Parte I – O património artístico móvel do Patriarcado de Lisboa
I. 1.1 – A história do Patriarcado de Lisboa
Nas raízes etimológicas da palavra grega atribuía-se a dioíchesis o significado de administração, governo, direcção. Originalmente, o termo diocese foi utilizado pelo direito romano para designar o território e a jurisdição da civitas, sede que manteve as características espaciais mas evoluiu para a ideia de unidade administrada por um bispo63. A origem da diocese de Lisboa remonta, por isso, à civilização romana.
É interessante verificar que a escrita de uma história monográfica da diocese de Lisboa continua (ainda) por fazer, e disso já se queixava o cónego Isaías da Rosa Pereira (1919-1998) em 196864. O cónego, um dos mais reputados nomes do estudo da história da religião em Portugal, admitia que embora o “Arquivo da Cúria Patriarcal de Lisboa, [estivesse] empobrecido pela incorporação da maior parte das suas espécies na Torre do Tombo e na Biblioteca Nacional de Lisboa, guarda[va] ainda um notável núcleo de documentos, muitos deles recolhidos de cartórios paroquiais, onde a sua conservação era deficiente, e que são indispensáveis para o estudo e elaboração da história desta Diocese”65.
Infelizmente, a situação mantém-se. Embora disponha de um arquivo documental nas instalações do Patriarcado no Mosteiro de São Vicente de Fora, a catalogação e disponibilização dos inúmeros espécimes debate-se com a falta de espaço e de equipa, continuando por isso muito atrasada. Resulta assim que a bibliografia sobre este tema seja escassa, ainda que a obra mais recuada date do século XVII, já que em 1643saía da prensa a Historia ecclesiastica da Igreja de Lisboa66. A obra póstuma de
62 Neste texto “diocese” e “patriarcado” de Lisboa surgem como sinónimos ainda que do ponto de vista
formal só se possa falar da existência de um patriarcado de Lisboa a partir de 1716, como adiante veremos.
63 Sobre a história da palavra e seu desenvolvimento no âmbito religioso ver José Paulo Leite de Abreu,
“Diocese” in, Azevedo, Carlos Moreira (dir.) – Dicionário de História Religiosa de Portugal. [Lisboa]: Círculo de Leitores/Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, 2000- 2001, vol. 2, pp. 69-72.
64 “Sua Eminência [D. Manuel II, o cardeal Cerejeira] foi professor de História na Universidade de
Coimbra e ao ocupar a cadeira patriarcal formulou, desde logo, o propósito de interessar alguém no estudo da história da Diocese. Infelizmente, passados quase quarenta anos, ninguém se ocupou deste trabalho, apesar das tentativas feitas pelo ilustre Mestre de Coimbra”, texto assinado por Isaías da Rosa Pereira em, O Patriarcado de Lisboa. Exposição. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 1968, p. 7.
65 Idem. Para a história da cidade de Lisboa e das suas freguesias, a melhor e mais eficaz síntese continua
a ser o trabalho de Silva, Augusto Vieira da – Dispersos. Lisboa: Oficinas Gráficas da Câmara Municipal de Lisboa, 1954, vol. 1: “A evolução paroquial de Lisboa”, pp. 173-215 e “Notícias históricas das freguesias de Lisboa”, pp. 219-99.
66 D. Rodrigo da Cunha, Historia ecclesiastica da Igreja de Lisboa. Vida, e acçoens de seus prelados, &
varões eminentes em santidade, que nella florecerão. Em Lisboa: por Manoel da Sylua, 1642. Embora
1642 seja a data que consta na folha de rosto, a dedicatória assinada por Manuel Escobar vai datada de 30 de Outubro de 1643, mencionando ainda a morte inesperada do prelado.
D. Rodrigo da Cunha (1577-1643) fazia um primeiro esboço da história da diocese que, embora recorrendo a documentos e à tradição transmitida secularmente nas dioceses a que presidiu, revela alguns excessos narrativos cometidos pelo prelado.
