecção integrada em culturas

hortícolas (64) há indicação, além da “presença”, de NEA sempre que disponíveis.

provenientes de rigorosos estudos de prejuízos e de análises de benefício/custo, mas traduzem o resultado da experiência prática de numerosos anos. De facto, os raros estudos de prejuízos causados por inimigos das culturas (ver 3.6) pouco ou nada têm contribuído para a disponibilidade de NEA rigorosamente fundamentados, como recen-

temente se verificou em relação à cochonilha-algodão de citrinos (83).

Na elaboração das listas de níveis económicos de ataque foi ponderada a informa- ção disponível, em Portugal e nalguns países europeus, e, raramente, a informação proveniente de outras regiões, como para citrinos da África do Sul, Austrália e Florida, para arroz da Califórnia e relativa a milho no caso dos EUA. A informação mais abun- dante é proveniente de Itália (43% dos inimigos), França (42%), Espanha (42%) e Suíça (20%). (Quadro 10).

No conjunto dos níveis económicos de ataque relativos a 94 inimigos de 11 culturas, predomina a referência a órgãos da cultura ocupados ou com sintomas de ataque (58%) em relação à praga (42%). Quanto às pragas, refere-se, com maior frequência, o adulto (n.º), a designação “presença” e a larva ou ninfa (n.º). No caso de órgãos da planta predomina o fruto, a folha e o rebento, expressos em percentagem de ataque.

No caso dos níveis económicos de ataque, adoptados na 2.ª edição de Protecção

Integrada das Pomóideas (35), verifica-se grande diversidade entre os 29 inimigos des-

sas culturas e até, por vezes, para o mesmo inimigo (ex.: afídeo-cinzento da macieira, bichado, lagartas-mineiras e pulgão-lanígero (Quadros 11 e 12).

2.ª Ed.* 2.ª Ed.* 2001 2001 2000 1999 2001 2002 2000 2002 2002 2002 2002 n.º % Inimigo 6 4 18 6 11 29 8 4 1 5 2 94 100 Alemanha 3 3 Espanha 14 6 13 1 4 38 42 França 5 2 11 13 6 1 38 42 Grécia 1 1 Hungria 2 2 Itália 6 4 10 2 8 8 1 39 43 OEPP 1 2 2 5 6 Roménia 1 1 Suíça 10 7 1 18 20 África do Sul 1 1 Austrália 8 8 9 Califórnia 1 1 EUA 1 1 Florida 1 1 Trigo Inimigo e país Ameix eir a Cerejeir a Citrinos Oliv ei ra Pessegueiro Pomóideas Vinha Arroz Centeio e cev ada Milho Total

* dados relativos aos outros países são provenientes da 1ª edição de 1997

Quadro 10 – Número de inimigos, no total de 94, em 11 culturas, para os quais foram adoptados níveis económicos de ataque oficialmente em Portugal, entre 1997 e 2002, através da ponderação de valores provenientes de 12 países,

Técnica de estimativa Praga Época de observação. Local Nível económico de ataque

do risco Estado fenológico

Pancadas afídeo-cinzento Verão ramo 10-30 afídeos afídeo-verde C3-E2 ramo 25-50 afídeos antónomos B- E2 ramo 30-40 adultos hiponomeuta Março-Abril ramo 10 larvas

F-J 20-30 larvas

lagarta-mineira C3-E2 ramo 8-10 adultos

L. clerkella; L blancardella

psila Outubro H ramo 30 adultos

pulgão-lanígero Maio F-J ramo 20-50 afídeos

Junho-Julho 20-100 ninfas e adultos Agosto-Setembro 50-80 ninfas e adultos Armadilha cromotrópica hoplocampa ramo 1 adulto

Armadilha sexual bichado 1.ª, 2.ª, 3.º ger. ramo 2-3 machos/ha/semana (M) 1.ª, 3.ª ger. 4 machos/ha/semana (P)

2.ª ger. 3-4 machos/ha/semana (P) Cinta-armadilha filoxera Maio-Junho ramo 2% de cintas com ninfas

Quadro 11 – Diversidade de época de observação de pragas da macieira (M) ou pereira (P) pela técnica das pancadas e por vários tipos de armadilha, para determinação da intensidade de ataque e avaliação da ocorrência do nível

económico de ataque (35)

A técnica da observação visual predomina em 80% dos casos (Quadro 12), limitando- -se a técnica das pancadas a 15% e a armadilha sexual só para o bichado, a armadilha cromotrópica para hoplocampa e a cinta-armadilha para filoxera-da-pereira (Quadro 11).

A observação de estados de desenvolvimento de pragas predomina nos NEA em 56% dos casos e os sintomas de ataque nas plantas ocorre em 44% (Quadros 11 e 12). A tolerância aceite para nível económico de ataque reduziu-se à “presença” em relação a cinco inimigos (afídeo-cinzento-da-pereira, antónomos, cochonilha-de-São José, pedrado e pulgão-lanígero), foi de 0,5-1% de frutos atacados no caso do bichado, de 1% de rebentos atacados para o oídio nos estados B-G e para o afídeo-cinzento-da-

pereira em relação a inflorescências atacadas em C3-E2 e de 1-2% para o afídeo-cinzento

de inflorescências e infrutescências atacadas, de C3 a J, mas atingiu valores elevados

como: 50% para cecidómia de rebentos atacados em árvores adultas; 60% de inflorescências e infrutescências para o afídeo-verde-migrante; e 50-75% de folhas atacadas para o aranhiço-vermelho, de Junho a Julho, em macieira (Quadro 12).

