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CAPÍTULO II – PARTICIPAÇÃO ELETRÓNICA

2.5 A e-participação no contexto do e-government

2.5.1 A e-participação no contexto do local e-government

Luís Borges Gouveia argumenta que o conceito de local e-government pode ser visto como um complemento, de âmbito local, às iniciativas de e-government, e que se rege pelos mesmos princípios enunciados para o e-government, contudo com uma maior proximidade ao cidadão, tomando este a vertente de munícipe (Gouveia, 2004). Refere que o e-government e o local e-government podem estar associados como fazendo parte de uma mesma tendência no que respeita ao serviço ao indivíduo (quer no seu papel de cidadão, quer de munícipe), à sua relação com o poder político (participando e influenciando decisões) e com a Administração Pública (cumprindo as obrigações para com o Estado e interagindo com este onde e quando se revelar necessário).

A Unidade de Missão Inovação e Conhecimento (UMIC), em colaboração com o Departamento de Sistemas de Informação da Universidade do Minho, elaboraram um guia que pretende ser um contributo para o desenvolvimento de melhores práticas de e- government em Portugal. O guia tem como objetivo ser um documento de referência enquanto portador de boas práticas relativas à conceção, desenvolvimento e exploração de sítios Web na Administração Direta e Indireta do Estado, apresentando-se como complemento do exercício de avaliação periódica em curso, ao abrigo da Resolução do Conselho de Ministros n.º 22/2001 de 27 de Fevereiro (Oliveira, Santos & Amaral, 2003).

Santos e Amaral apresentam um estudo sobre local e-government em Portugal, que avalia a presença na Internet das câmaras municipais portuguesas em 2009 (Santos &

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Amaral, 2012). O modelo de avaliação utilizado para classificar as autarquias por nível tem por base o “Método de Avaliação Externa de Web Sites dos Organismos da Administração Direta e Indireta do Estado” (Santos et al., 2003), sendo constituído por cerca de uma centena de critérios e indicadores organizados segundo o modelo eEurope31. Os sítios na Internet das câmaras municipais são classificados em quatro níveis de maturidade, de acordo com o nível de desenvolvimento e funcionalidades, informação e serviços disponibilizados aos cidadãos e às empresas. Note-se que quanto maior o nível, maior é o estado de maturidade. A Figura 16 ilustra a descrição dos níveis de maturidade considerados pelo modelo.

Figura 16 – Níveis de maturidade usados no modelo que avalia a presença na Internet das câmaras municipais portuguesas. Fonte: (Santos & Amaral, 2012).

De acordo com a análise realizada a 305 sítios Web de câmaras municipais portuguesas (num universo de 308 autarquias) em 2009, os autores do estudo referem que a maioria das câmaras municipais se encontrava no nível 2 de maturidade (52,13%), como se pode observar na Figura 17. Além da publicação de informação sobre a autarquia (nível 1), 159 câmaras municipais disponibilizam formulários para download. O nível mais alto

31 http://europa.eu/legislation_summaries/information_society/strategies/l24226a_pt.htm. Acedido em 9

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de maturidade, o Nível 4, foi atribuído apenas a 6 municípios, que já disponibilizavam serviços ao cidadão completamente desmaterializados - incluindo o respetivo pagamento.

Figura 17 - Resultados por níveis de maturidade do estudo de avaliação da presença na Internet das câmaras municipais portuguesas em 2009. Fonte: (Santos & Amaral, 2012).

Estes resultados também sugerem que há ainda um caminho a percorrer em Portugal para ter um número considerável de câmaras municipais que se dispõem a levar em conta as contribuições, via eletrónica, dos cidadãos no processo de tomada de decisão e a informar os cidadãos sobre as decisões que foram tomadas, com base nos processos de consulta. Isto é, câmaras que estejam na categoria e-decision-making proposta pelas Nações Unidas para a elaboração do índice de e-participação. No entanto, há que ter em atenção o facto de o estudo aqui reportado se referir a dados de 2009. Espera-se que os resultados da avaliação da presença na Internet das câmaras municipais portuguesas em 2012 revelem que se está a caminhar no sentido de as autarquias estarem cada vez mais a envolver ativamente os cidadãos na tomada de decisão política local.

Um estudo recente de caracterização da oferta de e-participação ao nível local em Portugal (Ferreira, 2011), que abrangeu cerca de 60% das 308 câmaras municipais, revela que, conforme ilustrado na Figura 18, se verificaram apenas 4 iniciativas digitais onde foi concedido aos cidadãos o nível de participação máximo, o e-empoderamento, tal como definido em (Tambouris, Liotas & Tarabanis, 2007). Portanto, este resultado reforça a ideia de que ainda se pode, e deve, melhorar bastante a este nível, isto é, no que concerne a conceder poder aos cidadãos na tomada de decisão política de âmbito local.