A tradição faz recuar a história aos mártires Veríssimo, Máxima e Júlia (venerados ao longo dos séculos pela cidade e mais tarde patronos da igreja de Santos- o-Velho) que, replicando exemplo de casos semelhantes passados noutras partes do império romano, teriam sido perseguidos por Diocleciano (244-311).
Ainda que a lenda refira a existência de bispos olissiponenses desde o século I, só com São Potâmio (c. 356) se encontram referências documentais67. E, desde então, o bispado de Lisboa só esteve vacante durante o período de domínio árabe da cidade (716- 1147) – mesmo que, como se sabe, o culto cristão tenha sido tolerado e existam menções a bispos moçárabes (dos quais, contudo, se desconhecem os nomes) – e entre 1643 (morte de D. Rodrigo da Cunha) e 1670 (nomeação de D. António de Mendonça), uma vez que Roma não nomeava bispos para o Portugal restaurado, dada a oposição da coroa espanhola.
O primeiro bispado da Lisboa cristã data, portanto, da conquista afonsina da cidade depois de 1147 e68, não estranhamente – uma vez que a cidade foi tomada debaixo do espírito cruzadístico europeu que caracterizou o século XII –, foi encabeçado por um inglês, Gilberto de Hastings (1148-1166). Este prelado, consagrado por D. João Peculiar, bispo de Braga (um dos mais acérrimos defensores da autonomia eclesiástica do novel reino de Portugal em relação a Compostela e a Toledo), foi particularmente importante para o estabelecimento e desenvolvimento de Lisboa como
67 Sobre este assunto e a contextualização lendária de D. Rodrigo da Cunha acerca da história da diocese
de Lisboa veja-se A Igreja Diocesana de Lisboa. Estudo monográfico. Lisboa: Patriarcado de Lisboa, 1980 (texto do Pe. Manuel Clemente, “Origens”, pp. 7-14) e Manuel Clemente, “Lisboa, Diocese e patriarcado de” in, Azevedo, Carlos A. Moreira (dir.) – Dicionário de História Religiosa de Portugal, vol. 3, pp. 93-4.
68 “A Carta a Osberno dá-nos ainda algumas indicações sobre a reconstituição diocesana: a 25 de
Outubro de 1147 realizou-se a entrada solene e processional dos conquistadores na cidade, com o arcebispo de Braga, D. João Peculiar, à frente, acompanhado de outros bispos; depois, iam D. Afonso Henriques, os chefes cruzados e mais alguns escolhidos, todos a caminho do castelo, onde se levantou o estandarte da cruz; a mesquita grande, com sete ordens de colunas, estava cheia de mortos e doentes; a 1 de Novembro foi purificada pelo arcebispo e quatro bispos e instalou-se nela a sede do bispado reconstituído, abrangendo este, para além do Tejo, o castelo de Alcácer, o de Palmela e a região de Almada; aquém do Tejo, o castelo de Sintra, o de Santarém e o de Leiria; os seus termos iam do castelo de Alcácer ao de Leiria, e do mar ocidental até à cidade de Évora.”, idem, p. 95. O autor do artigo ressalva que, embora os dados estejam correctos, as datas apresentadas na narração medieva foram ajustadas, uma vez que quer a conquista de Alcácer quer das terras alentejanas seria, obviamente, posterior. Todavia, exceptuando os direitos de Leiria (cedidos a Santa Cruz de Coimbra, Julho 1156) e da Igreja de São Tiago de Santarém (cedida aos Templários), estas foram as fronteiras da diocese de Lisboa durante o início da dinastia de Borgonha.
uma diocese de importância, e para a consequente consolidação da soberania portuguesa.
Tendo-se dedicada a funções diplomáticas (particularmente na procura de apoio de cruzados ingleses e franceses para a conquista do território da Península Ibérica sob a égide da dinastia de Borgonha, aos fragmentados e desavindos reinos das taifas), Gilberto de Hastings deu ainda início à construção da Sé e procedeu à necessária organização do cabido e das paróquias citadinas69.
