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Neste item, a discussão se dá em torno dos processos de produção de escrita acadêmica como trabalho daquele que, ao escrever, não se limita às regras da cultura, mas desenvolve um processo contínuo de escrita e reescrita do texto de forma a estabelecer certo engajamento entre o dizer do outro e o próprio dizer, revelando implicação com o que escreve. Assim, há a necessidade de refletirmos sobre a correlação entre esses pontos no que diz respeito à área da linguagem. Partimos do pressuposto de que o texto acadêmico deve apresentar bons resultados como produção de conhecimento universitário.

Numa produção escrita acadêmica, a singularidade está em um domínio neutro, no qual ela não pertence ao indivíduo nem ao coletivo e não surge a partir da relação entre eles, mas preexiste ao próprio sujeito. A singularidade aponta para a direção da multiplicidade dos acontecimentos que, materializados na escrita, instituem processos de produção escrita.

Para a discussão sobre processos de produção escrita acadêmica, fazemos aproximações com a discussão apresentada por Deleuze (2006) ao tratar do ato de criação, tomando-a como ponto de partida para pensarmos, fora da identidade e da representação, em que cada área, no seu enfrentamento com o outro, obtém a sua criação singular. Na filosofia, o

campo de criação é chamado de “plano de imanência”, seus interferentes são “personagens conceituais”, e sua criação final são os “conceitos” – que não devem ser confundidos com ideias gerais e abstratas.

Na filosofia, o conceito tem interferências de outras formas de saber e de outras expressões, como pontes que tocam outras áreas e liberam caminhos que tocam os conceitos, formando, assim, a história por trás da criação de conceitos. O que sobressai dessa relação de interferência é que as diversas formas de criação são válidas, na medida em que auxiliam o pensamento a quebrar os ditames da representação do outro no discurso e a formular uma nova imagem desse pensamento em sua materialização.

É interessante, para esta pesquisa, notar as apropriações realizadas por Deleuze para forjar um pensamento sobre o ato de criação, o que reitera a ideia de que, na escrita acadêmica, o “outro” pode ser dito no interior de um texto de diferentes formas, mas cada sujeito o cria, cada vez, a sua maneira. Outro aspecto interessante é que esse “outro”, que atravessa o dizer, pode surgir de qualquer outra área, e interferir com igual significância no processo de produção de escrita da pesquisa. Não se pode perder de vista, entretanto, que esse processo é regulado por influência do legado cultural, regulação que é responsável por normatizar os modos de dizer. E se volta tanto para os usos e costumes como para a construção de um sentido não transparente do dizer do outro. Assim, a construção de uma escrita ocorre por um processo de interação do sujeito com o outro, de modo que o pensamento e a capacidade de construir os discursos se realizam no interior desses discursos, em que o sujeito, ao inscrever com suas palavras as palavras do outro, sofre a ação das palavras desse outro sobre seu dizer.

Na escrita acadêmica, a teoria pode ser pensada como uma caixa de ferramentas necessária, mas que precisa servir aos propósitos de construção do texto. Uma teoria não deve ser meramente um enfileiramento de termos que querem dizer alguma coisa. Um texto não tem por que ser mimetismo acadêmico, mas, de outro modo, um exercício analítico e argumentativo que permita que o autor fale por si.

Barthes (2000), em seu livro O grau zero da escrita, discute diversos registros retóricos a partir da conjunção entre língua, estilo e escrita. Ele sustenta que essa conjunção é capaz de firmar certo regime de alteridade em dois âmbitos simultâneos: a alteridade mesma daquele que escreve (a inserção de seu estilo no campo tutelado da língua) e a daquele a quem a escrita é potencialmente endereçada, já que esta, normal e ao mesmo tempo singular, torna o estilo passível de socialização. Pode-se dizer que a “escritura”, ou “literatura”, é a máxima

inscrição do sujeito no ato da emissão dos enunciados, que fala através do texto sem que o sujeito tente ocultar-se.

