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Discutir sobre a universidade como instituição de domínio do ensino superior e produção de pesquisa é apontar a crise no ensino superior, por seu caráter hierarquizado e excludente, de modo que ele/ela deixam de ser consensualmente aceitos quando a promessa de democratização, inclusão social e educacional não é satisfeita, ela entra numa crise de hegemonia, em que há sua crescente descaracterização intelectual. E, ainda, numa crise de legitimidade, em que deixa de ser única e exclusiva. Com isso, a universidade perde seu status de liderança nos processos educacional, cultural e até mesmo político dentro da sociedade, pois sua incapacidade para desempenhar funções contraditórias leva os grupos sociais insatisfeitos a procurarem meios alternativos para atingirem seus objetivos.

A universidade é uma instituição social e, como tal, exprime de maneira determinada a estrutura e o modo de funcionamento da sociedade acadêmica. Ela precisa contribuir para o desempenho dos seus alunos: fomentar competências, e não ideias. Em outras palavras, a universidade como instituição social diferenciada e autônoma só é possível em um Estado republicano e democrático. Contudo não é de sua competência discutir ou questionar sua própria existência, sua função social. Sobre essa configuração de saberes, diz Boaventura Santos:

A configuração de saberes é sempre, em última instância, configurações de práticas sociais. A democratização da universidade mede-se pelo respeito do princípio da equivalência dos saberes. A universidade será democrática se souber usar o seu saber hegemônico para recuperar e possibilitar o desenvolvimento autoritário de saberes não hegemônicos, gerados nas práticas sociais (1999, p. 198).

A produção de conhecimento constitui-se no objetivo supremo de toda a produção acadêmico-científica, que se concretiza a partir do diálogo do pesquisador com as demais vozes em cadeias discursivas, sendo a universidade o espaço legítimo de acolhimento, produção e divulgação do pensamento científico. Lugar não apenas de aquisição da

informação e de construção do conhecimento – função centralíssima, por certo –, mas também lugar propício ao ensino e à aprendizagem, ou seja, à preparação de novas gerações capazes de dar continuidade ao projeto de construção do conhecimento.

Segundo Chauí (2001), o modelo organizacional burocrático, baseado na fragmentação, no segredo e na divisão entre dirigentes e executores, corresponde ao

taylorismo, como regra generalizada. Isso significa uma fragmentação não casual ou

irracional, mas deliberada, pois obedece ao princípio da empresa capitalista moderna. Essa fragmentação do ensino e da pesquisa é o corolário de uma fragmentação imposta à cultura e ao trabalho pedagógico pelas ideias de especialização e de competência. Segundo essa lógica, a reunificação do dividido não se fará por critérios intrínsecos ao ensino ou à pesquisa, mas por determinações extrínsecas, ou seja, pelo rendimento e pela eficácia.

O que caracteriza a burocracia é a hierarquia funcional de postos e cargos, que, por sua vez, determina uma hierarquia de salários e de autoridade, um sistema de poder no qual cada um sabe quem o comanda diretamente, sem que seja possível uma visão do conjunto e a determinação das responsabilidades. Por seu turno, a administração, forma contemporânea da racionalidade capitalista, implica a total exterioridade entre as atividades universitárias de ensino e pesquisa e sua direção ou controle (op. cit. p. 56-57).

A universidade brasileira passa por uma crise que vai desde seu conceito até a forma como ela vem tratando o conhecimento. A universidade é, também lugar de imposição deliberada de uma vida cultural fragmentada, fundada em uma radical separação entre decisão e execução, que, por sua vez, conduz a uma unificação bastante precisa no que se refere à burocratização.

A crise de hegemonia, em que a universidade perde sua supremacia, ocorre quando ela deixa de ser a única instituição no domínio do ensino superior. Essa crise resulta das contradições entre as funções tradicionais da universidade e as que, ao longo dos últimos anos, passaram a ser-lhe atribuídas e a incapacidade de desempenhar funções contraditórias, como, por exemplo: alta cultura versus cultura popular, educação versus trabalho, teoria

versus prática, conhecimentos exemplares versus conhecimentos instrumentais, etc. A crise de

legitimidade, em que a universidade perde sua qualidade de ser, quando ocorre, torna-se socialmente visível que a educação superior e a alta cultura são prerrogativas das classes superiores: com a hierarquização dos saberes, a universidade restringe seu acesso.

Afetada irremediavelmente a hegemonia, a legitimidade é, simultaneamente, a mais premente e a mais difícil. A luta pela legitimidade será, cada vez mais, exigente, e a reforma da universidade deve focar, segundo Sousa Santos (2005), seis áreas de ação como princípios

orientadores, nesse domínio, para reconquistar a legitimidade: acesso, extensão, pesquisa- ação, ecologia de saberes, universidade e escola pública, universidade, indústria e reforço da responsabilidade social da universidade. Desse modo, a universidade deve enfrentar o novo com o novo – pois o que foi bom para poucos foi ruim para muitos -, lutando pela democratização do bem público e lutar pela definição da crise, saindo da posição defensiva, revisitando a crise de hegemonia e legitimidade.

A universidade, como bem público, é hoje um campo de enorme disputa, mas o mesmo acontece com o Estado. Nesse caso, a direção que seguir a reforma da universidade será a direção em que estará indo a reforma do Estado, pois a disputa é uma só, algo que os universitários e os responsáveis políticos devem ter sempre presente.

Muitos são os desafios enfrentados pela universidade quanto à produção de conhecimento por intermédio da escrita, mas há um consenso sobre as consequências que a ausência da prática da pesquisa pode causar à academia. Por isso defendemos a ideia de que se deve olhar para os processos de produção escrita acadêmica sem julgamento no que se refere a uma prática de escrita do sujeito com o trabalho de pesquisa.