Para as obras e engrandecimento da Sé da cidade de Lisboa, D. Afonso Henriques concedeu a D. Gilberto, em 8 de Dezembro de 1149, as trinta e duas antigas mesquitas (com suas rendas e herdades). Demolida a mesquita grande, iniciou-se a construção cristã sobre os fundamentos (grosso modo) do anterior edifício, instalando- se desde logo o cabido para garantir o culto70, alguma instrução e participação na administração diocesana.
Data desta altura a introdução do breviário de Salisbury, que só foi substituído já no século XVI pelo filho-cardeal de D. Manuel I, o arcebispo D. Afonso (1509-1540; arcebispo de Lisboa entre 1523 e 1540), que optou então pelo Breviarium Romanum71, ou Liturgia das Horas, conforme nomenclatura adoptada após a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II.
Lisboa foi elevada a arquidiocese metropolitana por bula do papa Bonifácio IX em 1393 (10 de Novembro) no reinado de D. João I72, passando a ser dirigida por um arcebispo, e tendo à cabeça da lista João Anes (que ficou conhecido como D. João I), cujas ossadas ainda se guardam, em caixa pétrea posterior, no edifício da Sé.
69 A Igreja Diocesana de Lisboa, pp.8-9.
70 Órgão que remonta aos “capítulos” das ordens monásticas e que, na prática, reunia o grupo de
colaboradores e conselheiros do bispo. No início, o cabido vivia inclusive em comunidade com o bispo e, no caso de Lisboa, só em 1191 se efectuou a separação dos bens das mesas episcopal e capitular, cessando a vida comunitária. A principal função dos cabidos era de tipo litúrgico, mas também coadjuvavam o bispo, prestando-lhe assistência e conselho, bem como, desempenhando papéis assistenciais e de ensino (designadamente no que respeitava às escolas capitulares, no período anterior à criação dos estudos gerais). Sobre este assunto ver Ana Maria S. A. Rodrigues, “Cabido” in, Azevedo, Carlos A. Moreira (dir.) – Dicionário de História Religiosa de Portugal, vol. 1, pp. 278-9.
71 Esta decisão do cardeal-arcebispo D. Afonso foi uma resposta ao Act of Supremacy (1535) assinado por
Henrique VIII de Inglaterra, e pelo qual criava a Igreja Anglicana. A decisão foi tomada durante o sínodo da arquidiocese em 1536 (25 de Agosto), tendo o cardeal decretado também a instituição de livros de registo de baptismo (medida que seria mais tarde adoptada pelo Concílio de Trento), bem como, a renovação da obrigatoriedade da elaboração dos registos paroquiais, instituídos pela carta régia de 7 de Dezembro de 1352.
Segundo a tradição, também a história cardinalícia portuguesa remontará à dinastia de Borgonha e ao reinado de D. Afonso III (1248-1279), com a criação a cardeal de Mestre Gil (ou Egídio; tesoureiro da Sé de Coimbra e cónego de Viseu), pelo papa Urbano IV (1261-4). Não havendo confirmação documental para este episódio, já é certo que o lisboeta Pedro Julião (1205/1220?-1277), mais conhecido por Pedro Hispano ou papa João XXI (1276-7), foi nomeado cardeal pelo papa Gregório X (1271- 6).
E se até este momento a diocese lisboeta tinha também ela sido contemplada com a criação de cardeais, seria porém o nome de D. Tomás de Almeida (1670-1754) a fundar uma tradição que se estabeleceu como distintiva: a do patriarcado. Com efeito, o título foi o culminar de toda uma insistente política eclesial levada a cabo pela novel dinastia de Bragança. Mas quais são os acontecimentos que levaram a resultado?
