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5. Políticas brasileiras para o ensino de línguas

6.1 A mídia e o "discurso do fracasso" no Brasil

A mídia possui um papel importante na circulação dos discursos que contribuem para a cristalização das crenças, incluindo aquelas a respeito do fracasso do ensino de línguas adicionais nas escolas regulares.

Nesse sentido, a linguagem pode deixar aflorar um conjunto de representações e ideias que revelam a compreensão que uma dada classe tem do mundo e "como não existem ideias fora dos quadros da linguagem, entendida no seu sentido mais amplo de instrumento de comunicação verbal ou não verbal, essa visão de mundo não existe desvinculada da linguagem" (FIORIN, 1997, p.32)

Especificamente sobre o ensino de línguas, Rajagopalan (2006) chama a atenção para o fato de que considerações ideológicas e políticas estão presentes no ensino de qualquer língua, quer estrangeira ou materna.

Sob esse viés, analisaremos três matérias, retiradas de veículos comuns de mídia no Brasil, atribuindo sentidos a esses textos a partir do contexto social brasileiro. Nosso objetivo é ver como os meios midiáticos, a partir de uma voz de autoridade na sociedade em questão, reforçam e também refletem as crenças negativas, que chamamos aqui de "discurso do fracasso", sobre ensino/aprendizagem de línguas adicionais, principalmente, de inglês nas escolas regulares.

Primeiramente, buscamos analisar a matéria intitulada "Ensino de inglês patina nas escolas", publicada na revista Gazeta do Povo em 201323. Ao observarmos a foto que aparece no início da matéria, veremos uma jovem sorridente segurando um livro de uma franquia de idiomas famosa no Brasil. Com isso, já teríamos uma apologia ao curso de idiomas, que seria o "Eldorado da aprendizagem" no imaginário brasileiro, segundo Barcelos (2011, p.153)

Ao lermos o título, percebemos uma imagem negativa do ensino de inglês nas escolas a partir do uso do verbo "patinar", que, de forma figurativa, adquiriu sentido informal de " não sair do lugar, apesar de ter as rodas a rodar"

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Disponível em: http://www.gazetadopovo.com.br/educacao/ensino-de-ingles-patina-nas-escolas- ajyxv9ejh11wigc9562r9mki8 . Acesso em 25 de agosto de 2015.

ou ainda "mostrar hesitação, titubear".24 Assim, o que se quer defender é que o inglês da escola não sai do lugar, não tem eficiência.

O subtítulo também reafirma tal posição, pois diz claramente que "embora seja disciplina obrigatória, o ensino de língua estrangeira na maioria das escolas regulares não é de qualidade. Falta carga horária e qualificação dos professores".

Em seguida, a matéria dá o exemplo bem aceito pelo nosso senso comum de que uma estudante de 20 anos, após ter estudado inglês na escola por 11 anos, resolveu se matricular em um curso de inglês, pois, "na escola, não aprendeu nada e precisou começar do nível básico".

Ainda temos a afirmação de que essa necessidade de recorrer a uma escola especializada em língua estrangeira mesmo depois de anos e anos de aula no colégio regular é algo comum na educação brasileira. "As causas vão desde a baixa carga horária da disciplina na escola até a falta de qualificação dos professores", aponta a matéria.

A formação dos professores também é outra questão abordada nessa mesma matéria. Sobre o tema, salienta-se que:

A contratação de professores com pouca capacitação também influencia o baixo rendimento do aprendizado de inglês nas escolas regulares. A formação defasada de profissionais – problema que afeta vários cursos de Licenciatura e Pedagogia – leva para a sala de aula profissionais que não conseguem usar técnicas efetivas de ensino de uma nova língua. (SIMAS, A. Ensino de inglês patina nas escolas )

Por fim, a matéria termina com o subtítulo "Nem tudo está perdido" e suscita alguns poucos exemplos de escolas que possuem um bom ensino de língua inglesa, mas antes disso, ressalta que "mesmo que o quadro geral das escolas reflita um ensino falho da língua inglesa, alguns colégios conseguem fugir do padrão e fazer com que os estudantes concluam o ensino médio com pelo menos o nível intermediário de conhecimento."

