O CAMPO DA PESQUISA
A) O Centro de Saúde Escola do Butantã
A.4) A diversidade dos Interlocutores e o processo da pesquisa
A presente investigação estendeu-se por mais de dois anos, portanto foram inúmeros os interlocutores que dela fizeram parte, desde profissionais de saúde, pacientes e praticantes de MTC e do CSEB, técnicos de diferentes especialidades da área da saúde, administração e chefia.
Todas as atividades tinham horário fixo para acontecer, por isso procurei visitar a instituição pelo menos duas vezes por semana: às quartas-feiras no período da tarde, quando aconteciam os atendimentos clínicos com acupuntura, e às sextas-feiras no período da manhã, quando aconteciam as práticas corporais. Tal freqüência não foi absoluta, já que os horários do acupunturista mudavam algumas vezes em razão de seus compromissos fora da Unidade. Por exemplo, o Curso de Fitoterapia Chinesa na Universidade Aberta do Meio Ambiente e cultura de Paz (UMAPAZ) ou o Grupo de Estudos sobre MTC que acontecia no Centro de Cooperativa e Convivência (CECCO) do Parque Previdência.
Meu primeiro contato foi com o próprio acupunturista, que fora anteriormente co- orientador do meu trabalho de conclusão de curso do aprimoramento em Saúde Coletiva e também no curso de formação de Lian Gong que fiz. Pedi-lhe para usar o ambulatório como campo de minha pesquisa e fui orientada a conversar com o diretor do CSEB, que aceitou a proposta, mas solicitou que eu conversasse com a coordenadora da Área de Ensino e Pesquisa e também com o coordenador do Ambulatório de Adultos.
Conversei com a coordenadora da Área de Ensino e Pesquisa expondo minhas intenções de pesquisa em relação aos objetivos e procedimentos e ela pediu o projeto por escrito e a aprovação do Comitê de Ética15 para o aceite oficial da instituição. Posteriormente, marquei uma conversa com o coordenador da assistência aos adultos, com quem igualmente conversei sobre os procedimentos em campo, que foram aceitos, mas ele me pediu para apresentar a proposta à equipe de profissionais de saúde do
ambulatório. Desta forma, numa reunião habitual de equipe, apresentei-me aos médicos, médicas, enfermeiras, auxiliares de enfermagem, técnicos de enfermagem e auxiliares administrativos que compunham a equipe e fui aceita como pesquisadora.
Fui orientada pelo diretor de Centro de Saúde a me apresentar sempre de jaleco e com o crachá16 durante a observação dos atendimentos clínicos. Tal procedimento me obrigou a ser identificada pelos pacientes como necessariamente posicionada em plano diferente e distante do deles, diferença que era amenizada durante as práticas corporais nas quais não se usava uniforme17.
Não tive qualquer tipo de problemas com a equipe do Ambulatório e encontrava sempre as mesmas pessoas que já me conheciam e sabiam o que eu estava fazendo por ali. Meus interlocutores mais freqüentes eram o acupunturista, as monitoras das práticas corporais e os pacientes. Meu acesso aos pacientes era direto, tanto durante as atividades, como nos casos de conversas no corredor, na sala de espera e nas entrevistas gravadas.
Num dia típico da observação, eu chegava ao ambulatório pouco antes do início dos atendimentos e conversava com o acupunturista sobre as atividades ou novidades daquela semana. Geralmente, alguns pacientes já aguardavam na sala de espera e o tempo para conversas era pouco, mas suficiente para acompanhar os acontecimentos. Os pacientes eram chamados um de cada vez e atendidos nos pequenos consultórios individuais. O acupunturista pedia permissão ao paciente para que eu acompanhasse a sessão e então eu entrava na sala e observava o atendimento, conversava com o paciente e fazia as anotações.
Já nos dias das práticas corporais a convivência era mais próxima, pois não havendo diferenciação formal entre as pessoas, eu ficava ali como mais uma freqüentadora do grupo e ao final me apresentava, perguntando se poderia conversar um pouco com eles. Repeti o procedimento algumas vezes, pois de tempos em tempos mudavam algumas das pessoas que freqüentavam o grupo.
16 Na primeira vez que fui visitar o ambulatório para me apresentar à equipe, aconteceu um fato curioso em relação ao
crachá. Orientaram-me a colocá-lo para que os pacientes pudessem me identificar e acabei colocando o da minha instituição de origem. Uma das enfermeiras perguntou por que eu utilizava aquele crachá ali e naquele momento ganhei um novo, de pesquisadora do CSEB.
17 Exceto a monitora de Lian Gong, que estava sempre uniformizada com uma camiseta com o logo tipo de seu grupo. Suas
alunas mais antigas também usavam esta camiseta e eu mesma fui presenteada pela monitora com uma igual, que de fato é mais confortável para a realização dos exercícios.
A proposta inicial da pesquisa poderia acolher ou descartar a necessidade de entrevistas feitas com hora marcada e gravação em áudio. Durante o tempo que participei das atividades, notei que muito do que era vivenciado no corpo, tanto nas práticas corporais como na sessão de acupuntura, incluía uma comunicação não verbal, gestos, olhares, procedimentos terapêuticos e ações. Atos, práticas e posturas que não passavam pela validação de um discurso formal, mas por contratos firmados na prática diária e na ação do corpo em si.
Com isso senti a necessidade de entrevistar alguns dos envolvidos no intuito de verificar até que ponto tais procedimentos que eram realizados apareciam no discurso verbal. Realizei onze entrevistas com pessoas ligadas às práticas da MTC no CSEB18, selecionados na primeira fase, de acordo com o critério de adesão às práticas e livre aceitação em ser entrevistado19. A idéia foi entrevistá-los até atingir o critério de saturação das informações pretendidas, ou seja, até que os mesmos eixos temáticos dos assuntos tratados aparecessem na maior parte das entrevistas.
