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CAPÍTULO III – MEDIAÇÃO DIGITAL E CAMPANHAS ELEITORAIS

5.2 Modelo Conceptual

A modelação conceptual é a atividade de descrever formalmente alguns aspetos do mundo físico e social para fins de compreensão e de comunicação (Larman, 2004a). É uma representação abstrata de uma realidade, realçando os aspetos considerados mais importantes, em determinado contexto ou sob determinado ponto de vista. No entanto, o nível de abstração em que esta atividade é baseada diferencia os aspetos que são interpretados e os modelos que são desenvolvidos (Mylopoulos et al., 1999). Por exemplo, os conceitos expressos em alto nível, ontologias independentes de domínio, destinam-se a ser conceitos universais para assegurar a generalidade e expressividade para uma vasta área de domínios. Por outro lado, uma modelação de um domínio específico limita-se a modelar a aplicação ou o caso particular em estudo.

Um modelo de domínio útil capta as abstrações essenciais e as informações necessárias para entender o domínio no contexto dos requisitos, e ajuda as pessoas na compreensão do domínio, dos seus conceitos, terminologia e relações. Porém, é importante notar que os modelos para um domínio específico são aproximações desse domínio. Consequentemente, não se deve rotular um modelo de domínio como correto ou incorreto (Kalampokis et al., 2008).

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A primeira fase de construção do modelo proposto nesta tese incidiu na identificação dos principais intervenientes e das respetivas funções. Assim, como resultado da revisão bibliográfica realizada, do feedback recolhido junto de personalidades com experiência em campanhas eleitorais e ligadas à política e associativismo nacional, bem como da investigação-ação realizada, entende-se pertinente considerar os seguintes atores num modelo de mediação digital para a participação pública direta em períodos eleitorais: os cidadãos, os candidatos e os seus representantes (candidaturas), as associações, os partidos políticos e os movimentos sociais e políticos.

As candidaturas abrangem os candidatos e os seus representantes (staff). Os partidos políticos, como força dinamizadora da democracia, também se podem representar. As associações, tal como em (Pinto, 1983), são aqui entendidas como pessoas coletivas de substrato pessoal, que não tenham por desígnio a obtenção de lucros para distribuir pelos sócios. A categoria abrange, portanto, as corporações de fim desinteressado ou altruístico, as de fim ideal e as de fim económico não lucrativo. São providas de autonomia e de órgãos de gestão democrática (assembleia geral, direção, conselho fiscal, etc.). São exemplos as associações profissionais, os sindicatos, as associações cívicas e recreativas, as organizações não-governamentais, as instituições de beneficência e apoio social, entre outros.

Os movimentos sociais representam organismos constituídos por pessoas que não ocupam cargos de poder, mas que desejam redirecionar a sociedade para novas metas e valores, muitas vezes desafiando ou colaborando com quem está no poder (Zirakzadeh, 2011). Por sua vez, os movimentos políticos são aqui definidos como proposto em (Nash, 2010), isto é, grupos de pessoas que trabalham em conjunto para alcançar um objetivo político. Os cidadãos são indivíduos no gozo dos seus direitos civis e políticos de um estado livre (Porto Editora, 1993). Naturalmente, o cidadão deve ser aqui entendido como elemento integrante de uma sociedade civil (Bobbio, 1984).

Face às oportunidades previamente identificadas, nomeadamente o facto de estarmos perante uma conjuntura económica e social que apela à intervenção cívica e de existirem atualmente poucos mecanismos especificamente destinados à expressão política em períodos eleitorais, além de estarmos a assistir à massificação do acesso à

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Internet a nível nacional e internacional e de os especialistas defenderem que as redes sociais que têm por base a tecnologia serão cada vez mais importantes para as comunidades e para os cidadãos, acredita-se que pode ser frutuoso ter uma solução que agregue num único espaço da Internet, neutro e regulado, os principais intervenientes numa campanha eleitoral e que possibilite uma comunicação multidirecional entre eles, como ilustra a Figura 35.

Figura 35 – Comunicação multidirecional entre os principais atores numa campanha eleitoral realizada na plataforma iLeger

As setas representam os canais abertos para a comunicação multidirecional entre os principais atores de uma campanha eleitoral.