O texto é tecido, e nessa tessitura, é possível o sujeito inscrever-se por meio das palavras e perceber nelas cada letra, cada forma e cada escritura fazendo-se. Isso seria “o grau zero”, o nível básico de construção da escrita. Obviamente, Barthes percebeu que não existe literatura sem uma “moral da língua”, sem a forma, sem a escrita. Mas que a escritura é uma opção necessária que o escritor tem ou faz entre as várias morais da língua, por meio da qual busca comunicar ou exprimir um dizer. Talvez não exista uma escrita sem a presença do outro. A escrita atravessa o olhar, o fazer e a ausência, pois nem sempre as palavras conseguem recobrir totalmente o dizer do outro. A escrita é um exercício de constantes idas e vindas ao outro discurso, pois aquele que escreve precisa encontrar, em seu caminho, estratégias para poder enfrentar e assumir que jamais se pode produzir um texto sem destruir algo de si e do outro e então constituir-se pesquisador.

Outro autor que discute sobre a escrita como ato de criação com o qual fazemos uma aproximação no que diz respeito à ideia de processos de produção de escrita acadêmica é Barzotto (2011). Para falar sobre o ato de criação, ele recorre à metáfora das “fúrias mitológicas” no exercício da escrita. Para o autor, no exercício de escrita como ato de criação, para que algo de novo aconteça o sujeito precisa negar, destruir, subverter, pelo menos em parte, o que foi produzido antes. Tentativas de evitar vingança das fúrias fracassam, porque não se tem controle sobre todos os fios da escrita (e da vida). Assim, assumir os riscos é condição para haver escrita (2011, p. 33-46). Nesse sentido, em se tratando de processos de escrita, para que um sujeito surja é necessário que algo do outro sujeito seja invalidado no texto. Por outro lado, se, ao invés de uma escrita que rompa com algo que já passou, houver apenas uma reprodução, ou o senso comum, não haverá o exercício da escrita, mas sim uma escrita que não imprime um gesto de articulação do sujeito, no qual este deixa marcas de sua posição enunciativa.

Diferentemente de uma escrita que simplesmente responde às exigências da cultura, há quem escreve sem fugir do rigor da cultura e consegue colocar algo de si na produção que assina. Pode-se dizer que, em relação à escrita acadêmica, mesmo com as várias formas de regulação, aquele que escreve deve encontrar modos (processos) de dizer, para que possa aparecer em seu escrito. Na escrita, mesmo regulada pelas regras da cultura (do texto escrito), existe sempre algo que se possa “burlar”; ou seja, algo sempre escapa desse controle. Nisso reside modos diversos de lidar com os discursos já legitimados e propiciar uma leitura produtiva sobre o já dito. Na escrita acadêmica, são muitas as formas de se deixar uma ideia,

uma marca, gestada no corpo e na experiência do sujeito, que se torna, pouco a pouco, sua arte, a escrita.

Essas marcas revelam o sujeito e o outro na materialidade do texto. Nesse sentido, assim como o ato de criação não está em um trabalho que não se resume a encontrar “boas ideias”, os processos de produção escrita não se resumem a apenas planejar “bons” recursos expressivos para bem expressá-las, nem a encontrar modos de realizar uma interação com o outro. Trata-se, antes, de ler, no silêncio das palavras, algo não dito e, na ficção do texto, dar forma às ideias. No atravessamento do sujeito, dessa relação com o outro nasce a produção de conhecimento.

Na relação com o outro, o pesquisador, através de sua vivência, consegue pôr em prática processos de escrita, o que faz com ele acabe por se deslocar de um lugar primeiro e surpreender com o que produziu. No entanto, ele precisa encontrar a justa medida, que seria o equilíbrio de dizer com suas palavras o que já foi dito e o próprio dizer, aquilo que nem é demais nem é pouco, que está longe de cada um dos extremos e que é único.

A prática da escrita como liberdade do pensamento permite penetrar em um descaminho, na (des)construção de novos temas, conceitos, aprendizagens do escrever, em que produzir sentidos, conceitos, sensações e pensamentos implica, de alguma forma, a construção do próprio dizer. Neste, a relação com o outro, imanente à escrita acadêmica, deve ser operada em processos de dizer que potencialize os discursos que o sujeito mobiliza na escrita. Ler, investigar, refletir é atribuição do pesquisador.

Entretanto pode-se dizer que o aprendizado da escrita não é da ordem da instrumentalização ou da aprendizagem por meio da repetição de uma teoria ou questão posta por um professor mais experiente. Trata-se de um aprendizado que pressupõe que o sujeito pesquisador construa para si formas de mobilizar a linguagem e o conhecimento oferecido ao longo de sua formação, faça cálculos de possibilidades de futuro, dialogue com o outro – o possível leitor daquilo que produz – e, dialogando, construa uma leitura própria daquilo que lê e, consequentemente, faça da interpretação a base principal de sua produção escrita, o que implica a recusa de ser mera repetição de autores lidos. Mas, sobretudo, que consiga assumir uma posição de sujeito enunciador no texto que assina.

