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3. A construção da figura feminina na moda

3.1 Desenredando a moda

3.1.1 Gostos e modernidades

Segundo Marnie Fogg (2013), o termo “moda” teve sua origem no latim modus, com o significado literal de “medida”. Ao apontar a moda como um elemento de alta complexidade e difícil definição, a autora defende que a “a moda parece ser uma espécie de mecanismo geral que diz respeito a inúmeros aspectos da vida moderna, sobretudo àqueles relacionados ao gosto” (Fogg, 2013, p. 6).

O conceito apontado por Fogg não é surpreendente. Relacionar a moda com o gosto de uma sociedade é uma das definições mais populares entre os autores da área. Através dessa abordagem, a moda é um elemento cultural e se mostra presente nos mais diversos campos da sociedade. Apontando justamente essa questão, Lipovetsky (1987) indica que a moda não tem um conteúdo próprio - ela é um dispositivo social. A partir dessa característica, é possível observar “modas” na música, arquitetura, obras culturais e até mesmo nos hábitos de cada povo ao longo de toda a história.

Através dessa reflexão, afirmar que a moda diz muito sobre a história da humanidade é um ponto fundamentado, já que a trajetória da sociedade foi marcada por uma incessante sobreposição de gostos. Inclusive, esse fator é facilmente observado quando um determinado momento histórico é destacado e referências de vestimentas, arte e arquitetura são projetadas na mente de forma instantânea.

Contudo, apesar do “gosto” ser natural do ser humano, é importante ressaltar que o sistema da moda não esteve presente em todos os tempos e sociedades. Direcionando o tema para a indumentária, Lipovetsky (1987) aponta que “durante dezenas de milênios, a vida

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coletiva se desenvolveu sem culto das fantasias e das novidades, sem a instabilidade e a temporalidade efêmera da moda” (Lipovetsky, 1987, p. 35).

Isso não significa que não haviam mudanças ou expressão de gostos em relação à indumentária antes da era moderna - esses fatores se mostram presentes desde o princípio da humanidade. Entretanto, apesar dos conceitos de gosto e mudança estarem registrados nas raízes da história humana, o ponto defendido por Lipovetsky (1987) é que a moda só se tornou um sistema quando ganhou a característica de efêmera.

Em um primeiro olhar, os termos efemeridade e mudança podem parecer sinônimos. Contudo, no contexto da moda, eles apresentam características distintas determinantes. Na história da vestimenta, a mudança sempre ocorreu. É possível observar mudanças entre vestes de faraós egípcios de séculos diferentes e até mesmo nas formas de utilizar peles e pelos ao longo da evolução dos homens neandertais. Contudo, essas mudanças aconteciam gradualmente ao longo de muitos séculos e gerações, geralmente influenciadas por fatores relacionados com o estilo de vida ou condições climáticas. Em acordo com Lipovetsky, Svendsen (2010) exemplifica a distinção evidente entre os conceitos:

Os romanos da Antiguidade eram vaidosos, homens e mulheres usando maquiagem e perfume, o cabelo tingido e anelado, quando não usavam peruca. Mas esses estilos eram também muito duradouros. Ocasionalmente, o estilo de um país podia se tornar apreciado em outro, levando a uma súbita mudança – como quando os gregos começaram a raspar suas barbas para se parecerem com Alexandre Magno. Uma mudança de estilo como essa, entretanto, não pode ser propriamente qualificada de moda, porque dali em diante os gregos mantiveram suas faces e queixos escanhoados. O que aconteceu foi a substituição de uma norma estética duradoura por outra, sem que mudanças subsequentes pareçam ter sido desejadas ou mesmo consideradas. Para que possamos falar de “moda”, não basta que ocorra uma mudança de raro em raro. A moda só se configura quando a mudança é buscada por si mesma, e ocorre de maneira relativamente frequente. (Svendsen, 2010, p. 24)

Por outro lado, o termo “efêmero” surge como um conceito moderno. Ser efêmero é estar constantemente em mudança. Ao intitular sua obra mais conhecida como O Império do Efêmero (1987), o filósofo Gilles Lipovetsky posiciona propositalmente a efemeridade como protagonista da moda moderna. Ao longo da obra, Lipovetsky explica de forma muito competente o processo de transição entre as mudanças ocasionais e fundamentadas da indumentária dos tempos antigos e a mudança dinâmica da moda da sociedade ocidental.

Inclusive, o filósofo francês é suportado por diversos outros autores no destaque de como a moda é um fenômeno exclusivo do Ocidente e da modernidade. De acordo com Laver (1996), “a emergência do fenômeno da moda está na instalação de seu reino no Ocidente

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moderno, e em nenhuma outra parte. A moda é formação essencialmente sócio-histórica, circunscrita a um tipo de sociedade" (Laver, 1996, p. 25).

A análise temporal sobre o momento histórico que marcou a emergência da sociedade ocidental e do sistema da moda moderna será analisada de forma mais aprofundada em um capítulo futuro. Contudo, é indispensável citar que o início da Idade Moderna refletiu também no surgimento de uma nova forma de consumir. Até esse momento histórico, para as pessoas comuns, adquirir vestimentas era um hábito movido pela simples necessidade.

Mesmo após a queda do Império Romano e da imersão do Mundo Ocidental, a hierarquia e o sistema econômico vigentes na sociedade feudal continuaram marcando a separação de classes e a concentração do luxo em uma parcela muito pequena da sociedade. Nesse período, com a sociedade dividida de forma hierárquica e o escambo como modo predominante de troca de bens e serviços, não existia mobilidade social ou poder de compra.

Por esse motivo, apesar de ser um fenômeno característico do Ocidente, a moda esperou pela chegada da modernidade para emergir e se consolidar. A relação frontal da moda e o mundo moderno está diretamente relacionada com os primeiros indícios do capitalismo. O início da Idade Moderna teve como uma das suas divisórias principais a transição do feudalismo para o capitalismo mercantil, fator definidor para a emergência de outro conceito fundamental para a consolidação da moda como sistema: o consumo. A chegada do capitalismo mercantil resultou na construção de uma nova parcela com poder de compra dentro da sociedade.

Dessa forma, com a implantação da compra e venda de produtos como parte fundamental da economia, as vestimentas se transformaram em um dos principais objetos de desejo da população. Segundo Svendsen (2010):

(...) em geral se associa a origem da moda à emergência do capitalismo mercantil no período medieval tardio. A Europa experimentava então um desenvolvimento econômico considerável, e as mudanças econômicas criaram a base para mudanças culturais relativamente rápidas. Foi nesse momento que modificações na maneira como as pessoas se vestiam adquiriram pela primeira vez uma lógica particular: deixaram de ser raras ou aleatórias, passando a ser cultivadas por si mesmas. (Svendsen, 2010, p. 23)

Neste trabalho, a análise do conceito de consumo no âmbito econômico não se apresenta como uma questão relevante. Para a pesquisa, a emergência do consumo é relevante exclusivamente para destacar como o ato de se vestir ganhou importância nas cidades modernas. As vestimentas passaram a atrair olhares e se transformaram em tópicos relevantes

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nas rodas de conversa. Com isso, as peças escolhidas para cobrir o corpo deixaram de ser uma questão de interesse exclusivamente individual: as pessoas passaram a vestirem-se umas para as outras.