3. A construção da figura feminina na moda
3.2 Evolução da figura feminina na moda
3.2.4 A modernidade e o fenômeno dos ícones de estilo
A mudança em todo o modo de organização e comportamento da sociedade durante a transição entre a Renascença e a Idade Moderna resultou também na origem dos primeiros personagens que se destacaram como referência de estilo em suas respectivas épocas. De forma previsível, o acesso ilimitado às matérias primas mais preciosas e itens de luxo garantiu o pioneirismo do papel de “ícones da moda” aos maiores nomes da realeza europeia.
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Presente nesse cenário, a Rainha Elizabeth I (1533-1603) viria a ser considerada um dos maiores ícones de estilo femininos da história. Durante o seu reinado, a rainha da Inglaterra construiu propositalmente uma imagem de poder e liderança através da sua estética marcante: tecidos negros e pesados, pedras preciosas e a icônica "Gola Tudor" - gola circular construída por várias camadas de tecido plissado. Segundo Rissman (2015), a rainha buscava demonstrar seu posto de líder absoluta em todos os detalhes da estética. De forma bem-sucedida, a força da sua aparência se transformou também em referência de perfeição estética para as mulheres inglesas e todo o restante do continente: "sua pele pálida, testa alta e cabelos ruivos eram ideais de beleza." (Rissman, 2015, p. 46).
Figura 6 - Retrato da Rainha Elizabeth I (1533-1603).
Em resposta à imitação explícita das mulheres ocidentais, Elizabeth I ordenou a implantação de leis suntuárias como uma tentativa de impedir a aproximação estética dos plebeus:
(...) in a 1574 law, Elizabeth I specified that purple silk and sable fur could be worn only by the queen, king, and family members. Red velvet was only for the highest nobility. Many other fabrics, too, were restricted to nobles. Those who dared violate the law could be fined and publicly humiliated by having their clothes torn from their bodies. (Rissman, 2015, p. 47)
Apesar da influência da coroa inglesa, as leis impostas temporariamente na Inglaterra não desaceleraram o avanço da moda no restante da Europa. No início do século XVII, a moda
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já era destaque entre as cortes de países como Itália, Espanha e Bélgica. Contudo, foi apenas no fim do século, após a consolidação de Louis XIV como regente da França, que a relação entre moda e luxo ganhou o papel de protagonista no continente europeu.
Conhecido popularmente como "Rei Sol", Louis XIV acreditava que sua regência tinha influência divina e todas as suas decisões eram incontestáveis. Simbolizando sua postura absolutista, Louis XIV construiu o Palácio de Versalhes como ponto central da concentração do seu poder e uma ferramenta para controlar de perto o comportamento da corte francesa. Além da personalidade dominadora e inflexível, Louis XIV também ficou conhecido por ser um amante das artes, música e cultura. O icônico rei francês era aficionado por tudo o que representava a beleza e a perfeição. Na indumentária, o apelido de “Rei Sol” era refletido diretamente na estética do rei - repleta de ouro, pedras preciosas e perucas extravagantes.
Luís XIV valorizava o belo e não escondia o seu desejo de estar cercado exclusivamente da beleza. Dessa forma, com a reunião dos maiores nomes da nobreza da França, Louis XIV transformou o Palácio de Versalhes no principal centro de festas e luxo da Europa. De acordo com Rissman (2015), “em toda a Europa, as pessoas tentavam imitar a moda glamourosa da corte francesa.” (p. 48). Nesse cenário, o título de centro da moda europeu foi transferido para a França e deu início à relação histórica entre o país e o universo da moda.
A partir desse momento, a corte francesa virou referência estética para a indumentária de todo o Ocidente. Rissman (2015) aponta a relação entre esse período o movimento artístico Barroco (1600-1800): “as modas dos anos 1600 e início dos anos 1700 são frequentemente chamadas de “barroco”. As modas barrocas eram grandiosas e dramáticas, com sedas fluidas, bordados dourados e camadas de renda.” (Rissman, 2015, p. 52). Com essa influência, a indumentária feminina era dramática e ornamentada, marcada por cinturas afinadas por espartilhos e vestidos extremamente volumosos. Nesse contexto artístico e cultural, mesmo após a morte de Luís XIV, em 1715, o glamour aristocrático seguiu com os seus descendentes e sucessores, Luís XV (1710-1774) e Luís XVI (1754-1793).
Nascido em Versalhes, Luís XVI foi coroado aos 19 anos de idade, após a morte repentina de seu pai. A relevância dessa figura histórica tem destaque mais em questões políticas de ideológicas do que propriamente na moda, mas Luís XVI foi a porta de entrada para a consagração de uma das figuras mais importantes da história da indumentária feminina: a rainha Maria Antonieta.
Maria Antonieta (1755-1793) é até hoje um dos principais ícones de moda da história. Por muitos, ela é considerada a primeira it girl do mundo moderno. Nascida na Áustria, ela foi designada como símbolo político da aliança entre seu país de origem e a França. A partir de
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um casamento arranjado com o jovem rei francês, Luís XVI, Maria Antonieta foi coroada rainha da França aos 16 anos de idade e virou referência de beleza e bom gosto para todo o Ocidente. Apesar de ter se tornado um símbolo da ostentação excessiva da aristocracia europeia, é impossível negar a influência de Maria Antonieta na história da indumentária feminina:
(...) a jovem rainha logo abandonou o estilo real estagnado e antiquado que por muito tempo funcionara para evocar a atemporalidade do reinado Bourbon, e partiu em estimulantes novas direções. Auxiliada por uma florescente classe de talentosos estilistas parisienses, os antepassados dos costureiros superstars de hoje, Maria Antonieta cultivou aparências brincalhonas e coquetes, efêmeras e imprevisíveis, sedutoras e modernas. (Weber, 2007, p. 11)
O olhar de Maria Antonieta sobre a moda foi pioneiro. A jovem rainha foi uma das primeiras figuras públicas a explorar o potencial criativo da moda através de combinações inusitadas de cores, texturas e adereços. Ao perceber o seu talento natural para criar tendências, Maria Antonieta passou a utilizar a sua influência estética como uma ferramenta de influência e poder sobre a sociedade.
Em uma entrevista para a publicação online Vice2, a professora de história da Universidade de Illinois, Clare Crowston, conta que Maria Antonieta deixou registrado em uma carta como utilizada a moda para dar a impressão de ter "crédito". Segundo a historiadora, com esse discurso, a rainha apontava que, para ter credibilidade, era necessário parecer ter credibilidade. Com a delimitação do início da Idade Contemporânea no fim da Revolução Francesa (1789-1799), Maria Antonieta não foi só a perfeita exemplificação estética da moda feminina do século XVIII, mas foi também o último grande ícone de estilo da Idade Moderna.
2 Maria Antonieta Foi a Primeira Mártir da Moda. Vice. Consultado em 18 de novembro 2019. Disponível em https://www.vice.com/pt_br/article/z4bq4y/maria-antonieta-foi-a-primeira-martir-da-moda-v21n2
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Figura 7 - Retrato de Maria Antonieta, "Marie Antoinette de France" (Jean-Baptiste Gautier Dagoty, 1775).