A dificuldade de escrita, que pode ser localizada na universidade e nas demais etapas da escola básica, não advém de uma incapacidade de aprender, mas da pouca experiência para produção de uma escrita própria. Essa dificuldade ocorre porque, na contemporaneidade, os espaços de constituição do sujeito e da linguagem se fragmentaram e se individualizaram. Consequentemente, no trabalho com a linguagem, o sujeito da informação (LARROSA,

2004) fica preso ao plano reiterável do outro no discurso, perdendo, com isso, a sensibilidade para perceber que a linguagem comporta também outro plano: o da não reiterabilidade da enunciação, que faz a palavra ser sempre diferente em cada texto. Como consequência, tem-se um sujeito contemporâneo que orienta e define todo um processo de construção de conhecimento universitário, o qual,

[...] além de ser um sujeito informado que opina, além de estar permanentemente agitado e em movimento, é um ser que trabalha, quer dizer, que pretende conformar o mundo, tanto o mundo’ natural’ quanto o mundo ‘social’ e ‘humano’, tanto a ‘natureza externa’ quanto a ‘natureza interna’, segundo seu saber, seu poder e sua vontade. [...] O sujeito moderno se relaciona com o acontecimento do ponto de vista da ação. Tudo é pretexto para a atividade (LARROSA, 2004, p. 121-123).

Reforçamos, então, mais uma vez que não é objetivo de nossa investigação – nem acreditamos que, no meio acadêmico, exista – um modo correto de lidar com as palavras alheias; faz-se necessário um aprendizado por parte de quem escreve. A função do percurso apresentado a partir dos exemplos que citamos é reafirmar nossa tese principal, de que há diferentes processos de produção de escrita acadêmica possíveis de serem mostrados linguisticamente, podendo-se observar as diferentes formas como o sujeito marca sua relação com a voz do outro, isto é, marca a presença da teoria que fundamenta seu trabalho de pesquisa. Assim, podemos dizer que o pesquisador precisa dominar as diferentes formas de inserção do outro no discurso, de modo que, ao marcar a participação do outro, demonstre uma reflexão sobre a língua, e não só repita o que já foi dito.

A escrita responsabiliza quem escreve, porém a utilização do discurso de outros autores por meio de recursos linguísticos produz como efeito a imagem de que, citando-se o autor que tem autoridade sobre o dizer e que fundamenta o trabalho de escrita da pesquisa, divide-se, involuntariamente, a responsabilidade com ele.

Partimos dessas reflexões para introduzir o leitor no percurso que nos propomos fazer para chegar ao cerne de nossa discussão: os processos de produção escrita acadêmica em dissertação de mestrado da área de linguística.

No próximo capítulo, apresentaremos os conceitos que consideramos relevantes como ancoragem teórica para nossa pesquisa e outros conceitos, mobilizados para dar sustentação às análises no decorrer da escrita do trabalho.

ARRANJOS LINGUÍSTICOS: DA HETEROGENEIDADE À PRODUÇÃO DE SIMULACRO

No capítulo anterior, o diálogo se deu com base em pesquisas que tomam a escrita como objeto de reflexão, as quais são produzidas por autores que, ligados por princípios semelhantes, se debruçam sobre questões relativas à produção de conhecimento, na universidade, por intermédio da escrita. Neste, considerando que a investigação passa por uma leitura e discussão de conceitos fundamentais à pesquisa e que auxiliam na interpretação de arranjos linguísticos e de suas formas de utilização do discurso de outros autores (discursos citados) que constituem o trabalho de escrita das dissertações, apresentaremos uma reflexão teórica sobre os arranjos linguísticos – heterogeneidade discursiva: alusão, paráfrase e simulacro.

Inicialmente, trataremos da heterogeneidade a partir das formas de alusão ao discurso outro, o fenômeno da presença do outro discurso de forma não marcada (Authier-Revuz, 1998, 2014). Num segundo momento, discutiremos a classificação do processo parafrástico de Fuchs (1985), complementando com uma reflexão sobre a concepção de Pêcheux (1997) em relação à formação imaginária. Por fim, com o intuito de contextualizarmos métodos e formas de análises, faremos aproximações com o conceito de simulacro, proposto por Baudrillard (1981), para as formas de orquestração de vozes, que consideramos como processos de produção de escrita das dissertações de mestrado em estudo.

