MEDICNA TRADICIONAL CHINESA
B) Elementos de Cosmologia Oriental: Atributos do TAO.
A Medicina Tradicional Chinesa faz parte de um sistema filosófico/religioso: o Taoísmo. Atribui-se a revelação das bases da filosofia do Taoísmo a Lao-Tsé (LǍO ZǏ), autor do livro Tao Te Ching ou ―Livro da Razão Suprema‖, compilado, provavelmente, por volta de 300 a.C35.
O Taoísmo concebe o Universo como composto uno estruturado pelo Qi (Força ou Energia Vital), um princípio energético que promove o dinamismo e a atividade da matéria orgânica e do ser vivo, seja animal ou vegetal. Manifesta-se sob dois aspectos opostos e complementares: o aspecto Yang, que representa a energia que produz calor, a expansão, a ascensão, o aumento das atividades; e o aspecto Yin que representa a energia que produz o frio, o retraimento, a descida, o repouso, a escuridão e a diminuição das atividades (Yamamura, 2006).
Os conceitos de Unidade e de Mutação são os pontos fundamentais da doutrina Taoísta. No livro Tao Te Ching, são diversas as passagens que deixam clara a idéia de que as mudanças de todos os fenômenos não acontecem por coincidência, mas se processam por meio de um caminho fixo e com a característica de serem cíclicas e contínuas. A mudança não ocorre como conseqüência de alguma força, mas é uma tendência natural e inata em todas as coisas e situações. O Universo está empenhado em um movimento e em uma atividade incessante, num contínuo processo cósmico a que os chineses chamaram Tao – ―o Caminho‖ (Capra, 1997, p.37).
No Tao, o movimento natural ocorre sempre por meio de uma dança contínua entre os princípios opostos; a essência do mundo não é uma condição estaticamente mecânica. O mundo está em constante alternância e transformação, portanto tudo o que existe está condenado a morrer, porque embora seja verdade que nascimento e morte são opostos, um e outro estão, não obstante, inevitavelmente ligados (Wilhelm, 1999. p. 192).
Assim sendo, a vida e a morte são opostas uma à outra. Essa oposição é o princípio representado pelo Yin e pelo Yang. Essa unidade e interdependência
35 (...) uma das edições fidedignas do texto foi feita por WÁNG BÌ (226-249), membro de uma elite intelectual da dinastia
HÀN (206 a.C. - 220 d.C.), tratando-se de uma edição comentada. O mesmo texto recebeu um segundo comentário de HÉ SHÀNG GŌNG, supostamente no século III d.C., havendo ainda uma edição anterior de YÁN ZÙN, no século I d.C.(Kohn, 1992, p.36).
caracterizam o Tao. Portanto, o estado de imobilidade absoluta não existe. Tudo o que existe está fadado a mudar incondicionalmente:
O que é imperfeito será perfeito; O que é curvo será reto;
O que é vazio será cheio;
Onde há falta, haverá abundância; Onde há plenitude, haverá vacuidade. Quando algo se dissolve, algo nasce. Assim, o sábio,
Encerrando em si a alma do Uno, Torna-se modelo do Universo. Não dá importância a si mesmo,
E será considerado importante (...) (Lao Tsé, 2007, p.69).
Ao aprender o significado da mutação, sua universalidade e onipresença, nota-se que não tem mais importância fixar a atenção sobre os entes transitórios e individuais. O fenômeno, em sua especificidade, perde em importância comparada à da relação entre os fenômenos uns com os outros, a partir de que princípio eles se modificam e ainda para onde segue a sua transformação.
O Tao é também o princípio a partir do qual toda a polaridade surge. Toda polaridade começa na unidade, e esses dois em si são um; por isso é difícil falar de Yin e Yang sem falar do Tao e vice-versa. A polaridade é função do Tao (DÀO):
Do Tao veio o Um. Do Um veio o Dois. Do Dois veio o Três. E o Três gerou os Muitos. Toda a vida surgiu da Treva,
E demanda a Luz. (...) (Lao Tsé, 2007, p.109).
