6.3.1.1 – Da Convenção Filoxérica Internacional de 1878 à Convenção Internacional de Protecção das Plantas de 1997
A luta legislativa corresponde à adopção de medidas legislativas e regulamentares e de outra natureza, mas afins, para minimizar o transporte e dispersão de inimigos das
culturas através de actividades humanas (39). Com o mesmo significado também são,
por vezes, utilizadas na Europa as designações plant health, santé des vegetaux e
quarentena (38, 59). Maria de Lurdes Borges (28) esclarece que “quarentena em senti-
do lato compreende quaisquer medidas tendentes a impedir a entrada dos patogénios
ou pragas, nomeadamente: a exigência de certificados gerais ou especiais em que conste não haver determinados inimigos na região de origem; ter sido o material obser- vado durante o período vegetativo e ter sido provada a ausência de determinados inimigos; ter sido o material submetido a tratamento no país exportador, e inclui, natu- ralmente, a quarentena no sentido restrito”, isto é, “o período de isolamento e observação a que se submete o material em condições propícias ao seu desenvolvimen- to e durante o tempo necessário à detecção dos inimigos cuja introdução se teme”.
A intensificação das relações comerciais entre países de diferentes continentes, proporcionada pelo progresso da navegação verificado no século XIX, foi responsável pelo transporte e introdução em novos países e continentes de novos inimigos das culturas, por vezes com importantes consequências, bem evidenciadas, no Continente europeu, pelos gravíssimos prejuízos verificados na Irlanda, no fim da 1.ª metade des- se século, na produção de batata destruída pelo míldio-da-batateira. Também a introdução progressiva na Europa de três poderosos inimigos da cultura da vinha provenientes do Continente americano, na 2.ª metade do século XIX, e nomeadamente em Portugal (o oídio em 1852, a filoxera em 1863 e o míldio em 1881) causou grandes prejuízos nos
países europeus (5, 28, 39).
pela ausência de meios de luta eficazes, justificam que se tenha dado origem ao desenvolvimento de acordos fitossanitários internacionais em 1878, em Berna, na Suíça
(62), com a assinatura da Convenção Filoxérica Internacional por representantes de
sete países: Alemanha, Áustria/Hungria, Espanha, França, Itália, Portugal e Suíça (39).
Esta Convenção, melhorada por outras duas convenções, também em Berna, reali- zadas em 1881 e 1889, já abrangia aspectos essenciais da regulamentação fitossanitária
(39):
• responsabilidade oficial pelo país fornecedor de material vegetativo de ausência
de filoxera;
• proibição de comércio internacional de materiais que poderiam transportar a
praga;
• designação de organismos oficias responsáveis pela intervenção nesse comércio;
• poder para inspeccionar o material a comercializar e tomada de medidas quando
não satisfeitas as exigências da Convenção;
• troca de informações eficiente, em particular quanto a novos focos da praga;
• produção de legislação nacional englobando todas as medidas referidas.
Por iniciativa do Instituto Internacional de Agricultura (IIA), criado em Roma em 1905 e na sequência de Conferências Internacionais de Patologia Vegetal, em 1914 e 1929, é adoptada, em 1929, a Convenção Internacional de Protecção das Plan-
tas que por dificuldades políticas só foi ratificada por 12 dos 24 países signatários (39).
Após a 2.ª Grande Guerra, o IIA foi substituído pela FAO (Organização para a Agri- cultura e Alimentação), com o seu Serviço de Protecção das Plantas, que contribuiu para a elaboração da Convenção Internacional de Protecção das Plantas (CIPP),
aprovada pela Conferência da FAO em Novembro de 1951 (39, 40). Esta Convenção
definiu as regras fitossanitárias e as políticas a adoptar pelos países signatários para limitar a difusão dos inimigos das culturas e, em particular, para combater a introdução e a dispersão de inimigos de quarentena no comércio internacional. A CIPP foi revista
em 1977 e mais recentemente em 1997.