Para isso, retomaremos os estudos de Authier-Revuz (2004) sobre as formas de heterogeneidade discursiva, particularmente aquelas em que há discurso citado de forma alusiva, para analisar as demarcações do discurso de outros autores na produção da escrita científica, especialmente as características da produção discursiva escrita e os modos de utilização do discurso outro. Faremos isso com o intuito de compreender os processos de produção de escrita acadêmica, a partir das formas de articulação que o pesquisador realiza ao mobilizar uma dada teoria, conceitos e autores no trabalho de escritura de sua pesquisa.

Segundo Authier-Revuz (2004), partindo-se das formas mostradas, que atribuem ao outro um lugar delimitado no discurso e passando-se pelo continuum das formas recuperáveis da presença do outro no discurso, chega-se, “à presença do outro – às palavras dos outros, às outras palavras – em toda parte sempre presentes no discurso, não dependente de uma abordagem linguística” (AUTHIER-REVUZ, 2004, p. 21). Eis a constatação da realidade da

heterogeneidade constitutiva, como indica o próprio termo, de que o discurso do outro é sempre onipresente, ou seja, está presente em toda parte.

A referência aos estudos de Fuchs (1985) sobre paráfrase é também realizada por compreendermos a paráfrase como um processo imanente à escrita acadêmica e, portanto, tem muito a contribuir para a descrição e o desenvolvimento do processo de escrita acadêmica marcado pela presença do outro, permite identificar diferentes formas de produção de outros discursos, mesmo quando não se demarca claramente essa presença.

Mobilizamos a noção de simulacro proposta por Baudrillard (1981) para fazermos aproximações teóricas e a relacionarmos com os processos de utilização do discurso outro e as diferentes modalidades de relação do pesquisador com os outros discursos que ele mobiliza para sustentar seu ponto de vista sobre aquilo que diz em relação aos discursos já proferidos. Considerando-se que todo discurso é constitutivamente heterogêneo, as formas de articulação dos discursos, que têm por base um discurso-fonte, constroem simulacros das formas de representação do outro na materialidade do texto. São operações linguísticas das formas de o pesquisador lidar com as diferentes vozes no trabalho de escrita de sua pesquisa. Esses processos servem de base para compreendermos as formas de orquestração de vozes na escrita das dissertações de mestrado.

Ao adotarmos essa perspectiva como fundamento para as análises, considerando o contexto social em que o sujeito está inserido – o acadêmico -, a representação por ele construída envolve teorias, conceitos e autores utilizados para a fundamentação da investigação e, consequentemente, o simulacro que se constrói.

A palavra do outro é condição do processo gerador e mantenedor do ato de escrever com rigor teórico e cientificidade, movimento estruturante de constituição do discurso e marca da presença do outro no fio do discurso. Esse diálogo, marcado por tensões, se delineia entre o teórico e o empírico e dá forma à pesquisa. Sinaliza perspectivas teóricas que concebem o discurso como heterogêneo e a enunciação como atividade que, na interação do sujeito com os outros discursos, deixa marcas da exterioridade na materialidade da língua. O percurso teórico guia a leitura sobre os arranjos linguísticos que engendram as diferentes vozes na escrita das dissertações de mestrado.

Para a reflexão, tomamos como categorias de análise três conceitos – alusão, paráfrase e simulacro -, que serão explicitados mais adiante, nesta ordem. Acreditamos ser possível produzir abstrações da escrita das dissertações com base nesses conceitos, que podem ser sintetizados do seguinte modo:

1) Alusão – o outro como menção e uso-retomada localizável no fio do discurso ou não localizável (AUTHIER-REVUZ, 1998, 2004, 2011); heterogeneidade mostrada não marcada.

2) Paráfrase – atividade linguística sob três perspectivas: lógica de equivalência formal; perspectiva gramatical sinonímia: e perspectiva retórica: reformulação (FUCHS, 1985).

3) Simulacro – estratégia de orquestração de vozes no discurso. (BAUDRILLARD, 1981).

Em função do exposto, apresentamos, a seguir, a discussão sobre o percurso teórico que embasa as categorias linguísticas adotadas para o trabalho de análise da escrita das dissertações, buscando interpretar e descrever, pelas formas linguísticas, como o pesquisador lida com os outros discursos.