CAPÍTULO 1 CARACTERIZAÇÃO DO DIRETOR ESCOLAR
1.1.1 A origem do cargo
Os dados históricos e legais que serão elencados ancoram-se em Santos (2002), relatados pelo seu Anexo I. Conforme este autor, o Decreto Federal nº. 1.331-A de 17/01/1854 (BRASIL, 1854b) criou nas escolas primárias particulares o cargo de diretor, que era subordinado ao delegado do Distrito. Após a criação das escolas-modelo - espécie de colégio ou escola de aplicação - associadas à escola normal, que tinham como objetivo
a formação de normalistas, passam a ocorrer as primeiras indicações para o cargo. De acordo com o Decreto nº. 27, de 12/03/1890 (SÃO PAULO, 1890), as atribuições do responsável pela administração da escola-modelo era denominado professor-diretor e as funções deste profissional eram relacionadas à coordenação pedagógica.
Nessa época, o ensino primário dividia-se em dois cursos: preliminar e complementar. O ensino preliminar funcionava como as atuais salas únicas ou isoladas, onde os alunos de diferentes níveis de adiantamento eram acompanhados por um único professor. A continuidade ocorria no curso complementar para os alunos habilitados no curso preliminar.
A figura do diretor aparece com mais legitimidade quando ocorre ampla reforma em 1892. Por meio da Lei Estadual nº. 88, são instituídos três graus de ensino: primário, secundário e superior e fica definido que a escola normal, a escola-modelo e a escola- complementar tivessem um diretor. O diretor do grupo escolar passou a ser escolhido entre os professores diplomados por escola normal de nível médio, ou, na falta destes, por professores complementaristas6. O grupo escolar que objetivava atender aos alunos das quatro primeiras séries que hoje correspondem ao Ensino Fundamental foi criado pelo Decreto Estadual nº. 248 de 26/09/1894 (SÃO PAULO, 1894).
Após instituído o grupo escolar, em 1894, modelo que perdurou por quase 80 anos, surge não só a figura do diretor como também a do regimento escolar. As atribuições do diretor constavam no regimento escolar, já naquela época priorizando as tarefas administrativo-burocráticas. A forma de provimento era por meio de nomeação pelo governador do Estado, portanto, cargo em comissão e a escolha, entre professores normalistas ou complementaristas, com pelo menos dois anos de efetivo exercício no magistério primário. Para o exercício do cargo, nenhuma outra formação ou habilitação era exigida, além de o professor ser efetivo e ter a prática docente citada. O professor complementarista, por não ter se formado em escola normal de nível médio, foi excluído da possibilidade de ocupar o cargo de diretor de escola, pela legislação datada de 1896.
Só na década de 1920, a formação do diretor de escola passou a ser preocupação e investiu-se neste campo formativo. A escola normal na década de 1930, além de formar o
professor primário, também assume a preocupação em preparar outros profissionais que fariam parte da administração das escolas ou do sistema. Essas escolas incumbiram-se de preparar tecnicamente os delegados de ensino, hoje dirigentes de ensino, o inspetor escolar, hoje supervisor de ensino, e os diretores de grupo escolar, hoje diretores de escola. Disciplinas que incluíam elementos de administração escolar, legislação e estatística foram incluídas, por influência de educadores como Lourenço Filho, cujo livro Organização e Administração Escolar era adotado praticamente em todas as escolas. Segundo Santos:
Nos cursos de Pedagogia, criados a partir de 1939, a mesma nomenclatura foi mantida, com três disciplinas autônomas: Elementos de Administração Escolar, Elementos de Estatística e Legislação do Ensino. Em 1969, a reforma do curso de Pedagogia alterou os nomes das duas primeiras disciplinas para Princípios e Métodos de Administração Escolar e Estatística Aplicada à Educação, que eram obrigatórias para a
habilitação em Administração Escolar(2002, p.65).
É também relevante ressaltar que até o início da década de 1930 não havia no Estado de São Paulo carreira do magistério; porém, em 1933 foi regulamentado o provimento dos cargos de delegado de ensino (primário) e de diretor de grupo escolar, entretanto como cargos de confiança da administração e por indicação do governo, portanto sujeitos à mesma política. No caso do diretor continuava a exigência de dois anos de magistério. Ocorre também na década de 1930, mais precisamente em 1933, a transformação do Instituto Caetano de Campos, então de nível médio em Instituto de Educação – nível superior. Esse Instituto, além de formar professores primários, formava também professores secundários, inspetores escolares e diretores de grupo escolar. O curso era de três anos, sendo dois para a formação geral e um específico para administração escolar. Este curso implantado a partir de 1939, modificado em 1969, foi o embrião dos Cursos de Pedagogia, que perduram até hoje.
Ainda na década de 1930, fatos extremamente relevantes mudaram a história da educação no Brasil. Influenciados pelo movimento denominado “Escola Nova”, com idéias bastante revolucionárias para a época, como, por exemplo, o direito à educação, à escola pública para todos, à mudança do foco de ensino do professor para o aluno, e outras, vários educadores transformaram a educação com suas idéias.
A Escola Nova preconizava metodologia funcional, ativa e assentada em bases psicológicas, em que o ajuste do currículo deveria estar afinado muito mais com o interesse dos estudantes do que à lógica dos conteúdos e à capacidade e à competência dos professores.
Alguns educadores da época dentre os quais Fernando de Azevedo, Anísio Teixeira, Afrânio Peixoto, Sampaio Dória, e Lourenço Filho elaboraram várias propostas de reformulação da educação. Passavam a encará-la como instrumento de reconstrução nacional e como formulação de uma hierarquia democrática. A expressão dessas idéias se consubstanciou em um documento chamado Manifesto dos Pioneiros.
A luta dos signatários do Manifesto era por uma escola pública que servisse à comunidade, obrigatória, gratuita e laica, isenta de segregações de toda espécie, especialmente quanto à cor, sexo e condição sócio-econômico-cultural.
Esse clima de mudanças e novas propostas para a Educação foi propício para que, além de transformações no âmbito da docência, ocorressem alterações na administração escolar, pois também o diretor deveria ter perfil adequado à nova realidade educacional. Tanto os governantes quanto os técnicos educacionais entenderam que deveriam propiciar mudanças importantes no provimento dos cargos.