Na Convenção aprovada em 1997 foram adoptadas as orientações seguintes (39):
• todos os países têm uma responsabilidade conjunta na quarentena das
plantas aderindo às regras adoptadas sem prejuízo das obrigações decorrentes
de outros acordos internacionais;
• a nível nacional, de cada país, deve existir uma organização nacional de
protecção das plantas com capacidade para assegurar o cumprimento das
exigências da Convenção;
• o certificado fitossanitário é adoptado na exportação de plantas, produtos ou
outros materiais abrangidos pela Convenção; a inspecção desta medida deve ser assegurada por técnicos qualificados pertencentes à organização nacional de protecção das plantas;
• os regulamentos fitossanitários nacionais têm de estar devidamente
legalizados e aplicáveis a produtos importados ou nacionais, mas não no caso de inimigos das plantas sem importância económica;
• a nível nacional podem ser adoptadas medidas fitossanitárias relativas à
inimigos regulamentados podem ser adoptadas medidas como inspecção, recusa de entrada, reexportação, tratamento, restrição de movimento ou destruição; isto também se aplica aos inimigos regulamentados e agentes de luta biológica ou outros organismos considerados benéficos sob aspectos fitossanitários;
• assegurar a troca de informação e a cooperação relativa à informação sobre
a ocorrência ou intercepção de inimigos das plantas e a participação em acções fitossanitárias de emergência a nível internacional;
• a CIPP, através da FAO, pode contribuir para a solução de disputas ou
divergências entre países;
• no âmbito da FAO funciona a Comissão de Medidas Fitossanitárias.
Para assegurar a coordenação a nível regional das actividades e objectivos da CIPP foram criadas quatro Organizações Regionais de Protecção das Plantas na década de 50: a Organização Europeia de Protecção das Plantas (OEPP) para a Europa e Região Mediterrânica, em 1951; e organizações para a América Central em 1953, para a África em 1954 e para a Ásia, Austrália e Pacífico em 1956. Posteriormente surgiram
mais cinco Organizações Regionais, a última em 1995 para o Pacífico (39).
A decisão, em 1993, de proceder à definição de Normas Internacionais de Medi-
das Fitossanitárias (ISPM) proporcionou a publicação, entre 1995 e 2003, de 19 Normas
de que se exemplificam (39):
ISPM 1 – Princípios de Quarentena das Plantas relacionados com o Comércio Inter- nacional (1995);
ISPM 5 – Glossário de Termos Fitossanitários (2003);
ISPM 8 – Determinação do Estatuto de Organismo Prejudicial (Pest Status) numa Área (1998);
ISPM 11 – Análise do Risco de Inimigos de Quarentena (2001);
ISPM 14 – O Uso de Medidas Integradas em Análise de Sistemas para a Gestão do Risco de Inimigos das Culturas (2002);
ISPM 18 – Guidelines sobre Listas de Regulated Pests (2003).
Estas Normas poderão ser obtidas no Portal Internacional Fitossanitário da CIPP: www.ippc.int/cds_ippc-IPP/En/default.htm.
6.3.1.2 – A regulamentação da União Europeia
A Comunidade Económica Europeia foi criada em 1957, abrangendo seis países (Alemanha, Bélgica, França, Holanda, Itália e Luxemburgo) e produziu regulamentos fitossanitários a partir de 1966. Após o alargamento a mais três países (Dinamarca, Irlanda e Reino Unido), em 1973, produziu a Directiva do Conselho 77/93/CEE, de 21/ 12/76, transposta para a ordem jurídica interna pelo Decreto-Lei 14/99, de 12 de Ja-
neiro (36). Com o alargamento da UE, que atingiu o total de 15 países em 1985 incluindo
Portugal, a problemática fitossanitária aumentou de complexidade, tendo sido aprova- das outras directivas, nomeadamente a Directiva do Conselho 2000/29/CE, transpostas para a ordem jurídica interna por vários diplomas, dos quais se destacam os Decretos- Lei 517/99, de 4 de Dezembro e 231/2003, de 27 de Setembro.