5.4.3.3 – A viabilidade do uso, na prática, dos níveis económicos de ataque

Como se esclarece em 5.4.3.1, é limitado o rigor matemático dos valores dos níveis económicos de ataque, mas tal não invalida o grande interesse de, através da sua utilização, ser possível concretizar o objectivo fundamental da protecção integrada de tolerância de populações do inimigo da cultura que se considere não causarem prejuízos.

Organismo ou Praga Época de observação. Órgão da planta Nível económico de ataque

sintoma Estado fenológico

Ovo lagarta-mineira C3-E2 folha 10%

L blancardella; L. clerkella

afídeo-cinzento após poda ramo presença (P)

aranhiço-vermelho Inverno, A ramo (amostra) 1000 ovos/amostra

(P. ulmi) 30-80% gomos >10 ovos

psila Fevereiro-Abril inflorescência 10%

Ovo e ninfa psila G-H rebento 10-15% 15-30% (**)

H-Outubro rebento 15-20% 15-30% (**)

Larva eriofídio C3-E2 corimbo 5-10% (P)

lagarta-mineira

L. coryfoliella Abril-colheita folha 10-15%

L. scitella folha 10-15% (M)

Forma móvel aranhiço-vermelho Junho-Julho folha 50-75% (M); 50% (P)

Agosto à colheita folha 45-50% (M); 30% (P)

Adulto psila Dezembro-Fevereiro ramo 5 adultos

Ninho hiponomeuta F-J infrutescência 3-5 colónias

Vários estados afídeo-verde-migrante C3-E2 inflorescência 60%

infrutescência 60% afídeo-cinzento C3-E2 inflorescência 1-2% (M); 1% (P) F-J infrutescência 1-2% rebento 2-5% Verão 2% (M) afídeo-negro rebento 25-35% (P) afídeo-verde C3-E2 rebento 10-15%; 15-20% (*) F-J rebento 15% aranhiço-vermelho folha 20-30% (P) (**) (T. cinnabarinus) aranhiço-vermelho F-J folha 50-65% (M); 40% (P)

(P. umi) Junho-Julho folha 50-75% (M); 50% (P)

>Agosto folha 45-50% (M); 30% (P)

eriofídeo colheita fruto 2% (P)

cochonilha-de-São Inverno à colheita tronco, ramo, presença

José folha, fruto

hiponomeuta Inverno ramo 0,5-2 colónias/m

pulgão-lanígero Inverno árvore 10% (M)

Maio-Setembro árvore 10% (M)

ramo 10% (M)

Sintoma na planta cecidómia Abril-Junho rebento 15% árvores jovens (P)

50% árvores adultas (P)

eriofídeo C3-Agosto rebento 10% (M)

pulgão-lanígero C3-E2 fendas da casca, cancros presença

F-Setembro ramo 10%

pedrado floração inflorescência presença

antónomos B-E2 corimbo 15%

F-J inflorescência presença

hiponomeuta Março-Abril folha 4-5 galerias nas folhas das

inflorescências lagarta-mineira

L. clerkella F-Julho folha 1-2 galerias/folha

L. scitella Abril-colheita folha 1-2 galerias/folha

L blancardella F-Julho folha 1 galeria/folha

outras espécies F-Julho folha 2 galerias/folha

Sintoma na planta oídio B-G rebento ano anterior 1%

H-Junho folha 2-5%

bichado Maio-colheita fruto 0,5-1%

eriofídeo Agosto-colheita fruto 5-10% (P)

colheita fruto 2% (P)

filoxera colheita fruto 2% (P)

hoplocampa floração fruto 3%

pedrado ≥ J fruto presença

broca (C. cossus) Set.-Out.; Março-Abril árvore presença

zêuzera Junho-Agosto árvore 10%

Após Agosto árvore 12%

Quadro 12 – Diversidade de observações de organismos ou de sintomas em diversos órgãos de macieira e pereira, por observação visual, para determinação da intensidade de ataque e avaliação da ocorrência do nível económico de

É indispensável que antes da utilização dos NEA se proceda sempre, com o rigor possível, à estimativa do risco, ponderando previamente:

• a intensidade do ataque através de adequados métodos de amostragem;

• os factores de nocividade que condicionam a favorável ou desfavorável evolução

do ataque do inimigo da cultura.

Em recentes publicações foi adoptada esta orientação em Portugal em relação a

inimigos da pereira (13) e da vinha (15). Também é essencial proporcionar informação

pormenorizada sobre os efeitos secundários dos pesticidas autorizados em protec- ção integrada para viabilizar, na tomada de decisão, a tão importante selecção dos

pesticidas (13, 15, 16).

O recurso aos níveis económicos de ataque não é possível, de um modo geral, para outros inimigos das culturas além das pragas, pela dificuldade de relacionar quantitativamente, por exemplo, o número de patogénios ou de infestantes com os estragos e prejuízos. As mesmas dificuldades são extensivas a pragas florestais e de plantas ornamentais, ou ao conjunto de inimigos que atacam com importância econó-

mica, simultaneamente, no mesmo estado fenológico, uma dada cultura agrícola (65,

71).

5.4.4 – A importância da simplicidade e da não alteração dos conceitos

No documento A Protecção Integrada (páginas 86-92)