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1.5 O discurso da imprensa sobre a classe trabalhadora

1.5.1 A “necessária” contenção

O jorn matéria des Nacional, e q caso de mo

trabalhador, “verdadeiro dinamizador que é do capital e colaborador, assim, do progresso co de “elemento movidos por como fator im uma constan Ao lo defendendo

outros fins, como a de se pensar possuidora de um conhecimento e desejar, com isso, modificar ou mesmo destruir o status quo.

Este discurso que impregnava os textos da imprensa local tornou-se, no final da década de 1920, reivindicador da intervenção do Estado nas questões trabalhistas, solicitava a imprensa a criação de le

m

cessária” contenção

al de Florianópolis O Estado publicou, em agosto de 1927, uma tacando uma nova lei que estava em discussão no Congresso ue legislaria “a assistência obrigatória dos patrões aos operários, em léstia”. O texto posiciona-se a favor da criação desta lei, pois o

letivo”, não deveria ficar desamparado, o que levaria a ser presa fácil s exaltados e radicalistas, sob a influência de elementos estrangeiros ocultas intenções”.96 A defesa de uma legislação social-trabalhista, peditivo do “desvio operário” por “ideologias exógenas” passou a ser te, na imprensa de Florianópolis, principalmente a partir de 1927. ngo do ano de 1928, a imprensa local publicou vários textos

a criação de leis sociais-trabalhistas para harmonizar as relações

96

O Estado, Florianópolis, 20 de agosto de 1927. Ver também: Zélia Lopes da Silva, A

entre capital e trabalho. A titulo de exemplificação, transcrevo partes do texto

É o seu dia mais longo, e o seu ordenado o mais

m ia

Aníbal

sociedade em elite da sociedade.

Reafirma, ne por si só, nã reivindica a realidade, pa E de acord deslocament

assinado por Aníbal Nora, intitulado O Operário, embora um pouco longo, mas exemplar da forma de pensar da elite de Florianópolis.

O trabalho é, pois uma necessidade social. Vário é ele, porém, sempre digno e sempre útil; seja intelectual, seja braçal.

Com essa classificação social, as necessidades dos indivíduos variam e daí a variedade dos ordenados e privilégios de classe.

Tudo está bem, tudo assim deve ser.

Há, porém, nesse corpo, nessa organização social, uma coisa de grande importância que não está direito, que está errada e que precisa e deve ser corrigida: é o descaso e o menosprezo em que é tida a maior das camadas sociais – o operariado, o diarista, o trabalhador braçal.

(...) é o operariado quem constrói os palácios, quem trabalha na indústria, quem carrega os fardos pesados, quem ajardina as praças, quem se expõe a toda sorte de perigo.

curto!

Dirão alguns que o próprio operário é o culpado das suas más condições. Em parte, o creio. Mas, devemos saber que é, em geral, sem instrução e que precisa de uma mão amiga que o ajude a organizar a sua vida social e de previdência.

(...) Uma lei que regulasse o trabalho e a subsistência e o futuro do operariado, seria uma lei bem vinda e grandemente filantrópica.

As lutas que se verificam, de vez em quando, entre operários e patrões são devidas a falta de uma lei em que os deveres, como também os direitos do operariado sejam garantidos.

Quando os direitos e deveres recíprocos das duas classes forem be compreendidos e praticados, uma nova era de maior paz e harmon reinará para todos. 97

Nora parte de um discurso inquestionável para ele: a divisão da classes sociais e dos direitos e privilégios da

ste texto, que o trabalhador precisa ser amparado e tutelado, pois, o tem condições de cuidar nem de sua vida pessoal. E com isso, intervenção das elites, que julga detentoras do conhecimento da ra melhorar as condições de vida deste gerador da riqueza nacional. o com o pensamento dominante na época, o autor faz um o do lugar da luta de classes e “atribui sua existência não aos

97

interesses conflitantes entre a burguesia e o operariado, mas à ausência de leis

jornal República, escreveu em 1929:

humildade.

vibram harmoniosamente, na

m aparelhamento com o seu ritmo funcional de progresso e grandeza.

