Les voyageurs de l’Impériale, de Louis Aragon)
2.5.3. Do plano da expressão ao plano do conteúdo
A relação entre a seqüência alimentar e a seqüência conversacional é refl e-
xiva, porém dessimétrica: (1) a segunda refl ete a primeira, comenta-a, reforça-a
desdobrando-a de maneira redundante e síncrona; (2) a primeira proporciona à segunda um enquadramento relativamente estável. Na verdade, o estatuto semi- ótico dessas duas seqüências é bem diferente: a seqüência alimentar, enquanto
protocolo, é regulada por usos culturais e não é decidida no próprio momento da
refeição, mesmo que seja inovadora, ela deve ser regulada e decidida previamente. Já a seqüência conversacional, enquanto conduta, ao contrário, geralmente não é planejada e, mesmo que obedeça a algumas regras culturais, sua forma geral deve ser criada em tempo real, através de um ajustamento estratégico permanente.
Essa dessimetria infl ui, então, sobre os efeitos da conexão, já que a seqüên- cia alimentar pode ser expressa pela conversa (salvo acidente, em caso de escân- dalo e de saída prematura), enquanto a seqüência conversacional só pode ser moldada (ou não) pelas fases da refeição. Em suma, o percurso canônico (da refeição) pode ser refl etido pelo percurso “em ato” (da conversação), enquanto o percurso “em ato” só pode ser infl etido pelo percurso canônico.
No entanto, a partir do momento em que levamos em consideração o con- junto do processo adaptativo, em que dois percursos temáticos competem por uma mesma confi guração expressiva, a da “co-segmentação síncrona”, a relação semiótica modifi ca-se. Na verdade, as avaliações implícitas ou explícitas indicam claramente, como já tentamos mostrar, que é essa regulação auto-adaptativa que sustenta os valores e que permite, por exemplo, decidir-se pela cordialidade. E não basta dizer que a conversação síncrona “conota” o sucesso da refeição, pois nós não saberíamos mais do que isso sobre o conteúdo desse sucesso.
Na verdade, a co-segmentação síncrona só pode ser a expressão do sucesso se evidenciamos um conteúdo e se, por comutação, podemos verifi car que os acidentes ou modifi cações de um dos dois planos desencadeiam modifi cações no outro plano.
2.5.3.1. A troca ritual
É chegada a hora, portanto, de dar um conteúdo a essa expressão rítmica e aspectual, sendo que esse conteúdo será, como veremos, de natureza antropoló-
gica. Cada cena de refeição manifesta, na verdade, uma estrutura de troca, base- ada no modelo do dom e do contra-dom, ao qual a refeição empresta sua forma sintagmática. Mas essa troca funciona aqui sob uma condição muito peculiar. Com efeito, entre todos os ritos de troca possíveis, só há um em que o contra- dom permanece indeterminado, potencial e fi xado sine die. No limite, o dom não tem outro propósito senão suscitar a boa vontade do destinatário.
Esse tipo de troca ritual é característico do sacrifício. Na verdade, no mo- mento do sacrifício, um bem é destruído ou consumido em benefício direto ou indireto de um terceiro. É em troca disso que esse terceiro deverá examinar favoravelmente as eventuais solicitações ou as necessidades futuras do doador. Independentemente do conteúdo religioso e fi gurativo desse tipo de prática ri- tual, podemos conservar as propriedades seguintes: (1) o eventual contra-dom permanece indefi nido, não restrito, e não se espera que ele seja do mesmo tipo que o dom (não há jamais, por exemplo, trocas de refeição no romance); (2) a natureza específi ca dessa estrutura de troca (dom/boa vontade futura), para ser reconhecível e efi ciente, deve obedecer a uma codifi cação (aspectual e rítmica) precisa, que funciona como expressão de seu caráter “quase sacrifi cial”; (3) esse tipo de troca, por fi m, inaugura um tempo social muito particular, indefi nida- mente estendido (já que não há data fi xa para o contra-dom), mas suscetível de ser a todo momento decomposto, interrompido, ou reiterado (por novos sacri- fícios): a boa vontade indefi nida, na verdade, deve ser “mantida”.
De acordo com essa hipótese, todas as propriedades de conexão e de sin- cronização que foram anteriormente estabelecidas – especialmente os nós
axiológicos da co-segmentação – decorreriam dessa condição e contribuiriam
diretamente para garantir a efi cácia simbólica da seqüência. É, em suma, a ritu- alização sintagmática do dom-refeição que permite aos parceiros reconhecê-lo implícita ou explicitamente como uma troca do tipo sacrifi cial, produtora de uma “dívida de boa vontade”.
2.5.3.2. A promessa e sua realização
Ao fi nal da refeição na Exposição Colonial (cena 1), o almirante desculpa-se de maneira bem curiosa: “Durante a sobremesa, o almirante lembrou-se de pro- messas que havia feito: eu me descuidei, com uma bela mulher...” (Ibidem: 41).
Como podemos observar, o texto não traz nenhuma indicação de promes- sas. A única menção é a de um convite para jantar, imediatamente seguida da
passagem já citada, em que se exprime sua “inextricável necessidade de falar”. Podemos ainda supor, sem grande benefício explicativo, uma elipse textual. Pa- rece mais vantajoso nos perguntar de que maneira as “promessas” estão conti- das no próprio convite: de acordo com nossa hipótese, o convite abre um ciclo de troca em que o contra-dom não deve ser nem imediato, nem restritivo, nem determinado. Ora, nesse caso, o contra-dom (a escuta atenta) é imposto, conco- mitante e muito preciso. Ele provém certamente da “boa vontade” em geral, mas sob condições que não respeitam a forma sacrifi cial.
