manuais escolares e nas planificações dos professores
2. A Literatura popular nos Programas do Ensino Básico
Ler um programa requer, entre outros aspectos, a percepção das finalidades designadas ao ensino e a compreensão dos objectivos enunciados no âmbito da disciplina. Requer, igualmente, a compreensão das concepções de ensino/aprendizagem e das actividades propostas, a atenção à selecção dos conteúdos apresentada, bem como ao plano de avaliação aí preconizado. (Ribeiro, C., 1993)
Começaremos, nesta secção do nosso trabalho, por mencionar os documentos oficiais sobre os quais nos debruçamos - os programas oficiais de Língua Portuguesa (LP) do ensino básico8 -, para passarmos, em seguida, à sua leitura.
Não é nosso objectivo, um estudo exaustivo destes textos. Tomaremos, como foco, a inscrição explícita da literatura popular nos programas referidos, e recolocaremos, neste âmbito, uma leitura de finalidades, objectivos, conteúdos, processos de operacionalização e avaliação.
A nossa leitura pretende ser, portanto, uma possibilidade de resposta às questões seguintes:
1. Com que objectivos, explicitamente enunciados, a literatura popular se inscreve nos programas de LP do ensino básico?
2. Que géneros da literatura popular se constituem em conteúdos disciplinares?
3. Como se desenha a progressão do seu ensino? 4. Que tipo de avaliação é proposta?
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As referências aqui realizadas tomarão por base os Programas de LP aprovados pelos despachos de nº 139/ME de1990 (1º ciclo) e nº124/ME de 1991 (2º e 3º ciclos), dado serem estes programas os que se encontravam em vigor no momento da recolha dos nossos dados.
2.1. Sobre a legislação produzida: os programas de LP
Os programas de LP, que integram o currículo do Ensino Básico, enquadrados pela Lei de Bases do Sistema Educativo de 19869, foram aprovados, respectivamente, em 1990 (programa referente ao 1º Ciclo10) e em 1991 (programas relativos ao 2º 11 e 3º ciclos12 de escolaridade).
Estes programas foram, posteriormente, objecto de reflexão participada por diversos intervenientes, tendo sido revistos à luz de “novos princípios orientadores da organização e gestão curricular”. É no âmbito dessa reflexão que surge, para o Ensino Básico, o documento A Língua Materna na Educação Básica. Competências Nucleares e Níveis de desempenho, de Inês Sim-Sim, Inês Duarte e Maria José Ferraz, publicado, em 1997, pelo Ministério da Educação - Departamento da Educação Básica (ME – DEB). Segundo as autoras referidas, este documento deve ser entendido não como umnovo programa, mas como um “instrumento de trabalho, ponto de apoio à prática dos professores”13.
Mais tarde, em 2001, é publicado, pelo ME – DEB, o Currículo Nacional do Ensino Básico. Competências Essenciais (Decreto Lei 6/2001), considerado “referência nacional para o trabalho de formulação e desenvolvimento dos
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A Lei de Bases do Sistema Educativo de 1986 (Lei nº 46/1986 de 14 de Outubro) foi objecto de alterações, introduzidas em 1997, pela Lei nº115/1997, de 19 de Setembro, tendo sido objecto de novas alterações e aditamentos introduzidos pela lei actualmente em vigor (Lei nº 49/2005 de 30 de Agosto).
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Ministério da Educação, DGEBS, 1990 - Ensino Básico – Programa do 1º Ciclo. Língua Portuguesa (pp 97- 124). Programa aprovado pelo Despacho nº 139/ME/90, de 16 de Agosto, publicado no D.R. nº202, II Série, de 1 de Setembro de 1990.
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cf. Ministério da Educação, DGEBS, 1994 – Programa Língua Portuguesa – Plano de Organização do Ensino-Aprendizagem. Vol. II, Ensino Básico - 2º Ciclo. 2ª Edição. Programa aprovado pelo Despacho n.º 124/ME/91, de 31 de Julho, publicado no Diário da República, 2ª série, n.º188, de 17 de Agosto. Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda.
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Cf. Ministério da Educação, DGEBS, 1994 – Programa Língua Portuguesa – Plano de Organização do Ensino-Aprendizagem. Vol. II, Ensino Básico - 3º Ciclo. 4ª Edição. Programa aprovado pelo Despacho n.º 124/ME/91, de 31 de Julho, publicado no Diário da República, 2ª série, n.º188, de 17 de Agosto. Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda.
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Diz-se, na Nota Prévia deste texto, o seguinte: “Insistimos que não se trata de “novos programas”. São, sim, instrumentos de trabalho, pontos de apoio à prática dos professores.”