Um dos requisitos deste projeto é a conceção de uma solução tecnológica, no âmbito dos Media Sociais, com ênfase na interação entre utilizadores, para usar durante as campanhas eleitorais. Mais concretamente, visa criar uma arena de deliberação, através de um sistema de múltiplas conexões onde os intervenientes possam, mediante uma participação ativa, organizada e regulada, expor os seus diferentes pontos de vista, numa tentativa de resolver problemas de âmbito nacional, local e institucional.

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Ambiciona-se, deste modo, poder contribuir para a revitalização da democracia ao nível político, económico, social, cultural, e para fomentar a participação ativa dos cidadãos na construção das medidas e dos impulsos que conduzam ao progresso da comunidade.

Pretende-se, ainda, contribuir para colmatar a lacuna de comunicação identificada entre os principais intervenientes, para tornar as campanhas mais abertas e para estimular os cidadãos a envolverem-se e a participar ativamente nos debates eleitorais, convertendo- os em agentes com capacidade de intervir e de produzir informação – ao invés de exercerem a função de meros consumidores de informação eleitoral. Para conseguir alcançar tão ambicioso fim, propõe-se um modelo de mediação digital para a participação pública direta em períodos eleitorais, como é ilustrado na Figura 36.

Figura 36 – Modelo de mediação digital para a participação pública direta em períodos eleitorais

Cada pentágono representa uma campanha eleitoral e a comunicação multidirecional entre os principais atores. As diferentes cores dos vários pentágonos indicam que o

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modelo proposto se adequa a diferentes tipos de eleições (políticas – Legislativas, Presidenciais, Autárquicas, Europeias, entre outras, e institucionais – corpos dirigentes de ordens profissionais, sindicatos, associações, cooperativas, clubes desportivos, academias, escolas, entre outras). Para cada um destes universos eleitorais pode ser criada uma instância específica do modelo para apresentação e debate eleitoral. Naturalmente, dependendo dos cenários eleitorais, também podem mudar os atores envolvidos. Na Figura 36, considera-se o universo das eleições políticas. O modelo proposto poderá também adaptar-se a diferentes países e culturas, desde que estes partilhem valores de democracia nas suas decisões.

No modelo acima exposto, não está explicitamente representada a tecnologia, pois considera-se que a dimensão digital faz parte do modelo por absorção. Também não se representa explicitamente o ator editor ou curador da plataforma digital, pois, tal como a tecnologia, é inerente ao modelo, na medida em que é um elemento neutro, que tem como principais funções fazer a gestão de utilizadores da plataforma, criar, gerir e moderar os eventos de participação, de acordo com os termos de utilização. Este papel pode ser desempenhado por um conjunto de entidades ou pessoas idóneas, entre as quais estão os Media, dependendo do tipo de eleições, do país ou da cultura em causa. O importante é que este interveniente mantenha uma absoluta neutralidade eleitoral e que se comporte como autêntico curador (de informação) da plataforma de e-participação (Rosembaum, 2011; Afonso de Sousa, Agante & Borges Gouveia, 2011; Afonso de Sousa e Borges Gouveia, 2012; Afonso de Sousa, Agante & Borges Gouveia, 2012).

Um aspeto interessante do modelo diz respeito ao facto de, depois de cada campanha eleitoral, todos os conteúdos ficarem disponíveis para futura consulta, criando, assim, uma memória digital (Afonso de Sousa, Agante & Borges Gouveia, 2010c; Afonso de Sousa, Agante & Borges Gouveia, 2010d). As respostas e as propostas dos candidatos, bem como as contribuições dos partidos políticos, representarão, certamente, um compromisso assumido para períodos pós-eleitorais, com o qual poderão depois ser confrontados durante o exercício de funções.

Concede-se, deste modo, à comunidade e aos candidatos, um veículo específico, aperfeiçoado e francamente renovador, quando comparado com os meios tradicionais,

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de apresentação, discussão e avaliação de ideias e propostas, no âmbito de uma campanha eleitoral concreta.