Nessa matéria, assim, é possível verificar o quanto o "discurso do fracasso" do ensino de línguas nas escolas está refletido e reforçado nos meios de comunicação por meio do reforço das crenças negativas sobre tal realidade da educação brasileira.

Outra matéria semelhante é a intitulada "Inglês se aprende na escola?", publicada pela revista Educação também em 2013.25 Nela, podemos observar novamente a menção ao fracasso do ensino de inglês nas escolas regulares, já a partir da interrogação do título. Também temos a referência à crença comum no Brasil de que a escola não é o lugar para se aprender de fato o idioma: "Afinal, por que o senso comum diz que não se pode aprender a língua considerada 'universal' na escola regular?"

A matéria também cita dois estudantes que tiveram aulas de inglês por todo o seu período escolar e não se sentem capazes de se comunicar no idioma em situações reais de interação. Ainda é mostrado que as crenças negativas sobre esse ensino são embasadas pelos PCNs: "Os próprios Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Estrangeira para o Ensino Médio de 2006 citam o desafio de superar a percepção de que o aprendizado de uma língua estrangeira se concretiza apenas em cursos de idiomas."

E também pela voz de autoridade de uma especialista na área: "a consultora de educação Renata Quirino observou que os próprios professores e a escola também acreditam não ser possível ensinar uma língua estrangeira na educação formal."

Além disso, a deficiência do sistema educacional público também é ressaltada:

Para a professora de inglês de escolas municipais de São Bernardo do Campo e de São Paulo, Aline Dias, o ensino de língua inglesa na rede pública, especificamente na municipal de São Paulo, é "bastante precário" não por falta de material didático de apoio, mas pelo contexto educacional como um todo. "Os alunos, em sua maioria, não têm nenhum tipo de motivação e/ou objetivos claros a seguir dentro da escola; além disso, há a aprovação automática", exemplifica. (DRUMON, Y. Inglês se

aprende na escola?)

Porém, um dos pontos mais interessantes levantados na matéria é "a desvalorização da disciplina frente às demais", questão que "atinge não apenas a rede pública, mas também a particular". A visão equivocada, comenta a matéria, de que o componente curricular seja de importância relativa na grade curricular faz com que lhe seja atribuída baixa carga horária e que não haja um

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Disponível em: http://revistaeducacao.uol.com.br/textos/191/ingles-se-aprende-na-escola-278806- 1.asp . Acesso em 20 de Agosto de 2015.

contexto favorável para que se desenvolvam as quatro habilidades linguísticas: falar, escutar, escrever e ler.

Também se reconhece a crença da impossibilidade de se aprender inglês na escola regular, ideia já apontada neste trabalho como parte do imaginário brasileiro: " nas escolas privadas, o ensino de língua inglesa ainda é algo polêmico, porque os alunos e as famílias não acreditam na possibilidade de aprender uma língua estrangeira na escola regular, cuja maioria dos estudantes frequenta cursos de idiomas."

Os problemas presentes nas escolas regulares, que seriam "entraves" na aprendizagem do idioma são apontados na matéria por uma pesquisa realizada pela professora Ana Lúcia Ducatti: " o despreparo e a jornada até tripla dos professores e o foco do ensino na gramática, e não no uso do idioma, como o MEC orienta. A pesquisa revela ainda que "os professores carecem de material didático adequado."

Por fim, a matéria expõe a colocação do Brasil no ranking mundial sobre a proficiência na língua inglesa:

A percepção de que os brasileiros falam mal o inglês foi comprovada em pesquisa da empresa de intercâmbio EF, realizada entre 2009 e 2011 e divulgada em 2012: o Brasil está em 46º lugar do total de 54 nações pesquisadas no que se refere ao domínio da língua inglesa. (DRUMON, Y. Inglês se aprende na

escola?)