A vida da diocese lisbonense, também capital do reino, complexificara-se ao longo do final da época medieval e época moderna conforme se foi dando uma aproximação e/ou dependência dos assuntos da coroa. Não foram poucos os casos de bispos da cidade oriundos da família real (irmãos e filhos de rei), e mesmo quando assim não era, o cargo de responsável pela diocese de Lisboa tornou-se com o tempo cada vez mais político73. É neste sentido que as vicissitudes pelas quais o reino passava se reflectiam na capacidade e formas de gestão da diocese. Assim, se por um lado a família real (num sentido alargado) se tornou patrona e mecenas das igrejas, institutos, conventos e confrarias da cidade, sujeitou, por outro lado, a acção pastoral aos ditames político-diplomáticos.
Não é de estranhar, portanto, que ocupando D. Rodrigo da Cunha a cadeira da Sé de Lisboa (onde entrou em 10 de Agosto de 1636) em Dezembro de 1640, esta tenha
73 “O que já se indiciava no comportamento de D. Afonso Henriques e D. Sancho I, ao quererem desligar
de Compostela os bispos de Lisboa, ganha a partir de agora [1393 com a elevação a metropolita] uma consistência ideológica muito mais forte, que nos conduzirá ao regalismo moderno com seus esplendores e ambiguidades. Será este um condicionamento básico da vida das nossas dioceses em geral; mas sê-lo-á muito especialmente da Igreja de Lisboa, pela sua particular ligação à capital e à corte.”, Manuel Clemente, “Lisboa, Diocese e patriarcado de” in, Azevedo, Carlos A. Moreira (dir.) – Dicionário de
História Religiosa de Portugal, vol. 3, pp. 97-8, e “Atendendo, porém, a que, no tempo em que ele [D.
Rodrigo da Cunha] governou a Igreja Primacial, os Prelados, sem descurarem a vida religiosa, tinham de dispersar boa parte da sua actividade por problemas de ordem administrativa, económica e político-social, sobretudo quando implicavam com os direitos e privilégios diocesanos,…”, Costa, Pe. Avelino de Jesus da – Centenários natalícios dos Arcebispos de Braga D. Frei Baltasar Limpo e D. Rodrigo da Cunha. Sep. Revista Bracara Augusta. Vol. XXXIII. Ns. 75-76, 1979, pp. 69-127 [75].
ficado vacante depois de 1643 (ano da sua morte) até que Portugal regulasse as suas relações com a Santa Sé e após debelada a assanhada oposição da coroa dos Habsburgo.
D. Rodrigo da Cunha74, sendo então membro do Conselho de Estado do Reino, foi convidado a ir a Madrid em Maio de 1638 com o intuito de ser ouvido quanto à pretensão de D. Filipe IV (r. 1621-1640) em integrar o reino de Portugal na monarquia espanhola como uma província. Segundo os cronistas, a sua reacção não poderia ter sido mais firme, opondo-se determinantemente e tudo fazendo para regressar à sua diocese, o que aconteceu apenas um ano depois. O arcebispo lisboeta tomava definitivamente o partido da casa de Bragança e tornava-se uma força poderosa na oposição à causa castelhana. Em carta dirigida ao cabido de Braga, datada de 18 de Janeiro de 1641, escreveria: “O bem que este Reino alcançou no sucesso prezente hé tam notavel e tam geral que todos nos devemos dar huns aos outros o parabém e render a Deos muitas graças como a Autor desta obra, que, por ser sua, nos podemos prometer com muita confiança todos os bons successos della”75.
Porém, estava longe de ser essa a percepção da Santa Sé. Morto o arcebispo em 1643, restariam a D. João IV (1604-1656) mais treze anos de reinado sem que Roma se dignasse a nomear sucessor para a Sé da capital. Em causa estava a oposição dos Habsburgo que assim exerciam mais uma forma de pressão sobre a coroa portuguesa.