Cerca de dois meses antes do término do prazo da fase de observação da pesquisa, o serviço em questão entrou em greve com outros departamentos ligados à universidade do qual faz parte, impossibilitando a continuidade das entrevistas. Mesmo assim, ao analisar o material gravado, considerei que os eixos temáticos observados na primeira fase foram contemplados.
Foram feitas entrevistas individuais no espaço do Ambulatório de Adultos do CSEB com duração média de 30 minutos cada uma, mas duas delas (do PANG GUAN e do SHEN) ultrapassaram em muito esta média, a primeira com a duração de 1h e 48min e a seguinte com 1h e 14min. Em nenhuma das entrevistas foi possível garantir silêncio ou privacidade total. Nessas duas primeiras e mais longas entrevistas, os entrevistados se colocaram de forma bastante espontânea e desenvolveram as questões ora refletindo, ora retomando, ora acrescentando algo novo ao já dito.
18 Todas as pessoas entrevistadas nesta pesquisa participavam de pelos menos uma das atividades do CSEB relacionadas
a MTC, ao longo do período compreendido entre setembro de 2008 e abril de 2009.
19 Todos os participantes convidados a fazer parte da pesquisa receberam um Termo De Consentimento Livre e Esclarecido
– TCLE (aprovado pelo comitê de ética da UNIFESP) aceitando ou não ser incluído voluntariamente como participante e/ou entrevistado da pesquisa. O mesmo encontra-se anexo (C). Além disso, o participante da pesquisa teve a liberdade de encerrar ou abandonar a pesquisa a qualquer momento, sem que isso lhe trouxesse prejuízo de qualquer ordem. Não houve nenhuma recusa e, pelo contrário, após a explicação dos objetivos da pesquisa, todos os entrevistados se mostraram dispostos a falar e alguns até agradeceram por terem sido escolhidos.
De modo geral, disseram-se menos incomodados ou aparentaram estar mais à vontade com o tema, aqueles entrevistados que de alguma forma já tinham trabalhado conceitualmente um ideal de corpo, seja de forma religiosa, ética, moral ou profissional. Na maioria das entrevistas foi possível observar considerável dificuldade de falar sobre o corpo, uma insegurança nos gestos e nas falas quando o assunto era colocado em pauta como pode ser visto, por exemplo, na entrevista da paciente de acupuntura XIN:
REN MAI20: E o que é corpo pra você?
XIN: Pra mim?
REN MAI: É.
XIN: O meu corpo?
REN MAI: É, pode ser. O que vem à sua cabeça quando você pensa em corpo? Você pensa no seu corpo?
XIN: O corpo é uma estrutura que segura você em tudo. É assim, é?
REN MAI: É assim, é a sua opinião. Como é esse corpo? Você pode descrever?
XIN: [Pausa] (risos).
REN MAI: A sua opinião. Como é pra você? [Pausa]
REN MAI: É difícil?
XIN: (risos) É difícil, porque assim... Você fala o corpo, assim...
REN MAI: Pode perguntar.
XIN: Ah (...) eu estou perdida... (Entrevista com XIN em 03/04/2009).
Esse pequeno trecho demonstra um pouco das dificuldades pelas quais passei no decorrer da pesquisa, não só pela forma extremamente direta e um pouco sem jeito de elaborar as questões, como também pela maneira vagarosa com que fui conseguindo estabelecer um diálogo com meus interlocutores. Passei a abordar a questão de outra forma e tentei mesmo outras maneiras de aproximação, como por exemplo, marcar uma reunião com um grupo de ateliê de artes plásticas e os interlocutores, com a intenção de experimentar outra linguagem para abordar o assunto, o que não foi possível.
No meu caso, uma psicóloga, aprendiz de antropóloga, as entrevistas acabaram por mesclar formas da psicologia com a observação participante. Ao permitir-me uma identificação com o profissional de saúde em muitos momentos, e em outros com os pacientes e praticantes, em sinceros momentos pude vivenciar experiências completas.
Não pretendo aqui declarar que experienciei o afeto do outro21, mas gostaria de validar o discurso do outro da forma mais fiel possível, levando em consideração o
contexto da pesquisa, minha bagagem pessoal, a experiência objetiva e sem dúvida as relações interpessoais vividas e observadas em campo, isto é, compartilhar a experiência na intenção de conhecer, ou como salienta Pereira (2004):
O compartilhar não visa a legitimar a disciplina e os especialistas, mas sim formar um só corpo, por meio de narrativas, provendo voz – a possível em um campo tão difícil –, de forma a fazer a dor e o terror serem experienciados em outros corpos. É esse compartilhar que talvez confira um certo sentido ao simples – e agora não tão absurdo! – ato de tocar um corpo enfermo e aponte a possibilidade de comunicação (Pereira, 2004, p.22).
Compartilhar ―com‖ e não ‖pelo‖ interlocutor é a opção deste trabalho. Seja a antropologia clássica de Malinowiski que sustenta um olhar privilegiado para o pesquisador, ou com Geertz, em sua estratégia interpretativa, em sua busca de uma descrição densa, a Antropologia termina por ser sempre a tentativa disciplinada de priorizar as concepções, as teorias, as cosmologias do ―Outro‖. E se é, conforme Bizerril Neto (2004), principalmente por meio das relações humanas que temos acesso ao mundo e à experiência de outros sujeitos, temos então dois desdobramentos: a importância das relações humanas como constitutivas da possibilidade de pesquisa qualitativa; a repercussão da experiência de campo sobre a subjetividade do pesquisador.