5. A relevância de Chanel
5.2 A estética Chanel
5.2.4 Tempos de guerra: traços militares e sobriedade
À primeira vista, o cenário escasso da Primeira Guerra Mundial pode parecer o contexto menos apropriado para se falar sobre a estética da moda. No entanto, foi justamente as adversidades do conflito bélico que influenciaram na construção da estética característica da indumentária de ambos os sexos durante esse período.
Seguidamente ao início da guerra, para suprir a demanda constante das frentes de batalha, o direcionamento da indústria têxtil para a confecção de uniformes militares foi uma decisão estratégica utilizada pelos países participantes no conflito. Com o suporte do maquinário moderno proporcionado pela segunda Revolução Industrial, foi possível utilizar a estrutura industrial para produzir um volume elevado de peças de forma rápida e eficaz.
De acordo com Wilson (2011), contrariando a individualidade da moda feita sob medida, os uniformes surgiram como uma forma de padronizar trabalhadores e foram os primeiros itens de roupa produzidos em massa. No entanto, a despeito do modo de produção mecânico, a autora destaca como os trajes militares apresentam uma conotação exclusiva e valorosa: símbolo de disciplina, honra e bravura.
10à la garçonne, que significa "à maneira de um menino", é uma expressão utilizada na linguagem de moda quando algum item feminino carrega referências masculinas. (Definição apresentada em
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Apesar do simbolismo valoroso das vestes militares durante a Primeira Guerra Mundial, a estrutura das peças era caracterizada pela simplicidade. Especificações estruturais, como cores e tecidos, variavam de acordo com o país, a patente do soldado e até mesmo fatores climáticos. No entanto, de forma geral, os uniformes militares eram compostos de calças retas e túnicas com botões. O traje geralmente era complementado por botas, cintos e chapéus - substituídos por capacetes de proteção para a atuação nas frentes de batalha.
A escolha desse padrão para as vestes militares tem relação com a facilidade de movimento e a função de proteção corporal. Ao mesmo tempo em que as vestimentas eram adequadas e confortáveis para o uso diário, elas também permitiam a movimentação durante a batalha e protegiam toda a extensão corporal de fatores externos. De acordo com o artigo Uniforms of World War One: the Clothes That Made the Men, os uniformes atuaram como um símbolo nacionalista importante para o posicionamento dos soldados: “uniformes padronizados foram usados para instilar disciplina e esprit de corps no campo de batalha, com a nova tecnologia permitindo avanços na produção em massa, caimento, conforto e adequação a uma variedade de climas.”11
Para Coco Chanel e sua busca por maior praticidade para a indumentária feminina, essas características funcionais dos uniformes militares foram especialmente inspiradoras. As vestes militares foram a principal inspiração estética para a criação dos icônicos tailleurs popularizados pela estilista. Os tailleurs eram conjuntos compostos por casacos alinhados e saias retas, com o comprimento até os tornozelos. Da mesma forma que os uniformes permitiam a movimentação e conforto masculina, os conjuntos promovidos por Chanel também eram adequados para a nova vida ativa das mulheres. Apesar da origem exata dos tailleurs não ter um registro oficial, Chanel ficou conhecida como a responsável por sua disseminação durante o período de guerra:
Os tailleurs criados por Chanel foram ideais para os anos de guerra. Conjunto de duas peças, com saias pregueadas que ficavam ligeiramente acima da altura do calcanhar, e os casacos ¾ eram soltos, com bolsos e uma faixa ao redor da cintura. Usava-se uma blusa por baixo, coordenada com o tailleur. Também eram usados capas e paletó de jérsei, versáteis e funcionais. A modelagem das saias era ampla, franzida ou pregueada, facilitando o trabalho e o transporte em bicicletas. (Barbosa; Fernandes; Silveira, 2006, p. 5)
11 Uniforms of World War One: The Clothes That Made the Men. HistoryHit. Consultado em 29 de setembro 2020. Disponível em https://www.historyhit.com/uniforms-of-world-war-one-the-clothes- that-made-the-men/
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De acordo com Rissman (2015), a representação estética da mulher durante a Primeira Guerra Mundial pode ser definida através de um visual padronizado: “as mulheres usavam saias até o tornozelo acompanhadas de blusas com botões e jaquetas curtas e justas. Sapatos de couro ou cordões botas de salto modesto eram escolhas resistentes e confortáveis para os calçados.” (Rissman, 2015, p. 72).
Figura 17 - Mulheres na década de 1920, utilizando modelos de tailleurs, popularizados por Chanel.
Retornando ao trabalho de Chanel, em complemento à inspiração nos uniformes do exército para roupas talhadas para o trabalho, também é interessante destacar a referência do uniforme da marinha francesa para a criação de roupas casuais: “o estilo navy é criado por Chanel para uso próprio, inspirado no uniforme dos marinheiros franceses, este uniforme é caracterizado pelas listras e cores azul marinho, branco e vermelho.” (Fernandes; Frutuoso; Mendes. 2017, p. 3). Da mesma forma que ao longo de toda a sua vida, Chanel foi a sua melhor propaganda. Em pouco tempo, o estilo navy também foi popularizado entre o público feminino.
Além da influência estrutural das vestes militares nas criações de Chanel, o cenário melancólico da Primeira Guerra Mundial também foi determinante para a definição da paleta de cores utilizada pela estilista. Em seu gosto pessoal, Chanel sempre foi adepta de cores neutras e estampas sóbrias. No entanto, a moda feminina anterior ao período de guerra apresentava uma preferência explícita pelo colorido e extravagante - estabelecendo as cores escuras e a sobriedade predominantemente para períodos de luto.
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Foi justamente essa classificação fúnebre das vestes sóbrias que influenciou uma mudança na paleta de cores da moda feminina durante a Primeira Guerra Mundial. Em frente às milhares de mortes nas frentes de batalha, escassez e dificuldades, utilizar roupas chamativas ou ostentosas parecia inadequado para as mulheres da época. Inspiradas pelo simbolismo das vestes sóbrias, elas passaram a preferir o uso de roupas escuras como sinal de luto e respeito por todas as vidas perdidas durante o conflito.
Chanel, com suas criações em tons neutros e padrões discretos, se encaixou de forma precisa com o que era desejado e necessário. Para Paul Morand, Coco confessou: "eu estava no lugar certo; uma oportunidade apareceu, eu a aproveitei. (...) era necessário simplicidade, conforto e limpeza: sem querer, eu ofereci tudo isso.” (Morand, 1976, p. 70).