O regime fitossanitário no âmbito da UE adoptou os conceitos de vegetal e produto vegetal, que podem ser afectados pela acção de organismos prejudiciais, inimigos dos vegetais pertencentes ao reino animal ou vegetal ou apresentando-se sob a forma de vírus, micoplasma ou outros agentes patogénicos (Quadro 16), designados por ini- migos das culturas no Cap. 3.
Conceito Definição
Vegetal planta viva e parte viva da planta, incluindo as sementes
Produto vegetal produto de origem vegetal não transformado ou tendo sido objecto de uma preparação simples, desde que não se trate de vegetais
Organismo prejudicial inimigo do vegetal ou produto vegetal, pertencente ao reino animal ou vegetal ou apresentando-se sob a forma de vírus, micoplasma ou outro agente patogénico Zona protegida zona da Comunidade na qual:
•um ou vários organismos prejudiciais dos estabelecidos numa ou em várias partes da Comunidade não são endémicos nem estão estabelecidos, apesar de existirem condições favoráveis ao seu desenvolvimento;
•ou existe um risco de estabelecimento de certos organismos prejudiciais devido a condições ecológicas favoráveis no que diz respeito a culturas específicas, apesar de os referidos organismos não serem endémicos nem estarem estabelecidos na Comunidade
Quadro 16 – Definições de Vegetal, Produto vegetal, Organismo prejudicial e Zona pro- tegida adoptadas em Portugal, de acordo com os Decreto-Lei 14/99 e
517/99 (36)
Relativamente a certos organismos prejudicais não endémicos nem estabelecidos na Comunidade, no todo ou em parte, são definidas zonas protegidas que exigem um tratamento específico que pode incluir certas medidas fitossanitárias, como regulares e sistemáticas prospecções ou uso de medidas de erradicação (Quadros 16 e 18).
No Anexo VI do Decreto-Lei 517/99 indicam-se as zonas protegidas reconhecidas na Comunidade em relação a 24 organismos prejudiciais (16 insectos, um nemátode, duas bactérias, três fungos e dois vírus).
Os conceitos comunitários de inspector fitossanitário, inspecção fitossanitária,
operador económico, país comunitário e país terceiro são definidos no Quadro 17,
onde também se evidencia a diferença entre o tradicional certificado fitossanitário, preconizado pela Convenção Internacional para a Protecção das Plantas, e o passapor-
te fitossanitário válido no interior da Comunidade.
Maria de Lourdes Borges referia em 1982 (28) as listas de patogénios e pragas con-
siderados de quarentena, destacando, na Lista A, os inexistentes na área da OEPP e na
Lista B os já reconhecidos em alguns países da área OEPP.
Na União Europeia, além do Anexo VI relativo às zonas protegidas, são considera- dos cinco Anexos: dois (I e II) relativos à proibição da introdução e dispersão de organismos prejudiciais presentes ou não em vegetais ou produtos vegetais; dois Ane- xos relativos à proibição de introdução (III) ou de introdução e circulação (IV) de vegetais ou produtos vegetais e outros objectos afins, considerando também o caso
Conceito Definição
Inspector fitossanitário agente oficial, possuindo licenciatura ou bacharelato, pertencente ao grupo do pessoal técnico superior ou técnico dos serviços responsáveis em matéria de protecção fitossanitária, com competência para efectuar as inspecções fitossanitárias e demais medidas previstas no presente diploma
Inspecção fitossanitária acto levado a efeito pelo inspector fitossanitário tendo em vista a verificação do cumprimento das normas fitossanitárias e exigências específicas constan- tes do presente diploma e que podem compreender, nomeadamente, o controlo de identidade, documental e físico
Operador económico agente que produz, importa ou comercializa os vegetais, produtos vegetais e outros objectos constantes do presente diploma
País comunitário Estado membro da Comunidade Europeia, com excepção das ilhas Canárias, Ceuta e Melilha e dos territórios ultramarinos franceses
País terceiro país não pertencente à Comunidade Europeia
Passaporte fitossanitário etiqueta oficial emitida pelo Serviço responsável pela protecção fitossanitária, válida no interior da Comunidade, que ateste o cumprimento das disposições do presente diploma relativas a normas fitossanitárias e exigências específi- cas, a qual deve ser acompanhada, quando necessário, por qualquer documento
Passaporte para zona protegida passaporte fitossanitário válido para zona protegida o qual deverá conter a marca ZP
Certificado fitossanitário documento oficial contendo as informações definidas pela Convenção Inter- nacional para a Protecção das Plantas
Quadro 17 – Definições de Inspector fitossanitário, Inspecção fitossanitária, Operador económico, País comunitário, País terceiro, Passaporte fitossanitário, Pas- saporte para zona protegida e Certificado fitossanitário adoptadas em
Portugal, de acordo com os Decretos-Lei 14/99 e 517/99 (36)
especial das zonas protegidas (Parte B dos Anexos I, II, III e IV); e o Anexo V que condiciona o uso do passaporte fitossanitário (V A) e do certificado fitossanitário (V B) (Quadro 18).