Atravé Tito Carvalho chaga de seu

istos como uma “oferenda de patriotismo”. O martírio operário é percebido como

que regulem a vida econômica”.98

Dois outros textos, de 1929, escritos após a passeata promovida pelas associações operárias locais para festejar suas conquistas junto ao governo do estado – o aumento do custo de vida e construção da primeira vila operária – abordaram a emergente força operária. Um texto exaltando seus aspectos positivos e o outro o vendo como uma possível ameaça a ordem instituída, mas ambos buscando a mesma solução para a questão do trabalho, qual seja, a criação de um aparato legal para contenção de “desvios” do mundo do trabalho. Tito Carvalho, diretor do

Força surpreendente é essa que, serenamente, do lar para o trabalho, constrói riquezas, serve ao desenvolvimento, retesa os músculos, e se conserva silenciosamente na sua bendita

(...) A sua visão é a dos que, desconhecidos,

nervatura dos braços, a sua oferenda de patriotismo.

(...). O suor que derrama o proletariado não é de agonia, é de triunfo, porque modesto, é virtude.

Se a vida lhe opõe uma dificuldade súbita, a ele, que nada pede e tudo dá, (...), pacificamente, casto na idéia, bom e sincero dentro da própria aflição, reclama o favor, que não raro é um direito.

O Operário! O homem silencioso, que forma u

Aperto-lhe a mão que me estende, encascorada. E em cada calo, vejo o potencial do seu esforço, ou em cada mutilação a estrela – chaga do seu sacrifício espontâneo, silencioso e forte!99

s de uma associação entre o corpo do operário e o martírio de Cristo, , construiu as imagens: “o suor que derrama”, “em cada mutilação... sacrifício” como atributos inerentes ao trabalhador e que devem ser v

uma ação nobre e significativa para o engrandecimento da pátria. Este texto de Tito Carvalho, tem sua matriz no discurso católico tradicional “que acena com o céu para os que suportam o sofrimento neste ‘vale de lágrimas’, ou seja, para os

98

Kazumi Munakata, A Legislação Trabalhista no Brasil, São Paulo, Brasiliense, 1984, p. 63. 99

que aceitam o seu lugar no interior das relações de produção, renunciando ao fazer transformador”.100

Isaura Faria, que assina o outro texto, denominado de Cristo Operário, publicado no jornal católico, O Apostolo, no qual alertava para o perigo que a força

perária poderia representar para a ordem social:

(...) a questão operária está em foco desde alguns anos; pode-se mesmo dizer que o operário é o homem do dia, portanto, (...) vemos organizar-se, tornando-se uma potência (...). Ora esta potência é as mais das vezes, terrível; para comprova-lo basta o comunismo, palco famigerado que em pério moscovita, e não contente, espalma-se pelos países aquém dos mares.101

orpo do

o

poucos anos estraçalhou o grande im

O perigo comunista, para a autora, tinha extrapolado as fronteiras européias e avançava para os países americanos. Para afugentar este mal, aconselhava:

Cumpre, portanto, reconhecer-lhe direitos, respeitar-lhe as justas reivindicações, rodeá-lo de garantias. Cumpre, ainda mais, orienta-lo, moderar-lhe os ímpetos apaixonados, afim de que essa potência, longe de se tornar para os governos um pesadelo, seja antes elemento vanguardeiro da paz e prosperidade das nações.

Enquanto o texto de Tito Carvalho idealizava, ou cristianizava, o c

operário, Isaura Faria apresentava uma visão “satanizada” deste corpo. Percebendo o operário como portador de “ímpetos apaixonados”, portanto, capaz de atos irracionais, um agente capaz de se mobilizar, se organizar e fazer reivindicações e, por fim, capaz de voltar-se contra a ordem instituída.

Além de aconselhar a criação de um aparato legal, como mecanismo de contenção das “comportas” operárias, a autora alertava para a “necessidade de formar-lhe a consciência, dando-lhe a exata e precisa noção do direito e do dever...”.

100

José Luiz Fiorin, O regime de 1964: discurso e ideologia, São Paulo, Atual, 1988, p. 69. 101