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Figura 18 – Nível de participação das iniciativas de e-participação levadas a cabo por câmaras municipais portuguesas. Fonte: (Ferreira, 2011)

Convém ainda referir que o autor argumenta que as iniciativas de e-participação são uma grande oportunidade de os governos locais poderem fazer uma reaproximação aos cidadãos, pois, estando relacionadas com a tomada de decisão em assuntos que dizem diretamente respeito ao cidadão e à sua comunidade, estas tornam-se altamente apelativas.

As iniciativas de e-participação identificadas no estudo de (Ferreira, 2011) foram subdivididas em oito grandes grupos, como ilustrado na Figura 19.

Figura 19 – Principais grupos de iniciativas de e-participação. Fonte: (Ferreira, 2011).

Os processos de revisão do PDM (Plano Diretor Municipal) e as agendas estratégicas são as iniciativas mais populares, enquanto a conversação através de chats e os blogues se encontram numa posição de menor destaque.

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Por outro lado, num relatório da UMIC, destaca-se que no 4º trimestre de 2010, 96% dos organismos públicos da administração central e 100% das câmaras municipais asseguravam presença na Internet, respetivamente 94% e 78% disponibilizavam endereços eletrónicos para receção de mensagens, pedidos de informação ou reclamações (UMIC, 2011). Entre os sítios das câmaras municipais na Internet, 11% mantinham fóruns de discussão entre o executivo camarário e os cidadãos, e 2% a transmissão das reuniões e sessões camarárias por videoconferência. Cerca de 71% das câmaras municipais conduziam regularmente consultas públicas pela Internet, 35% conduziam inquéritos aos cidadãos através da Internet, 20% mantinham plataformas de votação online para obter a opinião dos cidadãos sobre assuntos de natureza camarária e as atas e resoluções tomadas em reuniões e sessões camarárias eram disponibilizadas pela Internet em 91% das câmaras municipais. Uma vez mais, pode concluir-se que ainda há espaço para melhoria no que diz respeito a conceder poder aos cidadãos na tomada de decisão política de âmbito local.

Em (Panopoulou, Tambouris & Tarabanis, 2009), avalia-se o nível de sofisticação das iniciativas de participação eletrónica que as autoridades públicas regionais da Grécia e de Espanha oferecem nos seus sítios Web institucionais. O instrumento de avaliação utilizado foi publicado em (Panopoulou, Tambouris & Tarabanis, 2008), e inclui três fatores principais (informação, consulta e participação ativa). Cada fator é medido através de um conjunto de métricas adequadas.

Assim, sucintamente, para o fator informação mediu-se a existência de documentos políticos on-line. Para o fator consulta verificou-se a existência de consultas eletrónicas. Para o fator participação ativa averiguou-se a disponibilidade de ferramentas de comunicação (chats, blogues e fóruns eletrónicos) e de ferramentas de tomada de decisão (inquéritos eletrónicos), bem como a possibilidade de os cidadãos proporem tópicos para debater nos fóruns e inquéritos eletrónicos e nas reuniões com os representantes locais.

No geral, os resultados indicam que, apesar de a e-participação ser uma prioridade política, ainda não é uma prática comum nos dois países estudados, pelo menos ao nível da governação regional.

94 2.6 Resumo do capítulo

Neste capítulo, discutiu-se o conceito de e-participação. Apresentaram-se as principais iniciativas legislativas europeias da última década no domínio da e-participação. Seguidamente fez-se uma caracterização da área da participação eletrónica. Designadamente, descreveram-se os níveis de e-participação, os intervenientes em iniciativas de e-participação, as áreas, ferramentas e tecnologias de e-participação mais referidas na literatura. Apresentaram-se alguns modelos de caracterização, implementação e avaliação de iniciativas de e-participação.

Finalmente, abordou-se a e-participação no contexto do e-government e do local e- government. Reconheceu-se que a área da e-participação ainda necessita de evoluir, fundamentalmente nos aspetos conceptuais e teóricos. Foram ainda apresentados estudos sobre a presença na Internet das câmaras municipais portuguesas em 2009 e sobre a caracterização da oferta de e-participação ao nível local em Portugal. Os resultados sugerem que há ainda um caminho a percorrer em Portugal para ter um número considerável de câmaras municipais que se dispõem a usar a tecnologia para promover o empoderamento dos munícipes, isto é, a levar em conta as suas contribuições, via eletrónica, no processo de tomada de decisão e a informá-los sobre as decisões que foram tomadas, com base nos processos de consulta.