74 Nascido em Lisboa (na freguesia da Madalena, em Setembro ou em Novembro, conforme,
respectivamente, cada um dos autores referidos adiante), era filho de D. Pedro da Cunha, senhor do morgado de Tábua, e de Maria da Silva (irmã do bispo do Porto, D. Aires da Silva). Estudou no colégio jesuíta de Santo Antão e fez o doutoramento em Direito Canónico na Universidade de Coimbra (1604). Foi deputado do Santo Ofício e inquisidor em Lisboa (1608-15). Foi bispo de Portalegre (1615-18) e do Porto (1618-26) e arcebispo de Braga (1626-34) e de Lisboa (1635-43). Foi uma das mais destacadas personalidades religiosas do seu tempo e um dos mais intrépidos partidários da Casa de Bragança, tendo presidiu ao Sínodo de Lisboa de 1640. Destacou-se ainda pelo seu afã cronista, tendo escrito textos sobre as dioceses de Braga, Porto e Lisboa, sendo igualmente autor de obras de carácter canónico e litúrgico. Como já referi, foi o autor da primeira história da diocese de Lisboa e uma das mais importantes figuras eclesiásticas da primeira metade do século XVII e que não mereceu ainda, estranhamente, um estudo biográfico de fôlego. Não nos suscitará também muitas questões o facto de terem sido dois investigadores criados na Igreja e profundamente ligados à História que se tenham debruçado sobre esta personagem nos dois únicos textos monográficos até hoje publicados. Ambos aproveitaram anos centenários para escrever sobre tão importante bispo e ambos apontam a natureza política do múnus de D. Rodrigo. Costa, Pe. Avelino de Jesus da – Centenários natalícios dos Arcebispos de Braga (…) e, Pereira, Isaías da Rosa –
No 4.º centenário da morte de D. Rodrigo da Cunha, arcebispo de Lisboa. Sep. dos Anais. II.ª s. Vol. 30,
1985 (pp. 271-2, para uma lista das suas obras impressas).
75 Arquivo Distrital de Braga, Cartas, liv. 7, n.º 72-a. Or. (Est. 18), cit. in Costa, Pe. Avelino de Jesus da
– Centenários natalícios dos Arcebispos de Braga (…), p. 123.
“D. Rodrigo da Cunha esteve intimamente ligado ao movimento da Restauração. Envolveu-se na política do tempo, como hoje se diria.”, Pereira, Isaías da Rosa – No 4.º centenário da morte de D. Rodrigo da
Cunha (…), p. 295. Registe-se ainda os dados compilados pelo mesmo autor nos panegíricos fúnebres da
autoria de frei Nuno Viegas, carmelita descalço, e frei António da Natividade, agostinho, proferidos pelas exéquias de D. Rodrigo da Cunho, ambos em 1643, cit. in idem, pp. 290-5.
A verdade é que, pesasse embora o amparo que o reconhecimento da nova dinastia pela Santa Sé propiciasse, D. João IV tinha problemas mais complexos e urgentes para resolver; designadamente, alimentar a máquina bélica para enfrentar a guerra no território português (metropolitano e ultramarino) que os Áustria lhe moviam – e patrocinar o consequente jogo diplomático de compra de apoios, estabelecimento de alianças e certificação do reconhecimento da soberania da casa de Bragança – e assegurar que o seu sucessor fosse o filho, o que só conseguiu com as cortes de Lisboa de 1653.
E seria D. Afonso VI (1643-1686) a assinar com Carlos II, o último dos Habsburgo espanhóis, o Tratado de Lisboa (1668) no qual se reconhecia a total independência de Portugal. E seria também durante o reinado do filho de D. João IV que, face aos continuados atrasos de Roma em reconhecer a Restauração e confirmar bispos para Portugal, surgiria a proposta de Sebastião César de Meneses (?-1672)76, “segundo o qual se deveria criar em Portugal uma «cabeça da Igreja», com o nome de patriarca, para fazer aqui o que o papa não queria fazer”77.
A proposta não foi aceite, como sabemos, e César de Meneses seria inclusive um dos pares que mais perderia com o restabelecimento de relações políticas e diplomáticas com a Santa Sé em 1670 aquando da nomeação do arcebispo D. António de Mendonça.