As autoras deste trabalho têm, também, o cuidado de sublinhar que “o estudo não foi concebido nem como um programa para a disciplina de Português, nem como um manual de metodologia de ensino do Português” e acrescentam:”Concebemo-lo, sim, como um material de trabalho que pode constituir um contributo para a área do desenvolvimento curricular no domínio da língua materna e, consequentemente, para a formação inicial e contínua de professores.” In A Língua Materna na Educação Básica. Competências Nucleares e Níveis de desempenho, 1997:13.
projectos curriculares de escola e de turma a realizar pelos professores”. Neste último documento14, o Ministério da Educação define “o conjunto de competências
consideradas essenciais e estruturantes no âmbito do desenvolvimento do currículo nacional, para cada um dos ciclos do Ensino Básico, o perfil de competências de saída deste nível de ensino e, ainda, os tipos de experiências educativas que devem ser proporcionadas a todos os alunos” (ME – DEB, 2001 – Competências Essenciais:9).
Nestes textos oficiais referentes ao Ensino Básico (bem como no Programa de Português de 10º ano que, em 1991, tinha entrado em vigor15), a literatura popular de tradição oral aparece sempre referenciada16.
No ponto seguinte, apresentaremos, de modo sistematizado, essa presença, começando por verificar a inscrição da temática em estudo nos programas de LP e, posteriormente, no documento “A Língua Materna na Educação Básica. Competências Nucleares e Níveis de desempenho”, publicado em 1997.
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Este documento, ao definir para cada ciclo as competências específicas a desenvolver em cada disciplina, retoma, para a Língua Portuguesa, o documento de 1997, “A Língua Materna na Educação Básica. Competências Nucleares e Níveis de desempenho” para o qual, aliás, remete, tendo em vista o esclarecimento sobre os níveis de desempenho esperados em cada um dos três ciclos do Ensino Básico. Por esta razão este documento não é mencionado nos quadros-síntese que a seguir apresentamos.
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Ministério da Educação, DGEBS, 1994 - Português – Ensino Secundário (10º, 11º e 12º). Imprensa Nacional Casa da Moeda, 5ª edição. Programas aprovados pelo Despacho n.º 124/ME/91, de 31 de Julho, publicado no Diário da República, 2ª série, n.º 188, de 17 de Agosto.
Nos programas de Português de 10º ano, os “Contos tradicionais populares” são indicados como leitura obrigatória sob a designação de “Leitura metódica” (cf. programas de 10º ano de Português A, p. 37, e de Português B, pp. 98, 103).
Posteriormente, no documento “Orientações de Gestão de Programas”, Ministério da Educação, Departamento do Ensino Secundário, Julho de 1996, referente aos programas de Português – 10º A e 10º B propõe-se um guião exemplificativo da exploração de Contos Tradicionais Populares, prevendo-se, para a abordagem desta temática, no 10º A, um bloco de 17h e, no 10º B, um bloco de 12 horas. Em ambos os programas, estas “propostas de gestão temporal” constituem, relativamente a outras temáticas, uma das cargas horárias mais elevadas. (cf. “Orientações de Gestão de Programas”, ME-DES, 10ºA e 10B, páginas 11 e 13, respectivamente).
Esta temática, que continuou a ter expressão relevante em posteriores “ajustamentos” dos programas de 10.º ano (cf. ME. DES. Ministério da Educação. Departamento do Ensino Secundário (1997). Português A e B. Programas. 10.º,11.º e 12. anos, Lisboa.) não aparece incluída posteriores programas de 10.º ano do Ensino Secundário.
Para uma reflexão sobre os actuais programas de Português do Ensino Secundário, consultar Maria de Lurdes Dionísio e Rui Vieira de Castro (orgs.), 2005 – O Português nas Escolas. Ensaios sobre a Língua e a Literatura no Ensino Secundário. Coimbra, Almedina.
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Em Março de 2009 foi homologado o novo programa de Língua Portuguesa, o qual, segundo os seus autores () não pôde deixar de tomar como ponto de partida os programas de 1991, comportando-se todavia em relação a eles com uma considerável liberdade de movimentos” (Programas de Português do Ensino Básico, 2009, ME, DGIDC: 3). Neste novo programa continua a ser mencionada a literatura popular. Considerando, no entanto, o período de realização desta pesquisa, todas as nossas referências serão relativas aos programas anteriores, acima citados.
2.2. A inscrição da literatura popular nos Programas de LP: uma proposta de leitura
Nos três ciclos do Ensino Básico, os programas LP apresentam-se estruturados em torno de três grandes domínios de aprendizagem: o domínio da Comunicação oral (na sua vertente de compreensão e de produção), o da Comunicação escrita (também subdividido, nas vertentes de Leitura e de Escrita) e o domínio do “Funcionamento da língua”.