Outras proibições e restrições são definidas nos Decretos-Lei 14/99 e 517/99, no- meadamente as relativas à introdução ou dispersão no País de qualquer organismo prejudicial, sob forma isolada ou não, que não conste dos Anexos I e II desde que não tenha sido assinalado ou não se encontre estabelecido no País e seja considerado peri- goso para as culturas.
Se o resultado das inspecções fitossanitárias não comprovar o cumprimento das exigências fitossanitárias poderão ser aplicadas as medidas de protecção
fitossanitária previstas no art. 20 do Decreto-Lei 14/99 (36):
• proibição do trânsito de vegetais, produtos vegetais e outros objectos em
infracção;
• autorização de circulação de vegetais, produtos vegetais e outros objectos sob
• autorização de circulação dos vegetais, produtos vegetais e outros objectos;
• em relação aos vegetais, produtos vegetais e outros objectos em infracção:
· proibição de trânsito;
· tratamento apropriado do material, se se considerar que em consequência
desse tratamento as exigências foram cumpridas;
· autorização de circulação, sob supervisão oficial, para outras zonas em que
não representem risco suplementar;
· autorização de circulação, sob supervisão oficial, para locais onde serão sub-
metidos a transformação industrial;
· destruição dos vegetais e produtos contaminados;
• adopção de medidas de armazenamento;
• adopção de medidas indirectas como rotações e outras técnicas culturais;
• proibição de plantação em zonas contaminadas;
• selagem das embalagens.
Anexo Parte Organismo prejudicial Zona Proibição Autorização de
vegetal, produto vegetal protegida de introdução e dispersão e circulação circulação no País introdução
ou outro objecto e na Comunidade no País
I A Organismo prejudicial x x B Organismo prejudicial x x x II A Organismo prejudicial x x presente no vegetal ou produto vegetal B Organismo prejudicial x x x presente no vegetal ou produto vegetal
III A Vegetal, produto vegetal e x
outro objecto originário do país referido
B Vegetal, produto vegetal e x x outro objecto
IV A Vegetal, produto vegetal e x x
outro objecto quando não satisfaça as exigências específicas indicadas
B Vegetal, produto vegetal e x x x
outro objecto quando não satisfaça as exigências específicas indicadas
V A Vegetal, produto vegetal e x
outro objecto com passaporte fitossanitário
B Vegetal, produto vegetal e x
outro objecto com certificado fitossanitário
Quadro 18 – Condições de introdução, dispersão e circulação em Portugal e suas zonas protegidas de organismos prejudiciais ou de vegetais, produtos vegetais e outros objectos constantes dos Anexos I a V e respectivas Partes A e B
Quando, no decurso das inspecções fitossanitárias, os serviços verificarem que os organismos prejudiciais aos vegetais e produtos vegetais, constantes dos anexos, apre- sentam elevado grau de nocividade, não em consequência do incumprimento por parte dos operadores económicos das exigências fitossanitárias legalmente estabelecidas, mas por outras causas, devem ser aplicadas as seguintes medidas excepcionais de protecção fitossanitária: destruição, desinfecção, desinfestação, esterilização ou outro tratamento considerado adequado pelos serviços de protecção fitossanitária, podendo
os operadores económicos beneficiar de ajudas financeiras (36).