Em suma, se um convite para jantar comporta uma promessa, seria a que respeitaria as cláusulas do modelo sacrifi cial subjacente. Paulette Mercadier, a esposa resignada, incorporou perfeitamente esse princípio, que ela emprega sempre em seus “grandes jantares” anuais: “Era um jantar para fi car quite com os colegas de Pierre e suas esposas” (Ibidem: 68). O problema aqui, certamente, é: fi car quite em relação a quê? Como os Mercadier não freqüentam os colegas do marido, supõe-se que seja justamente essa distância que é preciso ser com- pensada, e isso é confi rmado pelo texto, quando explicita que o jantar serve para “fi car quite”, em suma, com a diferença de riqueza e meio social entre Mercadier e seus colegas mais humildes e com a distância social que eles mantêm entre si. A forma sacrifi cial – nesse caso, perfeitamente codifi cada: seqüência, protocolo, distribuição de lugares e papéis – tem por objetivo fazer conhecer a natureza do contra-dom esperado: um crédito de boa vontade indeterminado, como com- pensação pela desigualdade das condições sociais e econômicas, que poderiam inspirar, a contrario, a má vontade.
O mesmo acontece com a refeição em Sainteville, organizada a partir do convite dos Pailleron. Aproveitando o pretexto do “salvamento” da fi lha Pail- leron por Mercadier, os Pailleron também propõem um ritual sacrifi cial, des- tinado a restaurar a boa vontade dos anfi triões, para compensar sua própria presença incômoda no castelo: de fato, a cordialidade da refeição é, em si mesma e ao mesmo tempo, uma promessa e uma busca pela boa vontade, em troca do ritual perfeitamente síncrono.
Em suma, o conteúdo que corresponde à expressão constituída pela “co- segmentação síncrona das práticas” é, exatamente aqui, uma forma de vida, regida por uma estrutura sintagmática específi ca (o rito “quase sacrifi cial”), e que comporta, especialmente, uma expectativa e uma promessa indefi nidas de boa vontade.
2.5.3.3. A recusa à boa vontade (provas de comutação)
Em nosso exemplo, provas de comutação não faltam, e dizem respeito, ao mes- mo tempo, às fi guras da expressão e do conteúdo. A troca fracassa a partir do mo- mento em que uma das duas propriedades da troca sacrifi cial não é respeitada.
No que concerne ao conteúdo, o contra-dom está predefi nido, restrito a uma data determinada. É o caso, sobretudo, das refeições na pensão dos Meyer, ao lon- go das quais é impossível esquecer que fazem parte da remuneração dos professo- res e inspetores da escola Robinel, razão pela qual são tão mesquinhamente ser- vidas: essas refeições não têm mais nenhum caráter sacrifi cial, já que participam de uma troca de tipo trabalho/retribuição e sua qualidade é proporcional ao valor comercial dos ensinamentos (valor em baixa constante, diga-se de passagem!).
A atmosfera das refeições de férias em Sainteville é menos desagradável, mas não menos signifi cativa: fi camos sabendo, ao mesmo tempo, que o tio é pago pelos pais para hospedar os sobrinhos, e que ele pouco fala com eles du- rante as refeições: sobre o pano de fundo de uma troca de tipo comercial, e não de tipo sacrifi cial, é inútil, portanto, jogar conversa fora, já que, de qualquer ma- neira, o objetivo da troca não é despertar a boa vontade de quem quer que seja. No que concerne à expressão, a co-segmentação síncrona não é respeitada. É o que se passa com as refeições em que a conexão e a sincronização dos dois percursos práxicos estabelecem-se mal ou não se estabelecem de forma alguma. É e o que se passa também com as refeições interrompidas. Por exemplo, a sogra de Mercadier sempre se recusa a ter boa vontade para com seu genro ou, ainda, Mercadier recusa-se a ter boa vontade para com sua mulher.
Conseqüentemente, os diferentes tipos de transgressão confi rmam, de for- ma sistemática, a relação semiótica entre expressão e conteúdo: uns afetam o conteúdo (o modelo sacrifi cial), outros, a expressão (a co-segmentação das duas práticas). Mas assim que a transgressão incide sobre um dos dois planos, o ou- tro é também sistematicamente afetado: a dessincronização das duas seqüên- cias compromete a boa vontade, e o caráter não-sacrifi cial da troca perturba a co-segmentação síncrona. Na verdade, é somente quando a ordem da refeição consegue impor sua seqüência (número e ordem das fases), sua aspectualidade (completa/incompleta) e seu ritmo (a duração e a intensifi cação das fases) à conversa, é que ela demonstra sua efi ciência simbólica e suscita, em contrapar- tida, a boa vontade recíproca dos parceiros. Todavia, é também porque a troca sacrifi cial não funciona bem (pelo fato de as propriedades do contra-dom não serem respeitadas, por exemplo) que os dois percursos vão desconectar-se e que
a montagem estratégica vai desfazer-se, sincopar-se, abreviar-se ou fi xar-se em uma mera repetição.
No caso da refeição na Exposição Colonial (cena 1), por exemplo, o almi- rante descumpre sua “promessa” implícita de duas maneiras (daí, talvez, o plu- ral: suas promessas): (1) no plano do conteúdo (o modelo sacrifi cial), defi nindo e impondo o contra-dom, nesse caso, a escuta atenta e solícita de sua tagarelice; (2) no plano da expressão (a co-segmentação síncrona das práticas), mantendo uma conversa contínua e monótona que permanece insensível à segmentação da refeição.
Portanto, estamos realmente diante de uma relação semiótica forte, em que os dois planos são solidários e sensíveis às operações de comutação.