Os quadros abaixo apresentados dão-nos uma visão global do modo como a Literatura popular de tradição oral (e, em particular o conto) se inscreve nos Programas de LP, ao longo dos três ciclos de escolaridade básica. Estes quadros foram elaborados de modo a possibilitar uma leitura imediata apenas dos aspectos de interesse para este trabalho17.
Programa de Língua Portuguesa do 1º Ciclo
Ministério da Educação, DGEBS, 1990 - Ensino Básico (Pp 97-124). Programa aprovado pelo Despacho nº 139/ME/90, de 16 de Agosto, publicado no D.R. nº202, II Série, de 1 de Setembro.
DOMÍNIO – Comunicação Oral18
OBJECTIVOS Gerais: Objectivo 4 – Criar o gosto pela recolha de produções do património literário oral
1º ANO 2º ANO
Recolher produções do património literário oral (lengalengas, adivinhas, rimas, trava-línguas, contos, cantares)
Participar em jogos de reprodução da literatura oral (reproduzir trava-línguas, lengalengas, rimas, cantares)
Reconhecer elementos sonoros comuns e diferentes (em rimas, lengalengas, trava-línguas).
Construir rimas, cantilenas...
Recolher produções do património literário oral (lengalengas, adivinhas, rimas, trava-línguas, contos, cantares)
Participar em jogos de reprodução da literatura oral (reproduzir trava-línguas, lengalengas, rimas, adivinhas)
Participar na produção de rimas, cantilenas.
Reconhecer elementos sonoros comuns e diferentes em rimas, lengalengas
Construir rimas, lengalengas.
3º ANO 4º ANO
Recolher e seleccionar produções do património literário oral (contos, lendas, cantares, quadras populares, lengalengas, trava-línguas...)
Participar em jogos de reprodução da literatura oral (reproduzir trava-línguas, lengalengas, rimas, adivinhas, cantares, contos).
Comparar versões diferentes dos mesmos contos. Participar na produção de rimas, lengalengas.
Recolher e seleccionar produções do património literário oral (contos, lendas, cantares, quadras populares, lengalengas, trava-línguas...)
Participar em jogos de reprodução da literatura oral (reproduzir trava-línguas, lengalengas, rimas, adivinhas, cantares, contos).
Comparar versões diferentes dos mesmos contos. Participar na produção de rimas e de lengalengas,
introduzindo-lhes novos elos.
Colaborar na produção de contos (com companheiros, com o professor...)
Tabela 4 - Programa de Língua Portuguesa do 1º Ciclo
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Nas tabelas apresentadas está omissa a referência à avaliação, dado o carácter genérico que assume nos textos programáticos aqui considerados. Concretamente sobre o Programa de 3º ciclo (aprovado pelo Despacho n.º 124/ME/91, de 31 de Julho), julgamos oportuna a crítica apontada por R. Vieira de Castro e Mª de Lurdes Sousa que passamos a transcrever: “ [um programa] que surge no quadro global de uma reforma educativa, não se deveria eximir a propor, ainda que tentativamente, modalidades específicas de avaliação. É de certo modo contraditório que o programa privilegie, como veremos, em grau de especificação, domínios tão particulares como as actividades e esqueça qualquer referência a como avaliar.” Esta contradição presente no texto programático, que oscila entre uma grande especificação das actividades e uma omissão relativamente “a como avaliar”, traduz-se numa ausência de referências a “modos de avaliar o oral, a escrita, a leitura, etc., e a eventual referência ao valor relativo a atribuir a cada componente”, ausência indiciada pelo facto de a avaliação aí se constituir como “um bloco autónomo sem qualquer ligação aos domínios referidos” (Castro e Sousa, 1992:19).
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Programa de Língua Portuguesa do 2º Ciclo
Ministério da Educação, DGEBS, 1994 – Programa de Língua Portuguesa – Plano de Organização do Ensino-Aprendizagem. Vol. II, Ensino Básico - 2º Ciclo. 2ª Edição.
Programa aprovado pelo Despacho n.º 124/ME/91 DOMÍNIO – OUVIR /FALAR19
OBJECTIVOS
1. Exprimir-se oralmente com progressiva autonomia e clareza, em função de objectivos diversificados. 2. Comunicar oralmente, tendo em conta a oportunidade e a situação.
3. Desenvolver a capacidade de retenção da informação oral.
4. Compreender enunciados orais nas suas implicações linguísticas e paralinguísticas. 5. Criar o gosto pela recolha de produções do património literário oral.
6. Alargar a competência comunicativa pela confrontação de variações linguísticas regionais ou sociais com formas padronizadas da língua.