Relativamente à importação se as inspecções evidenciarem o não cumprimento das exigências fitossanitárias, poderão ser aplicadas as medidas de protecção fitossanitária
seguintes (36):
• tratamento adequado;
• retirada de produtos infectados ou infestados do lote;
• imposição de período de quarentena até serem conhecidos os resultados dos
ensaios oficiais;
• devolução ou autorização de envio para um destino fora da Comunidade;
• destruição.
6.3.1.3 – A evolução, em Portugal, das estruturas condicionantes da luta legislativa no âmbito das inspecções e de outros aspectos fitossanitários
A Convenção Filoxérica Internacional, adoptada em, 1878 e revista em 3 de Novembro de 1881, foi ratificada por Portugal, por carta régia, em 1 de Junho de 1882
(43, 44).
As Comissões nomeadas em 1872 e 1878 permitiram avaliar a importância e exten- são dos ataques de filoxera em Portugal. A partir de 1878 foram criadas Comissões
Concelhias de Vigilância na Região do Douro (62, 63), onde se iniciou o ataque da
filoxera. Posteriormente foram criadas as Comissões anti-phylloxéricas do Norte e
do Sul e os Serviços filoxéricos que asseguraram eficaz monitorização dos inimigos
da vinha e em particular a expansão da filoxera que alastrou progressivamente a todo
o País, tendo atingido o Algarve, a partir de 1890 (19), e promoveram o seu combate
com os meios de luta disponíveis, nomeadamente o sulfureto de carbono e, por fim, a enxertia de castas europeias em porta-enxertos americanos.
As medidas legislativas adoptadas posteriormente até à criação da Repartição dos
Serviços Fitopatológicos, em 1936, foram influenciadas pela problemática internaci-
onal e pela ocorrência de novos inimigos, por vezes com evidente importância económica e frequentemente com dificuldade de combate com êxito apesar da realização de cam- panhas de “extinção”.
Em consequência do primeiro ataque de icéria em citrinos em Algés, Paço de Arcos e Pedrouços em 1896, e da intervenção do Prof. Veríssimo de Almeida, procedeu-se à importação do coccinelídeo predador, a vedália, proveniente da Califórnia e da África do Sul, e ocorreu o êxito deste caso de luta biológica com carácter pioneiro na Europa (ver 8.4.2.2). Nessa época procedeu-se à criação do Laboratório de Patologia Vegetal por Despacho de Janeiro de 1898 do Director-Geral de Agricultura. Este Laboratório foi
integrado, em Dezembro de 1910 (Decreto de 6/12/10), no Laboratório de Nosologia
Vegetal do Instituto de Agronomia e Veterinária, dirigido desde 1887 pelo Prof.
Veríssimo de Almeida (4a, 43). É neste contexto que é publicado o Decreto de 23/12/
1899 que “aprova o plano de providências destinado ao tratamento de epiphytias ou
destruição dos parasitas das plantas” (43).
A ocorrência de novos problemas fitossanitários provocou na 1.ª metade do século
XX a produção de medidas legislativas visando a “extinção” de (43):
• bombicídeos nocivos à agricultura (castanheiro e outras árvores) (Decretos de
7/9/1907 e 9/10/1907);
• formiga-branca (Portaria de 30/10/1909);
• acrídeos (Decreto 3: 492, de 25/10/1917);
• várias fitonoses ou fitoparasitas (Decreto 11: 161, de 19/10/1925);
• formiga-argentina e cochonilha-algodão (Decreto 17: 577, de 8/11/1929).