No mesmo âmbito de dados estatísticos, a matéria intitulada "Ciência sem Fronteiras expõe 'lado feio' do ensino de idiomas no Brasil"26 , publicada na sessão de educação do site Terra revela que no novo edital do programa de intercâmbio estudantil Ciência sem Fronteiras, o governo decidiu baixar o nível de conhecimento necessário para passar no teste já que a maioria dos candidatos – cerca de 9 mil – havia demonstrado preferência por Portugal por conta de dificuldades na comunicação em outro idioma além do português.

O TOEFL, por exemplo, um dos exames aplicados para se avaliar o nível dos alunos, teve a exigência de 72 pontos diminuída para 42. Além disso,

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Disponível em: http://noticias.terra.com.br/educacao/ciencia-sem-fronteiras-expoe-lado- feio-do-ensino-de-idiomas-nobrasil,168d6102e52bd310VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html. Acesso em 21 de Agosto de 2015.

ficou decidido que os estudantes vão receber um curso presencial quando chegarem ao país para melhorar o conhecimento da língua.

Temos, na matéria, na voz de autoridade do professor José Carlos Almeida Filho, pesquisador do Departamento de Línguas Estrangeiras da Universidade de Brasília (UnB), que o Ciência sem Fronteiras – lançado em dezembro de 2011 com o objetivo de oferecer mais de 100 mil bolsas de estudo em quatro anos – expõe o "lado feio" da educação no Brasil. "Essa ida para o exterior é muito saudável, mas mostrou o lado feio, as pessoas não estavam percebendo o quanto é fraco o ensino de idiomas nas escolas do Brasil".

Segundo ele, faltaria uma política de longo prazo para garantir o aprendizado, principalmente de inglês e espanhol. Investimento na formação de professores, aumento da carga horária de aulas e diversificação do material didático são alguns pontos citados pelo pesquisador. No intuito de minimizar os problemas da falta de proficiência em idiomas estrangeiros, a matéria ainda aponta que o governo federal lançou, neste ano, um curso online de inglês para que os candidatos à bolsas do Ciência sem Fronteiras sintam-se em condições de estudar em outros países.

Foram disponibilizadas mais de dois milhões de senhas para alunos de instituições públicas e privadas que tenham feito ao menos 600 pontos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Segundo a Capes, em um mês, cerca de 90 mil estudantes já começaram o curso.

Embalados por notícias sobre a dificuldade em encontrar candidatos para o Programa Ciência Sem Fronteiras, lançado pelos Ministérios da Ciência e Tecnologia e Educação, comentaristas na rádio CBN defendiam, em 26 de julho de 2012 que "o governo deveria focar no ensino de inglês nas escolas"27. Essa opinião foi reforçada e lamentada por outros jornalistas que se juntaram, em coro uníssono, a lamentar a situação e buscar os culpados nas escolas. (GIMENEZ, 2011, p.202)

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Disponível em : http://cbn.globoradio.globo.com/comentaristas/carlos-heitor-cony,-artur-xexeo-e- viviane-mose/2012/07/26/GOVERNO-DEVERIA-FOCAR-NO-APRENDIZADO-DO-INGLES-NAS-

Estes vários exemplos citados aqui demonstram o interesse que vem despertando o aprendizado de língua inglesa, cujo status é reforçado pelo silenciamento a respeito de outras línguas adicionais.

Além disso, fez-se possível verificar como essas matérias e os dados ali explícitos sobre o ensino de inglês nas escolas públicas e a proficiência no idioma pelos brasileiros confirmam as crenças negativas sobre a educação linguística em nossas escolas regulares.

Sob este viés, no próximo capítulo, vamos expor os dados obtidos por meio da aplicação de questionários em alunos de Letras de uma universidade federal brasileira a fim de analisar, principalmente, as crenças/representações em relação ao ensino de língua inglesa em escolas tanto regulares quanto bilíngues.