O Tao é como a tensão do arco, complementa cada lado pelo seu oposto. Um conceito mede o outro e o delimita; por exemplo: só existe o belo em relação ao feio, mas não há nada que não seja a partir do Tao:
Só temos consciência do belo Quando conhecemos o feio. Só temos consciência do bom Quando conhecemos o mau
Porquanto o Ser e o Existir Engendram-se mutuamente O fácil e o difícil se completam
O grande e o pequeno são complementares O alto e o baixo formam um todo
O som e o silêncio formam a harmonia
O passado e o futuro geram o tempo (...). (Lao Tsé, 2007, p.30).
―Tao‖ literalmente significa ―caminho‖, entretanto no sentido dado por Lao-Tsé significa, sobretudo, ―o modo pelo qual o universo funciona e, principalmente, algo muito semelhante a Deus, no sentido mais abstrato e filosófico do termo‖ (Campbell,1997,p.28).
O Tao está num nível totalmente distinto de tudo quanto pertence ao mundo dos fenômenos. É anterior ao céu e à terra; não é possível dizer de onde vem. Ele se baseia em si mesmo, é imutável, contudo, está em eterna circulação. É o princípio do céu e da terra, isto é, da existência espacial e temporal. Origem de todas as criaturas; outras vezes é designado também como o ancestral de todos os entes (Wilhelm, 1999, p.97).
De acordo com Santos (2004), o I Ching (YI JĪNG) foi a primeira forma de organização do Taoísmo, e apesar de ser considerado por alguns como um oráculo, para outros é um clássico da literatura mundial, para outros ainda é um poderoso instrumento para a compreensão do desenvolvimento da cultura chinesa.
A sua origem não é certa, mas é anterior à dinastia ZHŌU (1150 – 249 a.C.). Nele estão dispostas figuras lineares, compostas da combinação de linhas inteiras (Yang ——) e linhas interrompidas (Yin – –), chamadas de ‗Kua‟. Cada um deles não representa entidades estáticas e sim mutáveis estados de transição. Os ‗Kua‟ encontrados no I Ching procuram reproduzir de maneira interessante os movimentos e mutações do macro e do microcosmo, e assim passam a idéia de que no fundo da aparente complexidade do universo está oculta uma organização (Santos, 2004).
Observando a natureza como fonte do conhecimento, foram criados, a partir destes ‗kua‟, trigramas referentes aos elementos da natureza que possuem analogias com diversos aspectos da vida cotidiana. São oito as combinações possíveis entre as linhas para formar trigramas diferentes, e estes oito signos são considerados como imagem de tudo o que ocorre no céu e na terra. A partir da combinação destes trigramas foram formados sessenta e quatro hexagramas, cada trigrama possui a complexidade e a sabedoria da milenar cultura chinesa.
Santos (2004) diz que os trigramas não focalizam as coisas em seus estados de ser, e sim seus movimentos de mudança. Deste modo, não só representam as coisas como tais, mas as suas tendências de movimento, e essas tendências são aplicadas a tudo o que acontece entre o céu e a terra, desde os ciclos da natureza até os ciclos de vida cotidianos dos homens. Por exemplo: 36
LAGO
CÉU
VENTO
ÁGUA
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TERRA
MONTANHA
FOGO
TROVÃO
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Estes ciclos estão presentes também na MTC, que considera o organismo como condensado energético. As doenças, portanto, são vistas como um desequilíbrio energético, ou quebra da harmonia das funções energéticas de um dado organismo. ―A saúde na MTC é a manutenção da homeostase do organismo, o tratamento visa o equilíbrio do indivíduo com o ambiente, um equilíbrio energético e global‖ (Yamamura, 2004).
Quando há desequilíbrio e surgem as patologias, os tratamentos são efetuados por meio de diversas técnicas: Fitoterapia, Moxabustão, Ímãs, Ventosas, Laser, Magnetos, Acupuntura, entre outras. Os primeiros registros sobre procedimentos com estas técnicas, inclusive com a acupuntura, datam do século XVIII a.C., através de uma coleção de manuscritos - o HUÁNG DÌ NÈI JING SÙ WÈN, conhecido como o ―Tratado do Imperador Amarelo‖.