Medidas desta natureza foram também adoptadas para outros inimigos das cultu- ras, como a cochonilha-de-São José no início dos anos 30 e o escaravelho-da-batateira, os gafanhotos e doenças da batateira como a bacteriose Pseudomonas solanacearum nos anos 40.
Nos anos 30 aumentaram as preocupações de natureza fitossanitária, consequência do aumento da importância económica de alguns inimigos, das dificuldades do seu combate, do crescente risco de importação de novos inimigos das plantas e da proibi- ção de exportação de produtos nacionais como a batata para o Brasil, em 1930. Esta situação é evidenciada por Miguel Neves ao alertar, em 1932, a propósito da cochonilha- dos-citrinos, pinta-amarela, “o desaparecimento da maioria dos laranjais que existiram
outrora nos arredores das principais cidades algarvias” (57). Branquinho de Oliveira
evidenciou com toda a clareza em 1934 a gravidade desta problemática em relação à produção frutícola:
“Na quase totalidade dos nossos pomares […] as árvores têm uma vida curta, produzem muito irregularmente e a fruta é quase toda doente e bichosa. […] As nossas maçãs e peras […] servem apenas, em grande parte do País, para alimento
dos porcos” (61).
A necessidade de intensificar a inspecção fitossanitária levou em 1923 (Decreto 9: 247, de 15/11/23) ao reforço dos meios funcionais de pessoal e material do Laborató-
rio de Patologia Vegetal, então designado de Veríssimo de Almeida (LPVVA) e
dirigido pelo Prof. Manuel Sousa de Câmara até à sua reforma em 1941. A evidência da insuficiência da acção deste Laboratório e dos meios disponíveis para assegurar de forma adequada a inspecção fitossanitária e o combate coordenado a importantes ini- migos das culturas levou à criação, em 1931, da Comissão de Inspecção
Fitopatológica (Decreto 20: 301, de 11/9/31) e da Divisão de Serviços de Inspec- ção Fitopatológica (Decreto 20: 526, de 6/11/31 e Decreto 22: 839, de 1/4/33) (43,
44), retirando ao LPVVA a função de inspecção. A expansão e consolidação desta activi-
dade, no âmbito do Ministério da Agricultura, foram asseguradas pela criação, no âmbito da Direcção-Geral dos Serviços Agrícolas, em 1936 (Decreto 27: 207, de 16/11/36), da Repartição dos Serviços Fitopatológicos, sob a direcção da Doutora Matilde
Bensaúde. A estrutura e funções deste Organismo são revistas pelo Decreto-Lei 41 473, de 23/12/57, abrangendo actividades no âmbito de medidas legislativas relati- vas à produção, importação e exportação de batata-semente, a viveiristas e à inspecção fitossanitária (44).
A Estação de Quarentena foi construída nos anos 60 na Quinta do Marquês em Oeiras, na dependência da Repartição dos Serviços Fitopatológicos, mas em estreita
colaboração com a Estação Agronómica Nacional (28).
A Repartição dos Serviços Fitopatológicos foi extinta em 1977 e as suas funções integradas na Direcção-Geral de Protecção da Produção Agrícola (DGPPA), na Di-
recção de Serviços de Protecção Fitossanitária, constituída pela Divisão de Inspecção
Fitossanitária a par da Divisão de Avisos e Esquemas de Tratamentos e da Divisão de
Meteorologia e, ainda, na Direcção de Serviços de Propagação Vegetativa (44).
A estrutura da DGPPA mantém-se, em 1985, no Centro Nacional de Protecção
de Produção Agrícola (CNPPA) após a extinção da DGPPA em 1983. Com a integração
de Portugal na União Europeia, em 1 de Janeiro de 1986, o CNPPA, em articulação com as direcções regionais de agricultura e a Direcção-Geral das Florestas, assume a função de organização nacional de protecção de plantas, responsável pela execução e controlo em Portugal do regime fitossanitário existente na UE (ver 6.3.1.2). Com a criação da