Após os anos pós-restauracionistas de consolidação do território e da soberania, da reconstrução da sociedade clientelar e cortesã, D. Pedro II acabaria o seu reinado
76 Doutor em Direito Canónico e deputado do Santo Ofício desde 1626. Foi conselheiro de D. Filipe IV
mas tomou o partido de D. João IV em 1640. Secretário de Estado da Nobreza nas cortes de 1641 foi autor do assento de aclamação do novo rei. Foi ainda bispo do Porto, Coimbra e Braga e inquisidor geral (1663). Muito ligado aos partidos políticos da época, foi, sucessivamente, preso entre 1654 e 1656 (acusado de ligações a Espanha), nomeado embaixador em França pela regente D. Luísa de Gusmão, apoiante de D. Afonso VI no golpe contra a regente e apoiante do conde de Castelo Melhor contra o conde da Atouguia. Os seus últimos anos de vida foram, porém, difíceis e em constante perda de poder e de rendimentos após o assalto da sua casa eborense pelos espanhóis no ano de 1663, a condenação ao desterro interno e, por fim, num golpe final que demonstra bem a volatilidade do poder, com o esbulho de todos os cargos eclesiásticos que detinha após o reatamento das relações com a Santa Sé. Ver, “Meneses, Sebastião César de (m. 1672)”, in José Adelino Maltez (dir.), A Ciência Política no
Mundo: http://www.iscsp.utl.pt/~cepp/portugueses/meneses,_s._cesar.htm (consultado em 2012.11.13).
Registe-se ainda que foi autor de Summa Politica. Offerecida ao Principe D. Theodosio Nosso Senhor. Lisboa: por Antonio Alvarez Impressor DelRey N. S., 1649 (reeditada em Lisboa: Edições Gama, 1945, com estudo de Rodrigues Cavalheiro), alvo de um artigo analítico e crítico da autoria de Martim de Albuquerque que reconhece no autor uma concepção barroca da política, cujas palavras e argumentos se encontram submetidas à razão e à ideia de Estado. Sobre este assunto ver Martim de Albuquerque – “Para uma teoria política do barroco em Portugal. A Summa Politica de Sebastião César de Meneses (1649-1650)”. Porto: Sep. Revista de História. Vol. 2, 1979.
77 Manuel Clemente, “Lisboa, Diocese e patriarcado de” in, Azevedo, Carlos A. Moreira (dir.) –
com bem mais poder efectivo que seu pai. Começando paulatinamente a minar os benefícios da nobreza, concentrara-se em reforçar as defesas marítimas e terrestres do reino, abrira os portos ao comércio, estabelecera alianças diplomáticas com a Inglaterra e as Províncias Unidas, na sequência da guerra da Sucessão Espanhola, e com a Santa Sé (da qual obtivera, para além da nomeação do arcebispo lisbonense, a criação dos bispados de Olinda, Rio e Maranhão e a elevação do da Bahia à categoria de arcebispado), preocupara-se em decretar fronteiras coloniais (designadamente no Brasil) e em definir áreas de influência geo-política que permitissem a Portugal relançar-se no xadrez europeu. Foi também no decurso do reinado de D. Pedro II que se descobriram as fabulosas minas de ouro do nordeste brasileiro.
O último filho de D. João IV abrira o caminho para a centralização de poder do Magnânimo e para o fausto da corte joanina.
Como se constata, não foi D. João V (nem um qualquer membro da sua corte) que lançou a ideia de um patriarcado lisboeta. Porém, a história do mesmo ficar-lhe-ia indelevelmente ligada. Aclamado como rei com a inauguração do ano de 1707, o governo de D. João V (1689-1750) marcou também uma alteração substancial na forma como o poder passou a ser exercido pela dinastia bragantina.
É no âmbito da construção de uma ideia de poder e das suas formas de projecção na acção e na imagem do monarca que se deve incluir a resiliente campanha do rei para engrandecimento da sua capital e fortalecimento do prestígio do país. Enfim, não foi de